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A Solitude de Pedro José

leemorganSexta feira, dia de farrear, rever os amigos, azarar as gurias, beber até cair, dançar e todas essas coisas próprias da mocidade, mas que pra ele não vinham fazendo sentido desde tempos remotos.

Nessa sexta, Pedro José preferirá o aconchego de seu antigo lar, sem interferências externas, sem o brilho da expectativa de mais uma noite na rua e sem os encantos, por vezes decadentes, mas que ainda assim tanto o excitaram em outras épocas, de fato, mais alegres e menos compromissadas.

Nessa noite em que milhares de pessoas tentarão a sorte grande em esquinas tortas, baladas da moda, bares de sempre, festas em apartamentos de amigos ou ainda em reuniões informais com colegas de trabalho; Pedro José não verá e nem falará com ninguém. Beberá um vinho sozinho, escutará pela centésima vez a levada do piano que acompanha Lee Morgan e seu trompete hipnotizante, enquanto fumará o tabaco fabricado por seus dedos de menina. Tudo parte de um ritual desgastado e feito para gerar pensamentos delirantes e distantes de qualquer objetividade, meras projeções de uma mente castigada, fatigada e dilacerada nas cotidianidades da cidade e nas profundezas de seu coração remendado, amplificadas por noites mal dormidas e manhãs arrastadas.

Aturdido pela solitude autoimposta, ele se lembrará de seu passado construído aos trancos. Nesse momento, boa parte de suas escolhas parecerão fugazes e carecerão de significados. E é só depois de incessantes cavadas que ele conseguirá vislumbrar os feixes de luz que o fizeram sentir-se parte de algo maior que sua própria carne – a cada dia mais leve em números. E é nessas rachaduras, por onde a luz entra (para não deixar de parafrasear um de seus mestres) que Pedro José encontrará conforto, absorto na ideia cíclica de que tudo ou, ao menos o essencial, retornará ao tempo presente.

 

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Um comentário sobre “A Solitude de Pedro José

  1. Até o luminoso sol precisa de erupções para abrisse para reconhecer mais luz. Todo um caminho, todo um olhar, toda história necessária.
    Esta cada dia escrevendo mais límpido. Pulcro com seus devaneios enriquecedores.
    Abraços!

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