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Crônicas de Nácar #02: Baseado em Contos Surreais

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A história que contarei não aconteceu exatamente na rua em questão, mas nas redondezas, bem no centro histórico da chamada República de Curitiba, nomezinho feio que inventaram recentemente, para descrever essa província pseudo européia localizada no sul do Brasil – um país bem diferente do que vemos por aqui.

Era mais ou menos umas onze e meia da noite, quando meus amigos decidiram lanchar no copo sujo, uma lanchonete 24h com coxinha de 1 real e uma série de personagens notívagos um tanto curiosos. Cumprida essa missão, Ed, Renata, Fernando e Nina, decidiram celebrar a saciedade de seus estômagos, e fumar unzinho bem na frente de um famoso restaurante, que em inglês, algo típico dessa republiqueta, diz pra gente que eles tem “o melhor hambúrguer do mundo”. Egocentrismos a parte, meus amigos estavam lá, cantando All You Need Is Love, no melhor astral que uma capital fria pode oferecer. Nina coloca o baseadinho na boca e de repente o cenário muda de figura: um camburão da polícia militar encosta e logo saem cinco homens com escopetas e expressões faciais de puro ódio. Chegam brincando e dizendo coisas do tipo “rodaram, rodaram, seus filhos da puta, maconheiros de merda, podem encostar na parede”.

Apesar das duas meninas e de serem cinco homens na abordagem, eles foram revistando os meus quatro amigos, ao som de xingamentos e esculachos, infelizmente típicos dessa polícia brasileira. Durante esse processo tosco, Fernando levou uma cacetada nos testículos, e quando esboçou uma reação perante uma das maiores crueldades que um homem pode passar, o policial pergunta “que que você tá se contorcendo aí viado?”. Fernando apenas explicou com seu sotaque nordestino inconfundível “você bateu nos meus ovos!”.

Nina, uma garota que esbanja alegria no viver, e não deve passar dos 50 quilos, também sofreu preconceito, talvez por ser negra, ou pelo fato de ter nascido no Rio de Janeiro. “Ah, você é uma carioca folgada. Volta lá pra sua terrinha de merda”. Renata, que veio de Londrina, mas que naquele momento bizarro resolveu dizer que era daqui e que morava no Pilarzinho, foi prontamente humilhada em um sentido reverso. “Ah, você veio de um bairro bom, o que a senhorita está fazendo com esses vagabundos: negros, nordestinos e bandidos por natureza?”. Só aí esses tais homens da lei cometeram pelo menos três tipos de crimes, crimes que a sociedade costuma ignorar, afinal, eles só estão cumprindo a lei“, algo a ver com os costumeiros “homens de bem” típicos desses cantos.

Ed, um dos maiores talentos musicais que conheci nos últimos anos, foi o único que decidiu rebater algumas das atrocidades ditas por esses cinco homens, sem rostos e sem um pingo de bom senso ou respeito, cinco homens que pensam que a farda possui alguma mágica especial que faz deles superiores a qualquer outro cidadão. Ed também é negro, tem um cabelo black power invejável e veio do interior de São Paulo. De cara ele afirmou pacificamente “sou maconheiro sim, mas sou trabalhador, trabalhei o dia todo e agora vocês querem me prender porque estou fumando um baseado com meus amigos?”.

Por motivos incompreensíveis esses cinco homens com escopetas algemaram Ed e o colocaram no camburão, enquanto meu amigo tentava explicar que o país estava uma merda justamente por essa hipocrisia. Com claustrofobia, Ed tentou meditar dentro daquele pequeno espaço escuro destinado a verdadeiros bandidos: assassinos, estupradores e quem sabe alguns políticos também. Mas sua meditação era sempre interrompida pelo policial baixinho com algum problema sério de auto estima, que seguia xingando e esculachando meu pobre amigo.

Resumo de mais uma das milhares de histórias que se repetem na cidade onde “a lei funciona e é pra todos, menos se você for do PSDB”: levaram Ed até o décimo segundo batalhão da polícia militar, há pelo menos dez quilômetros do centro, fizeram ele assinar um termo estúpido e ainda ouvir aquela mesma ladainha de sempre “pô, você tá me fazendo trabalhar nessas horas só por um baseado?”. Fale isso pros policiais que levaram meu amigo, os mesmos policiais que passaram por ele e gritavam “Bolsonaro 2018!!! Pra acabarmos com esses vagabundos todos, vocês têm que morrer!!”.

All You Need Is Love, pois esse ódio todo não te pertence. E por favor, na próxima vez, deixe meus amigos fumarem. Talvez vocês também precisem disso para acalmarem essa mente doentia e lavada a seco nesse quartel de onde vocês vieram.

Ed foi encontrado somente duas horas depois, em um bucólico posto de gasolina, tentando conseguir algum celular emprestado para chamar um uber, enquanto era mangueado por outro músico de rua.

 

 

 

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Crônicas de Nácar #01: A Mordida de Janis

pace_dogJanis é uma cachorra que vive com a gente há mais ou menos um ano e meio. Janis foi abandonada pelos seus pais, após ter sido encontrada na rua e adotada por esses mesmos pais. E ontem ela estava passeando com Tijuan, um dos quase dez moradores desta casa. Tijuan é argentino, músico, cozinheiro, quase pai e adorador de cachorros. Na esquina de casa havia dois caras trabalhando na parte elétrica de um poste. Tijuan estava distraído não sei exatamente porquê, só sei que nesse exato momento, dois corpos se colidiram: Janis morde ou pelo menos tenta morder a perna de um desses caras que estava trabalhando provavelmente para a prefeitura. Esse cara também tinha um sotaque diferenciado, especificamente do Haiti, porém sua reação naquele instante não era nem desse ou daquele país, apenas de um ser humano revoltado por ter sido supostamente mordido por Janis, uma cachorra sem raça definida, mas com um faro invejável e uma inteligência fora de série.

Preocupado, Tijuan chama Jordi, outro morador dessa casa maluca, baixista coringa e mangueador nato. Jordi, que ainda não havia tomado seu café, se mostrou levemente indignado pela reação desproporcional do rapaz em questão, que logo pediu documentos comprovando que Janis havia sido vacinada. Jordi lhe disse que Janis era apenas um cachorrinho e não uma criança com documentos oficiais, e no máximo o que ele conseguiria descolar era uma nota fiscal da referente vacina, porém se ele estivesse mesmo preocupado, poderia ir no posto de saúde mais próximo para tomar o antídoto e sanar suas neuras. O haitiano ainda pediu para tirar uma foto da identidade de Tijuan e atual padrasto de Janis, uma solicitação prontamente aceita, mas que também foi rebatida por Jordi, que disse “Se você está pedindo isso, também queremos uma foto do seu documento”. O rapaz não entendeu muito bem, alegando que aquilo parecia ser algum ato de xenofobia, ou quem sabe, ele apenas precisasse de algum papel para mostrar no trabalho, podendo descansar em casa, após uma manhã estressante em um país estrangeiro.

Moral da história: a importância de papéis e cafés na vida das pessoas.

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Arte de Rua Não é Crime

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Sábado de sol, mas dessa vez não aluguei um caminhão e muito menos comprei feijão. E se tinha maconha, quase não vi. Vi outras coisas bem legais e essas palavras tentarão explicar um pouco o que foi o dia de anteontem. Pela segunda vez, vi diversos artistas de rua unidos para uma causa nem nobre, nem pobre, apenas necessária em tempos estranhos. Tempos em que o ódio e a ganância são exalados por todos os poros, tempos de guerra como sempre e tempos em que a polícia militar precisa de nove carros e trinta homens fortemente armados preparados para prender o pior bandido da história dessa cidade cada vez mais cinza. No caso esse bandido se chama Música de Rua, e quem sabe mais uma meia dúzia de inofensivos maconheiros.

Sim, os músicos de rua tem sofrido uma repressão desmedida apenas por estarem tocando na rua, como sempre fizeram. E não estou falando de mega shows pirotécnicos e clandestinos, em algum bairro residencial e em plena madrugada. Esses músicos têm sido abordados somente por estarem tocando um jazz-fusion-groove, ou seja lá como queira chamar, em pleno centro de Curitiba, às oito horas da noite de uma sexta-feira. Uma pequena multidão parou para vê-los e também contribuir para que continuem fazendo isso, colaborando com algum trocado.

E sábado foi novamente um dia de protesto, um protesto artístico sem cartazes de ódio, sem a presença de maçons engravatados pedindo impeachment, nem panelas, nem camisas de futebol, nem megafones ou carros de som insuportavelmente chatos. Apenas música! Bem, talvez o principal fosse a música devido às últimas histórias bizarras envolvendo esses caras, mas também teve outras formas de arte, teve um palhaço de rua venezuelano andando em um monociclo de proporções girafais, teve dança de carimbó,  teve poesia e teatro misturada com música, e teve uma porção de fotógrafos e videomakers registrando tudin.

Pararam famílias, trabalhadores em dia de descanso, desempregados, lojistas, estudantes, turistas, outros artistas e mais um ou dois bêbados típicos de qualquer rua de cidade grande. Houveram outros transeuntes que não chegaram a parar, mas mexeram seus corpinhos em sinal de aprovação, ou como se estivessem alimentando brevemente suas almas carentes. Afinal, as ondas sonoras também cumprem esse papel.  

No fim do dia a sensação era de paz e de dever cumprido, ao menos pelos organizadores. E que venham novos atos de conscientização como esses últimos, cheios de amor e arte: dois lances que costumam andar lado a lado, se fundindo na maior parte do tempo e fazendo a gente perceber que a verdadeira transformação será sempre de dentro pra fora, ou seja, discursos inflamados e piquetes jamais serão suficientes, especialmente quando o espírito está fraco ou contaminado pelo ego que obstrui, aleija e faz a gente esquecer que o verdadeiro irmão não está no sangue ou na amizade, mas na sua frente.

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O Sonho Mais Impressionante de Toda a Minha Vida

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Caí da cama cedo, como raramente faço, após sonhar o sonho mais impressionante de toda a minha vida. Quando abri os olhos pela primeira vez senti vontade de dormir mais, sentia que era demasiado cedo para despertar, mas o sonho tinha sido louco demais para eu esquecê-lo assim, numa provável substituição por algum novo sonho fabricado por esse laboratório infinito e amoral chamado inconsciente.

É claro que não vou lembrar exatamente como esse sonho começou. Me recordo que nos primeiros instantes minha primeira namorada havia reaparecido e esboçava um evidente interesse em mim, após divorciar-se de seu marido, com quem tivera dois filhos. E foi essa imagem simbólica daquele primeiro amor inocente e completo que fez eu ter esperanças naquele universo onde as memórias se misturam e seguem criando novas histórias, muito mais interessantes do que essas que costumamos viver no dia-a-dia.  

O cenário assustava. Por algum motivo que eu também não vou conseguir lembrar agora, fui obrigado a participar de uma bizarra seita, onde eu parecia ser o único ser consciente do tamanho do absurdo que aquilo representava. Vivíamos em um templo majestoso, um palácio de dimensões medievais e com centenas de quartos. Suspeitei que além dos comprimidos oferecidos diariamente como se fossem alguma benção milagrosa, eles também estavam botando algum tipo de droga na nossa comida, manipulando nossas mentes para acreditar que tudo aquilo era pro bem ou qualquer outra merda do gênero.

Lembro de dois momentos em que tentei alertar pessoas de fora da seita, amigos que não vejo faz tempo, mas que em meus sonhos costumam ser personagens recorrentes. Havia um trem e um dos comissários era um dos cabeças desse clã do djanho, avisei Joana e tentei fugir, mas o cara foi mais rápido e em segundos eu estava novamente lá, naquele maldito palácio de ilusões. Nas reuniões matinais, para a introdução de novos membros e outras baboseiras típicas dessa gente, eu olhava para todos os cantos daquele imenso salão à procura da minha primeira namoradinha, sempre achando que quando a encontrasse todo aquele pesadelo acabaria em final feliz.

O engraçado foi encontrar não ela, mas uma outra menina de uma época ainda mais antiga, dos tempos de colégio e de quando eu pirava numa garotinha loira e cheia de malandragem pra idade em que eu ainda era bem tímido e não passava de um completo nerd mimado cheio de espinhas. Reencontrei essa pessoa algumas vezes, sempre pela noite, em alguma festa ou bar da cidade. No sonho ela pegou na minha mão, me levou para um quarto, tiramos a roupa e ela me disse no pé do ouvido: “Pode gozar, mas apenas uma vez.“

E assim o sonho seguiu seu rumo obscuro pelos caminhos da memória afetiva ou qualquer outro nome que os psicólogos querem dar. Em outro lapso de tempo, eu estava na frente da primeira casa que morei, local onde nasci e cresci até os 21 anos, quando finalmente eu decidi começar outra história, sem meus pais por perto. Reparei que havia colchões com texturas estranhas colocados na garagem e num sinal de que alguém estivesse se mudando para lá. Não entendia o que estava acontecendo, mas a curiosidade somada com um sentimento de alegria plena apenas por estar ali novamente, na casa onde eu cresci, e ainda com uma ínfima possibilidade de rever meus pais juntos, todo aquele retrato de uma infância feliz e que ficou pra trás, tudo aquilo me fez chorar de emoção! Adentrei o saudoso lar e ao invés de encontrar meus pais como gostaria, vi primeiro o marido da minha prima da Bahia, ajeitando a mesa e em seguida essa mesma prima vem e me abraça. Senti uma tristeza enorme no peito, como se aquilo fosse alguma representação da morte dos meus pais. De fato eu estava mesmo navegando em mares escuros de algum pesadelo da mente, mas o bacana era que em muitos momentos eu sabia que aquilo não era realidade, no máximo algum episódio estilo Black Mirror no qual a minha vida teria inspirado roteiristas endiabrados, capazes de provocar um tremendo mindfuck para o único espectador presente na plateia, euzinho, ou como descrito por famosos psicanalistas, o sonho foi lúcido.

Logo retornei para aquele cenário pseudo religioso e agora meus amigos atuais, Henrique e Anderson eram os novos membros da seita. Ao contrário de mim, eles pareciam contentes em fazer parte daquela palhaçada, me diziam que haviam encontrado um sentido pra vida e que estavam adorando a rotina e as brincadeiras perpetuadas ali.

No final, quando pensei que tinha conseguido me livrar daqueles malucos, caminhei pela rua XV e vi pelo menos outros quarenta grupos coloridos e que repetiam frases clássicas “Deus é Amor“ ou “Venha com a gente e garanta seu lugar no paraíso“. Cada seita tinha uma cor predominante em seu figurino e sorrisos emoldurados em todos seus fiéis, num lance meio hare krishna que já vemos por aí. Fiquei apavorado com aquela percepção de que o mundo havia sido tomado por gananciosos líderes religiosos e que as pessoas estavam mesmo comprando aquelas ideias estúpidas.

Minha última recordação foi um breve diálogo com algum outro amigo. Falávamos sobre Deus e de como cada ser possui um Deus dentro de si, mas que era justamente ali que morava o perigo. Afinal, se podemos criar o que quisermos, também podemos criar seitas com o intuito de provarmos nosso poder, apenas como forma de divertimento pessoal.

E como leremos no início da nossa série favorita, qualquer relação com personagens da vida real será sempre mais uma coincidência.  

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Data Limite?

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Notícias aterradoras assistidas na máquina vermelha maior do mundo me deixaram perplexo. 2019 seria a “data limite“ divulgada por um documentário de mesmo nome e também sobre outras previsões de Chico Xavier. E como não acreditar em um cara que disse já em 1971 que no futuro encontraríamos água na Lua, petróleo no oceano do Brasil e os órgãos transplantados seriam de plástico – novas descobertas nessa história recente maluca que não pára de se desenrolar em escala exponencial, e que é tão rápida que nem mesmo conseguimos acompanhá-la. Esse lance do primeiro coração de plástico transplantado eu mesmo nem fazia ideia. Chico, diferente das mães Dinás interessadas em fama e dinheiro, foi um homem de poucos recursos que doou praticamente tudo que ganhou e não parecia interessado em aparecer. E quando o fazia, em um popular programa de TV brasileiro, era por motivos extremamente relevantes.

Segundo suas próprias palavras, no dia em que o homem foi à lua, em julho de 1969, teria rolado uma reunião intergaláctica com outros seres do espaço. Esses seres estranhos estariam preocupados com a destruição da Terra e principalmente com o mal uso da energia nuclear. Uma energia que move o universo, mas que o Homem estaria utilizando para a criação de armas de destruição em massa e explosões de proporções catastróficas, não apenas para nosso planeta. De acordo com Chico Xavier, Cristo apareceu nesse encontro e advogou em favor da Terra, pedindo para esses seres esperarem um pouco mais antes de intervirem. Depois de muito debate, foi definido um prazo de 50 anos, ou seja, 2019.

Haveria dois cenários possíveis: no primeiro, seguiríamos explodindo bombas e a própria Terra, cansada da exploração humana, começaria a se autodestruir na forma de terremotos, enchentes, tsnunamis e qualquer outra catástrofe natural que você consiga imaginar. No segundo, finalmente os humanos entrariam numa nova era de paz e de grandes revoluções tecnológicas, graças ao intercâmbio entre os extraterrestres e a gente. Contatos oficiais seriam feitos e pelo jeito, já estaríamos nos preparando pra isso.

Note como isso parece fazer algum sentido – há poucos anos atrás uma série de governos estava divulgando informações sobre OVNIS, incluindo o Brasil, que liberou 100 páginas das 300 que tinha sobre o assunto. Segundo o doc, reuniões entre líderes governamentais estariam sendo feitas para decidir, por exemplo, quem seria o porta-voz oficial da humanidade, tudo escondidinho pra não dar bandeira. A NASA confirmou a possibilidade de vida fora da Terra, afirmando que até 2020 eles conseguiriam provar.

Poderia seguir citando outros pontos a respeito, mas claro que o ideal será assistir o vídeo completo no Youtube (https://www.youtube.com/watch?v=4JxukHvGVzE) e tirar suas próprias conclusões, ainda que essa história possa soar maluca demais para sua cabeça. Jesus, ETs e Espiritismo, tudo conectado, como assim?

Seja como for, é fato que estamos vivendo um momento único em nossa história, onde descobertas científicas e tecnológicas acontecem todos os dias. Enquanto politicamente parecemos estar em algum roteiro rocambolesco das dimensões de um Trump ou Putin, afinal, quem devemos Temer? Por enquanto a resposta aponta para um único culpado – nós mesmos.

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Di Melo Di Graça

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É infinitamente tarde na noite, mas perdi a noção do tempo em algum bolso furado dessa consciência supostamente expandida. Meus amigos se transformaram em estranhos parceiros do mangue da balada mais VIP que tenho notícia. Graças ao show improvisado no bar do velho Tatara, os garotos descolaram três entradas para ver a lenda Di Melo, acompanhado por um punhado de talentosos rapazes frutados. E foi dessas surpresas agradáveis presenteadas pelo universo que eu, Moska, Blake e João partimos rumo ao bairro dos granfinos, para o show do astro setentista ressuscitado, atração confirmada no Psicodália e pronto para kilarear a noite toda.

O cenário estava armado, direção de arte impecável a julgar pelas 500 garrafas de vinho quebradas e personalizadas para iluminar mais essa noite perfeita de uma Curitiba “cool”, e para seriado americano nenhum botar defeito. Os figurantes também estavam lá: esbeltos seguranças engravatados, meninos garçons tentando ampliar contatos, sócios descolados, donos de startups bem sucedidas e com ações na bolsa, simpáticos cachorros com nomes iguais ao do bar, e mais um tsunami de mulheres agraciadas por genes sem defeitos ou talvez um punhado de dinheiro herdado dos pais. Mulheres elegantes, charmosas e sensuais, anos-luz de distância desses quatros homens esfarrapados e deslumbrados apenas por estarem ali, dividindo o mesmo espaço.

Em um determinado momento uma loira, dessas “de televisão” me abordou para pedir fogo. Logo ela me perguntou se eu era cantor ou tinha alguma banda, pois segundo ela eu tinha a cara de um cantor experiente que ela achava que já tinha visto por aí. E esse foi o único contato da noite inteira, praticamente uma ligação falhada entre dois planetas. Blake que estava junto comigo na hora riu e me parabenizou pelo elogio indireto. Enquanto isso, Moska e sua ingênua camisa florida dançavam alegremente na frente do palco ao som do maroto trombone. E João enxugava cervejas artesanais como se fossem brahmas em promoção em algum carnaval de rua. Lisérgicos, nos sentíamos unidos por talvez sermos os únicos penetras na festa fechada mais fechada desse canto. E o melhor ainda estava por vir.

“A vida em seus métodos pede calma”, mas é difícil manter a tranquilidade quando de repente o monstro soul recifense aparece do seu lado, o cumprimenta e em seguida sobe no palco de pallets para cantar e encantar todos aqueles coraçõezinhos, que neste momento, não possuem rótulos ou etiquetas de marcas caras, apenas coexistem, pulsando forte a cada acorde, especialmente aqueles originados pelos metais. “E se o mundo acabasse em mel” e se Di Melo participasse da trilha apocalíptica seria mesmo uma delícia. Tenho certeza que muita gente como eu morreria feliz.

Após o show que passou na velocidade de uma estrela cadente, o astro da noite ainda provou ser também o rei do mangue, lembrando todos da sua situação totalmente independente e convidando o público para comprar seus discos e camisetas na lojinha da casa. E foi um pouco depois desse momento que João aproveitou para dar uma tietagem básica e ainda descolar uma pizza oferecida pelo próprio Di Melo. Moska roubou uma foto com ele, enquanto uma cocota tirou sarro de sua roupa, alegando que a mesma havia custado apenas três reais. Moska respondeu com a finesse de sempre “pelo menos eu estou aqui pelo meu talento e você está apenas por sua bunda”. Também sofri um pequeno bullying com características xenofóbicas quando fui chamado de “primo de Goiás” por outro playboy presente, mas deixei quieto.

Minutos se passaram e quando me dei conta grande parte do público havia se esvaído. Era o fim daquela noite e agora o que restava eram os primeiros cantos dos passarinhos de mais uma manhã curitibana. O mel havia secado, “deu pane no nervo do cérebro” e a única coisa que podia nos consolar naquele momento, além dos pães de queijo e do café que tomamos na padaria da esquina, era uma boa e velha… Cama.  

 

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Fragmentos de uma noite doce

pace_luaA noite aterrissou em minha cabeça em estilo pouso forçado, sem avisos luminosos ou máscaras de oxigênio. Era sexta, a lua estava cheia e apesar do anúncio dos astrólogos, ninguém estava preparado para aquela avalanche de sentimentos e piruetas potencializadas por agentes químicos interestelares. “O calendário resumiu-se a quase um mês”, culpa do garoto maroto com sono.

Pra mim, a noite era de despedidas, as argentinas retornariam finalmente para seu país de origem, após um mês de viagens não programadas, iniciadas na rodoviária mais caótica da América do Sul. Um caminho torto envolvendo cataratas avassaladoras, ilhas desertas sem proteção solar, romances estranhos e uma porção de dias na casa dos malucos, na cidade do poeta maldito mais pop do Brasil.  

Na casa o clima era de festa, daquelas improvisadas, sem convidados especiais ou atrações confirmadas, apenas cervejas, violões e os loucos de sempre: verdadeiras espécies em extinção, abelhas e sabiás de terras desconhecidas. Volumosas risadas nos guiaram em direção à natureza mais próxima, uma espécie de universidade às avessas, sem professores ou alunos, apenas mato, bichos, um lago e uma pedreira nos protegendo dos ventos gélidos e das energias pesadas oriundas da capital.

No palco principal a atriz, mais bela e ancestral que se tem notícia, protagonizava o show espacial, com a ajuda de um coro de figurantes esfumaçados que insistiam em transitar na sua frente. Na Terra o pré-carnaval da trupe beltrâmica rolava na beira da lagoa escura distante do abaeté, e próxima dos adolescentes embebedados por catuaba e pelo velho som eletrônico das antigas raves. Enquanto isso, na roda fervística, homenageávamos o mestre Caetano e suas transas revisitadas: pérolas históricas das canções populares eternizadas em nossos corações, vagabundos desde sempre.

Tamanha beleza só poderia ser contraposta pelos rostos derretidos dos meus amigos. Sem eles a viagem seria em vão e não passaria de uma mera egotrip por mares já navegados.

Na volta lá pelas cinco da matina, o choque abrupto com uma imensa muralha de realidade: nosso amigo e novo residente da casa havia tentado se matar de uma maneira pouco criativa. Com a cabeça cheia de boletas e biritas e com uma depressão aguda nas costas, Nardo se viu no fundo de um corredor de desesperanças, pronto para desistir. Felizmente seus amigos – quatro especificamente que ficaram na casa e mais um que também ficou na casa, mas que por motivos explicáveis não poderia ajudar muito – esses quatro anjos disfarçados de malucos promoveram o resgate de Nardo, com o auxílio de mais três números de telefone e um casal de enfermeiros buena onda.

Nos segundos anteriores às primeiras horas merecidas de sono, quando a cuca tenta compreender o incompreensível, realizando suas bilhões de conexões e cálculos matemáticos sem lógica aparente, talvez nesses breves segundos de lucidez em que a mente por fim para de mentir, refaço os traços da noite e acordo com um desenho de Dali sendo levado pelo vento do esquecimento. E antes que ele fuja pela janela, me esforço para prendê-lo nessa jaula de memórias proibidas, chamada crônica.