contos, pseudojornalismo

Curitiba e Seus Fantasmas

giovanniFoto: Michele Zambon

Por entre ruas desertas, encobertas por uma garoa fina e típica da estação, caminho na companhia de uma russa, em direção ao “bar mais charmoso da cidade”. Svetla me diz que esse tempo faz Curitiba parecer Moscou e que a arquitetura da cidade se assemelha a Sevilha, na Espanha. Mas o que acontece nessa cidade que basta uma garoa e um friozinho e você não vê quase ninguém nas ruas? Meu amigo baiano havia comentado, semanas atrás, que isso o assustava e que no Rio, era justamente o oposto. Porém, lá não tem frio e esse fato justificaria muita coisa caso Porto Alegre fosse morto como aqui, pois lá também faz frio mas o povo continua saindo pras ruas. Isso sem falar nas outras capitais frias mundo afora e que possuem, apesar do mau tempo, vida pedestre.

Curitiba tem essa estranha particularidade, as pessoas preferem lugares fechados, shoppings da moda, sofás aconchegantes e carros com ar quente, ao invés dos encantos das ruas, com seus mendigos, seus bêbados e suas putas.

Chegamos ao bar em questão somente para constatarmos que éramos os únicos clientes. Tirando a gente, havia o dono, dois funcionários, o cantor, sua esposa e duas amigas. Enquanto fumava um cigarro, o cantor veio me perguntar se havia algum problema se ele começasse a tocar às nove, já que o cartaz anunciava que o show começaria às sete.

E talvez o que tenha salvado a noite foi justamente quando ele, o cantor, decidiu finalmente começar a cantar suas canções, acompanhado do violão e de um cenário bucólico, cheio de adereços peculiares, oriundos das mais belas máquinas do tempo. Giovanni cantou as dores das paixões, as brigas de gangues, os vícios nos Beatles, as roupas sujas e até sobre o bloco de rua do saudoso Sergio Sampaio. Tudo despido, em um resgate ao embrião da canção, sem compromisso e sem frescuras, para uma plateia de fantasmas sedenta por algum tipo de calor, além dos vinhos e das cachaças servidas no bar.

Mas suas canções sinceras não prometiam esquentar, pelo contrário, só contribuíram para a petrificação dos raros corações que ali tentavam se encontrar.

E o jeito foi partirmos, enchermos nossos estômagos com frituras e adentrarmos o bar do chapeleiro maluco. No palco, um rock caipira mais animado fez a russa esboçar movimentos craniais verticais, em algum sinal de aprovação. Porém, o cansaço falou mais alto e cedo retornamos para casa, na cidade dos fantasmas.

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