contos

Desafios, Pesos, Goles e o Escambau!

escambauO dia começou cedo, o frio e as tarefas pela manhã davam um pouco de medo, mas Gerson, que me fizera companhia no ponto de ônibus, não tinha esses receios. Estava indo descansar após seu turno como porteiro no condomínio grã-fino ao lado e, pasmem! Só estava de camiseta no meio daquele gelo tórrido de qualquer outono curitibano. Disse que desse mal ele raramente sofria, pois vinha de Guarapuava e lá a coisa era muito pior. Gerson também é bombeiro e saiu de sua cidade natal após a morte do pai, baleado em um assalto.

No hospital, o médico está atrasado. É feriado e, além de um porteiro de cara virada, roletas de entrada estáticas e pães de queijo cenográficos na lanchonete da frente, há também uma garota, que minutos depois, auxiliada pelo pai, recebe sua mãe, que está mancando.

Não tenho consulta marcada, porém preciso de uns papéis que o doutor me entrega cordialmente após breves conversas repetidas sobre Montes Claros, universidades, medidores de gordura e falta de estrutura no país dos pães e dos circos.

Do lado de fora, o frio diminui, o sol abraça e a farmácia a que decido ir está fechada. A outra, imponente e supostamente com o melhor preço da cidade, segue ativa como quase sempre, e lá, no paraíso dos hipocondríacos, gasto duzentos reais em medicamentos.

Saem os deveres e os medos, deixo as pequenas caixas coloridas com a mãe que precisa delas, enquanto mudam os temas das conversas ao telefone. Os prazeres do dia se aproximam, mas antes ainda preciso levar um forno elétrico, uma mochila e uma garrafa de vinho à casa dos amigos pelotenses.

No mercado cartelista do centro, encontro os outros, curitibanos, ou melhor, colombenses, mafrenses e valinhenses, e isso pouco importa, pois como dizem por aqui, quem fica na cidade, mais cedo ou mais tarde vira curitibano ou foge antes que isso se concretize. Compro a cerveja pro Johnny, mas volto para o restante do troco.

No sobrado novo, os amigos de sempre e uma ilustre companhia de idade avançada e de cabeça livre, agora em versão leve e solta, com a alegria e o olhar crítico de sempre e as histórias tropicalistas de um Rio efervescente. Na mesa, espetos de soja, pães de alho, maionese sem ovos e lasanhas com brócolis, outras verduras e massas também sem ovos. Nas mãos, copos de cerveja, uísque, vinho e de água sagrada. Fotos da família que a gente escolhe, fotos espontâneas para os feicebuques, discussões sobre os velhos temas, canções de um Dylan mexicano e silêncios profundos interrompidos por caras chatos. Nos intervalos, fumaça.

Mais jovens e embriagados de amizade e de tudo, seguimos para o shopping e para o bocket-show (não tem, depois do Caetano, quem sou eu pra chamar esse tipo de evento de maneira diferente) dos meninos do escambau na livraria das perdições e das contradições. O brother Davi comanda as câmeras enquanto um apresentador entusiasta da cena local nos lembra do Baixo São Francisco como sendo o lugar onde o novo e o diferente ainda predominam. E nesse universo, a banda que se prepara pra tocar é um dos destaques principais. Discurso bonito e verdadeiro, pelo menos na primeira parte. A segunda, veremos a seguir.

No palco improvisado em meio aos livros, jovens rapazes coloridos e antiquados, tocando instrumentos variados e enferrujados. E no meio dessa sujeira positiva, uma garota paraguaia, num visual que mistura duendes irlandeses, extintas aeromoças e não sei mais o quê, cujos olhos arregalados e hiperfocados fazem Valdir se lembrar da Laranja de Kubrick. De fato, a configuração estética do grupo lembra os inocentes mutantes e sua Rita, como o senhor bem comparou na sua pergunta sobre as influências da banda, se elas vinham somente desse período ou se também possuíam referências “mais modernas” como “Barão Vermelho, Skank e Cia.”. Mas sinto que a doçura vocal e a postura naïve daquela Rita de outrora foi substituída por um ar de contestação pela paraguaia em questão que, em seu canto e, principalmente em seu olhar, deixa transparecer uma brutalidade peculiar na idade, mas ausente em grande parte das cantoras de hoje em dia.

E se as influências da banda passeavam também entre o tango e o grande Chico, como o líder Caruso afirmou, não pude deixar de notar o tom político e liberal de algumas letras (“As fraudes no congresso / A rotina nas favelas / A visita do papa”, para citar apenas um trecho), contrastadas com a propaganda da livraria sobre um suposto lançamento de mais um livro do padre pop, Marcelo Rossi.

O show de bolso acaba com aplausos estridentes de uma plateia aparentemente careta, criada em shopping e alheia aos bares do tal Baixo São Francisco, mas ainda cativada pela postura da banda eclética e da performance autêntica da segunda vocalista do país ao lado.

Ajudo Davi com os equipamentos de câmera e novamente me vejo carregando peso, agora por entre vitrines e tantos outros estímulos desnecessários. No elevador cheio, o encontro com a banda de minutos atrás é ligeiro e me lembro do bebê morto que carrego na caixa preta. Caruso fica com saudade da sua terra ao conversar com a mãe de Flavinha, a mesma do almoço vegano e parceira da fumaça e dos papos tropicalistas. Afinal, Pelotas e Rio Grande possuem afinidades que nós curitibanos estamos longe de entender.

Ao chegarmos ao carro de Davi e Flavinha, outro desafio do dia – tirá-lo do estacionamento sem arranhões e mantendo os retrovisores, e sem nenhum ato de vandalismo contra o carro do dono ou da dona que, por algum motivo ignorante, trancou a saída rápida do famoso “Bilbo”. Pois é, também acho estranha essa coisa de dar nome a objetos inanimados, mas o carro é deles, eles são gaúchos e fazem o que querem com seus mimos.

E depois dessa saga com final feliz, sem arranhões e passando a milímetros das vigas triangulares, e como não poderia faltar à nossa ilustre visita da melhor idade, chegamos ao bar dos barbudos de sempre, mas que nessa noite, em especial, estava de algum modo, diferente. Recebo mensagens de texto do amigo espiritual que mora em São Paulo, mas que, por causa do feriado, está na cidade. Suspeito que o mesmo aparecerá no local e sua atitude dudeísta não me deixa precisar quando isso de fato acontecerá.

Os pacaias enchem as bocas dos amigos e das amigas, depois dos feijões baianos com bananas de pacotinho saciarem a fome de Sakura, mostrando-nos que sim, há uma outra opção além dos pacaias e das rústicas batatas para aqueles que, por algum motivo, deixaram o sangue de lado.

A noite é encurtada para a pessoa que lhes escreve após uma mensagem de texto, não do amigo antigo que ainda não havia aparecido, mas da mulher de coração, que me pede um medicamento em caráter de urgência. Saio com Johnny até a farmácia, compro a parada e fico no quarto táxi, finalmente livre, que me leva até a casa encantada, mas que nessa noite, em especial, estava sofrendo alguns ataques. Nada que alguns químicos e uma dose favorecida de fé não possam reverter.

Ainda me readaptando à nova cena me dou conta dos setenta reais no porta moedas peruano de que já havia sentido falta ao entrar naquele quarto táxi. Mas que louco sai de casa com setenta reais no bolso? Bem, e se eu disser que cinquenta nem eram meus?

Termino esse conto de doido sem a pretensão de alguma conclusão lógica e citando o rei das titias e dos jovens descolados, misteriosamente esculpido na assadeira do amigo pelotense: “Não há dinheiro no mundo que me pague a saudade” que, nesse caso, eu sentirei de você, Mamãe. Desta vez, os químicos e as preces funcionaram, os ataques cessaram e é hora de dormir, sem os pesos do dia.

 

Textos Relacionados (naquele lance, gostei desse, talvez goste desses também):

Altas Confusões Na Sessão da Noite

A Noite de Ontem

Curitiba Nonstop

Vamos

Anúncios

3 comentários sobre “Desafios, Pesos, Goles e o Escambau!

  1. Engraçado e com a cortesia de um mega aperto no peito ao pensar por um momento que os químicos não fariam efeito…

    Teu texto continua surpreendente, apesar de curitibano… haha

    Grande abraço!

    1. rsrs..nunca pensei que fossem ficar curitibanos, mas sinto que de alguma maneira isso deve ser positivo.
      e sim, as vezes precisamos dos químicos, que lá no fundinho, também vêm da natureza, né não?

      abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s