arte, contos, pseudojornalismo

Crônica de Um Amigo Louco

caldabrancaJorge Caldabranca é um daqueles caras que a gente só conhece uma vez na vida. Quando penso em sua história, as luzes se apagam e imensos e coloridos pontos de interrogação feitos de papel cartão preenchem minha mente, gerando lacunas indecifráveis, capazes de enlouquecer o mais competente psicanalista que há no mercado. Ainda sim, farei esse esforço.

Como o Dylan da canção, ele também saiu de casa com 12 anos de idade, e assim como o personagem de Long Time Gone, sua mente ficou confusa desde então. Seus pais búlgaros o deixaram em um pedaço de terra chamado Caldabranca nos confins de São Paulo. O objetivo era chegar a Buenos Aires, e talvez o bebê estivesse atrapalhando seus planos. Foram sem ele e nunca mais voltaram.

Jorge Caldabranca viveu na rua, como andarilho, por alguns anos. Não foi mendigo e para evitar tal condição encontrava trabalhos temporários em troca de alguns trocados. Sempre foi esperto e, na primeira oportunidade, matriculou-se num curso do SENAC para aprender a ser garçom. Assalariado, pôde sair das ruas e se dedicar aos estudos. Formou-se em Letras e, de quebra, fez mestrado em Literatura só para poder realizar o sonho de garoto: ser escritor.

Foi professor universitário, escreveu cinco livros depois de ler mais de 1000. Boa parte das histórias que contou veio justamente das experiências vividas como andarilho ou mesmo depois, em subempregos que além de ajudarem nas contas no fim do mês, foram verdadeiros laboratórios sociais, capazes de produzir contos, poemas e romances sinceros e originais; sem as apelações dos escritores de classe média, enfurnados em apartamentos centrais. Suas referências literárias o auxiliam nessa função e, para isso, ele conta com a ajuda de Bukowskis, Kerouacs, Calvinos e uma porção de poetas malditos.

Não poderia ser diferente, conheci-o na rua, por entre retratos de artistas famosos e senhoras com suas sacolas cheias de verduras orgânicas. No segundo encontro, Caldabranca já estava munido de sua câmera de bolso, pronto para me entrevistar. Passamos longas tardes juntos, por entre nuvens esverdeadas e charros, contando causos e em devaneios febris, distantes de qualquer contato com a realidade – que a cada novo ano, se enche de tédio e caretice por todo lado.

Normalmente eu, que sempre fui taxado de prolixo e que sempre insisti em histórias longas, cheias de detalhes aparentemente insignificantes, ficava na maior parte do tempo em silêncio, ouvindo o que o velho Caldabranca tinha pra contar. Nem citarei a idade real do meu novo amigo Jorge, pois prefiro ficar com os “45” que ele mesmo disse que estava fazendo em seu último aniversário. Engraçado, logo 45, prum cara que sempre odiou e vomitou em cima da direita desse país. Sim, Caldabranca é petista de carteirinha, daqueles fanáticos mesmo, que continuam achando que o José Dirceu é mais um herói-vítima-do-sistema-que-ele-não-criou.

Politicagens à parte, Caldabranca se transformou em um personagem de si mesmo, construído a duras penas por um mundo que o cuspiu, o jogou na sarjeta e depois recebeu de volta, na mesma moeda. Seu nome de batismo pouco importa, Jorge Caldabranca ganhou o título honorário de Marquês, concedido por ele mesmo. Quer maior reconhecimento que esse? O de si próprio?

Inimigos de plantão e demais seres pré-históricos que preferem julgar antes de aceitar dirão que Caldabranca não passa do cara mais egocêntrico do planeta. E olha que esse título ele também não dispensa. Em um mundo infestado por falsos modestos e pseudo humildes, como meu outro amigo apontou, Caldabranca é a carta coringa do baralho e ainda que ele possua inúmeros defeitos, para mim ele tem algo inexorável, carente a 99% dos artistas que vemos por aí: autenticidade.

Sim, Caldabranca é, além de escritor, um artista “on the road”, como ele mesmo costuma enfatizar. Já foi ator e recitou sua poesia intitulada “Junkie” mais de 100 vezes em diversos palcos, porém principalmente no Madame Satã em SP. Já pintou um quadro com bolas de sinuca e pretende leiloá-lo em Paris por um milhão de dólares. Caldabranca também é cantor de blues e pretende viajar pelo Brasil com sua Big Band. Como se não bastasse, como roteirista ele pretende trabalhar em São Paulo, diretamente de sua suíte cinco estrelas para uma grande produtora nacional. Quando envelhecer verdadeiramente, morará em Montevidéu, ao lado de sua assistente, sua secretária e sua enfermeira particular. Mas antes, Caldabranca ainda viajará pela América do Sul com a grana do carro vendido e de tantos outros negócios oriundos de uma treta chamada OLX. Antes, Caldabranca também realizará o seu próprio festival de cinema “on the road”, diretamente do campus da USP, na Pauliceia Desvairada. Segundo ele, meus filmes de viagem estarão lá também, e tudo, tudo, não passa de… Metafísica!

E é justamente essa explosão de ideias, projetos e sonhos que fazem desse ser, ímpar, só pra ficar no clichê das palavras redundantes. Muita gente o colocaria no primeiro hospício, mas não poderia deixar de frisar seu senso de responsabilidade e zelo pela própria saúde, algo que faz a distância entre ele e seus possíveis colegas de instituição crescer consideravelmente. Para o senso comum, Caldabranca pode ser inoportuno e irremediavelmente expansivo, pode possuir o ego maior que o do John Lennon. Porém, para mim, ele não passa de um cara alegre, sincero, singular e que consegue aquilo que eu mais invejo em sua pessoa – a capacidade de ignorar a opinião dos outros – seguindo em sua felicidade plena, transbordando otimismo por cada célula de seu corpo ainda jovem, no melhor estilo “dança da realidade” que um tal de Jodorowsky explicou lá atrás, e em um mundo cheio de fakes, como ele próprio insiste em esbravejar por aí.

Caldabranca pode ser avistado na Boca Maldita ou por outras esquinas de Curitiba – a cidade que ele escolheu viver ao lado de Simonetta, sua amante italiana. Cabeludo, óculos escuros e sempre escutando Creedance e outros roques manjados no alto-falante de seu celular, Jorge Caldabranca, um zen-dudeísta de carterinha, exclamará: “pra toda essa gente sou e sempre serei um ghost”.

E só poderia terminar essa “crônica de um amigo louco”, citando outro ídolo maluco conhecido pela alcunha mutante de Arnaldo Baptista… Te amo, podes crer!

 

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Exposição “Sangue Sulamericano” por Igor Moura, no Museu Guido Viaro

cartaz 31x44cm_igormoura_web“Na exposição “Sangue Sulamericano” o artista multimídia Igor Moura, especializado em arte digital, troca a tela do computador por tinta e luminosidade do sol. Autodidata, sua pintura não se enquadra nos moldes acadêmicos, nem nas tendências da arte contemporânea, mas dialoga com a arte de rua, de traços fortes, pinceladas espontâneas e cores vivas. A série de pinturas inéditas demonstra que a experiência na América do Sul foi mais do que um passeio turístico. O encontro comnossos irmãos latinos foi um encontro de almas. A sensibilidade do artista funciona como uma espécie de teia que apanha cada partícula trazida no ar dos lugares que visitou. Sua mente imaginativa consegue captar as mais leves sugestões: um objeto simples, um jeito de sentar, a expressão do rosto, um sentimento, um silêncio. As cenas de rua filtradas pelo seu olhar humanista revelam-se generosamente em cores. A vida se mistura em sangue e tinta: “O inferno não são os outros. Os outros são o paraíso. A humanidade começa no outro”. Deus salve a América do Sul na arte de Igor Moura.”

Antonio Cava – Curador

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A Annie Por Trás Das Lentes

Para Gugagumma, por me lembrar dela, e para as mulheres, pelo seu dia (atrasado) ou mês como as farmácias costumam divulgar

annie

Annie Leibovitz é fotógrafa e como não poderia deixar de ser, ficou famosa por seus retratos. Retratos, de gente famosa e de gente que ficou ainda mais famosa depois de seus retratos. E como qualquer grande artista, ela foi além. Além dos clichês e dos preconceitos da época por ser uma mulher: indefesa, sensível e todos aqueles adjetivos que alguns insistem em colocar ao lado desse substantivo. E pseudo-feminismos à parte, esse fato sempre foi irrelevante, pelo menos para ela.

Annie ficou ainda mais conhecida por retratar um certo João, nu, abraçando em posição fetal o grande amor de sua vida – uma japonesa famosa por ter sido injustamente culpada pela separação dos besouros (pois é, ainda tem gente que acredita nessa lenga-lenga).

Na ocasião ela chegou de mansinho, assim como de costume, explicou algumas de suas idéias e segundo a japonesa com fama de bruxa, seu João curtiu sua proposta e acrescentou que aquela nudez representaria sua vulnerabilidade. Sim João, é sempre bom lembrar os mortais que pequenos ou grandes artistas, reis, papas ou presidentes americanos também são humanos (e logo, mortais) e além de carregarem o peso da existência, também fazem suas necessidades onde conseguem e se despem, quando lhes convém.

Annie aprendeu desde cedo, nas viagens de carro da família, a ver o mundo por uma lente, no caso, a da janela do carro de seu pai. Cresceu. Conheceu alguns mestres e aprendeu alguns truques com eles e com suas pequenas câmeras ainda em fase embrionária naqueles tempos e assim, roubou pra si a essência desse conceito que hoje conhecemos como portabilidade e que graças a Deus vai muito além de celulares.

Jovem e selvagem ela logo foi contratada pela revista símbolo de toda aquela contracultura norte-americana, depois que suas fotos da já velha mochila de viagem foram parar nas mãos da responsável por um setor que hoje tem pouco ou nada haver com o nome, mas que talvez naquela época ainda fizesse algum sentido – o da direção de arte.

E sendo essa jovem selvagem ela conhece e se identifica com o jornalista-escritor-gonzo Hunter Thompson, que segundo a própria, era “um maluco que nunca estava longe das drogas, pelo contrário, estava sempre dentro delas”. E junto com mais esse personagem da vida real, ela passa a conhecer os bastidores do que hoje conhecemos por “sexo, drogas e rock´n´roll”, e como o próprio Doutor Hunter fazia com seus textos, Annie também sentia que para retratar aquele mundo, ela precisava fazer parte dele, mesmo que para isso, precisasse ceder seu corpo e seu espírito. E assim, Annie conseguia fotos de extrema originalidade e imparcialidade (se é que isso seja possível), desvendando ao mundo um pouco (talvez muito) desse universo pop do rock daqueles anos ou a tal alma do artista que tantos procuram.

Os anos se passaram e para não parar de crescer Annie precisou se afastar de tudo aquilo que havia se apaixonado nos anos anteriores. Foi admitida em uma clínica de reabilitação e conseguiu ficar limpa (seja lá o que isso signifique) até os dias de hoje. E para não sucumbir aos antigos vícios, mudou de ares e caiu de cabeça num deplorável mundo novo que poucos achavam que ela se interessaria – o mainstream de uma grande revista de moda. Sob sua tutela e depois de encontrar uma nova mestra, artistas badalados de Hollywood passaram a aceitar seus milionários contratos agora com mais um novo motivo: Annie extrairia o máximo de cada estrela.

Além da moda, do rock e até de Arnold Schwarzenegger (que considero um mundo à parte), Annie ainda se aventurou na dança e este talvez tenha sido seu maior desafio, o de encontrar alguma fórmula (estudada previamente por outros mestres da fotografia) de capturar o momento exato que pudesse simbolizar a essência de um grande dançarino. Sim, Annie não se cansa (ela ainda tem três filhas pra criar), já enfrentou sérios problemas financeiros pós-fama e mesmo que seu Sobrenome agora pese tanto. Mas para alguém que nunca se importou com rótulos, provavelmente isso não faça muita diferença.

Parabéns Lebowsky, ou melhor, Leibovitz! Por seu amor e dedicação que com certeza superam sua arte e abrem novos horizontes, sem os velhos preconceitos ou as velhas lentes de sempre.

Em tempo, para quem se interessar, o documentário sobre Annie está disponível na íntegra, em inglês, no link abaixo:
http://vimeo.com/42602711

E para um coletivo infinito de suas fotos, clique aqui.

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Série “Retratos” à Venda

Não costumo divulgar meu trabalhos pessoais nesse blog, mas me empolguei com o lançamento da minha loja virtual, pra vender os quadros digitais que venho criando, desde 2009, e achei que deveria divulga-la aqui também.  Abraços.

arte, contos, Dicas Musicais

Alegria, Alegria!

Foto: Gugagumma

Aquele era um domingo atípico, daqueles que você resolve largar a comodidade de um sofá quente e amaciado para se locomover a um teatro. A razão para isso acontecer, você pensa, está naquele ingresso que seu amigo já havia comprado pra você, com dias de antecedência. O show é de um músico relativamente pouco conhecido em terras tupiniquins, ou ainda menos, em uma cidade fria como Curitiba. O pouco movimento na frente do teatro, minutos antes, comprova essa teoria. Mas naquele dia o clima estava surpreendentemente agradável e você e seus dois amigos bebem suas cervejas, sem pressa e sem a preocupação de perder a oportunidade de pegar um bom lugar para curtir aquele show (ou filme-show, como explicarei depois).

Seu amigo comenta algo sobre nunca ter conhecido uma garota que conhecesse André Abujamra e o estranho é que minutos depois, vocês estão em uma pseudo-fila próximo a entrada do teatro, e na frente de vocês está justamente uma garota, sozinha. Talvez esse seja o momento de dizer que todos estavam ali para ver o espetáculo do próprio André Abujamra. Após uma breve divagação sobre a real existência ou não daquela fila; e a comprovação da garota, agora já com um nome – Sarah, que dizia que após o aparecimento de vocês a fila passou a existir, visto que naquele momento já se viam dezenas de pessoas toda a vez que vocês olhavam pra trás.

Finalmente as portas do teatro se abrem, e ali vão os três, que nesse instante já eram quatro, rumo a seus confortáveis lugares, logo ao centro, há umas quatro fileiras do palco. Detalhes curiosos desse palco: três telões gigantes, uma tela vertical menor num primeiro plano, três caixas de papelão no lado esquerdo, aparentemente vazias e com dizeres em alguma língua desconhecida, atrás delas instrumentos de sopro, esses sim, conhecidos.

Minutos depois e logo após alguma criança chamar um tal “tio-bomba” exatamente naqueles segundos silenciosos que costumam anteceder qualquer espetáculo, o mesmo se inicia. Nos telões, frases, idéias e imagens introduzem o filme-show que todos logo testemunhariam. Em seguida o baterista – esse no palco, dá as primeiras batidas, devidamente sincronizadas com a música vinda dos telões (ou das caixas de som invisíveis). Em segundos, os demais músicos o acompanham. A música é uma espécie de afro beat com pitadas de funk e outros temperos exóticos, no bom sentido. Nos telões, eles declaram que para a execução do projeto, a Petrobrás ou a Ancine não deram um centavo sequer. Palmas da platéia, afinal, ser independente no Brasil não é pra qualquer um.

E eis que surge o homem, em trajes de alguma tribo africana em estado de semi-extinção, solando em sua guitarra, essa sim, já conhecida do velho público. Ele canta, e sua versão agigantada e virtual, canta também, em um dos três telões que nesse momento já se fundiram com o restante do palco, numa espécie de orgia dos sentidos (para usar os temos de Tom Zé, uma mistura entre o cognitivo e o contemplativo). Como se não bastasse, vez ou outra ainda aparecia alguma figura conhecida, um Zeca Baleiro ou um Théo Werneck, logo ao lado do músico, naquele telão vertical menor que mencionei no começo. A projeção nesse caso vinha de trás do palco, o que dava um efeito curioso, quase holográfico, permitindo duetos virtuais pouco prováveis em uma produção modesta, mas ainda sim, extremamente bem feita.

Mas o show não pára por aí, além da originalidade musical, da mistura de ritmos e influências inusitadas, havia ainda espaço para as letras, verdadeiras poesias que versavam sobre um tema fora de moda nos tempos atuais – a alegria. Isso mesmo, a alegria ou na língua e no título do show, apenas Mafaro. Falo isso justamente pelo próprio Abujamra ter sacado que é muito mais fácil ser triste do que alegre, na genial “Lexotan”, parceria com o amigo Baleiro.

Outra sacada muito boa é quando ele canta “O mundo de dentro da gente é maior do que o mundo de fora da gente” em “Imaginação”. Afinal, por maior que o mundo ou esse planeta possa parecer ser, ele sempre será infinitamente menor do que aquele presente na nossa cabeça – onde tudo é possível desde que se tenha um pouco de… Imaginação.

No fim, a platéia aplaude de pé e logo percebe que na verdade, há banda não existe mais, tampouco o próprio Abujamra, já que o show havia chegado ao fim, e na frente só havia os mesmos três telões, onde um senhor previamente gravado dialogava com o público, sedento por um bis que o próprio senhor já havia dito que não iria rolar.

Não sei quando esses três rapazes, ou a garota que eles conheceram, poderão ver novamente um show como esse – definitivamente alguns anos luz dos demais que aparecem por aí. Vou torcer para que seja logo e enquanto isso, resta exercitar a imaginação, já que com ela, podemos reviver esse espetáculo na hora que quisermos. A alegria, a gente inventa também.