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Gripe Metal

metalSão dez e meia da manhã e depois de brigar com o sono e a eterna preguiça matutina, decido levantar, me mexer e começar o dia, assim como um certo Kris cantou um dia. Ainda sinto minha costela contundida do pequeno incidente esportivo de semanas atrás. Também sinto a garganta corrompida, agregada a uma sudorese nasal, típica do início de mais uma gripe anual. No café, a granola com pêra asiática me dá a energia que meu corpo precisa, enquanto o chá de limão, mel e gengibre, promete brigar legitimamente com os sintomas do vírus contraído em um bar sangrento, num ambiente fedorento, com o chão molhado de cerveja e com as inúmeras secreções de jovens metaleiros, alegres e com sobras de testosterona e, que hoje, passo a invejar. A roda de quebra-quebra tem muita história pra contar.

No palco, a velha pantera e, ao meu lado, outra pantera, tia dos meninos de preto, fiéis da religião mais popular do centro dessa tal cidade sorriso dos mortos-vivos. Enquanto isso, na hamburgueria da famosa esquina, as garotas conversam com seus garotos, fumando seus cigarros mágicos e bebendo suas cervejas nem sempre especiais. Se pudesse estar em dois lugares ao mesmo tempo ou se não tivesse perdido a oportunidade na outra noite, diria pra garota, funcionária de uma agência, que seu cabelo ficou de fato, lindo. Mas a madrugada é das panteras e dos metálicos e só tenho a agradecer pela companhia e pelas múltiplas lembranças de uma adolescência rodeada pelos símbolos que agora revisito compulsivamente na lembrança: das camisetas de bandas, dos cabelos e das pulseiras de todos aqueles meninos e meninas, imersos numa inocente e urgente rebeldia. E talvez por nunca ter vivido externamente esses símbolos, decidi, acredito que pela primeira vez em minha vida, levantar meu braço direito e materializar com os dedos, quem sabe, o maior desses símbolos, formando o vulgo e batido “sinal do capeta”, em meio de centenas de outros, mais automáticos, porém igualmente sinceros e que unificavam o recinto de ares sacros.  Por dentro, uma estranha emoção se revelou. Dos olhos, uma lágrima se formou enquanto panteras dominavam meu inconsciente, misturadas com o perfume do xampu nacional e com as cervejas francesas de mais uma noite sem amarras. Na saída, ainda houve tempo de entregarmos o saco de pipocas guardado no porta-luvas para a andarilha de plantão, que sorriu e agradeceu e ainda que sua boca carecesse de dentes e que isso se demonstrasse irrelevante para a ocasião, ela esbanjou simpatia.

De lá pra cá, ainda sinto os efeitos dessa empreitada, nas memórias recorrentes e principalmente em meu corpo gripado.

Esses roques da pesada também têm suas consequências, o tio que o diga.

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