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Blues e Delírios em Anto Nina

pace_bluesLá estavam eles, novamente no vilarejo charmoso e cheio de histórias pra contar. Antonina, ou a A Menina dos Olhos Rojos como havia sido batizada no ano passado, também estava lá, onipresente e pronta para outro evento blueseiro de proporções internacionais. Os pregadores do bom e velho blues também marcaram presença, de frente para a igreja matriz, convocando todos os anjos e demônios criados por esse estilo nascido nas fazendas de algodão. Escravos negros munidos de um talento nato, sorrateiros lamentos rompendo barreiras geográficas e sociais, e que ecoam até hoje pelos quatro cantos de um planeta em processo desconstrutivo, especialmente em becos populados por corações despedaçados e pulmões esfumaçados. São nesses becos que o blues sobrevive e certamente Antonina possui uma porção deles. Cenário perfeito para a explosão dos choros em forma de solos, protagonizados por guitarras em extinção, sinal dos tempos modernos. Cenário necessário para a construção da quarta edição do festival que precisou ser adiado por conta da greve dos caminhoneiros, sinal dos tempos sombrios permeados por políticos esquizofrênicos e presidentes ilegítimos. A Música, essa eterna companheira, segue pulsando e unindo mentes conflitantes, através dos corpos inquietos que vibram de acordo com o ritmo, ignorando posições políticas e ensinando que a música ou a arte não possui fronteiras. Elas estão no terraço blindado do prédio, enquanto as leis humanas moram centenas de andares abaixo, provavelmente no primeiro piso ainda sem janelas, onde os burocratas também costumam trabalhar e atrapalhar os planos daqueles que buscam a felicidade através do conhecimento interior.  

Lindos recuerdos de um fim de semana pra lá de especial. Nem tudo são flores quando a missão é fazer com que 25 planetas distintos orbitem em torno do mesmo objetivo. É nesse instante que começo a lembrar desses instantes inconstantes extremamente comuns e sempre carregados de significados: tetinhas e tretinhas, socos em monges índios, sumiços wallyanos, viagens marcianas em luas sorridentes, estridentes acordes azuis no festival dos horizontes, doces momentos sem tormentos, movimentos orquestrados por sinais visuais, raios e mais acordes de sol, deliciosos bobós de siri acariciadores de estômagos, vinhos produzidos por abelhas boêmias, jogos da copa das decepções, madrugadas embaladas por canções de jukebox, colchões esparramados na casa dos artistas, contundentes jams na avenida principal, místicas coreografias líquidas, improvisos musicais na oficina mecânica, saudades argentinas da filha finalmente livre, blues das antigas na padaria dos sonhos de nata da nata das bandas de um homem só, desfile de chapéus no restaurante dos sombreiros e dos mangues, titãs afundando como titanics, senhoras embebedadas por cataias sensualizando e bulinando plateias mais sérias, portuguesas sequestradoras de baixistas sentenciados, camarotes culturais de rádios am, irmãos roqueiros apavorando no blues gringo, gigantescos pastéis artesanais, obscuros encontros em fachadas históricas desmoronadas, rio e minas embelezando as brisas responsáveis por abastecer panças famintas, vagões e ornamentos carnavalescos emoldurando comboios emanadores de good grooves, o blues de chicago encontra o funk de Tim Maia, Elmore James Brown no palco principal, pioneiros do blues paranaense em reunion, criaturas do pântano animadoras de tardes ensolaradas, talentosos cabeludos obesos contadores de lorotas, pés vermelhos lançando discos em códigos digitais, paulistas interioranos viajantes do tempo em barracas de cachorro quente, símbolos e mais símbolos, êmbolos surreais que embolam na memória capenga e que agora se esforça para unir essa colcha de retalhos temperada pelo alho frito da frigideira das emoções livres de razões. Rimas dos amores, das dores e das loucuras oriundas desse blues cafetão capaz de penetrar almas opacas carentes de sentido.

E enquanto o mundo desaba diante desses nossos olhos rojos, talvez o melhor a fazer seja beber ao som do blues, assim como o cozinheiro verde havia dito na época em que esse festival permanecia no campo das ideias. Quatro anos se passaram e esse conselho parece ainda mais certo. Let the good times roll.

2 comentários sobre “Blues e Delírios em Anto Nina

  1. Texto tá excelente Igor. Bela síntese da música e da arte desconstruindo discussões. Explosão espontânea da arte no último blues no Bar Sombreiros quando voltamos por alguns minutos aos anos 20/30 num gueto que libertava-se!!!

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