Dicas Musicais, pseudojornalismo

Rodriguez está vivo, mas você sabe quem ele é?

rodriguezRodriguez, Rodriguez,… Rodriguez? Ah, aquele cantor folk estadunidense mais moderninho?
Não, estúpido! E por que sempre esse estadunidense aí? São e sempre serão americanos, mesmo que a sua cabecinha não aceite. E aquele cantor folk mais novo de que você fala é o Gonzalez! Rodriguez? Credo, eu lá vou saber? Pensando bem, nem esse Gonzalez aí existe, não sei de onde você tirou essa.

Esse seria o meu diálogo interno há dois ou três dias, até que por uma indicação de meses atrás de um amigo distante, mas constante, e que por obra do acaso ou do destino (se você gostar do bonito), me falou desse filme sobre esse tal de Rodriguez.

Sua história é de fato tão incrível que após o término da película (pra ficar nas palavras bonitas) eu achei que havia sido enganado, meio como o Woody Allen fez tão bem naquele “Poucas e Boas” sobre o segundo melhor guitarrista da história. Mas se naquele caso o filme não passava de um falso documentário, bem feito, mas falso, nesse, a história, por mais impressionante que pudesse parecer, era tão real como boa parte desses protestos espalhados por esse país, cansado de ser enganado.

Elogios à parte, Rodriguez foi um cantor folk americano que lançou dois discos no início dos anos 70. Sem sucesso, a gravadora o demitiu e durante quase trinta anos Rodriguez não quis saber mais da cena musical, indo trabalhar em indústrias de demolição, fazendo trabalho braçal e tudo mais que ninguém com uma suposta sensibilidade artística escolheria fazer.

E durante esses quase trinta anos, Rodriguez viveu na velha casa de sempre, ganhando salários mínimos e vivendo na famosa linha da pobreza, como tantos outros americanos que nós, brasileiros e americanos do sul, insistimos em ignorar, em discursos mofados sobre pobres só existirem em países de terceiro mundo.

No filme, ou documentário sobre a lendária história de Rodriguez, temos um personagem humilde e nesse caso, também pobre, de óculos escuros em tempo integral e com uma aparência indígena, distante dos judeus desafinados de classe média que invadiram e surpreenderam seus contemporâneos, numa “Greenwich Village” no início, meio e final dos tumultuados e criativos anos 60.

O que Rodriguez não sabia era que enquanto ele comia suas marmitas e seus braços ficavam mais duros em alguma fria indústria de Detroit, seus dois únicos discos ganhavam espaço nas rádios sul-africanas, transformando o que deveria ser apenas mais um culto a um artista americano underground, em um sucesso maluco, da magnitude de um Elvis, ainda que limitado pelas linhas geográficas de uma África do Sul, pré-copa do mundo.

As canções de Rodriguez fizeram tanto sucesso por aquelas bandas que até boatos sobre ele (que os sul-africanos só haviam visto na capa de seu disco de estreia) foram aparecendo aos montes: uns diziam que ele havia ateado fogo sobre o próprio corpo durante um de seus shows, outros afirmavam que ele tinha sim cometido suicídio, mas que havia sido com uma bala na cabeça.

O fato é que Rodriguez sempre esteve lá, vivo até os ossos, do outro lado do oceano, trabalhando para comer e sustentar suas duas filhas.

Eis que, por uma dessas filhas, chega a notícia sobre seu sucesso estrondoso no país de Mandela, e Rodriguez, pasmo, custa a acreditar. Convencido a ver com seus próprios olhos sempre escondidos com lentes escuras, Rodriguez sai de seu país natal como um completo desconhecido e chega ao território sul-africano como um rei de algum conto de fadas, limusine na pista de pouso, suítes presidenciais e caviar no camarim. E ainda, citando o gigante Mandela, suas canções tinham até sido alçadas a hinos antiapartheid!

Anos depois, um rapaz sueco o visita diversas vezes em Detroit, onde apesar de toda essa badalação na sua primeira turnê, estádios lotados e mais discos vendidos, Rodriguez continua vivendo em sua velha casa e esquentando sua comida num fogão à lenha improvisado. O sueco convence Rodriguez a autorizar a produção de um documentário, emendando o lançamento do mesmo com uma turnê mundial.

O filme, do qual venho tentando falar aos trancos, chama-se “Seaching For Sugar Man”, ganhou diversos prêmios por aí e tem sido a porta de entrada para esse magnífico cantor e homem chamado Rodriguez, um misto de Dylan, Cat Stevens e Donovan, com letras melancólicas, satíricas, proféticas, políticas, espirituais e todas essas características pertencentes aos grandes compositores populares, sejam eles americanos, brasileiros, suecos ou sul-africanos.

E mesmo após a fama tardia, os discos de ouro e platina, as centenas de entrevistas e aparições em programas televisivos, Rodriguez parece seguir seus princípios e valores, sua fala continua mansa e humilde, sua velha casa simples continua seu lar, o dinheiro extra ele preferiu deixar para a família e os amigos, e claro, os óculos escuros continuam cobrindo seus olhos.

E assim, mais uma história mais sensacional que qualquer ficção é desvendada. Acho até que suas letras, além da associação antiapatheid, também dialogam com essa onda de protestos que segue no país da Copa e das pizzas dos 500 sabores.

Para mais detalhes, assista ao filme, compre ou baixe seus discos e se quiser, comece ouvindo essas duas canções:

https://www.youtube.com/watch?v=qyE9vFGKogs

https://www.youtube.com/watch?v=-qFP-dsl2Z0

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