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Fragmentos de uma noite doce

pace_luaA noite aterrissou em minha cabeça em estilo pouso forçado, sem avisos luminosos ou máscaras de oxigênio. Era sexta, a lua estava cheia e apesar do anúncio dos astrólogos, ninguém estava preparado para aquela avalanche de sentimentos e piruetas potencializadas por agentes químicos interestelares. “O calendário resumiu-se a quase um mês”, culpa do garoto maroto com sono.

Pra mim, a noite era de despedidas, as argentinas retornariam finalmente para seu país de origem, após um mês de viagens não programadas, iniciadas na rodoviária mais caótica da América do Sul. Um caminho torto envolvendo cataratas avassaladoras, ilhas desertas sem proteção solar, romances estranhos e uma porção de dias na casa dos malucos, na cidade do poeta maldito mais pop do Brasil.  

Na casa o clima era de festa, daquelas improvisadas, sem convidados especiais ou atrações confirmadas, apenas cervejas, violões e os loucos de sempre: verdadeiras espécies em extinção, abelhas e sabiás de terras desconhecidas. Volumosas risadas nos guiaram em direção à natureza mais próxima, uma espécie de universidade às avessas, sem professores ou alunos, apenas mato, bichos, um lago e uma pedreira nos protegendo dos ventos gélidos e das energias pesadas oriundas da capital.

No palco principal a atriz, mais bela e ancestral que se tem notícia, protagonizava o show espacial, com a ajuda de um coro de figurantes esfumaçados que insistiam em transitar na sua frente. Na Terra o pré-carnaval da trupe beltrâmica rolava na beira da lagoa escura distante do abaeté, e próxima dos adolescentes embebedados por catuaba e pelo velho som eletrônico das antigas raves. Enquanto isso, na roda fervística, homenageávamos o mestre Caetano e suas transas revisitadas: pérolas históricas das canções populares eternizadas em nossos corações, vagabundos desde sempre.

Tamanha beleza só poderia ser contraposta pelos rostos derretidos dos meus amigos. Sem eles a viagem seria em vão e não passaria de uma mera egotrip por mares já navegados.

Na volta lá pelas cinco da matina, o choque abrupto com uma imensa muralha de realidade: nosso amigo e novo residente da casa havia tentado se matar de uma maneira pouco criativa. Com a cabeça cheia de boletas e biritas e com uma depressão aguda nas costas, Nardo se viu no fundo de um corredor de desesperanças, pronto para desistir. Felizmente seus amigos – quatro especificamente que ficaram na casa e mais um que também ficou na casa, mas que por motivos explicáveis não poderia ajudar muito – esses quatro anjos disfarçados de malucos promoveram o resgate de Nardo, com o auxílio de mais três números de telefone e um casal de enfermeiros buena onda.

Nos segundos anteriores às primeiras horas merecidas de sono, quando a cuca tenta compreender o incompreensível, realizando suas bilhões de conexões e cálculos matemáticos sem lógica aparente, talvez nesses breves segundos de lucidez em que a mente por fim para de mentir, refaço os traços da noite e acordo com um desenho de Dali sendo levado pelo vento do esquecimento. E antes que ele fuja pela janela, me esforço para prendê-lo nessa jaula de memórias proibidas, chamada crônica.

 

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2 comentários sobre “Fragmentos de uma noite doce

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