contos, pseudojornalismo

Revoluções, Protestos e Tantas Desculpas

protestos_em_curitiba                                                                                                                                                          Foto: Walkir Fernandes

Ele é muito errado mesmo. Além de escrever mal, deu pra acompanhar futebol e basquete gringo novamente. Também deu pra seguir a Copa das Confederações na rede Globo e as finais da NBA nos Estados Unidos. Na segunda, no primeiro grande dia dos protestos, estava com seu parceiro pintando ou fazendo sei lá o quê.

Chamou essa brincadeira de criança de “revolução dos pincéis”, roubando o termo de seu primo mais velho e profissional no assunto. Trocou breves ideias sobre o tema do momento, a insatisfação brasileira e tudo mais, mas nada profundo ou digno de um artista ou cidadão que se diga engajado em política ou questões sociais. Depois voltou pra casa, mais tranquilo e com saudade da mesma mulher.

Nesse dia ele também estava com o humor meio estranho, desses de querer ficar longe de multidão, inoportuno para a ocasião, mas que fez com que sua revolução se desse de uma maneira distinta, quase como uma outra, testemunhada certa vez no parque do lado de casa (mas essa é outra história, ainda mais pitoresca para esse momento e semelhante à “revolução dos bichos” do autor big brother).

O que vale aqui é ressaltar a atitude desse rapaz que, no auge de uma das maiores manifestações populares da história do Brasil, decide ver os Spurs perderem o jogo seis depois de estarem ganhando por 10 pontos no último quarto e deixarem o Miami decidir o título em casa, no jogo sete.

Muitos sempre afirmaram que ele costuma ser desses que está contra tudo, sempre. Ele anda muito nessa pira sobre o inconsciente, nessa coisa de tentar domar de algum jeito seus pensamentos que, em geral, nem seus são, e por isso, às vezes, ele parece propositalmente desconectado de certos eventos mega-populares, desses que acontecem a cada 15 anos ou mais e que exigem o mínimo de atitude (desculpa boa essa).

E se na segunda, seu mau humor procurou distância do povo positivamente revoltado da montanha cada dia mais brasileira, na quarta, ele nem de casa saiu. Era o começo da “revolução do tempo”, e a chuva, intensa e chata o fez cancelar a consulta com seu psicólogo sul-africano. Preferiu ficar de pijama no sofá da sala e assistir “Neymar Júnior” brilhar novamente na Copa da TV que, nesse dia, já estava com uma nova direção de arte.

No estádio, o amarelo predominante no primeiro jogo, dividiu espaço com o branco, o mesmo branco singular que ele havia visto na terça no ginásio do Miami Heat, e que na ocasião, se assemelhava a algum culto religioso, desses megalomaníacos de que os americanos gostam tanto.

Mas o branco em Fortaleza representava a indignação de um país que clamava e ainda, felizmente continua clamando, por um lugar melhor, com menos impostos, menos corrupção, mais educação, mais saúde, mais segurança e, no mínimo, por um transporte público de qualidade e mais econômico e (sim, essa história tem muitos E´s) se possível, gratuito (com a quantidade de impostos que se paga por aqui, isso não seria nenhuma utopia).

E se o Galvão fez questão de elogiar pela centésima vez “as câmeras exclusivas da Globo” ao mostrarem um moço com uma TV na cabeça, feita com carinho e com isopor, em homenagem à sua cidade natal no interior do nordeste. Essas tais câmeras high-tech também mostraram o cartaz do outro moço, em sintonia com os protestos nacionais que, a essa altura, já se espalhavam por esse mundão.

Para ele, jovem artista em questão e em eterna decadência e vagabundagem, isso só demonstra o quanto a mídia tradicional sabe como é importante não parecer tão alienada, como de costume, diante de fatos tão expressivos. E diante dessa “situação precária” como já diria a turma do bomxibomxibombom, essa mesma mídia capenga insiste em pegar carona na revolta popular, amplificada por uma classe média agigantada e conectada às tais redes sociais que novamente estão provando ter alguma nobre utilidade.

Nessa velha carona, os meios dominantes, as mesmas globos e folhas e vejas, aproveitam para mergulharem em seus oportunismos políticos caretas de sempre, mas que finalmente parecem reconhecidos em escalas maiores daquelas habituais vistas em universidades federais, blogues independentes ou em qualquer mesa de bar ou roda de fumo, supostamente politizada, que se preze.

Os “zumbis” despertaram e ele não precisou ir pras ruas pra perceber isso. Como um menino mimado, preferiu o conforto do lar, do futebol e do “melhor basquete do mundo”. Mas também não se alienou por completo: viu vídeos dos manifestantes, viu o vídeo da empresária paulista descascando o Jabor, ouviu o próprio Jabor pedindo desculpas na rádio das três letras, viu o vídeo da menina da cidade cantando sobre o famoso vinagre, leu, curtiu e compartilhou imagens ou textos fervorosos ou racionais de gente interessante no feicebuque (mas em geral, bem chata na vida real, assim como ele próprio), conversou com um amigo que participou dos protestos na rua (e que agora testa novos figurinos para o próximo evento), tocou piano e cantou Billy The Kid do velho Dylan e que achou pertinente para o momento (There´s gun´s across the river about to pound you / (…) lawman on your trail like to surround you / (…) They don´t like you to be so free).

Enfim, são tantas desculpas que esse rapaz tem, por não ter sido mais participativo ou qualquer outra coisa, que ele, ainda tão inconscientemente ativo no tema dos protestos (como diria um Raul Coelho “No que eu estou longe eu tô perto”), e ainda mais ele, que já fez até protesto contra seus próprios amigos – pois bem, ele agora vem dizendo que vai às manifestações marcadas para essa sexta.

Isso se a “revolução do tempo” assim permitir (a previsão da TV diz que não).

Em tempo, e como não poderia ser diferente, esse novo texto já nasce velho, uma vez que sua publicação na data planejada foi impossibilitada, devido a problemas na conexão com a internet, no país campeão em valores para esse tipo de serviço, hoje em dia, mais básico que uma escova de dente.

E na quinta, dia do jogo sete das finais na NBA e da conclusão desse texto, a enfermeira da mãe se atrasa por conta dos protestos no centro da cidade sorriso dos mortos, agora mais vivos do que nunca. Viva a sociedade alternativa!

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