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Crônicas de Nácar #05: Tiras, Números e as Velhas Camadas

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Choveu mais uma vez em Curitiba. Choveu a chuva que os curitibanos mais otimistas estavam anunciando há anos. Choveu, choveu, choveu canivetes como diria o amigo gralha, choveu palavras e gritos e fardas e lágrimas. Lágrimas de injustiça, lágrimas de tristeza por sentir que estamos mais perto do fim. E antes que eu soe demasiado fatalista, sigo sonhando com a compreensão mútua. Quero falar sobre esse fim que nunca acaba, apenas recomeça, se repete e depois termina como mais um texto prolixo com algumas conexões mais ou menos interessantes e outras tantas que ninguém vai entender. Entender o outro? Como entender o outro sem estar em uma insólita micro nave instalada em seus neurônios? Você nasceu assim, teve uma família que te criou, ou não, teve suas escolinhas, seu trabalho, seu país, seu signo e tantas outras camadas ilusórias desse umbigo e dessa palavra feia chamada ego. Por qualquer motivo você nasceu nessa época e por mais que você pense diferente, que sua alma é francesa dos anos 20 ou maia de 2000 anos atrás, você nasceu assim e jamais outra pessoa vai sentir ou ver as coisas do seu modo. Nem mesmo sua irmã gêmea criada na mesma caixinha. Supor, imaginar ou compreender contextualmente questões ou tretas alheias é outro papo.

Em Nácar, tudo azul para mais uma encontro lunático pós eclipse. Jordi Miami Vice me acompanhou ao mercado, na missão dos gelos e dos vinhos promocionais. Enchemos o carrinho e quando estávamos semi parados na fila do caixa invisível, um senhor com a braguilha aberta e com a expressão típica de urina eminente, nos pede licença. Prontamente engatamos a marcha ré, dando passe livre para o senhor acessar o banheiro que resolveria sua necessidade extrema. Retornamos lentamente para o outro lado da linha que separa os caixas da saída do mercado que não nos ama. Nesse instante, Jordi comenta “se a gente saísse direto sem pagar ninguém iria ver”. Pensei como sempre pensei em ocasiões semelhantes, auxiliado pelos capricórnios unicórnios em busca de mares navegáveis. “Não quero terminar a noite em uma delegacia˜, e em seguida cantarolei Temptation, da espera de Tom, enquanto o cabeludo Jordi concluía a dura tarefa de encontrar a menor fila do pedaço.

Passamos os gelos, os gluglus e os vinhos, que foram diretamente armazenados em uma caixa de papelão, com divisórias próprias para esse fim. Foi quando a garota no caixa parou e disse que precisávamos colocar etiquetas de “OK” em todas as garrafas, causando frustração para Jordi e eu, uma vez que a fila estava longa e as pessoas poderiam perder a paciência. Mais mente, mente, mind, suposições. Perguntamos se a nota fiscal não seria o suficiente, em outra suposta abordagem do segurança. “Preciso consultar minha supervisora”, que curiosamente já estava resolvendo outro enrosco para a colega. Nesse momento percebi: “A máquina da estupidez precisa seguir funcionando e assim, ninguém mais precisa pensar em suas ações, apenas seguir as regras que outros seres menores criaram. Afinal as regras vêm antes do bom senso, né não?”. Percebi também que a indignação do companheiro (só pra continuar provocando os politiks da banda mais fria da cidade, cheios de tiques e pra quebrar minha própria regra de não usar parênteses e agora dos professores que me ensinaram a não esticar muito essas curvas). Ajudei a moça-caixa colocando os adesivos errados nas garrafas corretas – o vinho continua sagrado e não seria ele o responsável por mais uma babaquice inventada por seres humanos ocupados em produzir separações e tristezas como aquelas já citadas, provocadas por esse bolo com fermento demais, receita da família, da cultura e por “La Sociedad”, exatamente como o nome de outra banda rabiscada em algumas das milhares de folhas brancas da cabeça explosiva dos freakie friends.

Aos poucos tudo ficará no seu devido lugar, e eu, o ladrão de versos desconhecidos e populares em outros campos, também regressarei ao começo, ao infinito e silencioso nothing, um lugarzinho bem confortável onde opiniões, regras, preconceitos e mágoas serão pontos opacos há anos-luz de distância, em um planetinha azulzinho, bem triste e injusto, mas com uma beleza infinita, bem como esse Eu maior e maiúsculo que temos dificuldade de sacar em tempos modernos pós junguianos, imbuídos de estímulos e distrações, lindas e horríveis, meras miragens holográficas de Talbot. Reveja o show de Truman and you will know the truth, leia o livro do Tim branco, ou escute o argento Tim ecoar os ensinamentos de seu mestre paulista.

“Não sei o que você anda lendo por aí”, ressoa una vez más o discurso evangélico de outrora e propagado de outras formas por falsos iluminados, extremistas veganos e onívoros, feministas e machistas, azuis e vermelhos, ingleses e alemães, metaleiros e pagodeiros, e todos esses seres que acreditam em algum cambio de consciência com tacos de bets ou beisebol nas mãos e a manipulável ciência-doutrina na outra, e esquecem de perceber que mudar de lado e seguir odiando o oposto é a brincadeira preferida dos adultos. Let the children play ou “deixe as crianças sozinhas”, pois professores como esses nós não precisamos mais, diria “Pink e o Cérebro” na tentativa de dominar o mundo pela maneira mais ilógica do horizonte: el amor después del amor, o amor mais que perfeito, o amor de roma, o amor em páli dos maravilhosos palíndromos reverenciados pelas caudas brancas do parceiro de rua.

E se o objetivo de outro enfadonho cursinho pré-qualquer-coisa que nunca fiz (graças a papai e mamãe por me poupar dessa também), ou quem sabe com todas essas regras eu conseguisse ser melhor compreendido, ainda que a sina de qualquer artista seja a escuridão e assim, se sentir um rei do rock ou do mambo, mais especialzinho e menos retardado, porém eternamente triste por estar só.

Finalize essa história de uma vez, seu garoto mimado! Tentarei antes que a bateria da maçã mordida se esvaia, e outra tentação reinicie outro conto sobre malandros fakes ou verdadeiros. “Fumamos muita coisa por aí e até ficamos todos reunidos em uma pessoa só” e assim, me tornei uma geleia de amendoim com açaí, em estilo buffet-brasil, misturando elementos demais e deixando todos confusos, os mamelucos e os cafuzos também e até os seis policiais que tocaram a campainha da casa recicladora de sonhos e fritadeira de mentes inquietas e humores swingados. E os outros cops que acabaram com os gritos de Fora T em plena praça pública, e mais aqueles que invadiram o barraco do mano da quebrada, empurraram sua namorada e depois o algemaram e o enfiaram em mais um camburão do governador playboy e que quase joguei uns amendoins nele quando o encontrei no aeroporto, meses após as bombas nos professores. Homens da lei na cidade do medo e no país dos bananas.

O “Escambau” que agora toca na vitrola mole do espelho preto me faz lembrar dos escambaus recorrentes e que quando as confusões se repetem demais, estamos “nos transformando e evoluindo, deixando algo pra trás” e hoje, depois de mais uma enxurrada necessária na montanha dos espelhos quebrados e dos símbolos falsos, araucárias e mais gralhas, hoje sinto a beleza dessas gotas batendo nos telhados baratos, e se “10% dos escombros eu escondi e nem sei como”, meu mapa do tesouro também teria um ou talvez quatro besouros, treze apóstolos que nunca li, magos e uma porção de vagabundos profetas, sábios sacanas, um pai-herói referência maior, uma mãe-amor conectora de destinos, dois grotescos vovôs deuses endiabrados e outras 69 lindas figuras femininas cheias de segredo e com nomes parecidos. Hoje choveu, choveu outras 1531 gotas de esperanza, do outro professorzinho, choveu gotas do artista sumido das gotas, choveu gostosas gotas de alguma liberdade que insiste em existir em um mundo cego dominado por zeros e uns. Hoje choveu, choveu sotaques e baques e bachs, choveu a gota mais preciosa, a gota do Om maior, a gota do abraço do amigo invisível. Choveu a gota de toda uma existência e que foi feita sob encomenda somente para… VOCÊ!

 

A felicidade fez mais um aniversário. Vamos dançar?

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Crônicas de Nácar #04: Portais e Mais Histórias Rodadas

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7 do 7 de dois mil e 17. O primeiro portal fora aberto, a marretadas, do lado de fora na frente de casa. Perto da casa de mamãe, cheiro o incêndio presente no encontro dos parques. “Nêgo mata a mata”, né não Arnauld? “O que eu fiz pra merecer essa paz que o sexo traz”, canta caetano agora na cozinha uruguaia, o mesmo moderninho que tanta gente cisma em falar mal, ou não? Porquê tanta citação brow? Se já falaram antes e melhor e enquanto essa memória ainda acende lâmpadas empoeiradas em alguma galáxia fora da lógica, por que não? Pra quê ficar inventando novas frases e novos nomes pros velhos truques? Networking? Pro trampo vou preferir o amigo ou o conhecido, mas ficar amigo de alguém por interesses materiais é legal? João, me mostre o caminho do amor supremo. João, me conte a história da família Dom e do menino baterista em ascensão espiritual. Pai João, talvez essas linhas tortas o façam lembrar daquele maluco da época do banco que escrevia compulsivamente cartas sem sentido e as deixava todos os meses ali perto onde você costumava trabalhar. Continuo gostando de foto antiga e de gente velha, gente velha do tipo que “continua com 17 anos enquanto os outros ficam velhos e enrugados”. E antes que a polícia nacionalista me atire, também curto gente brasileira com versos do tipo “tô te confundindo pra te esclarecer”.

Cegueiras, iluminações e confusões à parte, quero falar sobre “a arte do escutar”, o filme do amigo argento Rodô. Que nada, quero mesmo ir pra lua no meu “foguete particular”, pra voltar sambando e falando da rua da frente de casa, dos ratos e baratas que coabitam todos os espaços de qualquer cidade grande. Dos ratos e baratas com coração. Daqueles sem papéis ou que perderam todos eles no espiral da vida, em alguma kombi hippie que insiste em existir na borda do campo minado de um sistema que caminha a passos largos, rumo ao colapso noticiado nos livros de economia do amigo Gordo, o montanhista tecnológico aposentado e colecionador de moedas brazukas.

“Hoje eu vou te matar, pois você é meu amor verdadeiro, e juntos, morreremos felizes”. Não se assuste, isso é só mais uma poesia. Outro poeminha bobo sobre as tolices e belezuras de mais um amor brega. Mas me diga Cibelle, qual era o assunto mesmo? As histórias repetidas e que às vezes são bem contadas nos fazem sorrir, refletir sobre algum passado que parece distante, mas que está logo ao lado. As ruas são apenas as veias de um imenso e poderoso Circulatory System, bombando decalitros de sangue e nesse sangue encontramos todas as emoções do universo: raiva, inveja, dor, tristeza, carência, abandono; e claro, as boas também: alegria, esperança, tesão e tudo aquilo que te faz sentir vivo novamente. O amor? Esse conceito abstrato que ninguém explica, mas que não existe ser vivo que nunca tenha sentido, segue coexistindo no canal invisível por onde esse sangue todo é jorrado. Quem controla tudo isso? Excelente pergunta, Joãozinho, vou pedir ajuda para os universalistas. “Uni o quê? Não sei o que você anda lendo por aí garoto, mas Jesus é o único caminho”, disse a esposa raivosa do pastor que também achava que arte abstrata era menor pelo simples motivo dela não entender patavinas daquilo.

“Você quer descobrir tanta coisa meu priminho lindo do sul”, disse certa vez a gêmea baiana do compositor falso. O mistério parece sem fim, mas como é que a gente fica tão feliz quando a primeira pontinha é revelada? Jarmusch e Tijuan, obrigado por me lembrarem que o barato está no caminho. “Every step of the way, I found grace”, Mavis, você também tem meu coração.

Quem sabe eu esteja tentando falar do “amor além do amor”, cantado pela quinquagésima vez por novos caras vanguardistas legais que depois de alguns anos, já ficaram velhos. Clodovil, um dos maiores mestres espirituais desse país, falava sobre essa moda sazonal inventada por gente malandra com sede de dinheiro. Hoje, anos após sua morte física, vivenciamos o apogeu do “recicle callejero“, dos brechós, freeganismos e dessa ideia anti-consumista de aproveitamentos e ressignificações, uma moda eterna de reinventar a roda, que sai do caminhão e vai parar na sala de estar, numa coffee table de causar inveja em qualquer adorador de lixo que se preze.

“Eu ouvi pelas videiras que você está apaixonado priminho”, estou amando o amor, estou apaixonado por cada grão de espaço dessa terra, a Terra de Caetano, porque “gente tem outra alegria”, e sim, também estou amando Letícia e cada curva dessa estrada de Santos, de todos os santos que o acompanharam e que continuam o acompanhando, Roberto. Roberto das 100 pétalas lembradas recentemente pelo tio Jordi em ocasião comercial. “Convoque o seu buda”, ainda que não seja você e ele esteja do outro lado da rua, com uma marmita quentinha para te oferecer por pensar que você “esteja no trecho” e que talvez a sua cara de tristeza não seja por outra “briga” de amor, e sim de fome. O trapo que você continua usando para seguir no personagem hipster curitibano, também ajuda nessa identificação e como é bom ser um dia um mendigo e no outro o dono do bar que você acabou de conhecer. Gente, gente, gente! Um dia todos seremos estrelas e nobres, mas por enquanto sigamos humildes nessa terra, para encontrarmos o néctar regalado desde o nosso nascimento, e assim possamos seguir curtindo o barato de viver, que sempre será mais bacana que o crer ou o ter.

Prefiro ser mais um errante navegante ou aquela contradição ambulante da banda verde da era adolescente, que esquece da história que iria contar, sobre portais interdimensionais com números repetidos e velhos ottos e tantos “e´s” e etês, e sobre gente maluca que se encontra por aí, em encontros agendados por grupos de zap zap, eventos fakes ou convites de papel entregues por estranhos na última vernissage das belas cópias. Jorge Caldabranca, suas profecias nunca fizeram tanto sentido! Você que ainda tem medo do escuro e dos cabelos e das substâncias brancas, meu mentor literário junkie que continua me ensinando a ser invisível como naquele filme oitentista sobre o garotinho que usa óculos escuros pra se proteger das maldades e safadezas de um mundo em contração, onde a esperança esperneia e nos acalma como “os iniciais espirituais sinais” de Gil 70 ou os acordes finais de qualquer canção do Sr. Baker.  

Gil 70? 75? Prefiro ficar com o 71 da bruxa das chaves, o 17 invertido, os mesmos 17:17 do fim dessa crônica ou conto ou como se chama mesmo tio Jordi? Uruguajo, você tem alguma pizza? Faltam 6 minutos!! O que são 6 minutos na vida de um louco? Otto! Você de novo não! Já são cinco minutos de Ben, e o sim prevalece, o 13 do bem que agora me alegra de novo também, como os mingus e mindinhos minutos iniciais do começo dessa escrita que agora é invadida por gente que berra lá fora. Gente, Gente, quantas vezes precisarei escrever sobre essa gente, essa gente que agora enche o balde para lavar o chão e preparar o terreno fértil das ideias zen sem nexo. Faltam dois minutos Cash, e agora 1 minuto, alguém me tire daqui antes que eles me enforquem. 17 do 7 do ano 17 às 17:17… Futuro, aí vou eu!

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Data Limite?

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Notícias aterradoras assistidas na máquina vermelha maior do mundo me deixaram perplexo. 2019 seria a “data limite“ divulgada por um documentário de mesmo nome e também sobre outras previsões de Chico Xavier. E como não acreditar em um cara que disse já em 1971 que no futuro encontraríamos água na Lua, petróleo no oceano do Brasil e os órgãos transplantados seriam de plástico – novas descobertas nessa história recente maluca que não pára de se desenrolar em escala exponencial, e que é tão rápida que nem mesmo conseguimos acompanhá-la. Esse lance do primeiro coração de plástico transplantado eu mesmo nem fazia ideia. Chico, diferente das mães Dinás interessadas em fama e dinheiro, foi um homem de poucos recursos que doou praticamente tudo que ganhou e não parecia interessado em aparecer. E quando o fazia, em um popular programa de TV brasileiro, era por motivos extremamente relevantes.

Segundo suas próprias palavras, no dia em que o homem foi à lua, em julho de 1969, teria rolado uma reunião intergaláctica com outros seres do espaço. Esses seres estranhos estariam preocupados com a destruição da Terra e principalmente com o mal uso da energia nuclear. Uma energia que move o universo, mas que o Homem estaria utilizando para a criação de armas de destruição em massa e explosões de proporções catastróficas, não apenas para nosso planeta. De acordo com Chico Xavier, Cristo apareceu nesse encontro e advogou em favor da Terra, pedindo para esses seres esperarem um pouco mais antes de intervirem. Depois de muito debate, foi definido um prazo de 50 anos, ou seja, 2019.

Haveria dois cenários possíveis: no primeiro, seguiríamos explodindo bombas e a própria Terra, cansada da exploração humana, começaria a se autodestruir na forma de terremotos, enchentes, tsnunamis e qualquer outra catástrofe natural que você consiga imaginar. No segundo, finalmente os humanos entrariam numa nova era de paz e de grandes revoluções tecnológicas, graças ao intercâmbio entre os extraterrestres e a gente. Contatos oficiais seriam feitos e pelo jeito, já estaríamos nos preparando pra isso.

Note como isso parece fazer algum sentido – há poucos anos atrás uma série de governos estava divulgando informações sobre OVNIS, incluindo o Brasil, que liberou 100 páginas das 300 que tinha sobre o assunto. Segundo o doc, reuniões entre líderes governamentais estariam sendo feitas para decidir, por exemplo, quem seria o porta-voz oficial da humanidade, tudo escondidinho pra não dar bandeira. A NASA confirmou a possibilidade de vida fora da Terra, afirmando que até 2020 eles conseguiriam provar.

Poderia seguir citando outros pontos a respeito, mas claro que o ideal será assistir o vídeo completo no Youtube (https://www.youtube.com/watch?v=4JxukHvGVzE) e tirar suas próprias conclusões, ainda que essa história possa soar maluca demais para sua cabeça. Jesus, ETs e Espiritismo, tudo conectado, como assim?

Seja como for, é fato que estamos vivendo um momento único em nossa história, onde descobertas científicas e tecnológicas acontecem todos os dias. Enquanto politicamente parecemos estar em algum roteiro rocambolesco das dimensões de um Trump ou Putin, afinal, quem devemos Temer? Por enquanto a resposta aponta para um único culpado – nós mesmos.

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Nos Meus Sonhos Eu Choro

pace_sonhoNos meus sonhos eu choro baldes de lágrimas. Misturo os fatos recentes, acrescento doses de melancolia e pitadas de lembranças tristes do passado remoto. Bato tudo no liquidificador da mente hiperativa e o resultado é um sabor amargo que tento digerir junto com o café da manhã, igualmente amargo, pois o açúcar acabou.  

Fico tentando lembrar dos ingredientes da receita da noite anterior, e tentando entender o porquê de acordar com os olhos cheios d’água. Sem Jung ou Freud para ajudar, sinto que serei o único capaz de decifrar os segredos dessa cozinha maluca, construída aos trancos e com centenas de armários e gavetas, onde são estocados os símbolos e todos os sentimentos que costumo esconder por aí.

A morte do pai do amigo, os porres inconsequentes dos amigos alcoólatras, os recentes “foras”, a mãe em silêncio, o irmão distante, o filme da semana, o ménage a trois, o vício no tabaco, a família americana de outrora, o chefe da época do emprego estável, o pai psicólogo, John Lennon, Chico Buarque e Tom Waits, está tudo lá – sem catalogações ou qualquer tipo de organização mínima que facilite a compreensão e diminua a dor provocada por tantas experiências intensas, ainda que aparentemente sem nexo.

Se meus sonhos fossem algum bicho, ele teria dezenas de cabeças, uma cauda cheia de espinhos e uma pele enrugada cheia de manchas. E se eu acreditasse em demônios, certamente eles fariam parte desses sonhos. Obstinados em confundir e chacoalhar esse baú de emoções fechado a sete chaves em estado de vigília, talvez esses diabinhos sejam mesmo anjos com a missão de higienizar meu cerebelo, provocando sensações incômodas e necessárias para o bom funcionamento desse organismo em constante transformação, ainda que eu esqueça disso em boa parte do tempo.

Espero nunca ter a pretensão de entendê-los integralmente, afinal, os nuances e reflexões múltiplas serão sempre o maior desafio no sofá do psicanalista, capaz apenas de sugerir hipóteses tão reais quanto essa realidade que acreditamos viver.

Nesse universo onírico, infestado por infinitas possibilidades, só posso almejar a compreensão parcial de certos personagens recorrentes, baseado em seus comportamentos que depois de tantos sonhos, se tornaram previsíveis. E se a felicidade parece ausente em boa parte dessas histórias bizarras, talvez seja pelo simples fato de eu não me sentir tão triste assim. Razões e motivos não faltariam, mas decidi em determinado momento que focar nesses aspectos sombrios não seria assim, muito saudável. Prefiro seguir nessa caminhada capenga, tirando lições de cada pedra cruzada e tentando seguir o conselho do velho Dylan, de não olhar pra trás, jamais. Dúvidas não faltarão e talvez a única certeza seja aquela que me faz acreditar e perceber a vida como um emaranhado de símbolos e sensações. O desafio é como a gente se relaciona com eles, seja na rua ou na cama.

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Circo e Esperança no País Essencialmente Colorido

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E de repente, como em uma erupção vulcânica de proporções gigantescas, a triste realidade do país se apresentou na frente de meus olhos. Sexta, protesto partidário a favor do governo e da Petrobrás. Domingo, protesto “apartidário” contra o governo e a favor do impeachment da presidenta. Confesso que foi difícil percorrer o caminho até a casa da minha mãe com tantos carros desrespeitando as leis de trânsito e apertando aquelas malditas buzinas como se o Brasil tivesse sido campeão do mundo e não aquele fiasco da Copa passada. Detesto buzinas, mas pior que isso é ver o povo se comportar como bonecos acéfalos em nome de uma suposta “pátria”, a favor de uma suposta “família brasileira” ou ainda a favor de uma porra de impeachment criado pelo pai do cara que foi armado em uma das patéticas manifestações pós-eleições. Lobão, você já foi legal e contrariamente ao Caetano, você não tem mais razão.

O país está dividido e isso não vem de hoje, mas como Tom Zé e Tim Bernardes cantaram por aí “a diferença entre esquerda e direita já foi muito clara, hoje não é mais”. Sim, existem infinitas nuances, mas esse tipo de reflexão você não verá no canal de TV que costuma assistir, ou na revista semanal que você insiste em assinar. Sim, existem os Felicianos e os Bolsonaros, os loucos reacionários tentando conseguir alguma medida inconstitucional para tirar a Dilma e essa “corja de ladrões chamada PT”. Sim, existe uma parte da elite acostumada com as regalias de um Brasil colonial, acostumada a ter empregadas domésticas sem os mínimos direitos trabalhistas, enfim, uma elite podre que ainda reclama dos aeroportos e dos supermercados lotados. Sim, também existe outra “elite”, de gente que acorda às 6 da manhã para trabalhar e só vai pra cama depois de colocar os filhos para dormir, uma elite belamente descrita por um jornalista da Gazeta do Povo e que não suporta corrupção e todos esses escândalos que rolam por aí. Sim, há ainda aqueles “comunistas de vermelho” que continuam apoiando o governo, promovendo passeatas pró Petrobrás e lendo jornais clandestinos sobre a influência e as pressões do governo americano para controlar o Brasil de alguma maneira ou de outra.

Ficaria extremamente preocupado se nosso Brasil fosse apenas isso, esse preto no branco que tentam empurrar pra gente, mas não, esperem, nem tudo está perdido. Falo de um grupo ainda modesto que parece conquistar simpatizantes pelos quatro cantos. Mas talvez para explicar melhor o que é isso, primeiro precisaria tirar o termo “grupo”, até por que essas pessoas às quais me refiro não se veem representadas em nenhum desses grupos, sejam eles vermelhos, azuis e amarelos ou roxos com bolinhas alaranjadas.

Calma, muita calma nessa hora. Afinal não era meio isso que vivenciamos no ano retrasado durante os protestos? Gente que chegava a brigar com aqueles que estivessem carregando alguma bandeira partidária e acabavam introduzindo um discurso ainda mais fascista e perigoso.

Esses indivíduos, alguns amigos meus, certamente passam longe de qualquer conceito que fuja da democracia ou dos direitos de liberdade individual de qualquer cidadão. Também sabem que um “impeachment”, por mais circense que isso possa parecer, não resolverá nada. Querem sim uma reforma política capaz de mudar o sistema vigente; querem que as investigações policiais prossigam e que os envolvidos em casos de corrupção sejam punidos, sejam eles do PT, do PSDB, do PMDB ou de qualquer outra sigla; querem um país melhor e sabem que uma alternância de poder não significa uma mudança, e seguem esperançosos em um caminho novo e independente, construído pelas próprias pessoas e sem os atrasos burocráticos ou os velhos rótulos reducionistas que segregam, mas não convencem.

Essa gente parece lutar contra a ignorância alheia e mais ainda, contra a própria ignorância. Admitem não terem informações suficientes para saberem quem é o mocinho ou o bandido da história. Preferem não serem manipulados por veículos midiáticos com interesses comerciais. Preferem se concentrar nas boas ações do dia-a-dia, focando em problemas reais da sua comunidade, ao invés de saírem pras ruas papagaiando gritos “de ordem”, vestidos com camisetas da CBF e desrespeitando leis de trânsito. Não são coxinhas, nem empadas, nem petralhas, nem elitistas, nem fundamentalistas, nem titica de nada. São apenas seres humanos que por alguma casualidade nasceram no Brasil e que por alguma razão genética nasceram de uma determinada cor, mas sabem que isso não faz deles melhores ou piores, só diferentes.

Enfim, toda essa conversa arrastada vai para esses seres, diferentes, que não concordam com 90 % do que está acontecendo por aí, seja de um lado ou de outro. Seres que acreditam em uma revolução individual, com panelas na cabeça e não como instrumento de manobra política. Seres que tampouco acreditam em heróis fabricados por partidos de esquerda e talvez prefiram encontrar esses personagens na rua, cantando letras de amor e liberdade, e nos lembrando que a autossuficiência é uma estrada longa, mas verdadeira.

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A Morte

morteA senhora avisou. Ontem dois rapazes da funerária estiveram aqui no condomínio. Perguntaram se era ali que eles deveriam ir. Ela, assustada, disse que não ou, pelo menos, não sabia de ninguém que havia morrido aqui, na casa da minha querida mãe. A senhora me disse que os rapazes entraram e saíram do apartamento do vizinho com o corpo num latão, alguma espécie de caixão de lata, pré-caixão de madeira. Um dia esses rapazes virão para me colocar em um desses latões também. Eu, minha mãe, a senhora e você também, que está lendo esse texto de tons mórbidos.

E ainda nesse assunto, lembrei-me de um amigo que disse estar em casa outro dia, quando um casal bateu em sua porta pedindo informações sobre seu vizinho. Disseram que estavam tentando entrar em contato com ele há um tempo e, sem retorno, resolveram bater na porta dele, também sem resposta. Meu amigo decidiu pular a janela para averiguar a situação e quando entrou no apartamento, o vizinho, um senhor de cinquenta anos, corcunda e simpático, estava lá, na cama, sem pulso e sem simpatia, mortinho da silva.

Sobre essa finitude, ninguém quer saber. A vida já é muito complicada pras pessoas se preocuparem com a morte. E pra não terem que se preocupar com esse problema, o povo paga seguros funerários, alguns até parcelam o terreno no cemitério, ao lado de outros membros da família, com direito à lápide talhada à mão e com frases de efeito, os famosos epitáfios. Há até um famoso epitáfio popular inglês que diz: “Lembre-me quando você caminha ao meu lado, como está agora, uma vez fui como sou agora, vai ser você. Prepare-se para a morte e siga-me.”

Mas quem sou eu pra me preparar para a morte? O George Harrison? Estou aprendendo, aos trancos e barrancos, a me preparar para a vida, com seus altos e baixos, seus longos períodos de apatia, onde tudo parece se repetir e nada de novo e realmente interessante acontece. Até que um belo dia, o universo decide jogar alguma missão em suas mãos, algo que fará você se sentir menos ordinário e mais heróico. Algo que você provavelmente não conseguirá explicar o porquê, mas sentirá em seu coração uma força imensa que o capacitará para realizar a missão, ou ao menos, tentar. Muitos desistem antes de tentar e isso é definitivamente muito triste.

E, no fim, nosso tempo aqui na Terra é curto demais e talvez não haja muitas dessas missões e se formos comparar nosso tempo, vivo, ao tempo do universo, aos bilhões de anos de existência desse planeta, que agora até irmão parecido tem, só o nome que é feio demais (Kepler-186f), enfim, se formos comparar nossos 50, 70 ou 100 anos de vida com esses outros bilhões aí, estamos aqui por frações de segundos. E isso, aliado à imensidão do universo, faz com que Carl Sagan diga que não passamos de um pálido ponto azul.

E você ainda quer que eu me preocupe com a morte?

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Formigas

sorrisoQue coisa é essa que faz os amigos sumirem? Que faz o tempo se tornar escasso e nos lembrar de que ele é finito como tudo na vida? É o dinheiro? O carro, o apartamento, as contas pra pagar e os filhos pra sustentar? É assim que nos ensinaram desde que éramos criancinhas brincando de esconde-esconde? Você cresce, estuda, passa no vestibular, se forma na faculdade e vai pra onde mesmo? Ah, o mercado de trabalho, o maldito mercado de trabalho que nos corrói, sacando o que há de mais belo e de mais sincero na vida. Falo da nossa individualidade, nossa liberdade para ser o que quisermos ser, sem compromissos ou roteiros pré-definidos.

Lá vem ele com aquele papo hiponga de sempre.

Definitivamente o tempo livre, o ócio, assusta. Não ter nada pra fazer, não ter prazos ou metas pra cumprir não é pra qualquer vagabundo. Tem que ter aptidão pra coisa, um certo dom dudeísta, pois como diz um velho ditado, mente vazia é oficina do diabo e é fácil se deixar levar por vícios, pelas drogas, pela prostituição ou, pior que tudo isso, pela TV. Ficar sem nada pra fazer e ligar a TV talvez seja o maior pecado que alguém possa cometer. É ali que o diabo opera, com seus reality shows, seus programas de auditório, seus telejornais, suas novelas e seus jogos de futebol.

Eu? Eu tento ficar longe dela, tento ocupar meu tempo com outros passatempos, como tocar piano porcamente, ou assistir alguma série decente na netflix. E para não me afundar na passividade, procuro produzir, pintar, escrever, fotografar, filmar, enfim, o meio não importa, a arte é pra mim a única coisa que se salva nessa vida, a única coisa que pode ser autêntica, mesmo que na maior parte das vezes não seja.

Profissões, empregos de carteira? São ilusões, e como diria Emile Hirsch, são apenas invenções do século 20. Já estamos no século 21 e o povo continua acreditando nisso.

Ok, entendo que ter um emprego nas costas e mais do que isso, um salário fixo e condizente com o padrão de vida que você queira ter é fundamental, mas você não precisa transformar esse emprego na sua vida. Há coisas muito mais importantes do que seguir instruções de algum chefe qualquer, ou cumprir metas e prazos. Pensar, refletir e filosofar é o que nos difere da maioria dos outros animais, no entanto, poucos o fazem. E não fazendo, tornam-se cada vez mais parecidos com as formigas, seres que passam a maior parte do tempo trabalhando sem questionar absolutamente nada.

E é isso que vejo acontecendo com a maioria dos meus amigos na faixa dos trinta. O trabalho se tornou a própria vida, simplesmente porque não sobra mais tempo para não fazerem mais nada. Ou, pelo menos, para saírem com os amigos, tomarem uma cerveja, falarem besteiras e olharem para Lua ou Marte que nesses dias, andou se aproximando da gente.

Se existe um Big Brother, os Illuminati ou seja lá quem, com certeza é isso que eles querem da gente. Não pensem, escolham uma profissão, estudem e depois trabalhem, trabalhem, trabalhem. Com todo esse trabalho vocês conseguirão comprar aquela TV de 60 polegadas, aquele celular da moda e, dependendo do esforço, talvez até um iate vocês terão um dia. Quando envelhecerem, parte desse dinheiro será gasto com cuidados médicos, necessários quando se passa metade do dia sentado na frente do computador em algum escritório no centro da cidade.

E talvez quando vocês tiverem 70 ou 80 anos, ao olharem o sorriso do seu neto, brincando de esconde-esconde, vocês perceberão que a vida, no sentido poético e verdadeiro, existe nesses momentos. O escritório, a sala de reunião, o consultório, a sala de recepção, o estúdio de gravação, tudo é pretexto pra que vocês continuem sendo… Formigas!

E como eu gostaria que essas linhas pretas expelidas em uma página de internet representassem alguma mudança real na vida dessas formigas, mas talvez essas linhas não passem de mais um lamento enferrujado, provocado pelo vagabundo da esquina que insiste em não gostar de trabalhar. Quanta teimosia!