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Crônicas de Nácar #07: Va Pa I!

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O calendário corre cego, os números, as datas e as fechas latinas de flechas incertas engolem os prazos e as aburridas deadlines, pra depois serem cuspidas e lembradas nas artificiais explosões de mais um fim de ano que se aproxima a passos largos, enquanto reparo nos itálicos caracteres que inspiram velocidade. Logo invadiremos o ar e os Arcaicos Módulos dos revolucionários e perseguidos, dos ratos e moscas que coabitam esse universo holográfico infestado por seres míopes e daltônicos, velhos rostos quadrados capazes de enxergar apenas duas cores e cinco bundas, porém com a incrível capacidade nomeadora de defeitos em série. Defeitos que estão lá fora, bem longe de si. LOL, escreveria algum boboca norte-americano. O colapso emergente mais que necessário carece de espaço em um plano reto visível ilusório e que fazem humanoides despedaçados acreditarem que estão em um patético tribunal, e o que nos resta é defender, acusar, ameaçar e cobrar, cobrar especialmente tudo aquilo que eles jamais deram. “É o juízo final, quero ter olhos pra ver, a maldade desaparecer”, cantaria o rouco avô Nelson, ou o maior acumulador de rugas sinceras que esse país já teve.

“El Uruguayo” está novamente nas linhas brancas e amarelas rumo aos gaúchos pastos e com a missão avermelhada de reunir seus falecidos pais, we’ll miss you man. Gente sincera e amorosa a gente sente falta. A palavra perdeu o sentido no século 21 ou talvez já no terceiro, enquanto essa lauda safada padece de sentido lógico a cada nueva linha. Hoje estamos inundados por caras que prometem e falam abobrinhas empanadas e cheias de tempero, pra depois virarem as costas e você perceber que elas, as abobrinhas, estavam podres e até o tempero era artificial. Sai o bandido e fica o homem e as vezes sai o homem e fica a saudade.

A segunda temporada terminou, o caldo azedou, o motorista já foi pago e agora devolve as tralhas de outro cara estranho que não soube valorizar o ouro que tinha, afinal também estamos infestados por princesas modelos prontas para deixar qualquer barbudo pulando de alegria, ainda que momentaneamente. Ficam infinitas lembranças e agora seu número favorito no letreiro de mais essa irônica crônica, no more Montana e Lousiana. Em paralelo, perdemos outro grande Tom do hemisfério duplamente citado. Ce la vie, as vielas seguem contorcendo os limites da vida real, enquanto os donos desse planetinha azul criam novas distrações para a vida irreal dos pequenos que pensam que são aquilo que tem, e cobiçam aquilo que todavia, no possuem.

Serão as vogais capitulares de outro culo testículo e que agora são substituídas pelo randômico “S”, que fará com que eu compreenda o sentido disso tudo? O “S”, uma letra tão bela e com uma forma tão incrível e perfeita, capaz de se conectar com histórias que se repetem, caminhos tortos que vão e vêm, como as reviravoltas desse sax parkeano eclodindo pelos auriculares, ou como a cachorra Janis transitando no balanço de seu rabo, por entre cômodos multidimensionais. Talvez seja a hora do café, and I better go e parar de repetir trilhas ou cambios de idiomas, entediando motoristas de uberalles, e outros urbenautas tocadores de flautas, ambos futuros ouvintes da rádio blast from the past.

E chega de piadas baratas ou otimismos relâmpagos, bem como a estrofe final do hino existencial do tio Bill, pois como ele, eu também já nadei em águas fluidas, mas isso é metano, contaminante até o osso e por vezes pensamos que não iremos conseguir. Obrigado por cantar mais essa bola em formato representativo de pérola, pois o “conhecimento bloqueia o nosso caminho”, ao mesmo tempo que as experiências e sacações e as quebras de fronteiras nos libertam. Va pa i!

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Crônicas de Nácar #06: Portas Abertas, Ladrões e Pastéis

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Garranchos orbitais de outra noite quente na casa mais estranha da cidade. A casa sem chave ou campainha. A casa das infinitas janelas. Na leiteira o gengibre erupciona as bolhas da gosma mágica que me fará um faraó babilônico e que, após litros de gim tônica na balada das senhas e das aparências, decide se recuperar do engodo putrefativo típico de humanos desalmados com juguetes de palavras raras por esses cantos, cantos e bizarros becos, cantos cheios de encantos e cantos brazucas com sotaques argentos, cantos com bancos desbotados e bonecas enferrujadas com cabeças de animais pré históricos, cantos de papagaios enjaulados e esbranquiçados, cantos que provocam desencantos harmônicos reais e prantos desregulados: meros desencontros quânticos, miragens emocionais e tantas outras baboseiras astrais tão vazias quanto as táticas imortais que apontam, mas não definem nada, bem como esse parágrafo inicial que já nasce morto e torto como o bar de outrora.

E se você já não aguenta as palavras e as centenas de caracteres estéreos e ilógicos, narrarei esses versos na nova rádio cultural das velhas ondas e com a louca locução vendida por trocados nos espelhos pretos causadores de distrações e interrupções e falsas interpretações carentes de ações e vírgulas, pontos, aditivos, acentos e mais bancos, dos concursos e dos absurdos capitais, bancos capengas que derrubam escritores viajantes, banquetas infantis e vermelhas, rodeadas por crânios de terror e da melancolia do escultor ucraniano dos cigarros escuros e das histórias verdadeiras, permeadas pela eterna dança das cadeiras de um circo de horrores esboçado pela bossa nossa de qualquer dia e pelas tosses secas da primavera precoce.

Estamos ficando velhos e doentes e não temos mais tempo pra perder. A vida é muito curta e não há tempo pra discussões e brigas, diriam os besouros dos tesouros manjados. Vamos para frente com a incoerência de sempre, vamos para o quarto plano, dos tatás e dos tetês, vamos adelante, chorar não adianta, se preocupar muito menos. Grato vovô Willie, por me lembrar pela enésima vez disso. Quero isso e mais aquilo e se possível, um quilo a mais daquilo Sampa. Um grilo a menos pra seguir acreditando nessa luz interior, fumegante e tão elegante como os acordes maiores brotados nos trens azuis de Tranes ou dos brothers Borges. Jorge, você também pode ser útil. Amado, te confundiram com Caymmi. Deixe de mimimi e siga assim, misturando crânios antiquados interessantes para donos de antiquários ou jovens descolados cultivadores de mofo, imersos em lodo e mangue, crentes na fantasia do amanhã e com mais manhas que as aranhas bêbadas e chapadas do comercial canadense e perseguidoras de amêndoas do grande espinhento celeste.

Falo ou escrevo confuso por ter o fuso horário mental desalinhado, falo ou escrevo por ter a mente mentirosa e cada vez mais cor-de-rosa, falo ou escrevo para lembrar que também possuo um falo! Falo ou escrevo por ter a necessidade de limpar com fio dental as arestas dos dentes pretos regalados pela so called vida. Falo ou escrevo por tentar ser isso que a gente sempre foi, falo porque também sou chato pra caralho e se você não quer me escutar ou ir na galeria bancária para ver podólogos travestidos de pedófilos, fique em casa no seu quarto seguro e colorido, fique em seu quarto com seu porto seguro imaturo, suas séries e seus mimos lindos, suas taras e seus segredos mais obscuros, se cubra com lençóis de indecência e depois se descubra alimentando seja lá qual personagem repetido você tenha inventado nas aburridas teias sociais, dos clubinhos quebradiços de qualquer escrota escola que você tenha sido malcriado.

Parece quase impossível quebrar essa casca do ovo cozido pelo virgem mouro, essa casca imensa e tensa que após o destroçamento essencial faz a gente ser esse ser universal e atemporal por tão pouco tempo, em frações enlatadas e refratadas por raios de bilhões de cores e explosões e bang-bangs interplanetários ou tão pequenos como a troca de tiros na empoeirada rua dos reis instantâneos, dos alvarás comprados e dos pastéis especiais produzidos por mãos sensíveis de mais um marinheiro só e que agora invade a cozinha de Letícia com ricos timbres olfativos salvadores de bad vibes. Pastéis de forno, do mesmo forno necessário para amadurecer o abacate verde do mercado dos pássaros solitários e símbolos de países andinos. Dica sagaz do sumido tio Jordi, crucificado pela cruz mastigada com cuscuz de outro cu masoquista segundo o anão zangado.  

O rango está na mesa e é hora de celebrar. Quer reclamar? A folha branca da caixa preta de pandora foi feita pra isso. E que o fim de mais esse enrosco ou esboço boçal fique pra depois.  Computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro e outros artistas transformam dinheiro em origamis e de um jeito ou de outro, todos seguem atrás de uns trocados. Ce la vie, la belle verte!

“É duro engolir terrestres!”

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Crônicas de Nácar #05: Tiras, Números e as Velhas Camadas

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Choveu mais uma vez em Curitiba. Choveu a chuva que os curitibanos mais otimistas estavam anunciando há anos. Choveu, choveu, choveu canivetes como diria o amigo gralha, choveu palavras e gritos e fardas e lágrimas. Lágrimas de injustiça, lágrimas de tristeza por sentir que estamos mais perto do fim. E antes que eu soe demasiado fatalista, sigo sonhando com a compreensão mútua. Quero falar sobre esse fim que nunca acaba, apenas recomeça, se repete e depois termina como mais um texto prolixo com algumas conexões mais ou menos interessantes e outras tantas que ninguém vai entender. Entender o outro? Como entender o outro sem estar em uma insólita micro nave instalada em seus neurônios? Você nasceu assim, teve uma família que te criou, ou não, teve suas escolinhas, seu trabalho, seu país, seu signo e tantas outras camadas ilusórias desse umbigo e dessa palavra feia chamada ego. Por qualquer motivo você nasceu nessa época e por mais que você pense diferente, que sua alma é francesa dos anos 20 ou maia de 2000 anos atrás, você nasceu assim e jamais outra pessoa vai sentir ou ver as coisas do seu modo. Nem mesmo sua irmã gêmea criada na mesma caixinha. Supor, imaginar ou compreender contextualmente questões ou tretas alheias é outro papo.

Em Nácar, tudo azul para mais uma encontro lunático pós eclipse. Jordi Miami Vice me acompanhou ao mercado, na missão dos gelos e dos vinhos promocionais. Enchemos o carrinho e quando estávamos semi parados na fila do caixa invisível, um senhor com a braguilha aberta e com a expressão típica de urina eminente, nos pede licença. Prontamente engatamos a marcha ré, dando passe livre para o senhor acessar o banheiro que resolveria sua necessidade extrema. Retornamos lentamente para o outro lado da linha que separa os caixas da saída do mercado que não nos ama. Nesse instante, Jordi comenta “se a gente saísse direto sem pagar ninguém iria ver”. Pensei como sempre pensei em ocasiões semelhantes, auxiliado pelos capricórnios unicórnios em busca de mares navegáveis. “Não quero terminar a noite em uma delegacia˜, e em seguida cantarolei Temptation, da espera de Tom, enquanto o cabeludo Jordi concluía a dura tarefa de encontrar a menor fila do pedaço.

Passamos os gelos, os gluglus e os vinhos, que foram diretamente armazenados em uma caixa de papelão, com divisórias próprias para esse fim. Foi quando a garota no caixa parou e disse que precisávamos colocar etiquetas de “OK” em todas as garrafas, causando frustração para Jordi e eu, uma vez que a fila estava longa e as pessoas poderiam perder a paciência. Mais mente, mente, mind, suposições. Perguntamos se a nota fiscal não seria o suficiente, em outra suposta abordagem do segurança. “Preciso consultar minha supervisora”, que curiosamente já estava resolvendo outro enrosco para a colega. Nesse momento percebi: “A máquina da estupidez precisa seguir funcionando e assim, ninguém mais precisa pensar em suas ações, apenas seguir as regras que outros seres menores criaram. Afinal as regras vêm antes do bom senso, né não?”. Percebi também que a indignação do companheiro (só pra continuar provocando os politiks da banda mais fria da cidade, cheios de tiques e pra quebrar minha própria regra de não usar parênteses e agora dos professores que me ensinaram a não esticar muito essas curvas). Ajudei a moça-caixa colocando os adesivos errados nas garrafas corretas – o vinho continua sagrado e não seria ele o responsável por mais uma babaquice inventada por seres humanos ocupados em produzir separações e tristezas como aquelas já citadas, provocadas por esse bolo com fermento demais, receita da família, da cultura e por “La Sociedad”, exatamente como o nome de outra banda rabiscada em algumas das milhares de folhas brancas da cabeça explosiva dos freakie friends.

Aos poucos tudo ficará no seu devido lugar, e eu, o ladrão de versos desconhecidos e populares em outros campos, também regressarei ao começo, ao infinito e silencioso nothing, um lugarzinho bem confortável onde opiniões, regras, preconceitos e mágoas serão pontos opacos há anos-luz de distância, em um planetinha azulzinho, bem triste e injusto, mas com uma beleza infinita, bem como esse Eu maior e maiúsculo que temos dificuldade de sacar em tempos modernos pós junguianos, imbuídos de estímulos e distrações, lindas e horríveis, meras miragens holográficas de Talbot. Reveja o show de Truman and you will know the truth, leia o livro do Tim branco, ou escute o argento Tim ecoar os ensinamentos de seu mestre paulista.

“Não sei o que você anda lendo por aí”, ressoa una vez más o discurso evangélico de outrora e propagado de outras formas por falsos iluminados, extremistas veganos e onívoros, feministas e machistas, azuis e vermelhos, ingleses e alemães, metaleiros e pagodeiros, e todos esses seres que acreditam em algum cambio de consciência com tacos de bets ou beisebol nas mãos e a manipulável ciência-doutrina na outra, e esquecem de perceber que mudar de lado e seguir odiando o oposto é a brincadeira preferida dos adultos. Let the children play ou “deixe as crianças sozinhas”, pois professores como esses nós não precisamos mais, diria “Pink e o Cérebro” na tentativa de dominar o mundo pela maneira mais ilógica do horizonte: el amor después del amor, o amor mais que perfeito, o amor de roma, o amor em páli dos maravilhosos palíndromos reverenciados pelas caudas brancas do parceiro de rua.

E se o objetivo de outro enfadonho cursinho pré-qualquer-coisa que nunca fiz (graças a papai e mamãe por me poupar dessa também), ou quem sabe com todas essas regras eu conseguisse ser melhor compreendido, ainda que a sina de qualquer artista seja a escuridão e assim, se sentir um rei do rock ou do mambo, mais especialzinho e menos retardado, porém eternamente triste por estar só.

Finalize essa história de uma vez, seu garoto mimado! Tentarei antes que a bateria da maçã mordida se esvaia, e outra tentação reinicie outro conto sobre malandros fakes ou verdadeiros. “Fumamos muita coisa por aí e até ficamos todos reunidos em uma pessoa só” e assim, me tornei uma geleia de amendoim com açaí, em estilo buffet-brasil, misturando elementos demais e deixando todos confusos, os mamelucos e os cafuzos também e até os seis policiais que tocaram a campainha da casa recicladora de sonhos e fritadeira de mentes inquietas e humores swingados. E os outros cops que acabaram com os gritos de Fora T em plena praça pública, e mais aqueles que invadiram o barraco do mano da quebrada, empurraram sua namorada e depois o algemaram e o enfiaram em mais um camburão do governador playboy e que quase joguei uns amendoins nele quando o encontrei no aeroporto, meses após as bombas nos professores. Homens da lei na cidade do medo e no país dos bananas.

O “Escambau” que agora toca na vitrola mole do espelho preto me faz lembrar dos escambaus recorrentes e que quando as confusões se repetem demais, estamos “nos transformando e evoluindo, deixando algo pra trás” e hoje, depois de mais uma enxurrada necessária na montanha dos espelhos quebrados e dos símbolos falsos, araucárias e mais gralhas, hoje sinto a beleza dessas gotas batendo nos telhados baratos, e se “10% dos escombros eu escondi e nem sei como”, meu mapa do tesouro também teria um ou talvez quatro besouros, treze apóstolos que nunca li, magos e uma porção de vagabundos profetas, sábios sacanas, um pai-herói referência maior, uma mãe-amor conectora de destinos, dois grotescos vovôs deuses endiabrados e outras 69 lindas figuras femininas cheias de segredo e com nomes parecidos. Hoje choveu, choveu outras 1531 gotas de esperanza, do outro professorzinho, choveu gotas do artista sumido das gotas, choveu gostosas gotas de alguma liberdade que insiste em existir em um mundo cego dominado por zeros e uns. Hoje choveu, choveu sotaques e baques e bachs, choveu a gota mais preciosa, a gota do Om maior, a gota do abraço do amigo invisível. Choveu a gota de toda uma existência e que foi feita sob encomenda somente para… VOCÊ!

 

A felicidade fez mais um aniversário. Vamos dançar?

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Antonina, Menina dos Olhos Rojos

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Cinco carros populares, trinta e um humanos com tendências artísticas duvidosas, um sítio lunático no meio do caminho, uma kombi girante chamada “O Espirro de Gil”, instrumentos, equipos e tintas nas botas do irmão maluquinho com um sério problema em suas bolas. Físicas. Metafísicas? Caldabranca, por quê você não foi mesmo? Tá ficando loki bicho? Tá com medinho do banheiro unisex com falta de água, feito pra suprir as necessidades trágicas de trinta e um planetas conflitantes, mas que por algum motivo desconhecido possuem o elo da existência, essa coisinha brega que os bobos e loucos continuam berrando por aí: em cada solinho de guitarra com direito a dança africana, em cada sorriso no verso maroto, em cada cara de dor aparente, mas que sabemos ser feeling, em cada groove do sopro invisível da teoria dos baixistas machistas, em cada fuçada na mesa de sonidos raros, em cada roubada de olhada da grande parceira da life e com sobrenome de salgado, em cada bamboleada, em cada brincadeira com fogo e com sons transcendentais produzidos por instrumentos aborígenes, em cada backing vocal forçadamente espontâneo, em cada sumida repentina, em cada clicada com o botão direito do mago tecnológico invisível e criador de palcos universais, em cada tragada do vapor barato que dá barato, em cada trocada de letra do amigo indie rebelde xamânico com fobias alimentares, em cada gole da cerveja roots de gengibre preparada pelo gamer, ou ainda em cada surtada da trupe rio platense sobre a vagabundagem aparente dos hermanos estelares. Essa sensação pueril e febril me faz lembrar do chocolate nosso de cada dia, e de todas as outras cosas que pedimos para os outros queridos vampiros com xis. Lembrar de cada massa esticada pelo Heinsenberg da cozinha matriarcal anti-ianque e que de repente, vira o Mister Magoo das sinuosas estradas graciosas que ligam o mangue à montanha das fantasias. Verdadeiras elipses atemporais, escuros espirais de uma serra lynchiana, parte fundamental de um mapa safado e perfumado pelos recuerdos de alguma infância com chapéu. O mesmo chapéu marinheiro do comandante flutuante que passa a bola pro próximo balão inflável da vez, seja uma miss coca-cola do Grandpa Staples ou seja para o conde pseudo xeique com sotaque da porra e a malícia de Alícia e outras rimas fáceis, típicas de seu personagem big brother.

Festival de blues? Prometo chegar nessa dimensão paralela há poucos quilômetros de casa, entretanto são tantos personagens memoráveis, digníssimos e maravilhosos filhos da puta de alguma natureza esquecida pelos livros lidos por avós e bisavós, e que por algum trem doido da mente abismal chegaram até esses peculiares seres de extrema periculosidade vital. Reluzentes personagens desbotados capazes de transitar entre o céu e as profundezas alienígenas de qualquer oceano que termine com a sílaba CO. Sim! Temos o CO2 biológico dos casais incestuosos, e temos a palavra que começa com CO, a palavra da nova ordem sociedade grâ-kavernista do clube agrofloresta nerd illuminati em curso preparatório pré apocalipse zumbi, a palavra era outra, mas nesse momento de poucas vírgulas não poderia deixar de citar o irmão zumbador com lindos e subversivos cacoetes, e seu filho-pai topa-tudo-por-amor, o grande Erasmo com cara de Paulo Miklos. Erasmo, cuidado com a Masmorra! Entretanto a palavra com CO jamais poderá ser esquecida ou deixada de lado ou pelo acaso como a bola de feno símbolo do destino e do melhor filme do mundo, afinal se tem uma palavra da nova moda social com potencial linguístico para nos salvar desse caos político existencial interplanetário, ela deve começar com duas letras, o Cê e o Ó, para instaurarmos eternamente esse chip do espelho preto além da imaginação, antes que seja tarde demais e sejamos possuídos pelo mal da outra era terrestre, em que outra palavra que também começava com CO, foi usada e abusada em nome de um sistema em COlapso. Essa história sobre mais um grupinho mimado e inspirado por sonhos megalomaníacos retrôs, é pra me fazer lembrar dessa palavra utilizada até pelos cientistas vanguardistas dos elevadores de 13 pisos. Ah número 13, me dê uma trégua pra falar da palavra amiga, da palavra doce da bruxa norueguesa, da palavra COcô da COmpanheira COmediante, da palavra que você aí já deve estar implorando para ser pronunciada, ou talvez já tenha até olvidado.  

São tantas dicas tropicalientes e não quero que a essência se transforme em mais uma piada de boteco, daquelas das tias e tios e que na cidade fantasma ninguém mais sabe, e tampouco quero que esse texto se transforme em outro lamento com fundamento repetido. Tudo que eu quero é citar Caetano de novo, esse mesmo ser que já ignorou os malditos benditos de agora e depois pediu desculpas e ficou tudo bem. Tudo o que quero é uma palavra perfeita maior, com todo mundo podendo brilhar num cââââântico quântico de proporções universais: os pequenos e os grandes, os baixos e os altos, os burrinhos e os espertinhos, os gordos gigantescos e os magros magérrimos, os lindos e os grotescos, as fadas e os bruxos, os pais e filhos da revistinha oitentista, os puros e os safados, os bons, os maldosos e os feios, e todos os filmes de bang-bang com profundos ensinamentos espirituais, ainda que alguns de seus fãs sejam mais céticos que a música celta comercial que permeia certos bares caretas carentes de moedas sinceras. CO, CO, COco Rosie do clipe fantástico, COco Channel da lista machista dos cem maiores nomes de uma história mal contada por gente do mal, CO,… OPA! Na real são três letras exatamente como na palavra OPA, a marca de cerveja carinha da terra fascista das casas fofas, COOOOOO, espere, sinto um eco de humberto, um ECO que ecoa, um eco que parece apontar a altura e a direção dessa palavra perfeita, que nos salvará dos bichos papões, dos dealers com verrugas exponenciais, dos juros bancários e das mamães aflitas, dos xerifes enxeridos, dos pornográficos XXX das pesquisas do GOOOOOgle, hey, até esse povo artificialmente escolhido já brincou com esse eco que tento explicar. O eco escudo do ego inimigo chamado… Cooperação!

Abandonemos os ismos de mais de vinte séculos de guerras conhecidas, e rumemos para adelante, sem nomes e sin nombres, sem barreiras e naquela pira feliz do mussUM. Talvez nossas costas sejam feitas para coçar, massageá-las de levinho ou lambê-las ocasionalmente, porém evitemos arranhá-las ou rasgá-las, a não ser que essa seja a pira do casal sado influenciado pelo marquês residente no universo interno de cada um.

COO, veja como nem mesmo essa palavra existiria sozinha, aunque tenha a letra solitária Cê, agora em caixa alta para agradar o amigo enxaqueca e que também COabita esse mesmo universo interno que tento explicar, ainda que eu insista nesse joguinho do C e dos idiomas, a palavra cooperação precisa desse diálogo rain man entre o Ó e o outro Ó.

Cooperar, colaborar, coexistir, enxergar para além do umbigo feio com ou sem aquele bizarro pedaço do cordão da mãe de todos, esse UMbigo, esse UM que sozinho nos mostra apenas um caminho e mais nada. Esse UM que perde o amigo, mas não perde a piada, esse UM pomposo que vive em busca do próximo gozo, esse Um que inicia bilhões de histórias e canções sobre o dia de qualquer pessoa, esse um que vai ficando pequenininho e sem aspas, quando comparado à imensidão de todas as galáxias possíveis, esse “um” que poderia transmutar em “OM” como no novo poema do reptiliano Rodô, e assim nos aproximarmos dessa natureza maior, desse desencanto branco do canto maia, desses deuses astronautas, dessas cordas multidimensionais, desses salvadores profetas orientais ou de olhos azuis para os olhos ocidentais, e de outras ficções bem escritas, mas que nós, humanos limitados, utilizamos para controlar, manipular e camuflar o verdadeiro sentido de uma palavra perfeita como essa do começo do parágrafo. O umbiguinho faz biquinho e parece ter a resposta pra esses caras sedentos por poder. Poder, poder, poder, para poder crescer. Cale-se please.

Apertem os cintos, o piloto sumiu! A criança que brincava disso com o irmão sueco no chevette do papai “largou os bets” e decidiu assumir pela primeira vez seu bairrismo, mesmo tendo acabado de pisar nos ismos achatados e que só mostram uma camada da cebola odiada por Fernando e a Vespa. Letícia também disse que ela não quer só um boy ou um toy, mas um man, um Hombre como o nome da jovem banda de Campinas e do gato monge leitor de camadas invisíveis dessa mesma cebola do jogo criado pra crianças na faculdade de design e dos personagens fakes de Caldabranca.

Precisamos respirar, respirar pra pirarmos de novo, afinal “a pira continua” não é mesmo? Essa criancinha aqui quer terminar mais uma história cheia de parênteses e sobre parentes e patentes, ou a falta dessas patentes do sítio de Marte, refúgio de loucos inconstantes que “roubaram o sol” e fugiram para suas próprias viagens com a ajuda de substâncias naturais ou tão artificiais como as cores daqueles papéis de mentirinha.

“Disseram pra gente que estávamos em crise e que os clientes iriam diminuir pra caralho e foi nessa bad trip que decidimos assistir ao triste fim da quaresma tomando uma bera gelada entre amigos ao som do bom e velho blues.” Viemos em missão de paz e para ajudá-los. Trouxemos gravuras, brechós, instrumentos e equipamentos suficientes para armarmos o circo em qualquer canto que seja conveniente: autênticos botecos com gente de verdade, prostíbulos invisíveis, carrinhos de perros calientes e essencialmente na rua, pois é lá que o povo está! O blues não pode parar e os corações despedaçados precisam de remendos imediatos. We Are The World. You Are One Of Us. Freaks, prazer, somos vocês! SELL yourSELF for some better days. Let the GOOD times ROLL. Bluesman, qual é o tom? Waits, Zé, ou Jobim? John Lenin está te chamando!

Somos todos UM, somos todos o grande e eterno OM e JUNTOS, cooperando, seguiremos coexistindo. Internamente você é tão bonitin. Deixa de frescura e vem pra festa, mais que merecida!

Pra curar, basta existir.

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Crônicas de Nácar #04: Portais e Mais Histórias Rodadas

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7 do 7 de dois mil e 17. O primeiro portal fora aberto, a marretadas, do lado de fora na frente de casa. Perto da casa de mamãe, cheiro o incêndio presente no encontro dos parques. “Nêgo mata a mata”, né não Arnauld? “O que eu fiz pra merecer essa paz que o sexo traz”, canta caetano agora na cozinha uruguaia, o mesmo moderninho que tanta gente cisma em falar mal, ou não? Porquê tanta citação brow? Se já falaram antes e melhor e enquanto essa memória ainda acende lâmpadas empoeiradas em alguma galáxia fora da lógica, por que não? Pra quê ficar inventando novas frases e novos nomes pros velhos truques? Networking? Pro trampo vou preferir o amigo ou o conhecido, mas ficar amigo de alguém por interesses materiais é legal? João, me mostre o caminho do amor supremo. João, me conte a história da família Dom e do menino baterista em ascensão espiritual. Pai João, talvez essas linhas tortas o façam lembrar daquele maluco da época do banco que escrevia compulsivamente cartas sem sentido e as deixava todos os meses ali perto onde você costumava trabalhar. Continuo gostando de foto antiga e de gente velha, gente velha do tipo que “continua com 17 anos enquanto os outros ficam velhos e enrugados”. E antes que a polícia nacionalista me atire, também curto gente brasileira com versos do tipo “tô te confundindo pra te esclarecer”.

Cegueiras, iluminações e confusões à parte, quero falar sobre “a arte do escutar”, o filme do amigo argento Rodô. Que nada, quero mesmo ir pra lua no meu “foguete particular”, pra voltar sambando e falando da rua da frente de casa, dos ratos e baratas que coabitam todos os espaços de qualquer cidade grande. Dos ratos e baratas com coração. Daqueles sem papéis ou que perderam todos eles no espiral da vida, em alguma kombi hippie que insiste em existir na borda do campo minado de um sistema que caminha a passos largos, rumo ao colapso noticiado nos livros de economia do amigo Gordo, o montanhista tecnológico aposentado e colecionador de moedas brazukas.

“Hoje eu vou te matar, pois você é meu amor verdadeiro, e juntos, morreremos felizes”. Não se assuste, isso é só mais uma poesia. Outro poeminha bobo sobre as tolices e belezuras de mais um amor brega. Mas me diga Cibelle, qual era o assunto mesmo? As histórias repetidas e que às vezes são bem contadas nos fazem sorrir, refletir sobre algum passado que parece distante, mas que está logo ao lado. As ruas são apenas as veias de um imenso e poderoso Circulatory System, bombando decalitros de sangue e nesse sangue encontramos todas as emoções do universo: raiva, inveja, dor, tristeza, carência, abandono; e claro, as boas também: alegria, esperança, tesão e tudo aquilo que te faz sentir vivo novamente. O amor? Esse conceito abstrato que ninguém explica, mas que não existe ser vivo que nunca tenha sentido, segue coexistindo no canal invisível por onde esse sangue todo é jorrado. Quem controla tudo isso? Excelente pergunta, Joãozinho, vou pedir ajuda para os universalistas. “Uni o quê? Não sei o que você anda lendo por aí garoto, mas Jesus é o único caminho”, disse a esposa raivosa do pastor que também achava que arte abstrata era menor pelo simples motivo dela não entender patavinas daquilo.

“Você quer descobrir tanta coisa meu priminho lindo do sul”, disse certa vez a gêmea baiana do compositor falso. O mistério parece sem fim, mas como é que a gente fica tão feliz quando a primeira pontinha é revelada? Jarmusch e Tijuan, obrigado por me lembrarem que o barato está no caminho. “Every step of the way, I found grace”, Mavis, você também tem meu coração.

Quem sabe eu esteja tentando falar do “amor além do amor”, cantado pela quinquagésima vez por novos caras vanguardistas legais que depois de alguns anos, já ficaram velhos. Clodovil, um dos maiores mestres espirituais desse país, falava sobre essa moda sazonal inventada por gente malandra com sede de dinheiro. Hoje, anos após sua morte física, vivenciamos o apogeu do “recicle callejero“, dos brechós, freeganismos e dessa ideia anti-consumista de aproveitamentos e ressignificações, uma moda eterna de reinventar a roda, que sai do caminhão e vai parar na sala de estar, numa coffee table de causar inveja em qualquer adorador de lixo que se preze.

“Eu ouvi pelas videiras que você está apaixonado priminho”, estou amando o amor, estou apaixonado por cada grão de espaço dessa terra, a Terra de Caetano, porque “gente tem outra alegria”, e sim, também estou amando Letícia e cada curva dessa estrada de Santos, de todos os santos que o acompanharam e que continuam o acompanhando, Roberto. Roberto das 100 pétalas lembradas recentemente pelo tio Jordi em ocasião comercial. “Convoque o seu buda”, ainda que não seja você e ele esteja do outro lado da rua, com uma marmita quentinha para te oferecer por pensar que você “esteja no trecho” e que talvez a sua cara de tristeza não seja por outra “briga” de amor, e sim de fome. O trapo que você continua usando para seguir no personagem hipster curitibano, também ajuda nessa identificação e como é bom ser um dia um mendigo e no outro o dono do bar que você acabou de conhecer. Gente, gente, gente! Um dia todos seremos estrelas e nobres, mas por enquanto sigamos humildes nessa terra, para encontrarmos o néctar regalado desde o nosso nascimento, e assim possamos seguir curtindo o barato de viver, que sempre será mais bacana que o crer ou o ter.

Prefiro ser mais um errante navegante ou aquela contradição ambulante da banda verde da era adolescente, que esquece da história que iria contar, sobre portais interdimensionais com números repetidos e velhos ottos e tantos “e´s” e etês, e sobre gente maluca que se encontra por aí, em encontros agendados por grupos de zap zap, eventos fakes ou convites de papel entregues por estranhos na última vernissage das belas cópias. Jorge Caldabranca, suas profecias nunca fizeram tanto sentido! Você que ainda tem medo do escuro e dos cabelos e das substâncias brancas, meu mentor literário junkie que continua me ensinando a ser invisível como naquele filme oitentista sobre o garotinho que usa óculos escuros pra se proteger das maldades e safadezas de um mundo em contração, onde a esperança esperneia e nos acalma como “os iniciais espirituais sinais” de Gil 70 ou os acordes finais de qualquer canção do Sr. Baker.  

Gil 70? 75? Prefiro ficar com o 71 da bruxa das chaves, o 17 invertido, os mesmos 17:17 do fim dessa crônica ou conto ou como se chama mesmo tio Jordi? Uruguajo, você tem alguma pizza? Faltam 6 minutos!! O que são 6 minutos na vida de um louco? Otto! Você de novo não! Já são cinco minutos de Ben, e o sim prevalece, o 13 do bem que agora me alegra de novo também, como os mingus e mindinhos minutos iniciais do começo dessa escrita que agora é invadida por gente que berra lá fora. Gente, Gente, quantas vezes precisarei escrever sobre essa gente, essa gente que agora enche o balde para lavar o chão e preparar o terreno fértil das ideias zen sem nexo. Faltam dois minutos Cash, e agora 1 minuto, alguém me tire daqui antes que eles me enforquem. 17 do 7 do ano 17 às 17:17… Futuro, aí vou eu!

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A Empatia de Mettagozo

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A roda girante segue girando e dando voltas e mais voltas, em movimentos poliformes e repetições infinitas, histórias e personagens que se repetem, uns mais legais, outros mais chatos, tais como essas palavras medíocres que saem da cabeça enfervecida pelos ecos que emanam caos e decepção, influenciada por alguma fumaça típica da madrugada. Pequenos desvios de septo, de alguma memória guardada naquela gaveta antiga sem chave. Agora entendo que “fantasmas” você estava falando, Leonard ou essas “memórias que te torturam”, Willie. É preciso ressignificar eu disse no insta, errando no português. É preciso deixar as ondas, boas ou ruins, ressonarem nesse tronco profundo chamado alma. A explosão de ter conhecido o velho Mettagozo foi grande demais e só poderia agradecer a qualquer pachamama que você queira acreditar, por mais um dia maravilhoso, desses para recordar pelos próximos cinquenta anos, na companhia de sorridentes extraterrestres em alguma mesa de poker holográfica.

E se esse papo soa estranho demais, o anti-comandante pede gentilmente para você permanecer na terra segura e livre das maldades e dos milagres de um mar desconhecido, um oceano de possibilidades, desafios e aprendizados. “A história que revelarei agora” aconteceu aqui mesmo, em Curitiba. A mesma “curitiba doida” em caixa baixa como aprendi com você, meu velho amigo Paquito.

2016 “foi um ano ruim”. Estive na fossa composta por jacas de todos os tamanhos, me sucumbi ao diabo e suas boletas que controlam nosso humor e deixam as curvas da vida menos sinuosas; porém um sábio birmanês me trouxe de volta para a realidade maior, a natureza que independe da sua ou da minha opinião, apenas existe, profunda e mais esperta que todos os computadores desse universo, ainda que essas máquinas fossem controladas por bilhões de Hawkings. E foi nesse ano que o amigo enxaqueca encontrou no lixão uma gravura do gênio Mettagozo, em alguma caçamba por aí. Colocamos a obra de arte na sala de casa, e por lá permaneceu por vários meses, decorando um espaço subversivo e pseudo anti-sistema, onde loucos de todas as origens e idades se encontravam, comiam, bebiam, conversavam, riam, transavam e dormiam. Teve gente querendo colorir a obra e sinto que o autor não se importaria tanto caso isso de fato acontecesse, afinal o que está aí é para ser transformado e o artista que não gosta de ver seu trabalho modificado não percebe que toda a vez que repete essa postura ele está se colocando como maior ou mais importante que o pixador ou talvez o próximo Banksy. Ele ou sua obra, não importa. Obrigado meu novo amigo Rodô por não me fazer sentir tão sozinho nessa também. Essa natureza maior que tento explicar jamais entenderia essa mente mentirosa que diz que uma coisa é boa ou não, exatamente como estou fazendo agora.

Explicar o inexplicável cansa, ainda que outro sábio popular siga afirmando que “navegar é preciso”. Sentir é preciso. Viver é preciso e a palavra improviso não deveria existir no dicionário. Jamais algo terá mais precisão ou necessidade que o sentir. Papos intelectualóides necessitam de interrupções, seja de um Mettagozo inventando canções em um ukelele desafinado e com a voz toda fodida, ou de um jovem artista de rua mostrando alguma nova dimensão para uma plateia deslumbrada com a ilusão do poder chamado microfone anos-luz de gente que acha que a relatividade é a grande responsável pela merda do mundo, ou que quando alguém diz que é escritor, você deve questioná-lo: “Que faixa você é, preta, azul ou branca?

Palavras e imagens deveriam ajudar, mas se “a liberdade está logo na esquina”, o que vai adiantar isso se “a verdade está tão distante de si”, diria o coringa de Bob. Repetirei quantas vezes precisar, a verdade está no sentir. O irmão está logo na sua frente, como disse certa vez o motorista carioca, acalmando os impacientes passageiros de um busão rumo ao carnaval dos milhões e das milhares de almas que conseguem sentir o verdadeiro espírito de qualquer festa popular. O mal ou o guru também pode estar em qualquer esquina. Converse com mais mendigos sem os medos do passado e você começará a entender o que tento dizer. E é sempre mais fácil ignorar a sabedoria alheia quando nos apegamos a opiniões cruzadas, lapsos de ira que só fazem o mestre retornar a posição de aprendiz, pela milésima vez. Quando as interpretações errôneas deixarem de existir e as lições acabarem, “mate-me por favor”.

O parceiro de caminhada Mettagozo parece tirar isso de letra, ou como costumo fazer por aqui, tirando ensinamentos espirituais ou “lições de moral” em letras de canções esquecidas. “Quando me espancaram na ditadura e arrancaram meus dentes, sabe o que eu fiz? Sorri, pois sabia que nada daquilo era real.” Homens e muitas mulheres adoram jogar pedras e colocar na fogueira os vagabundos iluminados que lhes mostram outro ponto de vista que não seja baseado em “tíorias”, apenas em percepções sensitivas dessa natureza infinita. Darwin deu apenas o primeiro e sempre gigantesco passo, a competitividade utilizada para justificar as atrocidades do capitalismo já não faz mais sentido e é preciso compreender que somos seres cooperativos. Isso se ainda quisermos nos salvar desse suposto fim anunciado exaustivamente por todos os poros.

Ah Mettagozo…que história eu estava tentando contar mesmo? Sobre o “menino infeliz que não se ilumina”? Quem sabe quando tivermos cajuína em curitiba as pessoas se iluminem mais. Fernando vem dessas bandas, onde o líquido sagrado se faz presente e onde ele tinha uma banda sequestradora de céus, que agora está sendo resgatada em ritmo homeopático. Nesse processo, seu coração vem sofrendo operações pontuais e com a ajuda de seres invisíveis, frequentadores dos rituais tribais de outrora. Porém antes de seguir mais esse causo tenho que retornar ao personagem principal: a gravura encontrada no lixo urbano desse artista bendito de sobrenome e idade sexual.

Havia uma casa charmosinha, sede de eventos culturais e produtos artesanais com valores duvidosos, ainda que essa equação “arte x preço” seja tão abstrata quanto “a vida em seus métodos”. Nessa casa, com flores em todos os cantos, rolava uma reunião de artistas, uns mais conhecidos, outros menos. Mettagozo estava lá, com seus desenhos, seus “poeminhas” e principalmente seu espírito livre. Carla Brasa também estava lá, com sua beleza e suas opiniões. A conversa por vezes travada seguiu até um ponto, um ponto bem próximo do final, em que o interlocutor decidiu abrir o microfone para o público. My friend Fernando levantou a mão e nesse instante percebi que deveria fazer um esforço mínimo para conseguir o tal microfone dourado. Passei o cabo por volta de uma planta bacana e quando cheguei perto de Fer, senti o balanço do barco, mas felizmente ele aceitou a ideia de sair do anonimato.

“Heyyyy…você! Como é o seu nome mesmo?” Enquanto risos amarelos ressonavam no ambiente esterilizado, eu lhe disse baixinho “Mettagozo, mas a galera chama ele de Metta”. “O quê???”, ele titubeou. Fortaleza, eu te amo cada vez mais. Fernando, o cidadão instigado da vez fez a pergunta que não poderia deixar de ser feita. “Estive na ocupação do Iphan no Rio e percebi que havia uma separação nítida entre a classe artística, entre aqueles detentores do poder obtido pelos velhos editais e aqueles marginalizados, os artistas de rua que passam o chapéu e sofrem diariamente a repressão de uma polícia alinhada com os interesses elitistas de sempre. O que acham disso?” O poeta genioso divagou e não respondeu. Brasa sacou a inquietude do cabeludo com pinta de artista e tentou: “tem aquele artista que consegue um edital menor e paga 150 reais para um cara montar seu palco e depois fica grande e pomposo e continua pagando os mesmos 150 golpes.” E pior, seu discurso de classe segue intocável. Go figure.

Fernando, segurando o gibi do super-homem que fiz ele segurar para tirar uma foto dessa grama de instante real concluiu: “O que vocês acham de fazer um próximo encontro somente com artistas de rua?”. O barbudo interlocutor disse que seria um prazer, mas será que ele estava querendo impor condições? “Ao colocarmos condições, o amor evapora”, cantaria Kevin. É essa esperança Fer que eu e Kevin continuamos tendo, ainda que estejamos num “ciclo putrificado cheio de um sebo pastoso e repugnante, onde lambemos uns aos outros num gesto desprezível que chamamos falsamente de ‘empatia’.”

Mas o universo e essa empatia aí parecia estar do lado dos marginais e foi no final dos finais que Letícia sorteou uma gravura do Metta, ironicamente a MESMA que decorou a sala de casa, numa reciclagem pós-tropicalista de araque..e quem ganhou a versão que seria posteriormente autografada? Super-Fernando!!!

 

contos

Onde Você Nasceu Passava Um Trem

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O pote de açúcar ao lado do café me lembrou mais uma vez de você. Você que gostava de tomar água com açúcar e que fazia aquela lasanha maravilhosa de frango caipira. Receita sua, da vó que tive o imenso prazer de conhecer mais que as outras. Receita que foi modificada criativamente para um bacalhau, naquela fase de negações que seu neto insiste em repetir de tempos em tempos. Você, a vó mais linda que vi, magrinha como a marreca que seus filhos adoravam lhe chamar. De olhos claros como os meus, tão azuis e claros como a luz de suas longas histórias, contadas por telefone para meu pai, ou ao redor da mesa do almoço e que eu criança, não queria esperar todos chegarem com medo do prato esfriar. Roubei isso de você vó, esse pequeno dom de contar histórias, do microfone invisível e que às vezes irrita os mais impacientes, afinal todas as histórias já foram contadas, mas nem sempre as pessoas se lembram de todas elas.

Lembrei de ti ontem, antes da notícia oficial e antes do abraço consolador de Letícia, quando ainda estavámos em uma estrada nebulosa e fria subindo a serra de um mar sulista cheio de boas almas como a sua, vó. Senti uma coisa boa, como se você, depois de 95 anos de batalhas e sucessos, depois de ter criado seus filhos de uma maneira mágica e seguir ativando corações com seu jeito inconfundível e suas características que sempre gostei de repetir: a espiritualidade, o gostar de acordar tarde e o banho quente para refrescar as ideias malucas. Tive a alegria de te visitar há poucos anos atrás, te filmei e jamais esquecerei esses últimos momentos também. Você passou de fase dormindo, serena e tranquila, e agora se juntará com o vô, em Piraúba, no vilarejo mineiro onde a sua história recomeçou. Era pra lá que você queria voltar, e só posso lhe desculpar por não poder estar presente nesse evento formal e inevitável. Mas tenho certeza que você e todos estarão acompanhados por um exército branco de anjos, que lhe ajudaram nessa caminhada profunda por uma terra contaminada e aparentemente sem rumo. Você foi e continuará sendo esse rumo necessário, essa viagem de volta ao centro da terra ou de nós mesmos, esse trem doido carregando toneladas de bondade, ou apenas um trilho simples e infinito chamado Amor.

E por hora, é preciso descansar um pouquinho, afinal de contas, 95 anos de círculos e sentimentos merecem um longo e sonoro suspiro.

Obrigado por tudo vó, você viverá para sempre.