arte, contos, idéias

Crônicas de Nácar #05: Tiras, Números e as Velhas Camadas

pace_universoholografico

Choveu mais uma vez em Curitiba. Choveu a chuva que os curitibanos mais otimistas estavam anunciando há anos. Choveu, choveu, choveu canivetes como diria o amigo gralha, choveu palavras e gritos e fardas e lágrimas. Lágrimas de injustiça, lágrimas de tristeza por sentir que estamos mais perto do fim. E antes que eu soe demasiado fatalista, sigo sonhando com a compreensão mútua. Quero falar sobre esse fim que nunca acaba, apenas recomeça, se repete e depois termina como mais um texto prolixo com algumas conexões mais ou menos interessantes e outras tantas que ninguém vai entender. Entender o outro? Como entender o outro sem estar em uma insólita micro nave instalada em seus neurônios? Você nasceu assim, teve uma família que te criou, ou não, teve suas escolinhas, seu trabalho, seu país, seu signo e tantas outras camadas ilusórias desse umbigo e dessa palavra feia chamada ego. Por qualquer motivo você nasceu nessa época e por mais que você pense diferente, que sua alma é francesa dos anos 20 ou maia de 2000 anos atrás, você nasceu assim e jamais outra pessoa vai sentir ou ver as coisas do seu modo. Nem mesmo sua irmã gêmea criada na mesma caixinha. Supor, imaginar ou compreender contextualmente questões ou tretas alheias é outro papo.

Em Nácar, tudo azul para mais uma encontro lunático pós eclipse. Jordi Miami Vice me acompanhou ao mercado, na missão dos gelos e dos vinhos promocionais. Enchemos o carrinho e quando estávamos semi parados na fila do caixa invisível, um senhor com a braguilha aberta e com a expressão típica de urina eminente, nos pede licença. Prontamente engatamos a marcha ré, dando passe livre para o senhor acessar o banheiro que resolveria sua necessidade extrema. Retornamos lentamente para o outro lado da linha que separa os caixas da saída do mercado que não nos ama. Nesse instante, Jordi comenta “se a gente saísse direto sem pagar ninguém iria ver”. Pensei como sempre pensei em ocasiões semelhantes, auxiliado pelos capricórnios unicórnios em busca de mares navegáveis. “Não quero terminar a noite em uma delegacia˜, e em seguida cantarolei Temptation, da espera de Tom, enquanto o cabeludo Jordi concluía a dura tarefa de encontrar a menor fila do pedaço.

Passamos os gelos, os gluglus e os vinhos, que foram diretamente armazenados em uma caixa de papelão, com divisórias próprias para esse fim. Foi quando a garota no caixa parou e disse que precisávamos colocar etiquetas de “OK” em todas as garrafas, causando frustração para Jordi e eu, uma vez que a fila estava longa e as pessoas poderiam perder a paciência. Mais mente, mente, mind, suposições. Perguntamos se a nota fiscal não seria o suficiente, em outra suposta abordagem do segurança. “Preciso consultar minha supervisora”, que curiosamente já estava resolvendo outro enrosco para a colega. Nesse momento percebi: “A máquina da estupidez precisa seguir funcionando e assim, ninguém mais precisa pensar em suas ações, apenas seguir as regras que outros seres menores criaram. Afinal as regras vêm antes do bom senso, né não?”. Percebi também que a indignação do companheiro (só pra continuar provocando os politiks da banda mais fria da cidade, cheios de tiques e pra quebrar minha própria regra de não usar parênteses e agora dos professores que me ensinaram a não esticar muito essas curvas). Ajudei a moça-caixa colocando os adesivos errados nas garrafas corretas – o vinho continua sagrado e não seria ele o responsável por mais uma babaquice inventada por seres humanos ocupados em produzir separações e tristezas como aquelas já citadas, provocadas por esse bolo com fermento demais, receita da família, da cultura e por “La Sociedad”, exatamente como o nome de outra banda rabiscada em algumas das milhares de folhas brancas da cabeça explosiva dos freakie friends.

Aos poucos tudo ficará no seu devido lugar, e eu, o ladrão de versos desconhecidos e populares em outros campos, também regressarei ao começo, ao infinito e silencioso nothing, um lugarzinho bem confortável onde opiniões, regras, preconceitos e mágoas serão pontos opacos há anos-luz de distância, em um planetinha azulzinho, bem triste e injusto, mas com uma beleza infinita, bem como esse Eu maior e maiúsculo que temos dificuldade de sacar em tempos modernos pós junguianos, imbuídos de estímulos e distrações, lindas e horríveis, meras miragens holográficas de Talbot. Reveja o show de Truman and you will know the truth, leia o livro do Tim branco, ou escute o argento Tim ecoar os ensinamentos de seu mestre paulista.

“Não sei o que você anda lendo por aí”, ressoa una vez más o discurso evangélico de outrora e propagado de outras formas por falsos iluminados, extremistas veganos e onívoros, feministas e machistas, azuis e vermelhos, ingleses e alemães, metaleiros e pagodeiros, e todos esses seres que acreditam em algum cambio de consciência com tacos de bets ou beisebol nas mãos e a manipulável ciência-doutrina na outra, e esquecem de perceber que mudar de lado e seguir odiando o oposto é a brincadeira preferida dos adultos. Let the children play ou “deixe as crianças sozinhas”, pois professores como esses nós não precisamos mais, diria “Pink e o Cérebro” na tentativa de dominar o mundo pela maneira mais ilógica do horizonte: el amor después del amor, o amor mais que perfeito, o amor de roma, o amor em páli dos maravilhosos palíndromos reverenciados pelas caudas brancas do parceiro de rua.

E se o objetivo de outro enfadonho cursinho pré-qualquer-coisa que nunca fiz (graças a papai e mamãe por me poupar dessa também), ou quem sabe com todas essas regras eu conseguisse ser melhor compreendido, ainda que a sina de qualquer artista seja a escuridão e assim, se sentir um rei do rock ou do mambo, mais especialzinho e menos retardado, porém eternamente triste por estar só.

Finalize essa história de uma vez, seu garoto mimado! Tentarei antes que a bateria da maçã mordida se esvaia, e outra tentação reinicie outro conto sobre malandros fakes ou verdadeiros. “Fumamos muita coisa por aí e até ficamos todos reunidos em uma pessoa só” e assim, me tornei uma geleia de amendoim com açaí, em estilo buffet-brasil, misturando elementos demais e deixando todos confusos, os mamelucos e os cafuzos também e até os seis policiais que tocaram a campainha da casa recicladora de sonhos e fritadeira de mentes inquietas e humores swingados. E os outros cops que acabaram com os gritos de Fora T em plena praça pública, e mais aqueles que invadiram o barraco do mano da quebrada, empurraram sua namorada e depois o algemaram e o enfiaram em mais um camburão do governador playboy e que quase joguei uns amendoins nele quando o encontrei no aeroporto, meses após as bombas nos professores. Homens da lei na cidade do medo e no país dos bananas.

O “Escambau” que agora toca na vitrola mole do espelho preto me faz lembrar dos escambaus recorrentes e que quando as confusões se repetem demais, estamos “nos transformando e evoluindo, deixando algo pra trás” e hoje, depois de mais uma enxurrada necessária na montanha dos espelhos quebrados e dos símbolos falsos, araucárias e mais gralhas, hoje sinto a beleza dessas gotas batendo nos telhados baratos, e se “10% dos escombros eu escondi e nem sei como”, meu mapa do tesouro também teria um ou talvez quatro besouros, treze apóstolos que nunca li, magos e uma porção de vagabundos profetas, sábios sacanas, um pai-herói referência maior, uma mãe-amor conectora de destinos, dois grotescos vovôs deuses endiabrados e outras 69 lindas figuras femininas cheias de segredo e com nomes parecidos. Hoje choveu, choveu outras 1531 gotas de esperanza, do outro professorzinho, choveu gotas do artista sumido das gotas, choveu gostosas gotas de alguma liberdade que insiste em existir em um mundo cego dominado por zeros e uns. Hoje choveu, choveu sotaques e baques e bachs, choveu a gota mais preciosa, a gota do Om maior, a gota do abraço do amigo invisível. Choveu a gota de toda uma existência e que foi feita sob encomenda somente para… VOCÊ!

 

A felicidade fez mais um aniversário. Vamos dançar?

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