contos, pseudojornalismo

Crônicas de Nácar #02: Baseado em Contos Surreais

pace_bolso

A história que contarei não aconteceu exatamente na rua em questão, mas nas redondezas, bem no centro histórico da chamada República de Curitiba, nomezinho feio que inventaram recentemente, para descrever essa província pseudo européia localizada no sul do Brasil – um país bem diferente do que vemos por aqui.

Era mais ou menos umas onze e meia da noite, quando meus amigos decidiram lanchar no copo sujo, uma lanchonete 24h com coxinha de 1 real e uma série de personagens notívagos um tanto curiosos. Cumprida essa missão, Ed, Renata, Fernando e Nina, decidiram celebrar a saciedade de seus estômagos, e fumar unzinho bem na frente de um famoso restaurante, que em inglês, algo típico dessa republiqueta, diz pra gente que eles tem “o melhor hambúrguer do mundo”. Egocentrismos a parte, meus amigos estavam lá, cantando All You Need Is Love, no melhor astral que uma capital fria pode oferecer. Nina coloca o baseadinho na boca e de repente o cenário muda de figura: um camburão da polícia militar encosta e logo saem cinco homens com escopetas e expressões faciais de puro ódio. Chegam brincando e dizendo coisas do tipo “rodaram, rodaram, seus filhos da puta, maconheiros de merda, podem encostar na parede”.

Apesar das duas meninas e de serem cinco homens na abordagem, eles foram revistando os meus quatro amigos, ao som de xingamentos e esculachos, infelizmente típicos dessa polícia brasileira. Durante esse processo tosco, Fernando levou uma cacetada nos testículos, e quando esboçou uma reação perante uma das maiores crueldades que um homem pode passar, o policial pergunta “que que você tá se contorcendo aí viado?”. Fernando apenas explicou com seu sotaque nordestino inconfundível “você bateu nos meus ovos!”.

Nina, uma garota que esbanja alegria no viver, e não deve passar dos 50 quilos, também sofreu preconceito, talvez por ser negra, ou pelo fato de ter nascido no Rio de Janeiro. “Ah, você é uma carioca folgada. Volta lá pra sua terrinha de merda”. Renata, que veio de Londrina, mas que naquele momento bizarro resolveu dizer que era daqui e que morava no Pilarzinho, foi prontamente humilhada em um sentido reverso. “Ah, você veio de um bairro bom, o que a senhorita está fazendo com esses vagabundos: negros, nordestinos e bandidos por natureza?”. Só aí esses tais homens da lei cometeram pelo menos três tipos de crimes, crimes que a sociedade costuma ignorar, afinal, eles só estão cumprindo a lei“, algo a ver com os costumeiros “homens de bem” típicos desses cantos.

Ed, um dos maiores talentos musicais que conheci nos últimos anos, foi o único que decidiu rebater algumas das atrocidades ditas por esses cinco homens, sem rostos e sem um pingo de bom senso ou respeito, cinco homens que pensam que a farda possui alguma mágica especial que faz deles superiores a qualquer outro cidadão. Ed também é negro, tem um cabelo black power invejável e veio do interior de São Paulo. De cara ele afirmou pacificamente “sou maconheiro sim, mas sou trabalhador, trabalhei o dia todo e agora vocês querem me prender porque estou fumando um baseado com meus amigos?”.

Por motivos incompreensíveis esses cinco homens com escopetas algemaram Ed e o colocaram no camburão, enquanto meu amigo tentava explicar que o país estava uma merda justamente por essa hipocrisia. Com claustrofobia, Ed tentou meditar dentro daquele pequeno espaço escuro destinado a verdadeiros bandidos: assassinos, estupradores e quem sabe alguns políticos também. Mas sua meditação era sempre interrompida pelo policial baixinho com algum problema sério de auto estima, que seguia xingando e esculachando meu pobre amigo.

Resumo de mais uma das milhares de histórias que se repetem na cidade onde “a lei funciona e é pra todos, menos se você for do PSDB”: levaram Ed até o décimo segundo batalhão da polícia militar, há pelo menos dez quilômetros do centro, fizeram ele assinar um termo estúpido e ainda ouvir aquela mesma ladainha de sempre “pô, você tá me fazendo trabalhar nessas horas só por um baseado?”. Fale isso pros policiais que levaram meu amigo, os mesmos policiais que passaram por ele e gritavam “Bolsonaro 2018!!! Pra acabarmos com esses vagabundos todos, vocês têm que morrer!!”.

All You Need Is Love, pois esse ódio todo não te pertence. E por favor, na próxima vez, deixe meus amigos fumarem. Talvez vocês também precisem disso para acalmarem essa mente doentia e lavada a seco nesse quartel de onde vocês vieram.

Ed foi encontrado somente duas horas depois, em um bucólico posto de gasolina, tentando conseguir algum celular emprestado para chamar um uber, enquanto era mangueado por outro músico de rua.

 

 

 

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3 comentários sobre “Crônicas de Nácar #02: Baseado em Contos Surreais

  1. Meu nobre e dinâmico Igor.. faz tempo que não comento por aqui, mas o seu texto de hoje merece algumas observações, se você me permite:
    (1) O termo República de Curitiba foi inventado por um bandido aí que você conhece bem, mas que como outros da mesma laia, ainda está livre aprontando das suas, colocando a culpa na mulher falecida e louco pra voltar ao poder.
    (2) “famoso restaurante, que em inglês, algo típico dessa republiqueta”… por que esse ódio todo contra o inglês? Seria melhor e mais bacana se fosse em espanhol? Se tivesse um “La” ao invés de “The”?
    (3) Você, assim como eu, que é um cara rodado, sabe que não dá pra discutir com policial. Você sabe disso. Ainda mais se o cara estiver fumando maconha na rua, o que você e eu sabemos, AINDA é crime nessa porra de republiqueta… ops, do Brasil. Avise seus amigos pra 1º não fumar maconha na rua porque ainda é crime e 2º que se forem pegos em flagrante, pra não discutir com os tiras, pedir perdão pelo vacilo e não começar com ladainha comunista com os caras.
    (4) “algo a ver com os costumeiros “homens de bem” típicos desses cantos”… típico de onde, piá, aqui de Curitiba? Agora você deu pra fazer generalizações descabidas assim?
    (5) O Ed, se é quem eu penso que é, é de um puta talento mesmo. Mas fale pra ele o que eu disse aqui pra você: não faça merda, mas se for pego fazendo, fique quieto!
    (6) “menos se você for do PSDB”… nossa, velho, você tá muito paranoico mesmo… 😀

    É isso garoto, todo mundo precisa de mais amor, até você.

    1. Salve meu nobre amigo!
      Adorei ler seu comentário, apesar das divergências típicas de qualquer debate sadio sobre o tema. E olha que discutir política é bem difícil, virtualmente então, nem se fala. Mas vamos lá… Sinceramente, não me interessa muito saber onde o termo República de Curitiba foi criado, ele propõe uma separação da cidade, algo que serei eternamente contra, e o mesmo diria sobre O Sul é Meu País e outras abominações do gênero.
      Não tenho ódio contra usar palavras em inglês, apenas sinto que há sim um exagero de termos nesse idioma em locais elitistas como o citado acima. Desculpe, mas ódio é o que sinto desses policiais e demais simpatizantes de um Bolsonaro, por ex. O que talvez tenha parecido ódio pra ti, para mim é apenas ironia.
      Sim, concordo que não devemos responder policiais, especialmente esses trogloditas que normalmente aparecem por aí. Mas meu amigo não foi grosseiro ou comunista como vc mencionou, apenas tentou dialogar minimamente com esses senhores.
      E sobre o “menos se você for do PSDB”, foi apenas uma menção ao termo que vem sendo utilizado pelo jornalista Paulo Henrique Amorim, que pelo jeito vc deve pensar que tb é comunista.

      No mais, todo mundo precisa de amor mesmo, eu, você, e todos os demais seres deste e de outros planetas tb =))

  2. Justamente, discutir política ultimamente nesse país tem sido um deus-nos-acuda, então que deus-nos-livre de ter que lidar com isso 🙂
    Bem, seguindo a linha do ponto a ponto:
    1. Ok, República de Curitiba foi criado por aquele “de quem não falamos” justamente para desprezar a cidade e criar essa divisão. Não te interessa saber quem criou, mas eu acho que você sabe quem é o cara. Mas enfim, dane-se ele.
    2. Sobre a polícia, você tá ligado aquele nosso amigo oriental… por sinal, fiquei sabendo que ele rodou outra vez. E isso que ele é um cara “das elite”. Imagine pra você, pra mim, pro Ed. Nâo há diálogo quando se é pego em flagrante delito.
    3. Grande Amorin. Não, não penso que ele seja comunista. Mas acho que o Aécio do pó não concordaria muito com essa expressão aí… 🙂

    No mais, tô em Maringá agora. Mas um dia quando voltar pra República de Curitiba, vou aí te visitar. Abraços e amor!

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