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Empanadas Salteñas

saltenasMeia- noite e meia e chego ao prédio escuro de nome inglês que costumava chamar de casa. A fechadura da porta de vidro está fechada com o costumeiro cadeado da madrugada. Sebastião, o simpático e jovial porteiro me recebe, pela primeira vez, sem um sorriso e sem as piadas de sempre. Pergunto automaticamente se está tudo bem e ele me diz que não, que ontem havia passado o dia no posto 24h com dores no peito e com a cabeça estourando. Agora ele está com os mesmos sintomas, além de calafrios que o fizeram ligar o aquecedor ao lado de suas pernas, cobertas por uma manta.

– Bem, acho melhor você desligar esse negócio, respire fundo e relaxe… Se achar que não está bem, bata lá em cima que te levo pro hospital.

No calçadão da rua XV, caminho em passo acelerado e vejo pouca vida por lá. As centenas de lojas estão fechadas após mais uma exausta e tumultuada sexta pré-natalina, e o pomposo show no capitalizado Palácio Avenida segue com suas luzes programadas, agora para uma plateia de fantasmas.

E o que resta por ali, além, é claro, dos solitários mendigos dormindo embaixo das marquises e das barraquinhas de cachorro quente esperando a larica dos baladeiros, é um grupo alegrinho de garotos e garotas ao redor do chafariz da C&A, tocando e cantando em coro semialcoolizado, o que parecia ser um maracatu ainda em fase de aquecimento.

Sou abordado brevemente numa esquina torta e ao lado de uma cafeteria envidraçada e completamente deserta. Sem surpresas, pois o moleque só queria o objeto mais cobiçado da madrugada – cigarros.

Não há táxis na cidade ou, pelo menos, nenhum deles parece receber as chamadas que faço do telefone sem fio do apartamento de meu pai. É sexta, é quase natal, é festa e há baladas pra todo lado e Curitiba já até aprovou a liberação de não sei mais quantas placas desses alaranjados – fato que não ocorria desde 1970. Porém, a realidade é que nesse momento, eles continuam diminutos, tão raros quanto os novos posts ou leitores desse blog.

No boteco central, velhos enfurecidos discutem futebol. Achei que esse assunto ou, ao menos o teor aplicado alteraria com a idade, mas meu pai diz que nestes anos “esses velhos costumam regredir à adolescência”.

Na telona, o clássico diretor de quatro olhos continua entretendo à moda antiga, com personagens engraçados e reais na decadência de suas futilidades e no vazio de seus sonhos, aparentemente grandiosos. Dessa vez, o velho alien ainda adiciona um tempero extra no roteiro, indo e vindo no tempo, seguindo o psicológico desvairado da personagem principal.

E lá estamos, no escuro do cinema, eu e meu pai, em agigantadas poltronas de casal, estofadas em couro ecológico, com mesas de madeira que giram em L. Ao redor, vejo poucos casais e minha parte neurótica do cérebro pensa na esquisitice de estar ali, justamente numa sexta à noite, ao lado não de uma amiga abandonada pelo namorado, ou de alguma nova paixão de verão, mas de um peculiar senhor sexagenário que também atende pela alcunha de pai. Afortunadamente esses pensamentos tolos são transitórios e só posso me sentir grato de estar ali com ele, prestes a assistir ao novo filme azul do Woody Allen, nas cadeiras mais confortáveis que o dinheiro bancário pode proporcionar.

A fachada do shopping havia sido restaurada, fato que não saberia datar, pois há anos não frequentava aquele local. Ainda do lado de fora, ao lado de funcionários fumantes, eu e meu pai tomávamos cervejas verdes de pescoços compridos, enquanto intercalávamos assuntos sérios com banalidades do cotidiano e assim, matávamos o tempo antes de o filme começar.

Na bilheteria do cinema do shopping cristalizado, o assalto: quarenta e quatro reais por um ingresso. A exibição do filme escolhido será numa tela padrão, sem imax, 3D ou qualquer idiotice dessas, mas a sala é “vip” e não há outra opção. “Isso é preço de teatro”, diz meu pai.

Zumbis invadiram Curitiba e não falo daqueles já presentes em qualquer cidade digna do suposto progresso: gente que acorda, come, trabalha e depois volta pra casa, em piloto automático, sem espaço para reflexões ou quebras de rotina. Esses zumbis em questão são zumbis clássicos no sentido do termo, sedentos por cérebros e que fazem parte de um livro ilustrado com (re) lançamento na data mais oportunista do ano, hoje, sexta-feira 13.

Sob os holofotes e de microfone na mão, meu amigo zumbi e seu colega gibiteco encerram as explanações sobre o projeto, abrindo espaço para perguntas de uma plateia antenada nesses assuntos, de zumbis e quadrinhos – coisas distantes da minha pessoa, mas que, talvez por algum vínculo afetivo, acabaram fazendo com que eu participasse dessa história, macabra por natureza.

Na feirinha da praça das feiras das estações, estacionamos nossos corpos, o meu e de meu pai, na frente da barraca da Bolívia, após circularmos pelo Chile e pela Índia, atrás de pastéis estrangeiros, com recheio de algo com espinhos. E parece que Portugal chegou à terra de Evo, pois as tais empanadas salteñas estavam mesmo deliciosas.

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