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Cinco Estrelas (Fuckin´A)

5estrelasCondições climáticas e forças ocultas me fizeram permanecer ou retornar a Buenos Aires pela segunda vez em três dias. Desta vez eu, meu amigo e um grupo de afortunados seríamos hospedados no hotel Plaza, no coração da capital argentina, por uma noite. Mas hey, estamos falando de uma suíte em um hotel cinco estrelas, com todas as despesas pagas pela empresa aérea uruguaia que parece estar mais acostumada com navios de luxo e rios de prata. Estamos falando do mais perto que poderei chegar de Jim Morrison em seus últimos dias em Paris. Estamos falando de uma banheira, do “dude” fumando uma ponta com uma pinça, enquanto escuta os sons da baleia numa fita cassete.

Justo quando eu e meu amigo Johnny estávamos dizendo adeus para uma das melhores viagens de nossas vidas, o avião não decolou para o destino programado e acabamos sendo premiados com mais um capítulo dessa pequena saga de 21 dias percorrendo terras frias em países vizinhos.

Do aeroporto fomos conduzidos por um translado até esse imponente hotel, de mais de 100 anos de história e lá ficamos das oito da noite até às nove da manhã do dia seguinte. Não sei dizer se todo o grupo, de umas 15 pessoas, permaneceu no hotel em tempo integral, porém eu até estava pensando em sair com Johnny e Lúcia – ex-namorada de Johnny e que, por casualidade havia se reencontrado com meu amigo no aeroporto de Montevidéu. Uma saída que preferi evitar, já que eu estava mesmo a fim de aproveitar os encantos da suíte 5 estrelas.

Lúcia havia passado uns dias em Buenos Aires, após uma breve temporada esquiando em Bariloche e agora, novamente em terras porteñas, havia nos dito que estava louca para conhecer os “boliches” da cidade. Johnny, o gatilho mais rápido do oeste (e aparentemente do sul do continente também), Johnny, oportuno e insistente como sempre, acompanharia Lúcia até os prazeres porteños regados a fernet, cola e não sei mais o quê.

E apesar da insistência de mantermos nosso plano de “chegar/tomar banho/comer/dormir até às duas da manhã/acordar e ir pra balada”, apesar dos argumentos do matemático Johnny, achei por bem seguir os conselhos angelicais que fazem qualquer pessoa optar por ficar em casa ao invés de sair e correr os perigos da cidade grande, relembrados semanalmente por minha querida mãe, e quando ainda nem tinha idade para beber.

Nesse caso, minha “casa” seria uma suíte em um hotel 5 estrelas ao lado da Plaza San Martin, bem no centro de Buenos Aires.

No jantar, pude escolher uma entrada, um prato principal, uma bebida, uma sobremesa e ainda um café para ajudar na digestão. Na nossa mesa, além de Johnny e Lúcia, estavam duas primas curitibanas e entre saladas multicoloridas, salmões rechonchudos, vinhos e pães frescos, ainda tive a oportunidade de conhecer um senhor bacana que havia morado alguns anos no Equador (“O Plaza está para Buenos Aires como o Saint Regis está para Nova Iorque”, ele repetia), além de um equatoriano, funcionário da Eletrolux e que há 10 meses estava morando em Curitiba – os dois também estavam tentando regressar para a capital ecológica, tecnológica, do sorriso e mais alguns outros nomes idiotas que os marqueteiros costumam dar.

Após o farto jantar, comi uma espécie de cupcake de chocolate com uma generosa cobertura do melhor doce de leite do mundo e tomei um café com Aderbal e Juan, o senhor e o rapaz que acabara de mencionar, enquanto lembrávamos histórias vividas no norte sul-americano.

Meia-noite e me despeço dos meus novos amigos e de Johnny e Lúcia, um casal ainda com um futuro indefinido, pelo menos para essa noite.

Entro no quarto, fumo um cigarro tomando cuidado para não disparar o alarme de incêndio, tiro a roupa, boto um som no mp3 de longa data e acabo encontrando no bolso do casaco restos de um outro fumo, permitido em terras uruguaias.

Decido encarnar meu personagem favorito, o já citado “dude”, e me dirijo para a banheira e, com o som do lado, acendo meu micro-cigarro, gozando o que de melhor essa vida pode me oferecer, no caso, uma banheira com água quente em um quarto 5 estrelas na charmosa Buenos Aires, a Paris latino-americana (sim eu sei, essas comparações também são sempre idiotas).

Brinco com meu corpo olhando os movimentos e os ecos da água, respiro fundo, olho pro lado e, de repente, me dou conta de onde estou, quem talvez eu seja e pra onde devo ir naquele instante. Abro o ralo, crio um ciclone no oceano e espero meu corpo esfriar. Ligo o chuveiro no “quente-pra-caralho” e chego perto de estar em uma sauna. Saio, me enxugo com a maior toalha de todos os tempos e deito em uma cama com dezenas de travesseiros e cobertores, uma cama que me abraça e me conforta e me diz “não se preocupe, hoje você é um rei”.

Ainda sim, mesmo depois de todos esses mimos, desfrutes e deleites sem fim, confesso que não tive o sono que desejava, já que vésperas de viagens são sempre carregadas de ansiedade e incertezas, detalhes constantes, conflitantes e confusos, que me fazem ter pesadelos e um sono leve, em estado de alerta.

De qualquer maneira, o hotel 5 estrelas, o primeiro da América Latina, com mais de 100 anos de história, com hóspedes do porte de Pavarotti, esse hotel que nos tratou tão bem, com certeza não pode ter nada a ver com isso.

E como diria Johnny, as quatro melhores coisas para se fazer na vida são comer e viajar. Venho tentando fazer as quatro.

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6 comentários sobre “Cinco Estrelas (Fuckin´A)

  1. Meu nome não é Johnny, mas já fui chamado assim. Viagem espetacular bom amigo, picos nevados, abrigos quentes, bons vinhos e chocolates, mulheres charmosas e acolhedoras, camisas que , embora de outro país, carregamos no peito. Os dias foram frios e a noites foram quentes. Soubemos fazer a cabeça e percorrer o país guardando as recordações dos lugares onde passamos, andando pelas geleiras e dos amigos que lá deixamos.
    Chuva e neve, geleira e batom.
    Longe de casa sem roteiro mais uma estação.
    E alegria no coração.

    Senhor Igor foi um prazer percorrer e pedalar alguns caminhos de nossa madrinha América latina com o senhor.
    Um abraco

    1. Pô “Johnny”, assim vc me emociona..lindas palavras e sim, foi um prazer “percorrer e pedalas alguns caminhos de nossa madrinha américa latina”!! Até a próxima!! abração

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