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Sobre Abus e Tabus

abujamraO velho provocador morreu. Morreu de morte tranquila, em casa, dormindo, vítima de um infarto no miocárdio ou onde a ciência queira explicar. Lembro-me bem de duas perguntas clássicas feitas exaustivamente em seu antigo programa, um programa que podia “não ser uma janela para o mundo, mas era certamente um periscópio sobre o oceano do social”, duas perguntas sobre a vida e a morte.

Na primeira, o velho Abu perguntava ao entrevistado “uma pergunta simples”: “O que é a vida?”. Insatisfeito com a resposta, Abu refazia a questão: “Mas, fulano, o que é a vida?”, e novamente, em tom provocativo: “O que é a vida?”. Para ele, a vida era uma causa perdida, e como era sua, você poderia estragá-la como quisesse. Dizia também: “a essência do meu progresso estava em poder aceitar a minha decadência. Ou seja, progredir até morrer, porque viver é morrer.”

A segunda pergunta repetitiva era “fulano, como você gostaria de morrer?”. Incomodados, os entrevistados sempre respondiam “dormindo”, ou “no palco, durante um solo” (como seu próprio filho respondeu em uma das últimas edições do programa, e olha que foram 695). Ironicamente, Abu morreu assim, como a maioria de seus entrevistados gostaria, dormindo. Sem agonias prolongadas, sem internamentos traumáticos, sem milhares de exames para descobrir o incompreensível, sem transfusões, sem transplantes, sem ambulâncias, sem comas induzidos ou não, sem choradeiras no leito, sem cirurgias de emergência e sem cicatrizes. “Morreu dignamente”, uns devem ter dito.

Nascemos com o caixão colado nas costas, mas durante muito tempo nos esquecemos disso: vivemos, sorrimos, cantamos, pulamos e transamos; enquanto a morte, “vestida de cetim”, nos espera em alguma esquina, ou ainda, na nossa própria casa, como foi o caso de Abu. As formas são inúmeras e Raul já cantou algumas pra gente: “um acidente de carro, o coração que se recusa a bater no próximo minuto, a anestesia mal aplicada, a vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida, o câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe, um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio…”.

Engraçado eu, “um sujeito chato que não acha nada engraçado”, ficar questionando essas coisas, já que diferentemente da maioria das pessoas que conheço, eu nunca perdi parentes ou amigos próximos. Talvez o único enterro que eu consiga lembrar, a duras penas, tenha sido o da minha avó, na Bahia, quando eu devia ter no máximo seis anos. Meu primo, mais velho, lembra de me ver correndo, alegre, pelo gramado do cemitério. Comentava ele com a irmã gêmea: “ah, olha esse menino, nem sabe o que é a morte”.

Não sabia e continuo sem saber. Tenho uma mãe doente. Sei que um dia ela irá falecer, assim como todas as outras pessoas que conheço: meu pai, minha avó, meu irmão, minhas tias e tios, meus amigos autodestrutivos e meus amigos caretas também. Isso é claro, se eu mesmo não morrer antes dessa gente toda; mas estando morto, imagino que os outros também estarão, ao menos de maneira carnal, “mortos aos meus olhos”.

Wayne Coyne, o maluco dos Flaming Lips também já cantou sobre isso: “você percebe que todos que você conhece um dia vão morrer?”. E isso por si só já deveria provocar uma melancolia profunda na gente, dessas de não querer sair da cama por dias, dessas de não querer lutar por mais nada, dessas que rolam quando vemos algum filme do Carl Sagan e nos damos conta da insignificância do ser humano perante um universo infindável, em expansão e completamente desconhecido.

E enquanto a ciência corre atrás do próprio rabo e a morte segue escondida romanticamente em algum vestido de cetim, seguimos focando nas pequenitudes da vida: nas economias no mercado, nos aplicativos sexuais, nas fofocas nos salões, nos papos de vendedor, nas revistas semanais, nas novelas e nos jornais globais, nas D.R(s); e em praticamente tudo que fazemos sem pensar, sem sentir e por algum impulso maldito que nos faça ser como animais, ainda que esses sejam infinitamente mais sábios que nós e não precisem da linguagem escrita para chorar suas pitangas.

Quem sabe, eles, os bichinhos, saibam o verdadeiro sentido da morte. Abu parecia saber algo importante sobre a vida, e Raul talvez tenha roubado essa pílula de sabedoria justamente da natureza: “morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida”, cantarolava ele, eloquente, seu mórbido tango.

Fundamentalistas me poupem de suas viagens, prefiro ficar com os hippies e os animais, o segredo da vida deve estar mesmo na morte. Até lá, seguirei na ignorância plena sobre esse tema e só posso esperar que ele não seja mais um… Tabu.

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4 comentários sobre “Sobre Abus e Tabus

  1. Mais um lindo texto saído de uma cabeça fértil e antenada. Tema profundo, me fez lembrar o filme “A Balada de Narayama” e também de algumas películas de Tarzan, onde os elefantes, velhos, doentes ou feridos, sempre se dirigiam para uma caverna a fim de esperarem tranquilamente pela chegada da morte.

    1. Obrigado novamente pelos elogios, Robinson Roberto, sua opinião conta muito, sou seu fã. Talvez exista mesmo algo inconsciente que faça a gente querer se retirar e esperar a morte em casa, se possível, ao lado de familiares e amigos, como foi o caso do Allen Ginsberg por ex. Mas a morte deveria ser encarada como algo natural, necessária e quem sabe, transcendental. Um grande abraço.

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