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Tibagi Fica Logo Aqui

tibagiRubens Ewald Filho ou a Enciclopédia Cinematográfica Ambulante diz que a crítica deve ser escrita no mesmo dia da projeção, pois parece que quanto mais tempo passa, mais ela se esvai, encontrando morada nos becos escuros daquilo que costumamos chamar de inconsciente.

Não sei se é assim com as crônicas, só sei que esse maravilhoso sol de outono me fez lembrar a viagem do último feriado ao lado de Letícia e de uma porção de seres verdes ao nosso redor. Atravessamos a rua de casa, adentramos o feixe de luz e fomos lançados, sem sobreavisos, a uma rodoviária interiorana sem coxinhas ou máquinas de cartão. No ponto de táxi, centenas de carros estacionados, porém todos invisíveis ao nosso olhar. Estávamos em Tibagi, era feriado e, com exceção do senhor de chapéu e botas caminhando lentamente pela rua empoeirada, não havia nada naquele local que representasse qualquer tipo de movimento. Táxi? Só pedindo pro moço das passagens chamá-lo no telégrafo falante.

Com aproximadamente vinte mil habitantes e sete taxistas, Tibagi possui a maior área total do estado, com quase três mil quilômetros de extensão. Mas antes que essa crônica se transforme em mais um trabalho de escola copiado do Google, é importante frisar a história desse povoado que, durante muito tempo, atraiu aventureiros paulistas e curitibanos, sempre atrás do ouro e das pedras preciosas escondidas no rio… Tibagi.

Séculos se passaram e eis que agora a cidade recebe a visita nada ilustre de um casal sem grandes planos ou a promessa do dinheiro fácil, apenas em busca de sossego. Um sossego necessário após dias de ansiedade, correria e brigas matrimoniais capazes de fabricar lágrimas nos corações de algumas pessoas. Mas nada que alguns dias, contemplando o absoluto nada, não possam acalmar as mentes aflitas, contaminadas pelas paranoias do perímetro urbano. E por nada, na verdade, eu quero dizer tudo. Pois é na natureza que o tudo ou o todo conseguem fazer algum sentido. É no horizonte distante, sem humanos ou construções, e formado por uma profunda ravina composta por “escarpas ou falésias”, que o olhar descansa e encontra aquele sentimento utópico que os monges chamam de paz.

E se a paz é alcançada pela retina, o êxtase silencioso é provocado pelos sons oriundos dessa mesma natureza: do vento batendo nas árvores, dos cavalos soltos no pasto, das galinhas e dos pássaros e dos grilos e dos gatos e dos cachorros de estimação. A paisagem agrada, mas melhor do que isso, só estando dentro da pintura para sentirmos que a vida, apesar das distrações materiais, segue plena, especialmente naqueles lugares onde o homem costuma passar longe.

Tibagi é um desses lugares, vinte mil pessoas para três mil quilômetros. Em um mundo super-povoado, Tibagi é o paraíso e fica logo na esquina, a duzentos mil metros de Curitiba. Com Letícia, precisamos caminhar mais oito mil metros para chegarmos ao cânion mais famoso da região, reconhecido internacionalmente pela alcunha de Guartelá. Até lá penamos, podes crer, principalmente por sermos forasteiros despreparados e acostumados com o sedentarismo típico dos casais das séries, das pizzas e das hibernações espontâneas.

No fim, o sacrifício foi recompensado, não pela paisagem “esculpida pela atividade erosiva de um rio”, mas pela lanchonete que encontramos na entrada do parque. Famintos e sedentos, sentimos conforto e alegria dentro de pacotes metálicos com nomes americanizados e especialmente após o consumo de sanduíches caseiros a preços honestos, misturados com cerveja e refri.

Tibagi, nunca esquecerei das suas estrelas, da sua lua cheia nascendo atrás das árvores, do brilho nos olhos do meu amor diante de tanta beleza, dos animais livres e daqueles presos que não vi, mas que estavam no cartaz do rodeio, enfim, nunca esquecerei de seus detalhes e da profundeza de seu rio e,  é claro, jamais esquecerei da lanchonete na beira do cânion.

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