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Adeus Harvey Pekar

Harvey Pekar foi um nobre arquivista americano, natural da cidade de Cleveland. Harvey Pekar foi um quadrinista famoso no meio underground, principalmente com a série “American Explendor” (ou o “Anti-herói Americano”, como foi traduzida por aqui). Harvey Pekar foi um quadrinista que não sabia desenhar. Mesmo assim, através das suas histórias sobre as pequenas coisas da vida, o cotidiano no subúrbio, a rotina no trabalho e os amigos esquisitos, ele conseguiu encantar os olhos do amigo e parceiro de coleções de discos de jazz, Robert Crumb – esse sim, sabia desenhar, e muito. E assim, foram saindo as primeiras edições daquela que seria um marco no universo HQ e na sub-cultura pop daquele “querido” país.

Pulemos para a década passada quando a história de Harvey Pekar virou filme, protagonizado pelo próprio Pekar e o grande ator Paul Giamatti. Quem ainda não viu, corra para uma locadora próxima ou algum torrent no Google.

Harvey Pekar era capaz de arrancar ironias e sátiras de situações normais e do nosso dia-a-dia. No supermercado, ele alertava para o momento crucial de selecionar a melhor fila do caixa: o número de pessoas é sim um fator determinante, porém uma velhinha judia pode atrasar o processo. Nos anos noventa, ele lança uma graphic novel intitulada “Our Cancer Year”, juntamente com sua esposa. Naquele momento ele próprio sofria de um câncer e para ajudar no tratamento, decidiu escrever sobre, com a mesma ironia de sempre.

Hoje o mundo dos quadrinhos ficou um pouco órfão, mas o nome de Harvey Pekar continuará vivo, seja nos traços esquizofrênicos de Crumb, nas dezenas de outros cartunistas que ilustraram suas histórias, ou no cinema.

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On the Road no Cinema?

Em 1967, o escritor americano Russell Banks teve a oportunidade de conhecer nada mais, nada menos que Jack Kerouac – o pai da geração beatnik e autor de uma das obras mais marcantes do século 20: On the Road (ou Pé na Estrada na tradução brasileira). Um amigo de Banks havia dado carona a Kerouac e dois índios que o acompanhavam. Os três apareceram em uma festa promovida por outro amigo de Banks, e foi nessa festa que o então jovem escritor e ativista teve contato com seu herói. Nas palavras dele “Kerouac estava mentalmente doente e com sérios problemas relacionados ao álcool e era triste ver um herói se comportando como um homem mortal”. Mal sabia Russell Banks, que anos depois ele seria o quarto roteirista responsável em transpor a obra prima de Kerouac para o cinema. Francis Ford Coppola havia comprado os direitos de On the Road, ainda em 1968, quando era apenas um jovem promissor cineasta. Mas o que parecia ser um sonho a ser concretizado acabou se transformando em uma lenda de 40 anos de idade, já que a película nunca saiu do papel. Em 1997, Coppola disse a um jornalista que a intenção dele era filmar em 16mm em preto e branco, mas que ele não havia conseguido dinheiro suficiente para rodar o projeto. O roteiro passou na mão de outros três roteiristas antes de chegar às mãos de Russell Banks, que chegou a entregar o mesmo para Coppola, que por sua vez havia gostado do que leu. Mas o filme ainda estava longe de acontecer.

Ultimamente a carreira cinematográfica de Coppola tem sido escassa e longe da relevância das décadas anteriores. Hoje o diretor parece muito mais preocupado com a produção dos vinhos na sua vinícola na Califórnia do que com a superprodução de longas-metragens hollywoodianos. Mas isso tudo pode mudar, já que nesse ano Coppola convocou o diretor brazuca Walter Salles para encabeçar a produção de On the Road, ao lado do seu antigo parceiro de Diários de Motocicleta, o roteirista Jose Rivera. Walter Salles já chegou até a percorrer todo o caminho retratado nas palavras de Kerouac, como forma de se aprofundar na famosa história beatnik. Claro que os tempos são outros, e toda aquela inocência americana dos anos 50 agregada a um sentimento de liberdade já não existem mais.

A questão é que depois do anúncio do nome brasileiro para a direção do filme, muita gente torceu o nariz se perguntando se Salles seria o homem ideal para capturar nas lentes aquelas sensações tão bem descritas no livro de Kerouac.  Pessoalmente tenho minhas dúvidas. Diários de Motocicleta é sim um grande filme, porém não acredito que as aventuras do jovem Che Guevara se aproximem das loucuras de Dean e Sal, tão pouco o tom da película, claramente mais dramático e socialmente “engajado” – coisas que não caem muito bem na obra de Kerouac.  Antes do brasileiro, Coppola havia entregue o projeto a Joel Schumacher (autor das piores versões de Batman e aficionado por cenas de ação). Graças ao bom deus, isso não se concretizou. Agora é a vez de Walter Salles. Por favor, espero que você me surpreenda. E Coppola, dessa vez esse projeto tem que sair. Os fãs agradecem.

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O Saramago que Eu (Não) Conheci

Antônio Abujamra, célebre dramaturgo, ator e apresentador do programa “Provocações” (quem ainda não viu esse programa, corra para o youtube ou confira as sextas-feiras 22h10 na TV Cultura), costuma questionar seus entrevistados sobre o autor que eles ainda não descobriram. Se a pergunta fosse dirigida a mim (nunca será, mas enfim, para fins hipotéticos), talvez eu respondesse “José Saramago”. Que vergonha né? Não conhecer um dos grandes autores desse século, vencedor de prêmio Nobel e o escambau, não é? Admito, o máximo que consegui me aproximar da sua obra foi pelos olhos de outro cara, um sujeito brasileiro chamado Fernando Meirelles, diretor de Ensaio sobre a Cegueira. Talvez a escolha de Saramago tenha sido influenciada pela trágica notícia de hoje, da morte do escritor português de 87 anos. Não adianta negar, certos nomes só receberão o destaque necessário após suas mortes. Felizmente não é bem o caso de José Saramago, já que ele recebeu o prêmio Nobel ainda em vida. O filme do Meirelles ajudou na divulgação e acredito que muita gente passou a conhecer a obra do autor, depois de assisti-lo. Not me. Eu tive que esperar a morte, para me atentar para essa grande lacuna literária na minha vida, de não conhecer o autor de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, “A viagem do elefante” e do recente “Caim”.

Esse texto não pretende relatar fatos históricos da vida do escritor (para isso, existem os portais de notícia mundo afora), apenas discorrer um pouco sobre minha total ignorância pela obra desse homem que morrera, segundo familiares, no conforto de seu lar “despedindo-se de uma forma serena e tranqüila”. Também deixo registrado de modo que isso desperte ainda mais minha curiosidade e interesse por seus livros. Me recordo agora de um trecho de algum documentário em que Saramago, ao receber o prêmio Nobel, discursa sobre tema políticos, enfatizando o fato de sermos dominados e manipulados por grandes corporações e que a democracia de hoje se resume entre escolher o boneco da esquerda ou da direita. Apenas por essa atitude, em pleno discurso na maior premiação literária do mundo, já é o suficiente para eu nutrir uma admiração por esse homem. Nem imagino o que vai acontecer depois que eu ler seus livros.

* Seguem abaixo dois vídeos, o primeiro com uma parte do seu discurso político e o segundo, que encontrei por acaso e também achei pertinente divulgar, sobre a religiosidade de Saramago:

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Henry Miller Continua Vivo!

E isto então? Isto não é um livro. Isto é injúria, calúnia, difamação de caráter. Isto não é um livro, no sentido comum da palavra. Não, isto é um prolongado insulto, uma cusparada na cara da Arte, um pontapé no traseiro de Deus, do Homem, do Destino, do Tempo, do Amor, da Beleza…. e do que mais quiserem. Vou cantar para você, um pouco desafinado talvez, mas vou cantar. Cantarei enquanto você coaxa, dançarei sobre seu cadáver sujo…

Nesse trecho do livro “Trópico de Câncer”, o escritor Henry Miller, então com 50 anos de idade, morando em condições precárias numa Paris dos anos 30, declara por que escreve aquele texto. Desiludido com um casamento fracassado e sua pátria decadente, ele decide embarcar na cidade das luzes, local freqüentado por artistas bem sucedidos do mundo inteiro – um sucesso que estava longe de acontecer na vida do escritor. Miller quer falar das coisas mundanas: das prostitutas que conhece, dos prazeres da vida, das camas sujas, dos bares e cafés toscos, mas com pessoas reais, cheias de sofrimento, dores, e muita decadência. Pra ele isso tudo é combustível para sua alma e conseqüentemente, para sua escrita afiada e sem concessões.  Henry Miller conseguiu antecipar um pouco da literatura visceral e fluída dos beatniks dos anos 50. Henry Miller conseguiu descrever em detalhes essas coisas mundanas motivadoras das mais desesperadoras ações humanas. Henry Miller conseguiu poetizar a sexualidade, sem elevá-la a um status incoerente e distorcido do que ela realmente poderia representar.  Henry Miller é sincero e é um exemplo da possibilidade de vivermos uma vida de exageros, sem preocupações morais ou materiais.

Ó Tânia, onde estão agora aquela sua boceta quente, aquelas ligas gordas e pesadas, aquelas coxas macias e arredondadas? Em meu membro há um osso de quinze centímetros de comprimento. Tânia, alisarei todas as pregas de sua vulva, cheia de semente. Mandá-la-ei de volta para seu Sylvester com a barriga doendo e o útero virado. Seu Sylvester! Sim, ele sabe acender um fogo, mas eu sei inflamar uma vagina. Enfiarei pregos quentes em você, Tânia. Deixarei seus ovários incandescentes. Seu Sylvester agora está um pouco ciumento? Ele sente alguma coisa, não sente? Sente os remanescentes de meu grande membro. Deixei as margens um pouco mais largas. Alisei as pregas. Depois de mim, você pode receber garanhões, touros, carneiros, cisnes e São Bernardos. Pode enfiar pelo reto sapos, morcegos, lagartos. Você pode defecar arpejos ou amarrar uma cítara sobre o umbigo. Eu estou fodendo, Tânia, para que você fique fornicada. E se tem medo de ser fornicada em público, eu fornicarei privativamente. Arrancarei alguns pêlos de sua vulva e os grudarei no queixo de Bóris. Morderei seu clitóris e cuspirei moedas de dois francos…

No alto dos seus 89 anos, no leito de morte, ele, em plena consciência, fala pra câmera: “Eu acuso o criador, se é que existe um, de fazer o mundo do jeito que é. Eu já vou saber se existe um criador ou não. Ainda sou da opinião que não existe o criador, mas existe algo que corresponda à palavra criação. Até agora ninguém conseguiu me dar uma explicação da palavra criação – é alguém, alguma coisa? De qualquer forma, eu preciso agradecer por todos os acontecimentos maravilhosos e por todo o tempo que passei aqui. Mas sinto que eu fui responsável por muitos desses acontecimentos maravilhosos. Aqui estou no meu leito de morte e é difícil pronunciar essa palavra, pois não sei realmente o que ela significa. Estou perto da morte, mas pra mim ainda sinto vivo, vivo até o final.”

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Livro do Mês

Rum – Diário De Um Jornalista Bêbado [256 págs., R$ 36] foi escrito entre o fim da década de 50 e o início da de 60 e conta a história de Paul Kemp, um homem na casa dos 30 que vai para Porto Rico trabalhar em um jornal feito em inglês naquele país. Constantemente bêbado, tem que lidar com uma horda de ianques alucinados no meio de um bando de latinos igualmente alucinados. Uma comunidade de vespas que se protege como pode.

Trecho: “Acendi as luzes, abri as janelas, preparei um drinque em um copo grande e deitei na cama de campanha para ler uma revista. Soprava uma brisa leve, mas o barulho da rua era tão terrível que desisti de tentar ler e apaguei as luzes. Pessoas não paravam de passar pela calçada e espiar pela janela. Como não conseguiriam me ver, fiquei esperando que saqueadores entrassem pela janela a qualquer momento. Fiquei deitado, com uma garrafa de rum apoiada no umbigo, pensando em como iria me defender.”