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Di Melo Di Graça

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É infinitamente tarde na noite, mas perdi a noção do tempo em algum bolso furado dessa consciência supostamente expandida. Meus amigos se transformaram em estranhos parceiros do mangue da balada mais VIP que tenho notícia. Graças ao show improvisado no bar do velho Tatara, os garotos descolaram três entradas para ver a lenda Di Melo, acompanhado por um punhado de talentosos rapazes frutados. E foi dessas surpresas agradáveis presenteadas pelo universo que eu, Moska, Blake e João partimos rumo ao bairro dos granfinos, para o show do astro setentista ressuscitado, atração confirmada no Psicodália e pronto para kilarear a noite toda.

O cenário estava armado, direção de arte impecável a julgar pelas 500 garrafas de vinho quebradas e personalizadas para iluminar mais essa noite perfeita de uma Curitiba “cool”, e para seriado americano nenhum botar defeito. Os figurantes também estavam lá: esbeltos seguranças engravatados, meninos garçons tentando ampliar contatos, sócios descolados, donos de startups bem sucedidas e com ações na bolsa, simpáticos cachorros com nomes iguais ao do bar, e mais um tsunami de mulheres agraciadas por genes sem defeitos ou talvez um punhado de dinheiro herdado dos pais. Mulheres elegantes, charmosas e sensuais, anos-luz de distância desses quatros homens esfarrapados e deslumbrados apenas por estarem ali, dividindo o mesmo espaço.

Em um determinado momento uma loira, dessas “de televisão” me abordou para pedir fogo. Logo ela me perguntou se eu era cantor ou tinha alguma banda, pois segundo ela eu tinha a cara de um cantor experiente que ela achava que já tinha visto por aí. E esse foi o único contato da noite inteira, praticamente uma ligação falhada entre dois planetas. Blake que estava junto comigo na hora riu e me parabenizou pelo elogio indireto. Enquanto isso, Moska e sua ingênua camisa florida dançavam alegremente na frente do palco ao som do maroto trombone. E João enxugava cervejas artesanais como se fossem brahmas em promoção em algum carnaval de rua. Lisérgicos, nos sentíamos unidos por talvez sermos os únicos penetras na festa fechada mais fechada desse canto. E o melhor ainda estava por vir.

“A vida em seus métodos pede calma”, mas é difícil manter a tranquilidade quando de repente o monstro soul recifense aparece do seu lado, o cumprimenta e em seguida sobe no palco de pallets para cantar e encantar todos aqueles coraçõezinhos, que neste momento, não possuem rótulos ou etiquetas de marcas caras, apenas coexistem, pulsando forte a cada acorde, especialmente aqueles originados pelos metais. “E se o mundo acabasse em mel” e se Di Melo participasse da trilha apocalíptica seria mesmo uma delícia. Tenho certeza que muita gente como eu morreria feliz.

Após o show que passou na velocidade de uma estrela cadente, o astro da noite ainda provou ser também o rei do mangue, lembrando todos da sua situação totalmente independente e convidando o público para comprar seus discos e camisetas na lojinha da casa. E foi um pouco depois desse momento que João aproveitou para dar uma tietagem básica e ainda descolar uma pizza oferecida pelo próprio Di Melo. Moska roubou uma foto com ele, enquanto uma cocota tirou sarro de sua roupa, alegando que a mesma havia custado apenas três reais. Moska respondeu com a finesse de sempre “pelo menos eu estou aqui pelo meu talento e você está apenas por sua bunda”. Também sofri um pequeno bullying com características xenofóbicas quando fui chamado de “primo de Goiás” por outro playboy presente, mas deixei quieto.

Minutos se passaram e quando me dei conta grande parte do público havia se esvaído. Era o fim daquela noite e agora o que restava eram os primeiros cantos dos passarinhos de mais uma manhã curitibana. O mel havia secado, “deu pane no nervo do cérebro” e a única coisa que podia nos consolar naquele momento, além dos pães de queijo e do café que tomamos na padaria da esquina, era uma boa e velha… Cama.  

 

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