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Artistas na Ilha dos Hipsters

superaguiTudo rolou rápido demais. Rápido como a estrela cadente que vi no céu da ilha ou como os pensamentos destrutivos do meu amigo Ernest Cash. Com ele parti para a rodoviária, com duas passagens para Pontal – a praia curitibana dos pobres e miseráveis. De lá tentamos pegar uma barca para a ilha de Superagui, algo que se mostrou impossível, não pelas questões geográficas, mas por uma mera organização das embarcações. De Pontal, poderíamos ter ido para a Ilha do Mel, mas já estávamos cansados de lá e nosso objetivo era desembarcar em Superagui – a ilha dos pescadores e dos frequentadores da Trajano, sedentos por um réveillon menos badalado e mais natureba, no sentido mais hipster do termo.

Não tínhamos reservas ou grandes planos, chegamos e encontramos meu outro amigo radiofônico com nome de alguma estrela da MPB. Gil nos indicou o camping em que estava alojado, juntamente com seus brothers do Boqueirão. Gil e seus brothers haviam logrado a tarefa hercúlea de viajar sem motor, apenas com suas bikes e suas canelas inchadas. Parabéns pra eles.

Comemos um peixe com feijão e arroz e caminhamos até o Poseidon, o último camping beira-mar e administrado por um sujeito chamado Posidônio.

Na grama e entre nossos vizinhos de barraca havia um cara chamado Spare – uma espécie de sobrevivente da geração gonzo e que carregava consigo um verdadeiro arsenal de psicotrópicos, relaxantes, estimulantes, papéis coloridos e outros cristais importados da Europa.

A ideia era expor minhas gravuras ao lado dos retratos grafitados por Ernest e com isso, conseguir clientes para meu amigo para que ele produzisse caricaturas e assim pudesse pagar suas despesas na ilha. Tentamos nos primeiros dois dias, armamos nossas tralhas, colocamos algumas músicas legais na jukebox e sentamos em alguma mesa com vista pro mar. Ficávamos lá, bebendo litros de cerveja e esperando que alguém se interessasse pela nossa arte.

Mas o tempo não colaborou e, quase sempre, poucas horas depois de armarmos nosso pequeno espetáculo visual, as nuvens escuras e apocalípticas se aproximavam, trazendo os ventos ferozes que, além de acabarem com nossos planos de tirar alguma grana daquela ilha, também destruíam os tetos improvisados do nosso camping.

E mesmo quando fazia sol, pouca gente se deu o trabalho de ver o que estávamos tentando fazer. Gente descoladinha que tenho certeza que se interessaria muito caso estivesse em Curitiba em algum café cult do centro da cidade, mas por estarem na ilha, parece que adentram algum tipo de realidade paralela, onde a maconha e os ácidos fazem com que essas pessoas se conectem com a natureza e com as amizades e se esqueçam de qualquer cultura urbana produzida por dois artistas em eterna decadência.

Mas Superagui está cheia de encantos e parece ser o cenário perfeito para encontros mágicos. Assim, conhecemos, por acaso, duas holandesas e um cachorro colombiano pra lá de simpático. Talvez as únicas gringas da ilha, uma delas estava viajando há mais de um ano pela América do Sul e, quando ainda estava na Colômbia, conheceu e se apaixonou por um cachorro de rua, batizado de Freddie, e que havia se transformado em seu leal parceiro de viagem.

Bebemos mais alguns litros de cerveja com elas e, no dia seguinte, fomos comemorar o aniversário da dona do cachorro – a bela Ika. Desde o primeiro encontro, conversei mais com Ika, enquanto meu amigo Ernest flertava com sua amiga, Pieta. O inglês de Ernest parecia haver saído de alguma película B sobre a máfia italiana, e talvez por sua barba e seus traços nórdicos, às vezes ele próprio parecia ter surgido de algum livro do Dostoievski, especialmente quando estava segurando uma garrafa de Cataia – o “whisky” caiçara consumido abundantemente em toda a ilha à qual Ernest se referia como sua “girlfriend”.

Não criei grandes expectativas com Ika, pois achava que as europeias não seriam tão abertas em relação ao amor livre e todas essas loucuras que rolam por aqui. Mas talvez por ser seu aniversário, ou talvez por ela estar meio puta com seu último namorado, um carioca que havia lhe dado um pé na bunda por whatsapp há poucos dias atrás, Ika concordou em ficar comigo naquela noite e quando fui perceber, estava caminhando ao seu lado em direção a alguma praia deserta e bem escura. Terminamos nos enrolando pela areia, seminus, meio como aqueles camarões empanados e fritos que comíamos todos os dias nos bares da ilha. Fomos interrompidos por algumas garotas nativas que passavam por ali e que gargalharam quando nos viram daquela maneira tão “natural” e pouco espontânea.

No dia seguinte, nos despedimos de Pieta e no final da tarde pegamos a última barca para Paranaguá. Chegamos a casa depois da meia-noite e quando me dei conta, havia voltado da ilha com uma família inteira pra cuidar: Ernest Cash ainda estava lá, e agora também teríamos a companhia de Ika e de seu cachorro Freddie.

Pelo menos no meu aniversário, dois dias depois, me senti menos sozinho. Superagui, mais uma vez, obrigado.

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