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Josué – O Monge (Curitibano)

mongeFoi em um ônibus para Gramado que eu o conheci. Usava uma bandana vermelha na cabeça, não tinha amigos e vinha de longe, do Pará ou do Amapá. No festival de cinema, nos conhecemos melhor, bebemos, fumamos e nos tornamos amigos. Alguns anos depois, até moramos juntos por um tempo, apesar de a experiência ter sido meio decepcionante. Nessa época, sempre acabávamos discutindo sobre religião e sexo – assuntos que deveríamos ter evitado.

Os anos se passaram, ele retornou ao norte, passamos um tempo sem nos falar e de repente, quando finalmente voltamos a ter contatos esporádicos, via skype, descobri que Josué havia se convertido ao catolicismo. Coisa rara nos dias de hoje e mesmo que tenhamos novamente um papa pop, o que mais vemos por aí é gente se convertendo ao cristianismo, no sentido evangélico-universal do termo.

Estranhei no começo, mas percebi que meu amigo estava de fato mais calmo e direcionado, estava estudando pra concurso e ainda tinha planos de retornar ao sul.

O ano passou e Josué fora chamado para trabalhar no IBAMA, de Santarém, nos confins desse estado com nome de castanha. Passou a morar sozinho e a ler mais e mais textos bíblicos, chegou a manter atualizado um blog em que relatava sua jornada como peregrino e filho de Jesus. E se antigamente seus encontros imaginários eram com Jim Morrison e Jack Kerouac, eles agora eram com Jesus Cristo.

Recentemente, ele me ligou, dizendo que estava vindo para o Paraná, passar um tempo em um mosteiro. Após a reclusão ele me visitou, passando alguns dias em minha casa. Estava sereno ou como diria a canção de Jorge Ben, “chegou filosofando, num tom de voz meio angelical, falando de coisas belas”.

No fundo, sempre achei Josué meio parecido com o Kerouac dos livros. O escritor também possuía uma especial admiração ao cristianismo e apesar de suas aventuranças budistas, ele morreu como um católico convicto.

Semelhanças à parte, Josué havia encontrado o caminho a seguir. Largaria o emprego certo, as bebidas, os amigos e a família para se dedicar em tempo integral ao Criador. Viveria em um mosteiro, distante da cidade, dos pecados e das superficialidades. Josué, meu amigo, seria eternamente um monge, sem contato com o mundo externo, exceto por cartas, que segundo ele, eu poderia escrever e essa seria a única maneira de contatá-lo.

Nesses 15 dias no mosteiro, Josué pôde escutar seus próprios pensamentos, sem interferências, em um silêncio pleno, apenas intercalado pelos sons dos pássaros e do vento. E parece que esses pensamentos lhe disseram que havia chegado a hora, que era hora de se despedir dos amigos e da sociedade.

Pois é, Josué agora estava prestes a se tornar… Um monge. E que Deus o abençoe.

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2 comentários sobre “Josué – O Monge (Curitibano)

  1. Amigo, esse foi um dos seus textos que mais gostei até hoje. Senti-me homenageado mesmo. Lúcido, franco e um pouco nostálgico. Acho que começarei a orar pela sua vocação também, pois se o grande JC me chamou, pode muito bem chamar você, rs. After all, God works in mysterious ways… É como li em algum lugar, “todo homem em um monge dentro de si”. Tomara que essa “moda” pegue. Abraço!

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