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Sobre os chicos e outros caras legais

guacamate“As pessoas estão carentes e deprimidas, em busca de algo sincero e autêntico ou simplesmente amor”, disse o gaúcho, corretor de seguros contra desastres dentários. Isso antes da chuva que acabou com o sonho latino de um inverno curitibano que por algumas horas cedera espaço para cinco argentinos alegrarem o domingo dos passantes da feira que já foi hippie, mas que agora é só mais um cartão postal da “cidade dos normais”. E  na canção do Escambau, o rompante pop-radiofônico sobre a falta de emoção na vida daquelas pessoas havia sido quebrado pela eminência da chuva, naquele momento em que o céu ficou preto e eu atendi aquela ligação no meio de uma gravação através da máquina do tempo menor do mundo. Justo naquele momento tão alegre e pueril, com um maluco vestido de mulher e interpretando um ser invertebrado, um baterista virtuoso e humilde, um baixista buena onda, uma clarinetista aprendendo as canções enquanto toca e ainda uma trompetista tímida por não querer molestar o saxofonista antigo que tocava do outro lado. E como se não bastasse, na plateia ainda tinha uma miniatura de um James Dean, acompanhado de sua namoradinha de no máximo sete anos de idade, porra, naquele momento tão pleno e ingênuo e quando o sol ainda se esforçava para seguir brilhando e iluminando esse povo todo, o telefone toca e preciso fugir.

“Você abandonou sua barraca, as senhoras estão putas contigo, tem uma fila de gente para comprar suas coisas”. Desligo o celular da Janis mais preocupado com a gravação ou o coito interrompido pelo toque e talvez aquela viagem no tempo tenha ficado apenas na memória, e desde quando o homem ou Deus decidiu que a felicidade ou a alegria teria um prazo de validade? Corro como um louco e quase que instantaneamente, na medida em que mais gotas caem do céu, meus passos aceleram e sinto naqueles corpos estranhos, cheios de sacolas e sombreros, a tensão provocada pelos pingos e pelos ventos fortes que segundo alguma moça bonita na TV, também deve vir da Argentina.

Mas algo mudou em mim naqueles segundos. Talvez eu estivesse cansado demais, cansado e mais sensível que uma garota de trinta anos em TPM ou como qualquer canção lenta do Roberto Carlos, pré 73. Já havia me emocionado pra caralho na noite anterior, quando vi de novo a banda callejera arrebentar naquele pub europeu cheio de gente rica bebendo whisky e champagne e fumando charutos grandes, bem no estilo daquele blues da prisão de Folsom. E se lá fora meus amigos se comportavam como jovens se comportam em bares de velhos, lá dentro eu me esforçava para não me sentir um jacu ou mais um rosto jovem estranho, vestindo roupas velhas e desbotadas e com botons duvidosos achando que entende alguma coisa de jazz e blues apenas por conseguir ficar calado por alguns minutos. Um bicho do mato e do Paraná, um forasteiro dentro da sua própria cidade, um Caldabranca ocupando um quarto de hotel em São Paulo enquanto luta para se manter invisível, um outsider visionário ou apenas um cachorro louco tentando “romper a barreira do tempo” num boteco típico dos beatniks de outrora; mas que no Brasil do século 21 é cenário pra gente bem sucedida gastar seus tostões e sentirem que estão em Londres, em Barcelona, Berlim ou em qualquer uma dessas partes escolhidas por brasileiros convencionais de uma classe média que há quinze anos se fodia para conseguir passar o fim de ano com a família que morava longe.

E talvez o que tenha me deixado ainda mais feliz nessa noite, além daquele jazz argentino cheio de malemolência e outras palavras da moda, e além daquela jam incrível dos chicos com aquele blues man e seu sapato de mil reais de couro de crocodilo comprado pela namorada, talvez o que tenha me deixado bem alegre e contente tenha acontecido depois dessas paradas todas.

João, o fotográfo de meia idade e cheio de ódio contra hipermercados e seus estacionamentos infinitos, João, o colecionador de vinis dos anos 80, quando seu cabelo ainda era preto e deveria pesar uns dez quilos a menos, João, esse nome que, porra, é o mesmo do meu pai que não vejo há décadas e que agora descubro que seu celular está desligado. João, o outro, o novo brother dos tragos e dos largos, João, me chama e me pergunta: “Hey, você já viu o que tem aqui fora, naquela caçamba de entulhos e lixos?” Me aproximo e João começa a me mostrar mapas de Paris antes de 1900, muito antes de aquela torre famosinha existir, e com certeza muito antes de qualquer brasileiro sonhar  ir para Europa, isso, é claro, se a pessoa não fosse um Villa-Lobos ou algum outro gênio apadrinhado pela nobreza. Logo os chicos buena onda se acercam do garimpo e ainda encontram um escorredor de pratos em perfeito estado, algo ainda inexistente naquele quilombo que eles se acostumaram a chamar de casa.

No dia seguinte, chego à casa de Letícia, a casa que aos poucos se transforma na minha também e lhe mostro um dos mapas que, pela idade e pela decadência natural do tempo agregadora de valor e estética, poderia muito bem ser a peça ideal para decorarmos nossa adega de vinhos promocionais que, por enquanto, segue existindo apenas nas nossas cabeças. Sim, porque existe a cabeça da mulher e a cabeça do homem e existe uma outra, ainda mais misteriosa e poderosa, que é a cabeça do casal, da entidade, que aos trancos começa a se constituir. Poderia seguir falando sobre cabeças, grandes ou pequenas, de um bando ou apenas de alguém bem especial que me ajudou a ser quem eu sou hoje e que agora descansa em uma cama ao lado de senhoras do bem. Poderia seguir falando de todas essas cabeças, mas vou preferir seguir lembrando esses dois instantes mágicos provocados por uma banda de jazz ou uma verdadeira locomotiva do amor, e por João “das Couves”, um cara conectado com a natureza e com cada coisa ao seu redor.

E como diria um tal “urbenauta”, viajar na sua própria cidade é mesmo muito legal.

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Incêndio na Festa Proibida

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Burburinhos e pseudoameaças suicidas instauraram um clima de caos e tensão nas horas que antecederam a primeira grande festa do DCE – o centro acadêmico da UFPR, responsável por abandonar o prédio e deixá-lo infestado de junkies e nóias. Portanto a festa não seria propriamente do DCE, mas dos coletivos que ali coabitam: a rádio gralha com o incessante debate sobre mídia livre, o El Quinto com suas oficinas gratuitas de arte, fotografia e malabares, e o ANTIFA, um grupo antifascismo com sua resistência ao sistema vigente, que oprime e segrega e que não faz nada para mudar esse panorama.

Após todas as correrias que envolvem uma festa como essa, as peças começaram a se encaixar quando cinco argentinos chegaram ao terceiro andar e montaram seus instrumentos. Munidos da buena onda e de sentimentos de estarem viajando o continente, tocando para o povo na rua e onde mais eles sejam requisitados, esses quatro caras e essa linda garota chamada Fiamma, incendiaram o palco improvisado, e desta vez o “incêndio criminoso” saía de suas incríveis melodias, improvisos jazzísticos e de uma cozinha coesa cheia de swing.

Quem estava ali mal podia crer no que acontecia diante de seus olhos, vermelhos e de brilho intenso, ou ainda debaixo de seus narizes, esbranquiçados e furados.  O prédio já havia abraçado centenas de bandas, normalmente de rock, rap e punk, mas talvez nunca uma banda de jazz argentina daquele calibre. A cada acorde, a cada soprada oriunda do trompete de Fiamma ou do sax de Pipi, o povo se extasiava, balançando os quadris para todos os lados.

Mélange de Culture, o nome do quinteto, poderia também ser considerado o melhor antidepressivo que há no mercado. A cada apresentação, eles seguem injetando doses cavalares de alegria e serotonina para jovens de até 90 anos de idade.

E nesse último sábado, não foi diferente. Em minutos, a sala ficou pequena, transformando-se em um poderoso caldeirão cultural, uma mistura de ritmos calcados no jazz e no improviso, um mélange que faria os beatniks se sentirem orgulhosos.

Curioso foi o desfecho do show, quando os músicos saíram do prédio e Fiamma foi abordada por um ogro sexual com uma mão cheia de más intenções. Com uma resposta instantânea, Fiamma  deu um tapa forte em sua cara de pau, o que fez com que esse ser desprovido de coração a empurrasse. Revoltado, Pipi revidou com um soco estilo Rocky Balboa.

Triste é ver essas coisas acontecerem justamente no prédio onde o debate acerca das minorias e dos tantos ismos se faz mais presente.

Ainda a caminho de casa, Fiamma, Mariano, Pipi e Gastón (o contrabaixista genial) se deparam com outra cena grotesca: um cara com um cordão no pescoço amarrado a um poste, enquanto uma garota, talvez sua ex-namorada, o xingava e pedia ajuda. Pipi decidiu cortar o cordão, provocando a ira do suicida que partiu pra cima dele, em mais uma confusão bisonha. Mariano, o baterista sex symbol da banda, disse que nunca havia visto Pipi brigar. Nesse dia, Pipi precisou acessar seus instintos selvagens em dois momentos distintos, separados por alguns minutos.

Seguramente ser uma banda nômade não é para qualquer um. Não basta ter talento ou um bom repertório, “é preciso força, é preciso ter raça… É preciso ter gana sempre”. Mélange de Culture parece pertencer a esse grupo de artistas da estrada que não deixam a peteca cair, ainda que o mundo e essa realidade distorcida, cheia de caos e miséria a puxem para baixo.

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Charme Chulo no Teatro das Pólvoras

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Foto: Arnaldo Belotto

Vinícius e Toquinho abriram as portas daquele lugar. A pólvora histórica virou poesia e dali em frente a arte reinou na praça do famoso pintor. Décadas se passaram, poderes e governos ainda mais corruptos foram destituídos, e hoje o Teatro Paiol foi palco de um show de rock estranho: meio caipira, meio jacu, meio curitiboca, meio Smiths, meio ska, meio batidão, meio axé e até meio zumbi.

Depois do hiato presente em noventa por cento das bandas do século 21, os caras renasceram mais feios do que nunca, com sangue de pinhão escorrendo pelos cantos das bocas secas e cheios de rachaduras e cicatrizes oriundas do ofício de se fazer rock no país do samba e da bossa. Voltaram mais fortes, reinventando pela quarta vez a moda caipira de Irati ou sei lá de onde.

Crucificados pelo sistema bruto (nome do último pão), os charmosos fazem parte daquele grupo de bandas talentosas e inventivas (sem perderem o apelo comercial) mas, que por algum motivo desconhecido, permanecem na cena alternativinha da galera da Trajano. O sistema bruto, que parece escolher os queridinhos da vez, continua fazendo suas vítimas e não há muito o que fazer para mudar esse quadro, que a cada ano enferruja ainda mais.

Quem sabe algumas listas de melhores do ano possam reparar esse estrago.

No palco do Paiol, o que vejo é um som de primeira, letras pegajosas recheadas de poesia pós-moderna (seja lá o que isso possa significar), direcionadas para uma plateia heterogênea, louquinha pra sair pulando e seguindo o trenzinho da alegria, turbinada por litros de cachaça da serra e vinhos de mesa.

Impossível não se sensibilizar com a viola sateriana do Leandro ou com a performance do xará: suas nuances vocais, suas palmas ferozes, suas danças zumbis e seu olhar em contato direto com seu peito, cheio de amor pra dar. Piegas é ter medo de falar desses lances.

A cidade grande assusta, com seus “playboys com seus carros na Batel”, seus motéis, seus políticos, seus pastores e suas mentiras. Aos poucos, ela “aniquila sua cabeça”, te “engolindo” e pedindo um “êxodo urbano”, afinal, “às vezes, melhor é morar na fazenda”.

No mato, na praia ou no campo, a vida é mais simples, não existem produtoras, agentes pentelhos ou fãs mal-intencionados. Poderia seguir falando dessas coisas bacanas, mas o pessoal do The Band já fez isso no documentário do Scorcese.

“Hoje o rock anda frouxo demais”, e a consequência maior da gente “escolher viver de sonho” é aquela que você cantou hoje “Sou imortal e não tenho onde cair morto”. Se depender da vaquinha virtual, continuará existindo alguma luz no fim desse túnel construído de sangue e palha, chamado rock nacional.

Só posso pedir a Deus, em tom de jagunço, que abençoe esses meninos brilhantes, pois nem Jesus foi capaz de uma segunda ressurreição.

** clique aqui para baixar o disco duplo dos caras **

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Rodriguez está vivo, mas você sabe quem ele é?

rodriguezRodriguez, Rodriguez,… Rodriguez? Ah, aquele cantor folk estadunidense mais moderninho?
Não, estúpido! E por que sempre esse estadunidense aí? São e sempre serão americanos, mesmo que a sua cabecinha não aceite. E aquele cantor folk mais novo de que você fala é o Gonzalez! Rodriguez? Credo, eu lá vou saber? Pensando bem, nem esse Gonzalez aí existe, não sei de onde você tirou essa.

Esse seria o meu diálogo interno há dois ou três dias, até que por uma indicação de meses atrás de um amigo distante, mas constante, e que por obra do acaso ou do destino (se você gostar do bonito), me falou desse filme sobre esse tal de Rodriguez.

Sua história é de fato tão incrível que após o término da película (pra ficar nas palavras bonitas) eu achei que havia sido enganado, meio como o Woody Allen fez tão bem naquele “Poucas e Boas” sobre o segundo melhor guitarrista da história. Mas se naquele caso o filme não passava de um falso documentário, bem feito, mas falso, nesse, a história, por mais impressionante que pudesse parecer, era tão real como boa parte desses protestos espalhados por esse país, cansado de ser enganado.

Elogios à parte, Rodriguez foi um cantor folk americano que lançou dois discos no início dos anos 70. Sem sucesso, a gravadora o demitiu e durante quase trinta anos Rodriguez não quis saber mais da cena musical, indo trabalhar em indústrias de demolição, fazendo trabalho braçal e tudo mais que ninguém com uma suposta sensibilidade artística escolheria fazer.

E durante esses quase trinta anos, Rodriguez viveu na velha casa de sempre, ganhando salários mínimos e vivendo na famosa linha da pobreza, como tantos outros americanos que nós, brasileiros e americanos do sul, insistimos em ignorar, em discursos mofados sobre pobres só existirem em países de terceiro mundo.

No filme, ou documentário sobre a lendária história de Rodriguez, temos um personagem humilde e nesse caso, também pobre, de óculos escuros em tempo integral e com uma aparência indígena, distante dos judeus desafinados de classe média que invadiram e surpreenderam seus contemporâneos, numa “Greenwich Village” no início, meio e final dos tumultuados e criativos anos 60.

O que Rodriguez não sabia era que enquanto ele comia suas marmitas e seus braços ficavam mais duros em alguma fria indústria de Detroit, seus dois únicos discos ganhavam espaço nas rádios sul-africanas, transformando o que deveria ser apenas mais um culto a um artista americano underground, em um sucesso maluco, da magnitude de um Elvis, ainda que limitado pelas linhas geográficas de uma África do Sul, pré-copa do mundo.

As canções de Rodriguez fizeram tanto sucesso por aquelas bandas que até boatos sobre ele (que os sul-africanos só haviam visto na capa de seu disco de estreia) foram aparecendo aos montes: uns diziam que ele havia ateado fogo sobre o próprio corpo durante um de seus shows, outros afirmavam que ele tinha sim cometido suicídio, mas que havia sido com uma bala na cabeça.

O fato é que Rodriguez sempre esteve lá, vivo até os ossos, do outro lado do oceano, trabalhando para comer e sustentar suas duas filhas.

Eis que, por uma dessas filhas, chega a notícia sobre seu sucesso estrondoso no país de Mandela, e Rodriguez, pasmo, custa a acreditar. Convencido a ver com seus próprios olhos sempre escondidos com lentes escuras, Rodriguez sai de seu país natal como um completo desconhecido e chega ao território sul-africano como um rei de algum conto de fadas, limusine na pista de pouso, suítes presidenciais e caviar no camarim. E ainda, citando o gigante Mandela, suas canções tinham até sido alçadas a hinos antiapartheid!

Anos depois, um rapaz sueco o visita diversas vezes em Detroit, onde apesar de toda essa badalação na sua primeira turnê, estádios lotados e mais discos vendidos, Rodriguez continua vivendo em sua velha casa e esquentando sua comida num fogão à lenha improvisado. O sueco convence Rodriguez a autorizar a produção de um documentário, emendando o lançamento do mesmo com uma turnê mundial.

O filme, do qual venho tentando falar aos trancos, chama-se “Seaching For Sugar Man”, ganhou diversos prêmios por aí e tem sido a porta de entrada para esse magnífico cantor e homem chamado Rodriguez, um misto de Dylan, Cat Stevens e Donovan, com letras melancólicas, satíricas, proféticas, políticas, espirituais e todas essas características pertencentes aos grandes compositores populares, sejam eles americanos, brasileiros, suecos ou sul-africanos.

E mesmo após a fama tardia, os discos de ouro e platina, as centenas de entrevistas e aparições em programas televisivos, Rodriguez parece seguir seus princípios e valores, sua fala continua mansa e humilde, sua velha casa simples continua seu lar, o dinheiro extra ele preferiu deixar para a família e os amigos, e claro, os óculos escuros continuam cobrindo seus olhos.

E assim, mais uma história mais sensacional que qualquer ficção é desvendada. Acho até que suas letras, além da associação antiapatheid, também dialogam com essa onda de protestos que segue no país da Copa e das pizzas dos 500 sabores.

Para mais detalhes, assista ao filme, compre ou baixe seus discos e se quiser, comece ouvindo essas duas canções:

https://www.youtube.com/watch?v=qyE9vFGKogs

https://www.youtube.com/watch?v=-qFP-dsl2Z0

Textos Relacionados (naquele lance, gostei desse, talvez goste desses também):

Os Demônios de Daniel Johnston

Descobrindo um Bêbado Talentoso

Tiago Valério e sua Cidade da Ilusão

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Ao Homem Bom do Sertão

Para Cá e Para Ti

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“O temor amigo

É um mito antigo

Tanto tempo faz

Que a gente se arrepia

Alma do outro mundo

Gosta é de poesia

Dos bares da moda

E de muita folia”

– Almir Sater

Amigo das estradas, dos mitos e dos arrepios, venho aqui lhe contar mais um causo desses que você também costuma contar nas noites de alegria e de muita folia.

 

Era sexta-feira e era dia de índio, e não sei se por obra do destino mais atrevido que não nos cansa de ensinar, ou talvez de algum sonho guardado na mente com lábios de doce melaço, esses mesmos lábios que outrora me beijavam e que depois foram usados para concretizar o sonho de vê-lo ao vivo no palco do grande teatro do povoado de Curitiba. E como seria a primeira vez, fez-me espantar como criança, ou seriam pares que o destino preferiu aproximar?

A prima, a irmã e o pai foram alguns dos protagonistas dessa louca história que fez com que eu e meu bem estivéssemos tão perto do calor e do mistério dessa sua viola.

Nem vou aqui detalhar os pormenores dessa saga, já contada em prosa pelas mãos da amada, mas farei questão de mostrar-lhe, em meras palavras, a satisfação e a magia de vê-lo tão tenro e tão vivo, sob o elegante chapéu que o esconde e sob aquelas luzes tão lindas, tão bem orquestradas e, que juntas, formam a janela de estrelas que você nos possibilitou sentir.

E por falar em orquestra, aqueles moços que o acompanhavam eram de fato pedras raras, daquelas pra botar qualquer índio ateu de volta no trilho, compreendendo a marcha e essa estrada que não acaba jamais.

Tinha a família, irmãos da lua e do sangue, sua irmã de voz grande e seu irmão de outra estatura tocando a outra viola do compasso mágico, tinha um moderno rasta no contrabaixo e tinha também um gaiteiro pomposo arrancando gritos das senhoras e senhoritas do outro lado do palco – que nessa altura já nos lembrava um rico pastoreio.

E, se somente quando o homem sonha, vai ao céu, o resto é pelo chão. Chão que você nos preparou e que não poderia ser diferente, feito de gente vivida que não se cansa nunca de aprender e sabe, desde sempre, que sempre haverá uma maneira simples de viver, longe em espírito dessas maluquices da grande cidade, verdadeiros fugitivos de guerra, dessa guerra sem sentido e que insistimos em criar em nossas mentes inquietas, poluídas com o caldo venenoso dos dias cinzas, da farra capitalista e das noites aflitas.

Nesse palco encantado, suas histórias sobre “el niños e aninhas”, vindas de sábios caipiras, acendem os corações dos curitibanos e dos parceiros dessa tal comitiva esperança, que aos poucos cresce em membros e em sentido.

E como era noite de sexta-feira, talvez alguma bruxa tenha possuído minha mulher, que nessa ocasião, correu pro salão, agarrou minha mão e me pôs pra dançar, sem sairmos das cadeiras do auditório. Nossas almas estavam lá, nesse salão que você e seus compadres ajudaram a criar, com a maestria da simples cantoria e o requinte da canção sem coro.

E, no final, é você que tira o chapéu, coisa de homem bom do sertão e que um dia, lá pra trás, já teve pressa, mas que agora anda devagar, trazendo o sossego de longe.

E se você não é louco, poeta, profeta ou monge, talvez seja porque você é tudo isso e mais um monte!

E se esse causo de doido não fizer muito sentido e lhe soar como mentira, saiba que essa lágrima que agora sinto em minha pele de índio branco da montanha é a mais pura verdade que lhe posso contar.

Obrigado amigo e até mais ver.

Dicas Musicais

Tiago Valério e sua Cidade da Ilusão

contracapa_discoA cidade da ilusão construída por Tiago Valério é, como não poderia deixar de ser, recheada de devaneios, pequenos surtos, murmuros e gritos de socorro. O carnaval retratado pelo jovem compositor é triste e melancólico, mas isso apenas reflete o estado interno da personagem invisível. Lá fora tudo continua lindo e divertido, mas até a pouca diversão do disco, presente em “Lá Vem Os Gringos”, é permeada por um tom irônico e sarcástico, colaborando para uma leitura mais sóbria do disco, ou EP, melhor dizendo. A voz rouca e arrastada de Tiago demonstra bem esse estado de espírito, meio anti-festa, meio “comi, mas não gostei”. As referências, de Barrett a Camelo, passando pelo mestre da simplicidade (e melancolia) Daniel Johnston, também ajudam a compreender melhor aonde o compositor/cantor quer chegar. A produção é crua e seca, mas sinceramente, não vejo melhor cenário para canções tão sinceras e vazias, no bom sentido da palavra. Elas estão lá, soltas no espaço, implorando para serem cantadas e ganharem corpo. Tiago Valério é esse corpo e não precisou escrever uma sinfonia para passar essa mensagem. Na sua cidade, cheia de corações partidos, pierrôs apaixonados e gringos endinheirados, há alguém berrando por um momento de alegria, uma explosão de loucura e insensatez pelas ruas, uma verdadeira dança da realidade… mesmo que tudo se acabe na quarta-feira.

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O Sucesso de Zeca Baleiro

As luzes do grande teatro se apagam, os patrocinadores aparecem no telão enquanto os atrasados ainda tomam seus acentos. É noite de show no Teatro Guaíra e todos aguardam ansiosamente o início do espetáculo. No palco, Zeca Baleiro. Na platéia, eu e uma amiga. Mas espere aí, eu num show do Zeca Baleiro? Aqueles que me conhecem sabem que dificilmente iriam me encontrar em qualquer lugar que esse cantor fizesse show, porém a situação é outra, estou fazendo companhia a uma amiga que havia conseguido os ingressos e como não é qualquer dia que tenho uma oportunidade de ir ao Teatro Guaíra, o mais histórico e conhecido teatro de Curitiba, resolvi deixar qualquer preconceito de lado e dar uma chance a esse músico, que não considero de todo ruim, pelo contrário, o respeito, assim como respeito o Lenini ou o Djavan, mas também não gastaria um centavo para vê-los, por uma simples questão de gosto.

Pois bem, logo descobri que Zeca Baleiro é maranhense, assim como minha amiga e durante o show, pude perceber também que conhecia algumas de suas composições, afinal, trata-se de um hit maker e basta você viver no Brasil para ter tido acesso aos seus sucessos.

Confesso que fiquei positivamente impressionado com seu show e por sua versatilidade musical, hora munido de uma banda completa de rock´n´roll, hora apenas com seu violão, guitarra ou cavaquinho. Pois é, em duas horas de show ele consegue alternar climas bem distintos, chegando a dedicar uma boa parte a uma espécie de lual virtual, com direito a lua cheia no fundo, banjos, acordeons e violões.

Os covers também chamaram a atenção: além de Lula Côrtes no lual, ainda teve a clássica “Disritmia” eternizada por Ney Matogrosso e os meninos emparedados, o sucesso pop norte-americano de “Price Tag” da cantora Jessie J, a poderosa “Alma Não Tem Cor” de André Abujamra e para finalizar ele aproveitou aquele momento oportuno de qualquer show nacional em que algum espertinho grita “Toca Raul” e executou lindamente uma versão para “A Maça”, do gênio baiano.

Na parte humorística, teve até direito a dançinhas coreografadas em homenagem aos funks e hits de verão.

Zeca Baleiro é de fato um músico já consagrado no cenário nacional e quem sou eu para negar isso. Faltava só uma oportunidade como essa, para entender um pouco de onde veio esse sucesso todo.

Um dia ainda vejo Lulu Santos por aí.