contos, pseudojornalismo

Crônicas de Nácar #03: Amolecendo a Ditadura

pace_buskers

Ton é talvez o garoto mais puro que conheci nesses últimos anos. Dono de uma risada inconfundível, estridente e potente, comparável com a Fafá de Belém, o Bira ou qualquer outro conhecido que costumamos encontrar em esquinas e casas malucas por aí. Novamente não presenciei o acontecido, mas ontem no telefone fixo Ed me contou o que rolou e só pude agradecer novamente ao universo e a tal natureza descrita pelo alien viajante no tempo que revi pela quarta vez na máquina vermelha maior do mundo.

Ton é músico de rua e costuma tocar sopros invisíveis com sua guitarra enferrujada, ao lado de seus parceiros de mangue: Jordi e Fred. Juntos eles formam um power trio instrumental bem doido, consumidores de néctar e daqueles fazem você tirar o chapéu, e depois encher o chapéu deles, contribuindo pela arte de rua em uma cidade dominada por seres grotescos que ainda não enxergaram o verdadeiro valor deste tipo de apresentação. E foi justamente durante uma apresentação deste grupo, em plena Praça Ozório – berço da malandragem curitibana e também de lindas feiras cheias de artesanato e apetitosos rangos; foi nesse local aparentemente ordinário que policiais interromperam o show da banda de Ton, com a velha premissa de “quero ver a autorização de vocês, pois pra tocar e alegrar os transeuntes necessitamos de papéis!”. Jordi que havia descolado o tal documento junto a Fundação, outro órgão que já teve dias melhores, mas que como toda célula burocrática de um sistema antiquado e capenga, sofrerá baixas naturais.

Dedicarei um punhado de palavras para descrever algumas das atrocidades dessas supostas autoridades de uma “Coolritiba” que parece legal nos cartazes, mas que esconde sujeira e muco para todos os lados, deixando seus moradores doentes, com a garganta fodida e uma voz rouca e falha, cansada de já não possuir valor especialmente quando lidamos com humanóides que têm o poder na forma de uma arma na cintura. Alguns destes absurdos já foram retratados nesse mesmo blog pseudo hipster de valor duvidoso.

Primeiramente, fora… Piadas desbotadas à parte, esses mesmos policiais que pediram o alvará para o trio em questão, sabiam que eles estavam “legais”, pois já haviam pedido o famigerado documento em outros momentos. Jordi que havia esquecido o papel na Casa de Nácar, algo típico de artistas e demais portadores de DDA, correu para poder depois esfregar na cara da sociedade que eles estavam dentro da lei, e assim, poderiam seguir seu show, esquentando corações em processo de congelamento favorecido pelas últimas mudanças climáticas. Porém esse papel não foi encontrado, e restou para Jordi pedir desculpas aos seus comparsas, afinal, estamos falando de bandidos que escolheram a música como forma de sustento.

No outro dia os tiras tiveram a cara de pau de pedir para uma mulher de aparência humilde e que sempre prestigia as bandas de Nácar, lançando sorrisos e moedas que consegue com a venda de balas infantis. Essa mesma mulher, que na ocasião estava com um bebê no colo, foi pedida para ser revistada, em plena praça pública. Tiraram seu filho, enquanto uma policial feminina com o instinto materno adormecido revistava cada parte do corpo da mulher, incluindo peitos e língua, em um claro sinal de humilhação. E não, esses tiras mal intencionados não encontraram nenhuma droga ou arma em seu corpo. Ed que tocava com seus amigos decidiu se manifestar do jeitinho que esses tiras de araque gostam de ouvir: “Hey, vocês não fizeram nada com aquele bêbado que não deixou a gente fazer nosso show e aí vocês revistam uma mãe com criança de colo? Em que mundo vocês vivem?”. E é óbvio que quando a autoridade e o trabalho deles é questionado publicamente, essa mesma classe se junta para justificar qualquer tipo de tosquice que eles estejam fazendo. “O que? Você tá querendo nos dizer como devemos fazer o NOSSO trabalho? Você vai querer nos humilhar em público?”. “Não meu senhor, desculpe pela maneira que falei,… Como vou discutir com alguém armado? Viver em um estado fascista é foda, mas ainda sinto amor e quero seguir vivo.”

“O Mal acha que faz mal” é a célebre frase repetida todos os dias pelo mestre argentino Tijuan. E foi assim, depois dessa sequência de bizarrices envolvendo fardas e papéis, que diversos músicos de Nácar, se reuniram em frente ao famoso bar hippie-good-vibes para insistir naquilo que eles acreditavam ser o correto: arte de rua jamais será um crime. E tocaram. Tocaram um pouco mais. Tocaram transbordando emoção e groove, e logo uma multidão se aglomerou em volta deles. Mas o xerife Mr. Garrett continuava insatisfeito, mandando uma viatura parar o show, exatamente as 8 e meia da noite de um domingo.

Ton, o menino dos olhos brilhantes, somatizou toda a dor e a tristeza daqueles companheiros de trabalho, músicos honestos “sem frescura”, e simplesmente desabou, derramando baldes de lágrimas. Ed que já havia enfrentado problemas com a lei recentemente e estava trabalhando essa energia dentro de si, olhou nos olhos do policial e disse, em tom sereno: “O meu amigo ali está chorando porque vocês não estão deixando a gente fazer nosso trabalho, só queremos tocar.”

E eis que a esperança em um mundo melhor surge do céu sob purpurinas e o policial demonstra compreender a situação explanada, movimentando positivamente sua cabeça e enchendo seus olhos de lágrima: “Podem tocar, a gente sai, tá tudo bem.”

Muito se fala hoje em dia: tememos um presidente ilegítimo, tememos mais ainda um presidente fascista que promete acabar com as esperanças de um povo sofrido e corrompido, mas que ainda sabe o valor da criatividade e da união em momentos de crise.

E se algum dia a tal revolução não televisionada acontecer de fato, ela será pelo coração e jamais pela mente, como nos acostumamos a pensar. E viva esse idioma que nos permite ter lições espirituais: “A mente mente” e o “O presente é um presente”. Pois sabemos que o amor é muito maior que qualquer arma inventada em impressoras 3D.

 

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