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Série “Taxistas Curitibanos” – Episódio #6: Oito Pila

taxistas_curitibanosE lá estávamos eu e Tonico, na calada madrugada de mais uma quinta-feira insossa, no ponto dos ônibus e dos craques, de frente para o grande mural potyano. Tonico “de Porto”, das Towners, dos sambas e das bicho-grilices, tentava articular alguma forma corriqueira de barganhar moedas e notas azuis com os taxistas do outro lado da rua. Eu estava cansado, com alguma porcentagem a menos de fome, depois da empada da padaria zumbizeira, mas seguia desgastado e pedindo o conforto do lar central; ele queria seguir nas filosofias de boteco, de rua, e dos poucos lugares dessa cidade onde ainda fosse possível respirar algum tipo de distorção da realidade.

Enquanto eu seguia desprovido de notas ou moedas, Tonico seguia com seu plástico de bolso com algum documento com foto, uma nota de dez e outras três de dois. Já havíamos caminhado pelas ruas desertas e cheias de sabiás gritantes, mas eu seguia paranoico, lembrando dos conselhos da mamãe sobre evitar riscos. E, para piorar, no meu bolso eu seguia com aquele maldito celular estadunidense, entupido de fotos e vídeos e coisas que passei a chamar de trabalho. Tonico estava liso, com uma camiseta propagando algum energético do momento e que ele me contou que havia ganhado, além de trajar uma calça encontrada no lixo, e por fim, seu tênis havia custado algo como cinco reais, no país dos hermanos. Desconfio que seus dreads tenham sido bem mais caros.

Ali, por entre poucos seres notívagos e solitários, sempre na busca incessante por cigarros, raios e atenção, estávamos eu e Tonico decidindo se marcharíamos mais ou se choraríamos a corrida nos tais carros laranja fomentadores de comodidade. Ficar ali, na deriva daqueles marginais assassinos, não parecia ser certo por mais que estivéssemos encostados nos canos do ponto de ônibus, nos camuflando e fingindo esperar o primeiro do dia.

Num impulso, atravessamos a rua, e logo escutei um senhor taxista conversar com o primeiro carro da fila, algo em espanhol sobre chimarrões e confraternizações típicas dos fins de tarde. Sentimos a energia dos parceiros da madrugada, homens maduros e respeitosos esperando clientes. Aproximei-me da janela aberta, expliquei o destino ridiculamente perto, Tonico mostrou o plástico de bolso com seus trocados e fizemos a oferta: “oito pila”, sem as chatas bandeiras costumeiras das altas horas.

Já havia gralhado que por menos de dez seria quase impossível, porém Tonico insistiu para tentarmos os oito pila, e a surpresa foi ver que sem precisarmos insistir, o taxista havia aceitado a oferta. Fiquei ainda mais impressionado ao ver que o cara nem chegou a ligar a porra do taxímetro, algo que em meus quarenta anos de Curitiba, nunca havia visto acontecer. Bendita crise, eu diria, mas a questão era ainda mais simples e bem menos importante.

Tão insignificante que prefiro deixar esse detalhe na imaginação alheia.

Curiosamente, na madrugada seguinte, outro taxista repetiu a façanha de ignorar o taxímetro, enquanto bebericava goles da vodka regalada, imitava o Clodovil e nos contava histórias sexuais envolvendo clientes com fantasias com taxistas.

Sim, talvez esses últimos causos fossem mais interessantes do que perder tempo explicando uma breve saga chata de dois hipsters em Curitiba.

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