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Michalina, a Rainha das Estradas

hitchhikingEla era a rainha das estradas, assim como Jim Morrison cantou certa vez. De origem polonesa, já percorreu os quatro cantos do globo, pegando carona, sempre sozinha. Alta, loira e de olhos claros, Michalina se comunica fluentemente em cinco idiomas, incluindo o hebreu, que aprendeu durante seu tempo em Israel – país que carrega no coração, despedaçado por mais de dois anos na estrada, sem lar ou endereço fixo. Já esteve no Afeganistão, no Egito durante a Revolução, na Síria durante a Guerra e agora esbanja seu carisma na América do Sul.

Juntou grana para viajar por 10 anos, mas na Argentina, durante a greve policial, foi assaltada e agora viaja com dinheiro emprestado. Michalina me diz que já cansou dessa vida sem rotina e que gostaria de encontrar um lugar onde pudesse parar e morar, empregada como gente normal, se possível, dando aulas para crianças, que é o que ela mais curte fazer. Michelina, a rainha das estradas, também já velejou pelos cinco oceanos e é pelo Atlântico que ela pretende regressar à Europa, sua terra mãe.

Carrega em seu currículo uma série de cantadas dos caminhoneiros que, com segundas intenções, lhe deram carona. Segura de si, ela não desiste e insiste em percorrer o continente, apontando o polegar para os veículos em movimento. Para aumentar as economias, Michelina se hospeda gratuitamente na casa de pessoas de uma tal rede social feita para mochileiros de plantão e foi assim que a conheci. Um encontro intenso entre espíritos livres com muitas histórias em comum. Ela, a rainha das estradas, perdida em um universo de infinitas possibilidades, e eu, mais conciso e conectado com a realidade que construí a duras penas e após longas batalhas existenciais – contra as quais, Michelina segue lutando, na esperança de um dia encontrar aquilo que procura nos quatro cantos do mundo, mas que talvez só encontre dentro de si.  

Hoje lembrei-me dela ao comprar uma bolacha importada. Fiquei curioso pra saber a origem do produto e quando vi “Polônia”, decidi levá-la. De alguma maneira, ela, a bolacha, representa um pedaço dela, Michelina, a rainha das estradas, enquanto suas lembranças se misturam com as cinzas de mais um cigarro manufaturado. Jeszcze!

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