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A Primeira Tatuagem A Gente Nunca Esquece (ou não)

tattooDemonizada no passado, execrada por praticamente todas as religiões, com exceção do hinduísmo e de outros cultos sagrados de um passado ainda mais remoto, a tatuagem finalmente alcançou o paraíso no século 21. Os egípcios, com suas pirâmides e suas mumificações, também utilizavam a tatuagem em seus rituais espirituais, provando estarem à frente do seu tempo.

No Brasil, ela ainda é novidade, uma vez que somente nos anos 60 chegou por essas bandas, trazida pelos marinheiros e piratas que chegavam ao porto de Santos.

Hoje a tatuagem ou a “dermopigmentação”, ou ainda a “tattoo”, como é comumente conhecida, transformou-se em algo banal, irrestrita a tribos ou nichos sociais. No final do ano passado, quando estava na ilha de Superagui, na costa paranaense, percebi que praticamente 100% dos curitibanos que ali estavam, possuíam, em alguma parte do corpo, alguma tattoo.

E até o final de janeiro deste ano, eu ainda fazia parte do clube de rebeldes que por algum motivo não haviam aderido à “moda das tattoos”. Já passei dos trinta, e talvez por isso, achava que nunca iria ter uma tatuagem. Achava que meu tempo havia se esgotado e esse tópico não orbitava meus pensamentos ou planos futuros.

Porém, no ano passado, ou talvez no ano retrasado, conheci o trabalho de um amigo. Max tatua há anos, possui um estúdio com outros dois sócios e tatuadores, e  também, um estilo particular. Algo a ver com aquarelas e desenhos geométricos, uma rara fusão capaz de produzir efeitos interessantes na pele do caboclo. Logo pensei “Tá aí um tipo de tattoo que eu faria algum dia”.

Acredito que se eu tivesse feito isso antes, teria tatuado algo menos simbólico e mais alegórico. Às vezes, é preciso viver um pouco mais para experenciar histórias estranhas ou verdadeiras tormentas sentimentais capazes de produzirem símbolos tão intensos, merecedores de marcas permanentes em seu corpo.

Max é um cara divertido e lembro-me dele em algumas fases negras da minha vida, sempre sorrindo e com um astral bacana. Eu lhe disse que pra mim, fazer a primeira tattoo é quase como perder a virgindade e, por isso, preferia fazê-la com alguém que eu conhecesse e admirasse de alguma forma.

Também lhe disse que a primeira tatuagem a gente nunca esquece. Algo a que ele retrucou, dizendo que “sim, a gente esquece sim, nem lembro mais como foi a minha primeira”. E talvez a sessão de tattoo possa ser considerada um tipo estranho de psicoterapia. Uma longa sessão, no meu caso, de quatro horas, e enquanto a agulha estiver na sua pele, você sentirá um tipo de dor atípica, como se algum inseto bizarro estivesse te picando constantemente. Mesmo com essa dor suportável, você estará frente a frente com seu tatuador (claro que isso também depende do local escolhido), e como o tatuador em questão se chamava Max e era meu amigo, tivemos uma longa conversa (com certeza a mais longa de nossas vidas), e estranhamente alguns dos assuntos abordados também fizeram parte da minha última sessão de terapia, algumas horas antes da execução da tattoo.

Depois das milhares de picadas e de algumas risadas, o desenho estava pronto. Um trabalho digno e lindo feito por um artista da pele.

Confesso que me senti parte de algum tipo de ritual milenário, alguma tradição tribal ou apenas um grupo social vindo de algum universo paralelo. Sabia que o ritual não estava apenas na feitura da tattoo, mas em todo processo pré e pós “operatório”.

Max me passou os detalhes e principalmente os cuidados com o curativo, e também algumas eventuais consequências não tão agradáveis, relacionadas à tinta e à reação do meu corpo a ela. Algo que ver com “casquinhas, secreções e coceiras”.

Desrespeitando em parte as instruções do “mestre” Max, fui parar em um sarau de hip hop e depois em um boteco esverdeado com cerveja barata. Acabei chegando a casa umas três da manhã, e só aí, pude me banhar e assim lavar minha tattoo.

Confesso que me assustei um pouco ao retirar o famoso plástico-filme do braço e ver que a obra de arte de Max havia se transformado em um amontoado de tinta, sangue e alguma secreção a mais, e que as formas haviam se perdido, como se alguém tivesse borrado antes da tinta secar. Bom mesmo foi ver as gotas de água caindo sob o braço e simplesmente limpando qualquer tipo de podridão oriunda daquela parte específica do meu corpo. Em segundos, minha tattoo voltava a ser ela mesma, bela, imponente e dizendo “relaxa, eu ainda estou aqui”.

E talvez o mais bizarro desse processo ou ritual, tenha sido perceber que em certo ponto as coceiras tomam conta de você. E não falo do local tatuado, mas de uma coceira repentina e constante na região da cabeça. Talvez no melhor otimismo possível, este seja um sinal de entrada em algum portal metafísico e, em poucos dias, estarei conectado a essa imensa tribo de seres tatuados.

Pois é, definitivamente nem em meus melhores sonhos poderia imaginar que uma simples tatuagem pudesse carregar tantos significados, mas talvez isso tenha outro nome (piolho?).

Continuo achando que a nossa primeira tatuagem a gente nunca esquece.

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