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O Avô que Nunca Tive

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Quando criança, perdi meus dois avôs e meu contato com eles foi tão mínimo que minha memória tenta, mas não consegue recordar de absolutamente nada. Um deles costumava brincar comigo e meu irmão mais velho, “como se fosse uma criança”, diria esse mesmo irmão mais velho. Sinais do Alzheimer, que naquele tempo, nem nome tinha.

Porém, eis que em uma tarde iluminada e ensolarada de Itaparica, na Bahia, tenho o prazer de finalmente conversar longamente com meu tio-avô, o “Doutor” Eufrásio. Eufrásio é irmão da minha falecida avó, por parte de mãe, e apesar de passar seus dias de semana em Salvador, dedica seus fins de semana para descansar na sua casa, na ilha de Itaparica, a 13 quilômetros da capital baiana. Uma casa, aliás, formidável, de espaços amplos, tetos altos e a poucos passos da praia. 

Sempre sonhei em ter um avô para, entre outras coisas, ouvir histórias da segunda guerra mundial ou de outras particularidades de seu tempo. Mas Eufrásio vai muito além disso e, em vez de me contar histórias trágicas de guerra, ele me conta que foi membro do partido comunista, e como precisou fugir do país durante o regime militar. Dizia que os militares eram tão burros que certa vez um deles o abordou na frente de seu prédio e perguntou “Você conhece o senhor Eufrásio?”. O próprio respondeu que sim e que “ele morava naquele prédio, atrás dele”. Enquanto o milico entrava no prédio, Eufrásio se esvaiu, indo parar na França.

Nos seus 20 anos, Eufrásio participou da UNE e junto com outros estudantes foi para a China em uma viagem que ficou marcada pela frase repetida por diversos familiares: “O Tio Eufrásio apertou a mão de Mao Tsé-tung”. Sim, ele me contou que Mao fez questão de apertar a mão de todos os presentes e ainda declarar aos brasileiros o intuito de estreitar relações entre os dois países, em uma espécie de previsão do que viria a ser a parceria atual entre os governos, fortalecida pelos BRICS.

Além desse feito, Eufrásio ainda foi fundamental na carreira de um dos pilares do tropicalismo: um outro baiano chamado Tom Zé. Tom Zé procurou Eufrásio, na época integrante do Centro Popular de Cultura, para dizer que estava pensando em voltar para Irará, sua terra natal, pois estava sem lugar para morar e até estava pensando em desistir da carreira musical. Eufrásio lhe disse que havia um quarto vago no apartamento que dividia com mais dois estudantes e que ele poderia ocupá-lo. Tom Zé morou alguns meses nesse apartamento e até hoje possui uma gratidão imensa por Eufrásio, que o acolheu em um momento de dificuldade.

E como não bastasse, Eufrásio, por ter feito parte do Centro Popular de Cultura, conheceu todos os grandes artistas baianos de seu tempo, mantendo relações próximas com Caetano até os dias atuais. Vez ou outra Eufrásio discorda de suas opiniões políticas e os dois acabam trocando emails acalorados como consequência.

Continuo não tendo um avô, mas acredito que Eufrásio, tecnicamente meu tio-avô, seja esse avô que nunca tive e hoje, após nossa última conversa, posso dizer que possuo uma admiração genuína por esse homem, por sua história e pela pessoa amável que ele sempre demonstrou ser.

“Naquela mesa ele me contou histórias que hoje na memória eu trago e sei de cor.”

Obrigado, Tio Eufrásio!

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2 comentários sobre “O Avô que Nunca Tive

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