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Circo e Esperança no País Essencialmente Colorido

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E de repente, como em uma erupção vulcânica de proporções gigantescas, a triste realidade do país se apresentou na frente de meus olhos. Sexta, protesto partidário a favor do governo e da Petrobrás. Domingo, protesto “apartidário” contra o governo e a favor do impeachment da presidenta. Confesso que foi difícil percorrer o caminho até a casa da minha mãe com tantos carros desrespeitando as leis de trânsito e apertando aquelas malditas buzinas como se o Brasil tivesse sido campeão do mundo e não aquele fiasco da Copa passada. Detesto buzinas, mas pior que isso é ver o povo se comportar como bonecos acéfalos em nome de uma suposta “pátria”, a favor de uma suposta “família brasileira” ou ainda a favor de uma porra de impeachment criado pelo pai do cara que foi armado em uma das patéticas manifestações pós-eleições. Lobão, você já foi legal e contrariamente ao Caetano, você não tem mais razão.

O país está dividido e isso não vem de hoje, mas como Tom Zé e Tim Bernardes cantaram por aí “a diferença entre esquerda e direita já foi muito clara, hoje não é mais”. Sim, existem infinitas nuances, mas esse tipo de reflexão você não verá no canal de TV que costuma assistir, ou na revista semanal que você insiste em assinar. Sim, existem os Felicianos e os Bolsonaros, os loucos reacionários tentando conseguir alguma medida inconstitucional para tirar a Dilma e essa “corja de ladrões chamada PT”. Sim, existe uma parte da elite acostumada com as regalias de um Brasil colonial, acostumada a ter empregadas domésticas sem os mínimos direitos trabalhistas, enfim, uma elite podre que ainda reclama dos aeroportos e dos supermercados lotados. Sim, também existe outra “elite”, de gente que acorda às 6 da manhã para trabalhar e só vai pra cama depois de colocar os filhos para dormir, uma elite belamente descrita por um jornalista da Gazeta do Povo e que não suporta corrupção e todos esses escândalos que rolam por aí. Sim, há ainda aqueles “comunistas de vermelho” que continuam apoiando o governo, promovendo passeatas pró Petrobrás e lendo jornais clandestinos sobre a influência e as pressões do governo americano para controlar o Brasil de alguma maneira ou de outra.

Ficaria extremamente preocupado se nosso Brasil fosse apenas isso, esse preto no branco que tentam empurrar pra gente, mas não, esperem, nem tudo está perdido. Falo de um grupo ainda modesto que parece conquistar simpatizantes pelos quatro cantos. Mas talvez para explicar melhor o que é isso, primeiro precisaria tirar o termo “grupo”, até por que essas pessoas às quais me refiro não se veem representadas em nenhum desses grupos, sejam eles vermelhos, azuis e amarelos ou roxos com bolinhas alaranjadas.

Calma, muita calma nessa hora. Afinal não era meio isso que vivenciamos no ano retrasado durante os protestos? Gente que chegava a brigar com aqueles que estivessem carregando alguma bandeira partidária e acabavam introduzindo um discurso ainda mais fascista e perigoso.

Esses indivíduos, alguns amigos meus, certamente passam longe de qualquer conceito que fuja da democracia ou dos direitos de liberdade individual de qualquer cidadão. Também sabem que um “impeachment”, por mais circense que isso possa parecer, não resolverá nada. Querem sim uma reforma política capaz de mudar o sistema vigente; querem que as investigações policiais prossigam e que os envolvidos em casos de corrupção sejam punidos, sejam eles do PT, do PSDB, do PMDB ou de qualquer outra sigla; querem um país melhor e sabem que uma alternância de poder não significa uma mudança, e seguem esperançosos em um caminho novo e independente, construído pelas próprias pessoas e sem os atrasos burocráticos ou os velhos rótulos reducionistas que segregam, mas não convencem.

Essa gente parece lutar contra a ignorância alheia e mais ainda, contra a própria ignorância. Admitem não terem informações suficientes para saberem quem é o mocinho ou o bandido da história. Preferem não serem manipulados por veículos midiáticos com interesses comerciais. Preferem se concentrar nas boas ações do dia-a-dia, focando em problemas reais da sua comunidade, ao invés de saírem pras ruas papagaiando gritos “de ordem”, vestidos com camisetas da CBF e desrespeitando leis de trânsito. Não são coxinhas, nem empadas, nem petralhas, nem elitistas, nem fundamentalistas, nem titica de nada. São apenas seres humanos que por alguma casualidade nasceram no Brasil e que por alguma razão genética nasceram de uma determinada cor, mas sabem que isso não faz deles melhores ou piores, só diferentes.

Enfim, toda essa conversa arrastada vai para esses seres, diferentes, que não concordam com 90 % do que está acontecendo por aí, seja de um lado ou de outro. Seres que acreditam em uma revolução individual, com panelas na cabeça e não como instrumento de manobra política. Seres que tampouco acreditam em heróis fabricados por partidos de esquerda e talvez prefiram encontrar esses personagens na rua, cantando letras de amor e liberdade, e nos lembrando que a autossuficiência é uma estrada longa, mas verdadeira.

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Lambalada na Terra dos Gringos

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“Lambalada” em plena segunda-feira de janeiro, no clube dos operários e forrozeiros, na cidade dos fantasmas. Que rapaz atrevido, esse tal de Felipe Cordeiro. Curitibanos dançando lambada e carimbó? Você ficou louco? Segundas são dias de reclusão, dias pra não sair do quarto e se arrepender dos excessos do fim de semana. Dias pra lembrar que precisamos trabalhar, pagar nossas contas e manter a roda do conformismo girando em velocidade constante rumo ao sonho da casa própria, dos filhos mimados, do emprego estável e do casamento conveniente.

Felipe tinha outros planos. Felipe vinha do Pará, de um Brasil ainda possível, cheio de alegria e de um tipo raro de malemolência, contagiante, libertadora e extremamente necessária para seres oriundos do sul, seres estranhos que até num calor que beira os 40 graus, continuam frios e chatos em conversas sobre o tempo ou sobre as notícias da semana.

Felipe veio para cumprir a função social daquele rapaz vindo do norte que vem para o sul para nos lembrar o que é Brasil, o que é Carimbó, Lambada, Tecnobrega e não sei mais o quê. O povo daqui é rock’n’roll e quer continuar mirando para continentes distantes e gelados, e talvez os mais alternativos sejam aqueles que vão pra Europa fazer mochilões de um mês, com o dinheiro economizado no ano ou ainda, com a grana dos pais.

De qualquer maneira esse texto não será para achincalhar a cultura local ou talvez a falta dela, mas sim para exaltar os encantos da música popular de Felipe Cordeiro e sua trupe. Seu pai, um dos mestres da guitarrada também estava lá, balançando corações com seus solos hipnotizantes com ecos de Dick Dale. Dick Dale, o avô da surf music, se tivesse nascido no Pará e em outra época, poderia ter sido batizado pela alcunha de… Felipe Cordeiro. E se Dick Dale tivesse um pai guitarrista, ele seria o pai de Felipe.

É claro que essas minhas comparações vêm de alguém do sul, de alguém que começou a se familiarizar com os sons nortistas há poucos anos, e que seguramente não conhece a história do Carimbó ou da lambada além do Magal, que costumava passar na novela. Talvez existam centenas de Felipes Cordeiros, e caso alguém que esteja lendo essas linhas queira me recomendar outros nomes, ficarei imensamente grato.

A festa ontem começou cedo, perto das 10 da noite, com o Felipe discotecando sons de sua terra sensual para uma plateia ainda tímida e esparsa. Em certos momentos me senti como se estivesse em algum prostíbulo, não pelas garotas vestidas de hippie-retrô-brasileiro ou pela decoração do palco, mas por algumas canções que lembrei ouvir em tais recintos. Achei bacana e pensei, esse rapaz abusado está trazendo os puteiros para os clubes da classe média, e mesmo que essa não seja sua intenção, talvez esse conceito “pós-moderno” e meio antropofágico seja justamente onde está alojada a força da música de Felipe Cordeiro.

E quando o show de fato começou, os fantasmas haviam tomado conta do espaço, que agora era composto não mais por fantasmas da noite curitibana, mas por seres encarnados que não conseguiam mais permanecer em suas mesas e em suas posições de conforto. No palco, o duelo de guitarras estridentes ditava o ritmo, enquanto na pista, casais de todos os gêneros bailavam do jeito que podiam a música que talvez ainda não tivessem compreendido. “Don’t you fear, if you hear, a foreign sound to your ear”, já dizia o velho Dylan, e quem mesmo foi que disse que música é pra ser entendida?

Se a alma não tem cor, a música muito menos. E quem disse que não era possível encontrar o paraíso tropical em plena segunda-feira, na “cidade dos normais”? Quem estava lá pôde testemunhar esse fenômeno responsável por chacoalhar partes ociosas de corpos enferrujados, acostumados com movimentos duros trazidos pelos ingleses, por ondas de rádios caretas e preocupadas em ditar tendências atrasadas.

Felipe percorre caminhos paralelos e talvez sua única preocupação seja mostrar a verdadeira música brasileira que sempre esteve por aí, ainda que parte dela tenha sido relegada a inferninhos ou a bailes propositalmente bregas. Ontem, Pará e Paraná encurtaram suas distâncias, provando que na vila “Footloose”, ainda existe dança. O show não pode parar e que venham outros Felipes Cordeiros para cá.

Quem sabe, um dia, não comecemos a produzir os nossos?

Dicas Musicais, pseudojornalismo

Charme Chulo no Teatro das Pólvoras

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Foto: Arnaldo Belotto

Vinícius e Toquinho abriram as portas daquele lugar. A pólvora histórica virou poesia e dali em frente a arte reinou na praça do famoso pintor. Décadas se passaram, poderes e governos ainda mais corruptos foram destituídos, e hoje o Teatro Paiol foi palco de um show de rock estranho: meio caipira, meio jacu, meio curitiboca, meio Smiths, meio ska, meio batidão, meio axé e até meio zumbi.

Depois do hiato presente em noventa por cento das bandas do século 21, os caras renasceram mais feios do que nunca, com sangue de pinhão escorrendo pelos cantos das bocas secas e cheios de rachaduras e cicatrizes oriundas do ofício de se fazer rock no país do samba e da bossa. Voltaram mais fortes, reinventando pela quarta vez a moda caipira de Irati ou sei lá de onde.

Crucificados pelo sistema bruto (nome do último pão), os charmosos fazem parte daquele grupo de bandas talentosas e inventivas (sem perderem o apelo comercial) mas, que por algum motivo desconhecido, permanecem na cena alternativinha da galera da Trajano. O sistema bruto, que parece escolher os queridinhos da vez, continua fazendo suas vítimas e não há muito o que fazer para mudar esse quadro, que a cada ano enferruja ainda mais.

Quem sabe algumas listas de melhores do ano possam reparar esse estrago.

No palco do Paiol, o que vejo é um som de primeira, letras pegajosas recheadas de poesia pós-moderna (seja lá o que isso possa significar), direcionadas para uma plateia heterogênea, louquinha pra sair pulando e seguindo o trenzinho da alegria, turbinada por litros de cachaça da serra e vinhos de mesa.

Impossível não se sensibilizar com a viola sateriana do Leandro ou com a performance do xará: suas nuances vocais, suas palmas ferozes, suas danças zumbis e seu olhar em contato direto com seu peito, cheio de amor pra dar. Piegas é ter medo de falar desses lances.

A cidade grande assusta, com seus “playboys com seus carros na Batel”, seus motéis, seus políticos, seus pastores e suas mentiras. Aos poucos, ela “aniquila sua cabeça”, te “engolindo” e pedindo um “êxodo urbano”, afinal, “às vezes, melhor é morar na fazenda”.

No mato, na praia ou no campo, a vida é mais simples, não existem produtoras, agentes pentelhos ou fãs mal-intencionados. Poderia seguir falando dessas coisas bacanas, mas o pessoal do The Band já fez isso no documentário do Scorcese.

“Hoje o rock anda frouxo demais”, e a consequência maior da gente “escolher viver de sonho” é aquela que você cantou hoje “Sou imortal e não tenho onde cair morto”. Se depender da vaquinha virtual, continuará existindo alguma luz no fim desse túnel construído de sangue e palha, chamado rock nacional.

Só posso pedir a Deus, em tom de jagunço, que abençoe esses meninos brilhantes, pois nem Jesus foi capaz de uma segunda ressurreição.

** clique aqui para baixar o disco duplo dos caras **

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Exposição “Sangue Sulamericano” por Igor Moura, no Museu Guido Viaro

cartaz 31x44cm_igormoura_web“Na exposição “Sangue Sulamericano” o artista multimídia Igor Moura, especializado em arte digital, troca a tela do computador por tinta e luminosidade do sol. Autodidata, sua pintura não se enquadra nos moldes acadêmicos, nem nas tendências da arte contemporânea, mas dialoga com a arte de rua, de traços fortes, pinceladas espontâneas e cores vivas. A série de pinturas inéditas demonstra que a experiência na América do Sul foi mais do que um passeio turístico. O encontro comnossos irmãos latinos foi um encontro de almas. A sensibilidade do artista funciona como uma espécie de teia que apanha cada partícula trazida no ar dos lugares que visitou. Sua mente imaginativa consegue captar as mais leves sugestões: um objeto simples, um jeito de sentar, a expressão do rosto, um sentimento, um silêncio. As cenas de rua filtradas pelo seu olhar humanista revelam-se generosamente em cores. A vida se mistura em sangue e tinta: “O inferno não são os outros. Os outros são o paraíso. A humanidade começa no outro”. Deus salve a América do Sul na arte de Igor Moura.”

Antonio Cava – Curador

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A Tragicomédia do Debate na TV

fidelixraivoso“Obelix raivoso” esguichou seu veneno contra os homossexuais e seus aparelhos excretores que não fazem filho. “O Jorge” e “Tarsiana” tentaram arrancar um pedido de perdão, mas o homem carrancudo não cedeu, insistindo na tal “Família Brasileira” ou em “Mais Uma Utopia Inventada Pelas Igrejas Ortodoxas” (já que o verdadeiro cristianismo parece passar longe disso).

A primeira temporada do “Debate na TV” chegou ao fim e infelizmente os prognósticos não apontam para uma sequência à altura, pelo contrário, essas malditas pesquisas encomendadas só fazem entristecer aquele que sente que o futuro será sombrio e com opções pífias (para usar mais uma palavra proferida no último episódio).

Restaram os personagens mais chatos, caretas, e menos humildes da série. O ditador Obelix adicionou generosos toques à trama que beirou o humor nonsense, proclamando neonazistas de plantão para uma união com a bancada fundamentalista do congresso, a mesma turma que vem atrasando o país há séculos. Enquanto isso, os irmãos siameses protagonistas da série, escolhidos a dedo por banqueiros e interesseiros desinteressados em mudar a política econômica atual, seguem firmes em seus palanques de cristal. Sem planos de governo concretos, mas com infindáveis frases de efeito, eles cativam os telespectadores com seus horários eleitoreiros que mais parecem comerciais de margarina, mesclados com programas de humor, onde os candidatos a deputado só têm tempo para cuspirem bordões enferrujados sem a menor graça.

Nas ruas, a profusão dos cavaletes inúteis e a distribuição em massa dos santinhos e diabinhos colaboraram para o empobrecimento desta série, fadada ao fracasso desde o princípio.

É uma pena que os mocinhos e mocinhas da história sejam ofuscados pelos vilões travestidos de heróis. Sem tempo de TV e praticamente excluídos das pautas dos telejornais, eles acabaram tendo que se contentar com seus quinze minutos de fama na curta temporada do “Debate na TV”. E ainda sim, devido às regras estúpidas desses episódios, a polarização entre os “irmãos siameses do topo da cadeia alimentar” se tornou inevitável, e o telespectador se viu obrigado a tragar o enfadonho blá-blá-blá decorado e roteirizado por assépticos assessores de campanha.

Creio que a digestão desses personagens fakes será lenta e ácida, mesmo que os outros personagens, pejorativamente chamados de “nanicos”, tenham crescido aos olhos daqueles que ainda possuem algum senso crítico e libertário (chame de utópico se preferir, sonhar será sempre melhor que se conformar). No entanto, na segunda temporada estes saíram de cena e agora resumem seus papéis em apoios de araque para o boneco que julgarão ser o menos pior, ou ainda mais trágico, para aquele eleito pelo partido (em troca de empregos melhores) . De qualquer maneira, nossa “democracia” é essa, e enquanto não for feita uma reforma política séria neste país, ficaremos sempre com as três piores opções de protagonistas, e assim, o Brasil segue incapaz de criar uma série decente, roteirizada pelo povo e sem apelos marqueteiros.

De qualquer maneira, ter visto a “Tarsiana” falar que só havia sido chamada para o elenco da série, por uma questão legislativa e não da Rede Globo (capitaneada por uma das poucas famílias detentoras do poder no país), somente essa fala, direcionada aos milhões de brasileiros que ainda parecem não se atentar para essa questão, me fez sentir orgulho de ter assistido à primeira temporada dessa decadente série chamada “Debate na TV”.

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Cinema de Novidades

cinema

Um cinema cheio. Seres são franciscanos, travestidos com jaquetas desbotadas e camisas multicoloridas de brechó, invadiram o espaço destinado para a sétima arte. Na tela, uma imagem estática, uma capa branca minimalista com cara de bíblia, “O Novo Tentamento” e logo acima um olho maçônico, que vez ou outra pisca, causando um estranhamento ainda maior. Abaixo do título, um nome, oito letras. ESCAMBAU.

As luzes se apagam e o filme está prestes a começar. Filme? Que filme? Que nada, trata-se da primeira audição pública do novo disco da banda Escambau, de Giovanni Caruso, sua mulher e seus comparsas. Mas espere aí, o que é isso? Não vai ter show, não vai ter filminho, trailer e essas porras todas? Não, na tela permanecerá imóvel a capa do disco, com esse olho místico piscando e com os nomes das canções aparecendo no espaço branco.

No som, o que se ouve é uma verdadeira odisseia rock neo-apocalíptica, com toques de boleros e recheada com pura psicodelia. Uma viagem musical para ser sentida e apreciada em uma sala escura, silenciosa, com características que remetem a um espaço que costumamos chamar de cinema. Poderia ser em uma igreja, pegando carona nesse conceito bíblico criado pela banda, mas talvez isso afastasse os malucos de plantão.

Agora me diga, quando, você ou eu, ficaríamos 40 minutos parados apenas para ouvir um disco. Sei que isso devia rolar antigamente, na época de ouro dos vinis, você comprava o disco, ia pra casa dos amigos e mudos, escutavam atentos cada faixa da obra, sem intervalos ou distrações. Hoje, na época dos smartphones e das redes sociais assépticas, isso parece virtualmente impossível. Mas não é que os caras conseguiram?

Digo por mim, e talvez por outras pessoas que como eu, não sacaram seus iphones para checar as atualizações insignificantes do feicebuque. Ao contrário, ficamos lá, congelados e apenas movimentando as mãos para bater palmas no intervalo das canções. E que canções! Já conhecia os trabalhos anteriores dos caras, mas senti uma maturidade incrível nos arranjos, melodias, acabamentos e nas letras, transcendentes na maior parte das vezes, irônicas e satíricas em outros momentos, mais divertidas.

“O Novo Tentamento” é o equivalente ao “Construção” de Chico, ou ao “Pet Sounds”, dos Beach Boys. Marca uma mudança clara e um novo direcionamento no rock produzido no sul, que agora atinge o universo, as galáxias, para se perder em algum buraco negro por aí. Torço pra experiência se repetir, apesar de saber que poucos discos merecem tamanha atenção e espero seguir acompanhando essa curiosa evolução sonora do Escambau.

No cinema cheio, jovens viajantes do tempo derretiam seus cerebelos em uma espécie de cinema mudo às avessas: na tela, uma imagem parada, nos alto-falantes, pirações fonográficas amplificadas por símbolos sonoros e versos místicos ou bobos criados por roqueiros cansados dos velhos rótulos e das balelas radiofônicas dos últimos 20 anos.

Tentamento é ficar de fora dessa.

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Casas Abertas e A Nova Contracultura

sarau02Cansados das festas particulares, dos grupos fechados e das ideias caretas de sempre, jovens de espírito livre vêm fomentando uma série de intervenções, festivais, rádios livres, encontros e festas em casas abertas, sem as chatices e mesmices do mercado coorporativo, onde marcas de cerveja e de celulares dominam o setor baladeiro, em megaeventos recheados de estrelas pop, bebidas caras, comerciais de TV e ingressos exorbitantes. Em paralelo, esses mesmos jovens promovem a democratização do conhecimento e da cultura, pregando a liberdade de expressão, a política da boa vizinhança, o consumo de alimentos naturais (e muitas vezes, vegetariano) e a evolução espiritual individual, sem obscurantismos, regras ou rituais pré-estabelecidos e com uma horizontalidade de poderes, onde ninguém é mais importante que ninguém e todos têm algo para aprender, para ensinar, e principalmente, compartilhar.

O conceito de casas abertas, crescente na comunidade curitibana, segue justamente essas linhas. Já tive a oportunidade de conhecer três casas diferentes, mas com propostas semelhantes. Normalmente em uma casa, três ou mais jovens dividem as despesas domésticas e juntos promovem uma série de atividades e oficinas no mesmo espaço, além das costumeiras festas igualmente abertas, regadas de arte, performances teatrais e música de qualidade e independente. Às vezes, paga-se uma entrada, que não costuma passar dos cinco reais, enquanto bebidas e comidas naturebas são vendidas separadamente, a preços justos.

Nas oficinas, em geral gratuitas, as pessoas aprendem técnicas de pintura, fotografia, música, culinária vegana e até malabares, além das práticas coletivas de meditação, yoga e o que mais a imaginação permitir.

Muitos desses grupos têm nomes próprios, os chamados “coletivos”, comumente formados por artistas, estudantes e profissionais liberais da área da saúde, ou ainda da medicina complementar. Jovens com tendências políticas anárquicas e/ou socialistas, no melhor sentido que esses termos possam ter.

O sistema vigente não mudará, o capitalismo continuará fazendo suas vítimas, os meios de comunicação em massa e os políticos continuarão corruptos até os ossos, a educação seguirá precária, porém há sim algo para se fazer. E essas comunidades (muitas, já autossustentáveis), essas casas abertas, formadas por cabeças jovens, cansadas de receberem ordens, cansadas de terem que dançar uma música não escolhida, cansadas dos mesmos canais de comunicação, dos mesmos líderes decadentes e das mesmas opções nos cardápios, cada vez mais caros, enfim, essas comunidades abertas parecem apontar a direção que deveríamos seguir.

De algum modo estranho, os protestos do ano passado seguem ecoando e as mudanças estão ocorrendo em doses homeopáticas, em corredores invisíveis e sem líderes ou partidos. Essas mudanças partem de seres humildes e com ideais libertadores, cheios de luz e força de vontade para criarem uma nova ordem, positiva e humana, com valores reais e sonhos coletivos possíveis. Os sonhos são coletivos, mas o trabalho será sempre individual e livre, respeitando as limitações de cada ser humano, e sem as classificações ilusórias de acordo com aparências. Os hippies estão de volta e estão mais conscientes do que nunca. A nova era, profetizada nos anos 80 pode estar sendo construída debaixo dos nossos olhos.