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Série “Taxistas Curitibanos” – Episódio #7: O Câncer dos Táxis

taxistas_curitibanosA revolução chegou. Não falo desse Brasil que caminha aceleradamente de forma regressiva, capitaneado por uma máfia de políticos abusados e cercados por falsos heróis, mas de uma revolução nos modelos de negócios, algo há ver com as mega corporações virtuais e com os investimentos do garoto problemático da série sobre os anos 70, e que hoje estampa a capa da revista sobre gente “bem sucedida que fatura milhões ou bilhões” investindo em redes sociais altamente lucrativas. Nessa revolução social, hotéis e táxis se tornarão obsoletos, artigos de luxo pra gente desligada que prefere a invisibilidade destes espaços, sem se preocupar com seus bolsos. Uma revolução que tem provocado constantes torcidas de nariz de seres gananciosos, preocupados com seus umbigos perfumados e que costumam clamar pela “família” em seus discursos de araque. “A burguesia fede, mas tem dinheiro pra comprar perfume”, já diria o gênio Falcão.

E eis que sob esse cenário pós-contemporâneo ou qualquer outra coisa que você queira chamar, escuto o sinal do celular me avisando que o motorista está próximo. Lucas, em um honda fit, de placa xxx, me recebe cordialmente, perguntando se a temperatura “aí atrás está agradável” e se eu teria alguma rádio “de minha preferência”. Respondi que curtia a educativa ou a lúmen, mas que não lembrava das estações. “Mundo Livre tá bom pra ti?. Sim, claro, também acho bacana, respondi. “Aceita uma água ou uma balinha? É só pegar!”.

Na sequência, o jovem e simpático motorista me informa sobre um protesto do MST que está “atravancando a visconde”. Sentado em um banco de couro preto, Lucas pergunta o que acho sobre isso ou sobre esses caras que ocupam terras por aí. Digo que quando é necessário um helicóptero para mensurar o tamanho de uma fazenda e que quando se constata que boa parte dessa terra está improdutiva, talvez isso seja pelo menos algo pra gente pensar. Ou talvez isso seja mais um pensamento esquerdista de hipster sem nenhum conhecimento de causa. Logo, Lucas procurou desviar o assunto, sempre com bom humor: “Política e religião a gente não discute, né?. Falo que é só triste quando o indivíduo nasce e morre com a mesma opinião e que era como a manjada canção do Raul já dizia: “eu prefiro ser uma metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião sobre tudo˜.

“Ah, você curte Raul Seixas? Minha mulher é fã dele, inclusive ainda devo ter um CD no carro,… saca só!”. E assim, compartilhamos o nobre raulzito no conforto de seu honda fit, modelo de no máximo quatro anos – de acordo com as exigências da companhia fantasma responsável pela ira dos taxistas, ou deveria dizer, dos donos desses carros e das tais rádio-taxis, congeladas no tempo. “Essas empresas precisam se atualizar, ao invés de culpar a gente, que só está trabalhando e tentando se virar como pode nessa crise aí”, arrematou Lucas, enquanto em seu som Raul cantava sobre a lucidez dos loucos. “Em breve colocarei bluetooth nesse aparelho, pra você poder tocar a sua playlist favorita, só não esqueça de comentar no aplicativo que você teve uma trilha sonora personalizada!”, comentava aos risos o novo motorista da cidade esverdeada.

E tudo isso pela metade do preço dos táxis e sem a necessidade de dinheiro (ainda que isso possa representar um problema depois). Pois é, estou vendo que precisarei mudar o nome dessa série. Viva a revolução e que venham as próximas. Adeus carros laranjas, o mundo precisa de todas as cores.

*sem revisão

 

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