contos

Ubatuba Feelings

ubatuba2015 veio de repente e, após uma série de bebedeiras, traquinagens e histórias inconclusivas, era hora de partir novamente. O ano ainda estava nascendo e eu precisava sair, respirar novos ares, me livrar de antigos carmas, dos antigos amigos de sempre, e dos novos, mais malucos e incompreendidos e talvez mais próximos ou, ao menos, mais abertos a novas experiências. Para alguns, a velhice vem acompanhada de rabugices e da incorporação de novos preconceitos, novas cristalizações mentais que os impedem de conhecer gente nova. Felizmente ainda não faço parte desse clube.

Ernest Cash havia se mandado para Paraty em busca de alguma luz divina que o acalmasse ou talvez de um novo amor, alguma paixão intempestiva que o fizesse esquecer o peso de sua existência. Ernest foi sem se despedir, deixou boa parte das suas tralhas e de seus remédios na minha casa e partiu, sem avisos.

E depois de quinze horas de viagem, lanches caros, chacoalhadas e sonecas superficiais, eu estava lá, suado e sedento, à procura de um táxi que pudesse me levar ao local desejado. Esperei 20 minutos ao lado de uma família peruana e de mais quatro garotas paulistas. No fim, rachei um táxi com duas delas e assim cheguei ao hostel onde minha lady friend Ika trabalhava como voluntária. Fui recepcionado com olás, em inglês, em português e com sotaques variados. Freddie, o cachorro colombiano, latiu ferozmente e talvez essa tenha sido sua forma de dizer “hey, eu me lembro de você”.

De início, Ubatuba se mostrou mais estruturada e badalada do que eu havia imaginado, mas isso pouco abalou o encanto por esse povoado, um encanto natural e crescente por um lugar pacífico na beira do Atlântico, ao norte do estado mais famoso do país, um lugar de ritmo cadenciado, cercado por praias magníficas e amigas dos surfistas.

No hostel, éramos seis. Daniel, o dono boa onda fazia as honras da casa, cozinhando e acertando os ponteiros administrativos de seu estabelecimento. Razvan era um dos voluntários, juntamente com Ika e as alemãs Letta e Klaudia. Razvan é romeno e de origem vampiresca, nascido na Transilvânia. Considera-se uma espécie de nômade, um cigano dos tempos modernos, um ser em movimento em uma sociedade que clama por raízes. Razvan vinha do teatro, do improviso, do misticismo, da anarquia e da música popular urbana. Nos entendemos imediatamente.

Na bagagem, por entre roupas e bolas verdes, coloquei um mini isopor com queijo dentro, e esse pequeno empenho fez Letta explodir de alegria. Letta é uma alemã ovolactovegetariana, e queijos, especialmente aqueles fortes e tipicamente europeus, estavam entre suas laricas preferidas. As minhas também.

Logo me senti em casa, e à noite, outro membro se juntou à trupe: René, colombiano que, além de estudar Biologia em Medellín, também costuma grafitar animais em muros e esse foi o motivo para ele passar duas noites no hostel. Me empolguei com a ideia de pintar algo também e, no dia seguinte, havia feito dois desenhos coloridos. Após a aprovação de Daniel, e enquanto René pintava um cavalo marinho gigante em um dos muros do jardim, eu estava lá, pintando um dos meus desenhos ao lado do chuveiro externo. No dia seguinte, René ainda pintou um caranguejo azul em outro muro e depois partiu, sem grandes despedidas. Razvan, também se animou, e mesmo sem nunca ter pintado nenhuma parede na vida, foi lá e fez um pássaro vermelho envolto por luzes curativas por todos os lados.

Não poderia discorrer sobre a noite ubatubense, suas festas à beira mar ou suas infinitas barraquinhas de coquetéis, já que praticamente não saímos do hostel, exceto quando alguém ia ao mercado atrás de cervejas ou de algo mais. Fui com Ika a uma pizzaria e em outro momento, fomos de bicicleta até o centro da cidade. Em um terceiro dia, fomos à praia, fritamos ao sol e comemos um coco. De resto, ficávamos matando tempo no hostel, brincando com Freddie, ouvindo canções, tomando goles e inalando diferentes tipos de fumaça. Às vezes, eu e Razvan entrávamos em papos menos retos, divagando sobre divindades e existencialismos desnecessários. Conversas sem rumo e cheias de parênteses, feitas por vagabundos de plantão em trânsito.

Além das marcas de sol e dos mosquitos, acredito que Ubatuba tenha deixado outras marcas. Marcas singelas que ecoam outros tempos, menos complicados, de solitude, quando ainda viajava sozinho pela América, seguindo sem planos e sem direções, um caminho afetivo em busca de paz. Outro tempo, antes do vendaval por que fui atingido logo após meu retorno. Senti essa paz em Ubatuba ou, pelo menos, no hostel que tive o prazer de conhecer. Senti essa paz nas histórias de outros viajantes, nessa falta de objetivos concretos, nessa inocência de parecer ter se esquecido de onde veio ou quem foi, e agora só se importar com questões simples de subsistência. Se eu pudesse planejar algo além da minha próxima refeição, planejaria revisitar periodicamente esse universo que segue dentro das minhas entranhas, desfazendo nós, enxugando lágrimas do passado e reconstruindo caminhos criativos cheios de novas histórias para contar.

Navegar é preciso, em todos os sentidos.

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