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Vagos Vagões Verdes

pace_vagoesverdesO feixe de luz que entra pela fresta da janela levemente aberta provoca um espetáculo visual, especialmente pela fumaça acumulada dos parceiros e habitantes do quarto da tríplice fronteira argentina-paranaguá-fortaleza. Ondas esfumaçadas em movimento constante assim como os pensamentos incessantes de quatro estranhos seres que por obra do destino, compartem o mesmo espaço tempo construído a duras penas por gente maluca que continua acreditando no sonho do artista. Correntes de fumaça com 500 tons de cinza, notas musicais imaginárias, quadros esboçados pela mente, palavras não ditas, novelas vividas, ziquiziras somadas com os pêlos brancos que brotam em peles queimadas pelo sol dos primeiros dias de outono. Dias arrastados e abafados e que provocam sono, um sono com lindos sonhos delirantes e muitas vezes, reconfortantes. Sinais aleatórios que apontam a direção? Equações existenciais não resolvidas, teoremas sem lógica, cartas fora do baralho, contas que não fecham, relacionamentos pixelados criadores de enormes pontos de interrogação. Interrupções amorosas, paixões abruptas tão redundantes como os seus redondos seios, a vida segmentada, por vezes celibatária, anárquica em essência e indefinível na realidade. Quem sabe os códigos binários castigados pela idade pudessem facilitar essa resolução? Assim como o velho novo Zé, é preciso confundir para se fazer entender, e nada melhor que aquelas ondas esfumaçadas provocadas por aquele feixe de luz para incitar essas torres neurais, capazes de conexões improváveis numa tentativa de comprovar a teoria de tudo, ou talvez aquela que diga basicamente que somos todos um: somos todos Mussum, e Mussolini também. E o caos? Até o caos estaria conectado? Johns e Manu Chaos juntos pelas mãos do universo.

Silêncios rotineiros, falsas previsões do tempo: desse tempo marcado por incertezas, montanhas russas emocionais, feministas ucranianas e novelas de papel: do papel enrolado por beckenbauers bebendo Jack Bauers, enquanto na vitrola microscópica e irreal o jazz eclode pelas previsões do tempo do tio Jordi. Na mente, os velhos subterfúgios de siempre, subterrâneos e saudosos blues, submarinos amarelos e vegetarianos, subversivos e desalinhados subtextos, subtrações linguísticas, submissas palavras sublinhadas nos subúrbios cerebrais e nos “artificiosos brejos da alma”. O subcomandante é convocado para assumir a bronca. O comandante de campo Cohen abandonou o jogo, mas eu continuarei te escutando muito tempo depois de você ter nos deixado, thanks for that tip man. Retratos antiquados e repaginados na lojinha dos curiosos.

Na beira do mato a paisagem é uma floresta com bonecas semióticas do vô Jards. Na beira do mato o calor é interno, os abraços são ternos e o vento parece eterno. A encantada fogueira também. No palco os saltos da trupe ordinária alegram as cabeças presentes nesse extraordinário recanto, enquanto na cozinha as esfihas celebravam as vidas não-sacrificadas. Memórias póstumas de outro fim de semana com o combo certeiro para hippies e hipsters de plantão: natureza e festival musical capazes de encher as esperanças em tempos sombrios. Vivemos o pesadelo político capitaneado por vampiros do poder, milicos travestidos de heróis e juízes narcisistas com biografias encomendadas. O cenário perfeito para discursos estúpidos para uma plateia de fantoches, sejam eles amarelos, vermelhos ou albinos com pintas azuis. O pensamento crítico ficou enclausurado em postagens repetidas nas redes sociais, organizadas por algoritmos retardados. O compartilhamento de informações agigantou-se com a tecnologia, mas esses malditos algoritmos estragam qualquer possibilidade de debate real, ainda que em meio virtual e com gente que teria vergonha de dizer certas coisas caso o papo fosse de fato real. E por que a insistência em escolhermos um lado se está cada vez mais claro que a maldade faz parte da condição humana e não será um perfil de feicebuque ou um partido político que livrará alguém de fazer merda? Wallace Coopers e Walkilmers parecem já saber disso. Necessitamos de métodos mais eficazes para combatermos essa so called corrupção. Algo que dispensasse humanóides broncos e mal intencionados. Talvez esses mesmos algoritmos, misturados com conhecimentos da inteligência artificial bem no estilo daquele espelho preto que tanto adoramos, pudessem de fato, nos ajudar nessa aparentemente impossível tarefa de apontar os verdadeiros vilões da história, de forma 100% segura. E se as dúvidas das urnas eletrônicas atrapalharem a evolução desse poderoso projeto, podemos ignorá-las ou usarmos essas polêmicas urnas como um exemplo para não ser seguido. Guidos Faraônicos e Gustavos Marcianos parecem não saber disso.  

Os vagões da mente seguem desconexos, rompendo limites e com a infindável missão de encontrar trilhos seguros que me levem para pueblos tranquilos, onde o bom senso possa reinar e me salvar do apocalipse iminente. E chega de ser do contra, “não quero torcer contra, quero torcer a favor de nós”, ainda que seja preciso desatar nós seculares para que esse Nós capital se desprenda dessas raízes terrestres que nos fazem cada vez mais insignificantes, e assim possamos perceber que essas raízes são de fato, celestes, e portanto, universais!  

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