contos

Colômbia e Outras Doideiras

pace_peligroE lá estava ele, com sua mochila 5 anos mais velha e de novo na cidade da eterna primavera, a encantadora e confundida Medellin. Mas antes, ele precisou passar por uma série de truculências, algo que ver com identidades perdidas, documentos do arco da velha, passaportes de emergência e algumas centenas de reais a mais. Seu regresso à capital das flores e dos natais fora como a sua antiga viagem, sem planos ou compromissos premeditados. Previamente ele já havia passado por Bogotá, Cartagena e Santa Marta, e seu único intuito até então era reencontrar a holandesa de seu passado, mas foi no caminho entre Cartagena e Santa Marta que ele conheceu a futura mulher de seus sonhos.

A conversa foi ininterrupta e logo Pedro José percebeu que seu coração remendado estava novamente pulsando em ritmo frenético, como uma típica salsa colombiana, daquelas onde o suor encharca a pele e apesar das dezenas de dançarinos ao seu redor, a pista parece ser só sua e dela. Maria era seu nome.

Demorou alguns flashes de segundos para Pedro José entender o significado mágico que fez com que ele precisasse passar por tantas linhas tortas para chegar naquele sagrado espaço-tempo, ou mais precisamente naquela estrada costeira ligando duas cidades caribenhas; e essa van só existiu devido a incompetência da empresa aérea, em tempos mórbidos onde a aparente falta de combustível havia feito dezenas de vítimas justamente no dia em que Pedro estaria embarcando. Medellin estaria novamente nos noticiários, não mais pelo famoso Pablo, mas por uma tragédia aéreo-futebolística de dimensões intercontinentais.

Pedro não tinha muito a ver com essa história e talvez o máximo que ele pudesse informar sobre sua missão humanitária de proporções microcósmicas, era que a razão por detrás do pretexto de revisitar o país de outrora, talvez fosse mesmo encontrar a mulher dos seus futuros sonhos.

Ainda que esse filme latino não possua uma data oficial de lançamento, sua sinopse começou a ser escrita 5 anos atrás, pelas mãos de um jovem trintão de saco cheio com o emprego estável, os amores fracassados e um coração que precisava ser operado. A storyline diria algo assim: “Maria parece entediada com sua relação duradoura e cada vez mais fria. Pedro só quer ser feliz sozinho ou ao lado de alguém que não o pressione, seja no Brasil, na Colômbia ou mesmo em Cuba. Será a distância o velho empecilho?”.

Bogotá continua efervescente com seus bares na Candelaria, seus malandros aclimatados com a altitude, oferecendo erva e a “caspa do diabo” a preços tão convidativos capazes de converter europeus em Maradonas em questão de horas. Nas vielas a arte de rua pulsa vibrante como as curvas de Botero ou o fantástico realismo de Marques. Gringos are everywhere, e para isso um batalhão de policiais fluorescentes garantirão a falsa segurança que todos buscam. Nas calles é possível encontrar fatias de pizza por 80 centavos, arepas de choclo con quesito e mais um milhão de buñuelos quentinhos, para acompanhar a avena caseira ou o guarapo, tudo barateza. Na noite é melhor se esquentar com o canelazo, a aguardiente com gosto de anis ou o rum típico daquelas bandas.

A costa segue respirando reggaeton e é bem possível que você encontrará em uma buseta algum rapaz munido de uma caixa sonora presa ao seu corpo, cantando os últimos sucessos desse gênero popular que tomou conta da América Latina. O funk carioca está para o Brasil assim como o reggaeton está para o restante do continente, e isso ninguém mais discute.

Porém a verdadeira paixão de Pedro José reside em Medellin. Foi lá que ele passou dois meses de sua vida mochileira, por entre bares subterrâneos de salsa, esculturas obesas, varetos intermináveis, suspensas linhas de metrô e uma porção de paisas gente boa pra caralho. Para ele, Medellin continuava brilhando e talvez mais do que nunca, já que as luzes naturais deste vale haviam recebido um tremendo reforço, com o objetivo de iluminar o natal mais colorido daquele país.

A estrada até a Colômbia é longa, tortuosa e cheia de paramilitares e paralelepípedos, mas tenho certeza que isso não impedirá Pedro José de seguir sonhando. E ainda que essa história soe como mais um conto infanto-juvenil no meio de uma época obscura onde diplomatas são assassinados em galerias de arte e caminhões atropelam e matam uma dúzia de compradores.

 

Que venha o natal e um 2017 menos catastrófico, se possível.

 

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