pseudojornalismo

Artistas da Vida

florenceeanaA semana (*) é dela e não poderia ser de outra maneira. Já no primeiro dia coincide com o dia das mães. Mas ninguém quer saber dessas coisas e não falo das mães, lembradas aos montes em feicebuques e outras coqueluches da moda, mas dessa outra figura que nos acompanha desde o nosso nascimento até o apagar das luzes, como diria o mesmo senhor que fala “coqueluche”.

E é justamente dessas coisas que eu quero falar, desse papo de morte e doença, de sofrimento e de dor de tudo que é jeito – sobre essas coisas que ninguém quer saber demais, exceto ela. Ela, eu e algum ou outro grupo gótico/artístico/espiritual. E por ela, não digo todas, pois gente ruim tem em todo lugar, porém onde há uma, há sempre algum tipo de esperança.

Talvez você que esteja lendo este texto, seja mais uma e aí, definitivamente o mundo ainda tem salvação. Ou, talvez, você já tenha perdido o interesse, já que essa introdução acabou saindo maior que a encomenda. E olha que tem mais.

Houve pelo menos duas, que apesar de mortas, continuam mais vivas do que nunca e costumam aparecer nas primeiras páginas de qualquer livro sobre o assunto. A primeira me lembrou aquela banda moderninha dos clipes coloridos e cheios de fantasia, e sinceramente continuo pensando que o nome desse grupo tem muito a ver com outro exemplo de mulher pioneira no mundo e que agora até virou santa: a inglesa Florence Nightingale, a “dama da lâmpada” que revolucionou a enfermagem, homenageada em poemas de época e em filmes mais recentes.

Sim, ela, como a banda citada, lutou contra uma máquina muito maior do que ela, as tais forças contrárias e destruidoras de sonhos, velhas conhecidas desde sempre.

E a segunda também não é diferente: Ana Néri saiu do interior da Bahia e foi parar na terra dos gaúchos e dos paraguaios, aprendendo com as “irmãs de caridade”, antigas e talvez eternas enfermeiras – ao lado das prostitutas, eternas psicólogas, empresárias,…

Ana Néri também foi pioneira e revolucionou a enfermagem em terras tupiniquins e esse termo também de gente velha me fez lembrar os indígenas que, por aqui, foram os primeiros na profissão. Profissão que Florence e Ana ajudaram a criar, da forma que conhecemos, ou pior, desconhecemos hoje em dia.

Mas essa ignorância coletiva tem suas desculpas. Afinal, como já disse aí em cima, é muito chato falar de gente doente, hospitais, ambulâncias e necrotérios. Bom mesmo é quando o assunto “saúde” fica nas clínicas de estética, academias, encontros de ciclistas e nos restaurantes orgânicos.

Em 1858, na época em que Florence e Ana davam seus saltos, a definição da profissão já era espantosa, no bom sentido: “colocar o paciente na melhor condição para que a natureza atue sobre ele”. Sim, é pra refletir, como os artistas, filósofos e sábios costumam fazer.

E é numa canção de Lila Downs, a mexicana das canções do filme de Frida Kahlo, que também defino essa antiga profissão que clama por novos significados:

“Y ella es flama que se eleva,

Y es un pájaro a volar,

En la noche que se incendia,

Estrella de oscuridad..”

Sim, ela, a Enfermeira (com toda a nobreza que uma letra maiúscula e essa profissão deveriam ter), é a estrela de esperança que aparece nos momentos de escuridão e está muito mais próxima da arte que muitos moleques com uma câmera, pincel, violão, mouse ou um papel na mão jamais poderão chegar.

Ela é a artista da vida, desdobrando-se para deixar seu paciente ou cliente ou qualquer nome que a literatura queira usar, bem, tranquilo e consciente de que ele não está sozinho. Saem os quadros e as canções e entram as seringas, os cremes, as dietas e as medicações. E naturalmente vem a compaixão, sentimento nobre e único e meio fora de hora.

Florence abdicou de seus prêmios e honrarias para fazer apenas o que ela julgava ser sua missão, um chamado divino depois de anos de perdição e de superficialidades que seu berço de ouro havia lhe proporcionado. Não casou em tempos em que esposas eram escravas, mas também por ser apegada ao mesmo mal de que sofrem os ditos artistas – sua liberdade.

Ana, ainda jovem, perdeu seu marido para os mares, criando, sozinha, seus três filhos e depois perdendo um deles na mesma guerra em que lutara nos hospitais militares por que passou, chegando a ser chamada de a “Mãe dos brasileiros”.

Florence e Ana foram, acima de tudo, artistas da vida, alçadas a “santas” pelos exemplos e pelas tantas histórias que contam por aí, mas, principalmente, por construírem o chão dessa nobre profissão, simplificada e estereotipada por gente como eu e você, que, sem saber, precisou, desde cedo, do apoio e do amor de uma… Enfermeira! **

 

* A semana da enfermagem no Brasil se inicia no dia 12 de maio, data em que Florence Nightingale nasceu, e termina no dia 20, data em que Ana Néri morreu.

** O termo no feminino é mais um estereótipo que vem mudando, já que, aos poucos, homens também têm exercido a profissão, com igual louvor. 

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2 comentários sobre “Artistas da Vida

  1. Caro Igor,

    É a primeira vez na vida que um texto sobre a enfermagem, ainda mais escrito por um não-enfermeiro, me faz sentir um arrepio da cabeça aos pés, chorar, e ao mesmo tempo querer gritar de alegria e gratidão.

    Eu amo a minha profissão, amo, AMO, A-M-O, mas ninguém de fora pode imaginar como é difícil essa jornada.

    O seu texto enche o meu coração de alegria, “ainda existe alguém nesse mundo que acredite na importância e valorize o nosso trabalho”. Em tempos de crise me faz reforçar a certeza que estou no lugar certo…

    Muito, muitíssimo obrigada.

    1. Nobre Enfermeira,

      Fico muito agradecido (e feliz) pelo seu retorno e suas palavras gentis e inspiradoras. As crises sempre existirão, mas é importante estarmos onde o coração manda, ainda que nossa cabeça não entenda no momento.

      Um abraço e força na jornada!

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