contos

Tropeços, Delírios e Alegria no Festival Multicolor

psicodalia-005São as primeiras horas dentro de um ônibus rumo a Rio Negrinho, em direção ao carnaval dos loucos. Roberto, meu amigo e parceiro de caminhadas espirituais, me acompanha e apesar de não conhecermos mais ninguém nas outras poltronas, nos sentimos em casa – uma casa flutuante que percorre estradas com a energia pulsante resultante de corações apaixonados por essa coisa que nos acostumamos a chamar de vida. Roberto, com certa dificuldade, abre a primeira garrafa de cachaça feita de cereais e de bolinhas escuras de alguma fruta cujo nome minha memória capenga é incapaz de recordar. Compartilhamos o copo e logo aparecem outros e assim, bebemos e conhecemos nossos colegas de viagem, por entre copos de vodka, suco de laranja, vinho barato e a cachaça de Roberto, presente do ex-sogro. No banheiro, os cigarros proibidos de sempre.

E sem maiores inconvenientes chegamos ao festival Psicodália. Descemos, pegamos nossas pulseiras e nossos cartões e voltamos para o busão que nos esperava no estacionamento com as nossas bagagens. Mas espere aí, onde está Roberto? Retorno ao portão de entrada e o vejo completamente alcoolizado, com sérias dificuldades motoras, cambaleando e abraçando hippies. Levo Roberto, aos trancos e barrancos, até o ônibus, pegamos nossas mochilas e barracas, mas meu amigo se mostra incapaz de carregar suas coisas até o camping, numa série de caídas e batidas nas laterais do ônibus. Deixamos nossas tralhas por ali e fomos caminhando lentamente até o suposto camping, porém na metade do caminho, Roberto cai estatelado sobre o gramado, nocauteado pela própria loucura e embriaguez. Deixo-o sozinho e parto por entre barracas desconhecidas e rostos estranhos, tentando encontrar Jorge, nosso amigo cabeludo pontagrossense e parceiro dessas transas.

Não o encontro e no caminho vejo as garotas curitibanas da excursão que decidem me acompanhar, solidárias com a situação que aos poucos adquire contornos bizarros e imprevistos. Voltamos para o ônibus e para onde nossas mochilas deveriam estar, mas nesse momento constatamos tristemente que elas haviam sumido. Por sorte, encontramos Guerreiro, apelido dado ao organizador da excursão, que nos devolve nossas tralhas, após um sermão necessário pelo transtorno causado.

As meninas me ajudam a levar nossas coisas e quando chegamos ao gramado, Roberto seguia em seu estado de semiconsciência, estirado na grama como um zumbi recém-baleado. Tentamos de várias maneiras despertá-lo e as únicas respostas que obtivemos vieram em sons monossilábicos arrastados. Fui até a ambulância do festival, atrás de uma dose de glicose que pudesse salvá-lo, mas, infelizmente, os enfermeiros de plantão não puderam nos ajudar.

Decidimos armar a barraca de Roberto ao seu lado e foi nesse instante que notei a ausência da minha barraca, que na realidade não me pertencia, era emprestada. Provavelmente ela fora extraviada durante o percurso, após passar por mãos estranhas e ter sido transportada por uma caminhonete de sei lá quem.

Depois de muito esforço, primeiro molhando o rosto de Roberto com água e depois o fazendo beber um pouco desse líquido sagrado, ele esboçou reações curativas, expelindo algum tipo de muco em forma de vômito. Porém, Roberto ainda estava longe de sarar e logo ele caiu novamente na grama e precisamos da ajuda de um terceiro elemento para carregá-lo até sua barraca. 

O festival multicolorido estava começando e eu já havia perdido minha barraca e até meu amigo, ao menos pelas próximas horas. Jorge e as amigas veganas Larissa e Mel, continuavam apenas no pensamento e eu não fazia a menor ideia de onde poderia encontrá-los.  

Seis horas após o incidente alcoólico, Roberto recuperou a consciência e insistia em dizer que não se lembrava de nada. “Apagão”, repetia ele. Teimava em querer saber como eu havia perdido minha barraca – uma história que precisei recontar dezenas de vezes para ele e para os demais interessados. 

E um texto é pouco para descrever tudo que rolou nesse festival. Teve cantor entrando no palco em um caixão, teve punk gaúcho ressurgindo das cinzas e cantando sobre uma canção inesperada, teve banda de velhos tocando velhos roques feitos no Brasil, teve psicodelia setentista de primeira, baiano reinventando a tropicália, um tal de Mestre Ouriço pra lá de doido, teve ciranda animada no palco do sol, instrumentista de peso mostrando suas safadezas no violão, teve festa de pirata com garotas nuas, teve Kombi hiponga dando canjas lisérgicas para os malucos de plantão, teve o Plá de Curitiba em show intimista com direito a violoncelo de acompanhamento, teve o som chapante das pedras brancas, teve a umbanda revisitada por músicos descolados, o velho baiano tocando o disco homônimo dos novos baianos ao lado de seu filho, teve big band tocando clássicos do jazz e do blues,  cantor e poeta nordestino retornando aos palcos com seu suingue único, teve o amigo das estradas, dos mitos e dos arrepios, cantando sobre o sertão e Santa Cruz de La Sierra, teve chapeleiros malucos, simpsons, bicicletas e quilos de ganja circulando livremente por toda parte, teve pastel de tofu, yakisoba, caldo de feijão e pizza vegetariana, teve paixões instantâneas por garotas gaúchas de vinte e poucos anos e de preferência do curso de letras, teve chopp classudo e oficinas intrigantes e chuva desabando e destruindo acampamentos.

E talvez o momento mais surreal e psicodélico no meio de tanta maluquice tenha sido a apresentação de uma banda tradicional alemã, no palco dos guerreiros, às quatro da matina, animando todos os presentes e fazendo-os lembrar da imigração, das raízes germânicas e das festas regadas a litros de cerveja.

Teve tudo isso e teve Roberto retornando pra casa mais cedo, com a amídala inflamada e os olhos tristes.

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