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Série “Aventuras Com Caldabranca” – Episódio #2: Do Outro Lado da Nácar

kapeleO plano era simples, tipo o nome daquela banda chata. A parceria já estava definida. Jorge Caldabranca, o novo amigo velho dos cabelos largos e das eloquências verbais, seria o companheiro da noite – algo raro de acontecer, uma vez que Jorge prefere a invisibilidade do seu lar e a separação dos “invejosos e dos hipócritas rondando ao redor”. Tirar esse cara à noite de casa? “Você conseguiu uma façanha de Hércules”, ele diria horas depois.

Lembro-me da tarde, antes da tempestade, quando recebi uma mensagem de áudio desse amigo e, no fim, ele terminava dizendo “o que for melhor pra você, estou dentro”.  E isso, somado à possibilidade de ver o casal-escambau tocando suas canções favoritas no bar-símbolo da boêmia curitibana, na rua parada no tempo e set de filmagem de uma história sobre prisões e comidas. Isso e o fato de o palco beatnik estar próximo à casa de Caldabranca, fizeram eu me coçar e bater um fio ao amigo dos pânicos e das metafísicas.

Estacionei a caranga e lá estava ele, já na frente do portão, aguardando. Subimos, tomamos uma cerveja, carburamos os miolos e saímos feito cachorro louco. Caldabranca estava eufórico e berrante como quase sempre; eu estava tímido como um bebê perto de estranhos.  Recebemos as coordenadas de um distinto cavalheiro, necessárias devido à demência que não me deixava lembrar onde o bar ficava.

No caminho, fui explicando que o referido bar tinha um lance intimista, atemporal e lindamente tosco, um charme especial, possivelmente representado pela letra K de batismo. Por algum motivo ridículo, fiquei pensando que a eloquência verbal de Jorge Caldabranca pudesse ser um problema para os músicos ou clientes. Pura frescura, mas não sei bem se foi esse papo que ajudou a assustar meu amigo.

Primeiro ele veio gralhando “cara, essa parte da cidade eu chamo de B, eu pertenço à A e é lá que me sinto seguro”; e essa classificação ordinária, de lado A e lado B, era definida por uma rua, meio famosinha na cidade pelos vermelhões e chorões, chamada Visconde de Nácar.

Insisti para entrarmos e que o bar era assim, sempre parecia vazio e fechado, mas que por trás daquela porta, haveria calor etílico, gente interessante, música boa, uma decoração de décadas e décadas, desde o tempo em que Leminkis e Trevisans pediam doses duplas, e a poesia e a prosa ainda caminhavam juntas. Mas, de alguma maneira, toda aquela paranoia “e claraboia” do Jorge haviam me contaminado, e agora eu já não estava mais seguro se que eu queria entrar também.

Estáticos e com as caras lavadas de medo, ficamos do outro lado da rua, observando a fachada decadente do lugar e esperando que alguém entrasse ou saísse dali para, quem sabe, nos encorajar a entrar. Não aconteceu. Quando vi, Caldabranca já estava caminhando a passos grandes em direção ao “lado A”, rumo ao pub estiloso do néon roqueiro e das figuras conhecidas.

Havia deixado lá uns quadros meus e, pra minha surpresa, logo na entrada, um grupo veio me perguntar como eu fazia aquelas artes e me dar uns tapinhas nas costas; algo que pra minha estima rasgada fez bem e até me fez esquecer a frustração de não ter visto as canções gaúchas e paraguaias no bar clássico do outro lado da Nácar.  Isso num dia em que tinha ido pra feira e pela trigésima vez não tinha vendido nada, mas estava contente por ter saído de lá no meio da tempestade e com um exemplar de um pau-brasil sangrento que serviria perfeitamente de banquinho pra casa dos sonhos. Maldita prefeitura que mandou os caras tirarem as árvores centenárias e saudáveis da praça ucraniana, e espero que o vizinho consiga a TV ou sei lá quem para ir lá denunciar mais um crime ambiental, como ele saiu dizendo que iria fazer. Mas o tronco estava lá, todo melado e antes que ele tivesse um fim ainda mais triste, coloquei-o no carro a duras penas, sob rajadas de vento e água e o peso da natureza que, mais uma vez, não tinha nada a ver com o progresso do homem branco idiota. O tronco era pesado pra caralho, mas agora ele está num lugar seguro e receberá um fim minimamente digno, servindo de assento para artistas e outros loucos de plantão.

Ficamos semi-invisíveis na mesa de fora, ao lado de uma mesa gigante com umas vinte pessoas, rostos desconhecidos, mais jovens e aparentemente normais. Bebemos em copos especiais e partimos vomitando experiências em terras italianas para o dono do bar e futuro papai. E a noite de quarta ainda seguiu, agora com um terceiro elemento, a musa do poeta e “youtuber on the road”, a querida Simonetta.  Tentamos os bares da região, mas a música verdadeira e a alma desses becos já haviam se esvaído e restava o consolo dos banquinhos azuis e bem cuidados do SESC da esquina. Caldabranca e Simonetta compartilhavam um charuto cubano enquanto trocavam algumas farpas intercontinentais. “Você acha que o meu trabalho é só curtição?”, indagava Simonetta. “Trabalho pra satisfazer o narcisismo de uma pessoa e não ganho tão bem assim pra isso”. “Baby, trabalhe comigo, viajando on the road que será só curtição e você ainda ganhará os mesmos trocados”.

Viver o sonho do outro parece fácil. Difícil talvez seja ir atrás do seu e esperar que alguém te acompanhe na loucura. Caldabranca que o diga.

Simonetta saiu dizendo “na próxima vez, vamos para o lado B!”. Fim da história.

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