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Nada Sai, Tudo Fica

nevecuritibaNada sai, tudo fica. O velho bebum pede um cigarro no toldo do bar dos barbudos e pergunta onde fica o SAS ou FAS ou como chamamos aquele lugar para onde vão os mendigos abandonados, alcoólatras, drogados sem família? Ah, fica perto de casa, o senhor vai por ali, pega a direita, desce e vai ali, como quem vai pro Guadalupe, saca? Ah, cê também quer um gole da minha bebida? Vai fundo, o canudo a gente separa depois, pois minha mulher analisou seus lábios e me disse que eles estão todos fodidos, cheios de bactérias que podem parar meu coração, pesado de tanta aflição.

No minuto seguinte, a kombi do FAS passa rapidamente pela frente desses jovens cada vez mais velhos e mais ricos e sacanas. Depois passa lentamente na frente do velho bebum que a cada dia fica mais sóbrio e mais pobre e sábio, pois quem iria imaginar que naquela madrugada, ventos fortes e trovões escandalosos carregariam chuva e frio e aquela tal frente fria, que sempre vem lá da Argentina.

E assim, pelo menos na manhã seguinte, o velho bebum da rua, estaria fora dela e de quebra, quem sabe até recebesse um cobertor, um café, ou, ao menos, outro cigarro.

Nada sai, tudo fica. O nova-iorquino e sua namorada-esposa decidem trocar de extremos geográficos, pegando o carro e partindo para Oregon, onde a natureza é bela, o ar é mais puro e a maconha é a melhor dos Estados Unidos da América. E “quase” legal. No momento eles estão no meio do país, em algum motel de beira de estrada, estranhando a grande quantidade de caminhões transportando gado e tantos cartazes dos religiosos fervorosos. Por lá, Jesus e hambúrgueres continuam sendo os campeões de vendas.

Na TV sem cabo, policiais psicopatas do caso “Tainá” são presos, ou pelo menos é isso que o apresentador sempre esquentadão procura noticiar. Parece que tem delegado tentando fugir. No canal da família brasileira, detalhes das torturas são poupados e o Papa vem aí.

Nada sai, tudo fica. No parque do outro lado da rua, capivaras giram e se roçam na grama, meio preguiçosas, esses simpáticos ratões relaxam após o almoço no parque menos movimentado da cidade. No lago, o pássaro branco segue solitário e deprimente, de bico baixo por algum motivo nobre ou ordinário.

Nos relógios, os mesmos números, nos ouvidos Dizzy tagarela, tudo sempre vindo e ficando em desordenados blocos de pensamentos, com ou sem lógica aparente e quase sempre jogados em alguma gaveta da mente. Nesse dia, sonhos se despedaçam e há cheiro de desespero por todos os lados, mas é tudo como um sopro repentino ou como os trovões escandalosos anunciando a possibilidade de neve na capital.

Nesse dia em especial, ideias fatalistas se misturam com sentimentos de saudade, fraqueza e tristeza. O abismo da incapacidade se aproxima, enquanto o barril das frustrações parece querer transbordar. Nesse dia, nesse dia em especial e não em todos os outros, nada sai, tudo fica. Do contrário, já estaria morto.

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4 comentários sobre “Nada Sai, Tudo Fica

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