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Sobre as Coisinhas da Noite de Ontem

casbah“Se a felicidade está nas pequenas coisas, eu lhe desejo um monte de coisinhas”, dizia o bilhete poético fosforescente do artista de rua, que pediu licença no instante em que Laura cuspia algum pensamento sobre a arte… De rua. Havia lido outros poemas coloridos, mas por algum motivo cósmico-sideral esse fez mais sentido. As coisinhas, essas viriam depois.

Estávamos na mesa do lado de fora, no bar clashiano de outras historietas,  surpreendendo-nos com algumas coisinhas também: o trio punk tocando Bowie, Ramones, os psicopatas assassinos e mais Clash, para alegria de Laura; a posterior vitrola televisiva mandando um doolittle – o disco envenenado dos pixielados. O jazz no harvest já havia acabado, o show no lado B também, e nos restavam os minutos mágicos antecedentes da sexta feira 13, na companhia de outros seres benevolentes de mais uma noite de semana no baixo São Francisco; onde a alegria anda restrita a caixa de sapato cheia de surpresinhas e garotas legais, e os bares de rua fecham cada vez mais cedo. Sinais da crise boêmia, infinitamente mais aterrorizante que a da TV (é claro, falo por nós, vagabundos).

Antes eu e Mrs. Grieves já havíamos dado nossos rolês e visto várias coisinhas bacanas, desde as gravuras premiadas no museu do escritor e neto do grande pintor, passando pelos canapés, as mini-empadas e os frisantes regalados, e chegando aos dedos escuros do amigo artesão que trocou o anel de arames por um abraço apertado de Mrs. G. Olhando fixamente para seus dedos, quase pretos, provocados pelo vício inerente pelos quase famosos tabacos bolados; olhando para aqueles dedos me senti tranquilo e com menos medo, já que tenho apenas o polegar e o indicador direito que apresentam manchas amareladas do consumo dessa planta, demonizada em ambientes diurnos e endeusada nas madrugadas arrastadas, no cerne do presente pós-apocalíptico zumbi da cidade que cresce e padece.

Na vila dos hippies, onde horas atrás a menina berrou as canções clássicas da história do punk brasileiro, acompanhada de amigas e parceiras que dançavam e trocavam ideias tatuadas na espontaneidade da calçada; a mesma calçada que abrigava a senhora do cabelo oxigenado e seu cachorro que, segundo Laura, estava todo pesteado, com a barriga cheia de vermes e o pelo servindo de palco para um carnaval de pulgas e outras coisinhas que ainda não conseguimos identificar. Porém, não poderia esquecer os gestos de carinho e parceria desses dois seres da noite, que não incomodavam ninguém e ainda surrupiavam sorrisos pueris provocados pela natureza e pelo amor entre os humanos e os animais.  Coisinhas bonitinhas que continuam vivas e se repetindo por aí.

E todas essas presepadinhas e coisinhas que estou relatando enquanto escuto as meninas do Warpaint só aconteceram porque o jardim das Américas das bananas estava fechado para visitas inoportunas de vagabundos vampiros em busca do conforto dos sofás restaurados da casa dos papais.

Laura se despediu após cruzarmos com o irmão gente fina de Mrs. Grieves. Seguimos a jornada estapafúrdia, agora atrás de algum rango sem mortes. Encontramos bem ali no ponto de encontro das matinês dos adolescentes suburbanos vestidos de preto, bem em frente da boate das drags.

No fim, terminamos no hotel decadente das transas fugazes, recheado de coisinhas asquerosas, lençóis mal lavados, cobertores desconfortáveis, chuveiros sem água quente e cortinas melecadas com milhões de mosquitos baladeiros que impossibilitaram qualquer forma de descanso e sossego, com seus zumbidos irritantes e suas picadas intermináveis. Ao fundo, ainda se escutava os estrondos eletrônicos da boate dos gatos, alternados pelos berros dos travestis e de outras damas da noite. Ainda não consigo acreditar que os filhos da puta, donos daquela espelunca, possam ter a coragem de cobrar oitenta mangos para uma diversão perigosa de poucas dezenas de minutos, e um inferno de longas horas com os tais cobertores piniquentos e os malditos mosquitos que não deveriam ser respeitados nem pelos mais bondosos veganos desse planeta.

Mas claro, isso poderia ser bem pior. A parceria existiu e é bom poder compartilhar coisinhas como essas com a pessoa do lado.

Poeta das ruas, gratidão pelo conselho dado. Também desejo um monte de coisinhas pra você.

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Série “Taxistas Curitibanos” – Episódio #6: Oito Pila

taxistas_curitibanosE lá estávamos eu e Tonico, na calada madrugada de mais uma quinta-feira insossa, no ponto dos ônibus e dos craques, de frente para o grande mural potyano. Tonico “de Porto”, das Towners, dos sambas e das bicho-grilices, tentava articular alguma forma corriqueira de barganhar moedas e notas azuis com os taxistas do outro lado da rua. Eu estava cansado, com alguma porcentagem a menos de fome, depois da empada da padaria zumbizeira, mas seguia desgastado e pedindo o conforto do lar central; ele queria seguir nas filosofias de boteco, de rua, e dos poucos lugares dessa cidade onde ainda fosse possível respirar algum tipo de distorção da realidade.

Enquanto eu seguia desprovido de notas ou moedas, Tonico seguia com seu plástico de bolso com algum documento com foto, uma nota de dez e outras três de dois. Já havíamos caminhado pelas ruas desertas e cheias de sabiás gritantes, mas eu seguia paranoico, lembrando dos conselhos da mamãe sobre evitar riscos. E, para piorar, no meu bolso eu seguia com aquele maldito celular estadunidense, entupido de fotos e vídeos e coisas que passei a chamar de trabalho. Tonico estava liso, com uma camiseta propagando algum energético do momento e que ele me contou que havia ganhado, além de trajar uma calça encontrada no lixo, e por fim, seu tênis havia custado algo como cinco reais, no país dos hermanos. Desconfio que seus dreads tenham sido bem mais caros.

Ali, por entre poucos seres notívagos e solitários, sempre na busca incessante por cigarros, raios e atenção, estávamos eu e Tonico decidindo se marcharíamos mais ou se choraríamos a corrida nos tais carros laranja fomentadores de comodidade. Ficar ali, na deriva daqueles marginais assassinos, não parecia ser certo por mais que estivéssemos encostados nos canos do ponto de ônibus, nos camuflando e fingindo esperar o primeiro do dia.

Num impulso, atravessamos a rua, e logo escutei um senhor taxista conversar com o primeiro carro da fila, algo em espanhol sobre chimarrões e confraternizações típicas dos fins de tarde. Sentimos a energia dos parceiros da madrugada, homens maduros e respeitosos esperando clientes. Aproximei-me da janela aberta, expliquei o destino ridiculamente perto, Tonico mostrou o plástico de bolso com seus trocados e fizemos a oferta: “oito pila”, sem as chatas bandeiras costumeiras das altas horas.

Já havia gralhado que por menos de dez seria quase impossível, porém Tonico insistiu para tentarmos os oito pila, e a surpresa foi ver que sem precisarmos insistir, o taxista havia aceitado a oferta. Fiquei ainda mais impressionado ao ver que o cara nem chegou a ligar a porra do taxímetro, algo que em meus quarenta anos de Curitiba, nunca havia visto acontecer. Bendita crise, eu diria, mas a questão era ainda mais simples e bem menos importante.

Tão insignificante que prefiro deixar esse detalhe na imaginação alheia.

Curiosamente, na madrugada seguinte, outro taxista repetiu a façanha de ignorar o taxímetro, enquanto bebericava goles da vodka regalada, imitava o Clodovil e nos contava histórias sexuais envolvendo clientes com fantasias com taxistas.

Sim, talvez esses últimos causos fossem mais interessantes do que perder tempo explicando uma breve saga chata de dois hipsters em Curitiba.

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Argentos, Chicos e Letícias

argentos

Encanamento quebrado e um frigobar transformado em objeto científico, sem gás e recoberto de potentes fungos, capazes de provocarem um dos piores odores de que se tem notícia.

É nesse antro explosivo, repleto de manchas nos azulejos, marcas estranhas nos espelhos e de pinturas bipolares nas paredes, que eu tomo meu primeiro banho de porta aberta e me dou conta de que estou sozinho. Sozinho no velho espaço do último ciclo vital, ou naquele ambiente insólito que já chamei de casa.

Nem sei o que sentir, tem o vazio deixado pelos chicos e pelas marias, tem aquela cara de chegada de alguma viagem longa, dessas que a gente inventa por aí, de sair pedalando como o xará e o maestro, de levantar o dedo sob algum vento novo, de escalar morros ou simplesmente permanecer na própria cidade, zanzando e colocando as pestanas para propósitos verdadeiros, projetos intracontinentais, novas funções, criações momentâneas envolvendo uma meia dúzia de argentos, alguns instrumentos, uma bocada de empreendedores duvidosos, eventos multiculturais, muita paciência e ainda uma exposição reciclada sem capitães e em pleno setembro-chove.

Falando assim fica mais fácil, atropelo sentimentos tolos e caretas e deixo a palavra saudade acaçapada naquele dicionário da família Buarque de Holanda, distante dos outros idiomas que a desconhecem. Aproveito para agafanhar palavras desse livrinho roxo, e engranzar nessa história, cada detalhe e cada partícula de emoção, as boas e as ruins, que vivi nesses cinco locos meses ao lado dela e desses vagabundos callejeros – um bando de aproveitadores e inconsequentes, desses que insistem na utopia da liberdade galeana e para isso contam com a ajuda de algum bom coração, alguém que como eles, também se sente vivo e maldito por tentar ser artista na pior hora possível.

Atravessamos esse duro inverno curitibano, absortos em cortinas de fumaças variadas, transmutando as malas ondas e remando contra as correntes, mas espere, antes que eu siga nessa conjugação maioral e pluralizada, parte de algum discurso motivacional para uma plateia de adolescentes famintos por direções, antes que eu siga adiante na caminhada citada pelos seletores de freqüência; preciso respirar, acrescentar vírgulas, e esquecer um pouco esse papo de coletivo, de união e de não sei mais o quê.

Palavras ruidosas ou poéticas não irão me salvar e o consolo é saber que talvez tudo isso seja parte de alguma história maior, que será arquitetada nas próximas décadas em passos curtos, por gente cansada das ladainhas do passado e das promessas generosas, e que sabe ou sente que a pontuação é relativa, e que para chegarmos próximos de qualquer grande sonho é necessário começarmos por algum beco.

Com ela comecei, repetindo padrões impulsivos e provocando infindáveis discussões entre espelhos distorcidos e manipulados por premieres e photoshops, maquinetas capazes de transformar roteiros novelescos e fotos repetidas em algo supostamente fresco e palatável para a rotina caótica em que eu havia me metido.

No apê circular convivi com Letícia, seu gato Rodrigo, seu amigo colorido, suas janelas sem cortinas e seu banheiro sintonizado na rádio em tempo quase integral. No quarto, imagens de divindades orientais e cobertores sedutores me lembravam das contradições ambulantes e agora, enquanto escrevo e redesenho essas imagens, percebo pelas rimas naturais dos dígitos que ainda levarei algum tempo para compreender aquela nossa relação, as reiteradas faíscas, os desejos conjugais partidos ou os defeitos gritantes de ambos os lados.

Enquanto isso, do outro lado do centro, na rua que homenageia solenemente o clássico “Besame Mucho”, os argentos mais piolas seguiam suas metas diárias, de conseguir moedas e notas pequenas para encherem suas panças no restaurante sem quilo, saciarem os tédios noturnos no bar dos facitos e manterem o quilombo no apê emprestado.

O bolo crescia ligeiramente e logo o local, que já fora palco de peças melancólicas estreladas por artistas quarentões, famílias em tratamento hospitalar e mochileiros estrangeiros, agora recebia membros de uma orquestra de músicos de rua, mesclados com uma trupe londrina e com o garoto de ouro da rádio clandestina.

Agora, definitivamente sozinho, sem Letícia, sem Caldabranca (este se foi para Roma, ser bonvivant) e sem os hermanos, tomo um banho de porta aberta, enquanto tento entender o que foram esses cinco loucos meses. Certamente aquele apê carregará histórias para as próximas décadas e como diria o velho Waits sobre despedidas: “Well today is grey skies/Tomorrow is tears/You’ll have to wait til yesterday is here”.

E se o ontem não está por aqui, resta a esperança no amanhã e a calma no hoje.

Primavera, seja bem vinda.

contos, Dicas Musicais

Sobre os chicos e outros caras legais

guacamate“As pessoas estão carentes e deprimidas, em busca de algo sincero e autêntico ou simplesmente amor”, disse o gaúcho, corretor de seguros contra desastres dentários. Isso antes da chuva que acabou com o sonho latino de um inverno curitibano que por algumas horas cedera espaço para cinco argentinos alegrarem o domingo dos passantes da feira que já foi hippie, mas que agora é só mais um cartão postal da “cidade dos normais”. E  na canção do Escambau, o rompante pop-radiofônico sobre a falta de emoção na vida daquelas pessoas havia sido quebrado pela eminência da chuva, naquele momento em que o céu ficou preto e eu atendi aquela ligação no meio de uma gravação através da máquina do tempo menor do mundo. Justo naquele momento tão alegre e pueril, com um maluco vestido de mulher e interpretando um ser invertebrado, um baterista virtuoso e humilde, um baixista buena onda, uma clarinetista aprendendo as canções enquanto toca e ainda uma trompetista tímida por não querer molestar o saxofonista antigo que tocava do outro lado. E como se não bastasse, na plateia ainda tinha uma miniatura de um James Dean, acompanhado de sua namoradinha de no máximo sete anos de idade, porra, naquele momento tão pleno e ingênuo e quando o sol ainda se esforçava para seguir brilhando e iluminando esse povo todo, o telefone toca e preciso fugir.

“Você abandonou sua barraca, as senhoras estão putas contigo, tem uma fila de gente para comprar suas coisas”. Desligo o celular da Janis mais preocupado com a gravação ou o coito interrompido pelo toque e talvez aquela viagem no tempo tenha ficado apenas na memória, e desde quando o homem ou Deus decidiu que a felicidade ou a alegria teria um prazo de validade? Corro como um louco e quase que instantaneamente, na medida em que mais gotas caem do céu, meus passos aceleram e sinto naqueles corpos estranhos, cheios de sacolas e sombreros, a tensão provocada pelos pingos e pelos ventos fortes que segundo alguma moça bonita na TV, também deve vir da Argentina.

Mas algo mudou em mim naqueles segundos. Talvez eu estivesse cansado demais, cansado e mais sensível que uma garota de trinta anos em TPM ou como qualquer canção lenta do Roberto Carlos, pré 73. Já havia me emocionado pra caralho na noite anterior, quando vi de novo a banda callejera arrebentar naquele pub europeu cheio de gente rica bebendo whisky e champagne e fumando charutos grandes, bem no estilo daquele blues da prisão de Folsom. E se lá fora meus amigos se comportavam como jovens se comportam em bares de velhos, lá dentro eu me esforçava para não me sentir um jacu ou mais um rosto jovem estranho, vestindo roupas velhas e desbotadas e com botons duvidosos achando que entende alguma coisa de jazz e blues apenas por conseguir ficar calado por alguns minutos. Um bicho do mato e do Paraná, um forasteiro dentro da sua própria cidade, um Caldabranca ocupando um quarto de hotel em São Paulo enquanto luta para se manter invisível, um outsider visionário ou apenas um cachorro louco tentando “romper a barreira do tempo” num boteco típico dos beatniks de outrora; mas que no Brasil do século 21 é cenário pra gente bem sucedida gastar seus tostões e sentirem que estão em Londres, em Barcelona, Berlim ou em qualquer uma dessas partes escolhidas por brasileiros convencionais de uma classe média que há quinze anos se fodia para conseguir passar o fim de ano com a família que morava longe.

E talvez o que tenha me deixado ainda mais feliz nessa noite, além daquele jazz argentino cheio de malemolência e outras palavras da moda, e além daquela jam incrível dos chicos com aquele blues man e seu sapato de mil reais de couro de crocodilo comprado pela namorada, talvez o que tenha me deixado bem alegre e contente tenha acontecido depois dessas paradas todas.

João, o fotográfo de meia idade e cheio de ódio contra hipermercados e seus estacionamentos infinitos, João, o colecionador de vinis dos anos 80, quando seu cabelo ainda era preto e deveria pesar uns dez quilos a menos, João, esse nome que, porra, é o mesmo do meu pai que não vejo há décadas e que agora descubro que seu celular está desligado. João, o outro, o novo brother dos tragos e dos largos, João, me chama e me pergunta: “Hey, você já viu o que tem aqui fora, naquela caçamba de entulhos e lixos?” Me aproximo e João começa a me mostrar mapas de Paris antes de 1900, muito antes de aquela torre famosinha existir, e com certeza muito antes de qualquer brasileiro sonhar  ir para Europa, isso, é claro, se a pessoa não fosse um Villa-Lobos ou algum outro gênio apadrinhado pela nobreza. Logo os chicos buena onda se acercam do garimpo e ainda encontram um escorredor de pratos em perfeito estado, algo ainda inexistente naquele quilombo que eles se acostumaram a chamar de casa.

No dia seguinte, chego à casa de Letícia, a casa que aos poucos se transforma na minha também e lhe mostro um dos mapas que, pela idade e pela decadência natural do tempo agregadora de valor e estética, poderia muito bem ser a peça ideal para decorarmos nossa adega de vinhos promocionais que, por enquanto, segue existindo apenas nas nossas cabeças. Sim, porque existe a cabeça da mulher e a cabeça do homem e existe uma outra, ainda mais misteriosa e poderosa, que é a cabeça do casal, da entidade, que aos trancos começa a se constituir. Poderia seguir falando sobre cabeças, grandes ou pequenas, de um bando ou apenas de alguém bem especial que me ajudou a ser quem eu sou hoje e que agora descansa em uma cama ao lado de senhoras do bem. Poderia seguir falando de todas essas cabeças, mas vou preferir seguir lembrando esses dois instantes mágicos provocados por uma banda de jazz ou uma verdadeira locomotiva do amor, e por João “das Couves”, um cara conectado com a natureza e com cada coisa ao seu redor.

E como diria um tal “urbenauta”, viajar na sua própria cidade é mesmo muito legal.

contos, Dicas Musicais

Incêndio na Festa Proibida

melange

Burburinhos e pseudoameaças suicidas instauraram um clima de caos e tensão nas horas que antecederam a primeira grande festa do DCE – o centro acadêmico da UFPR, responsável por abandonar o prédio e deixá-lo infestado de junkies e nóias. Portanto a festa não seria propriamente do DCE, mas dos coletivos que ali coabitam: a rádio gralha com o incessante debate sobre mídia livre, o El Quinto com suas oficinas gratuitas de arte, fotografia e malabares, e o ANTIFA, um grupo antifascismo com sua resistência ao sistema vigente, que oprime e segrega e que não faz nada para mudar esse panorama.

Após todas as correrias que envolvem uma festa como essa, as peças começaram a se encaixar quando cinco argentinos chegaram ao terceiro andar e montaram seus instrumentos. Munidos da buena onda e de sentimentos de estarem viajando o continente, tocando para o povo na rua e onde mais eles sejam requisitados, esses quatro caras e essa linda garota chamada Fiamma, incendiaram o palco improvisado, e desta vez o “incêndio criminoso” saía de suas incríveis melodias, improvisos jazzísticos e de uma cozinha coesa cheia de swing.

Quem estava ali mal podia crer no que acontecia diante de seus olhos, vermelhos e de brilho intenso, ou ainda debaixo de seus narizes, esbranquiçados e furados.  O prédio já havia abraçado centenas de bandas, normalmente de rock, rap e punk, mas talvez nunca uma banda de jazz argentina daquele calibre. A cada acorde, a cada soprada oriunda do trompete de Fiamma ou do sax de Pipi, o povo se extasiava, balançando os quadris para todos os lados.

Mélange de Culture, o nome do quinteto, poderia também ser considerado o melhor antidepressivo que há no mercado. A cada apresentação, eles seguem injetando doses cavalares de alegria e serotonina para jovens de até 90 anos de idade.

E nesse último sábado, não foi diferente. Em minutos, a sala ficou pequena, transformando-se em um poderoso caldeirão cultural, uma mistura de ritmos calcados no jazz e no improviso, um mélange que faria os beatniks se sentirem orgulhosos.

Curioso foi o desfecho do show, quando os músicos saíram do prédio e Fiamma foi abordada por um ogro sexual com uma mão cheia de más intenções. Com uma resposta instantânea, Fiamma  deu um tapa forte em sua cara de pau, o que fez com que esse ser desprovido de coração a empurrasse. Revoltado, Pipi revidou com um soco estilo Rocky Balboa.

Triste é ver essas coisas acontecerem justamente no prédio onde o debate acerca das minorias e dos tantos ismos se faz mais presente.

Ainda a caminho de casa, Fiamma, Mariano, Pipi e Gastón (o contrabaixista genial) se deparam com outra cena grotesca: um cara com um cordão no pescoço amarrado a um poste, enquanto uma garota, talvez sua ex-namorada, o xingava e pedia ajuda. Pipi decidiu cortar o cordão, provocando a ira do suicida que partiu pra cima dele, em mais uma confusão bisonha. Mariano, o baterista sex symbol da banda, disse que nunca havia visto Pipi brigar. Nesse dia, Pipi precisou acessar seus instintos selvagens em dois momentos distintos, separados por alguns minutos.

Seguramente ser uma banda nômade não é para qualquer um. Não basta ter talento ou um bom repertório, “é preciso força, é preciso ter raça… É preciso ter gana sempre”. Mélange de Culture parece pertencer a esse grupo de artistas da estrada que não deixam a peteca cair, ainda que o mundo e essa realidade distorcida, cheia de caos e miséria a puxem para baixo.

contos, pseudojornalismo

Lambalada na Terra dos Gringos

felipe

“Lambalada” em plena segunda-feira de janeiro, no clube dos operários e forrozeiros, na cidade dos fantasmas. Que rapaz atrevido, esse tal de Felipe Cordeiro. Curitibanos dançando lambada e carimbó? Você ficou louco? Segundas são dias de reclusão, dias pra não sair do quarto e se arrepender dos excessos do fim de semana. Dias pra lembrar que precisamos trabalhar, pagar nossas contas e manter a roda do conformismo girando em velocidade constante rumo ao sonho da casa própria, dos filhos mimados, do emprego estável e do casamento conveniente.

Felipe tinha outros planos. Felipe vinha do Pará, de um Brasil ainda possível, cheio de alegria e de um tipo raro de malemolência, contagiante, libertadora e extremamente necessária para seres oriundos do sul, seres estranhos que até num calor que beira os 40 graus, continuam frios e chatos em conversas sobre o tempo ou sobre as notícias da semana.

Felipe veio para cumprir a função social daquele rapaz vindo do norte que vem para o sul para nos lembrar o que é Brasil, o que é Carimbó, Lambada, Tecnobrega e não sei mais o quê. O povo daqui é rock’n’roll e quer continuar mirando para continentes distantes e gelados, e talvez os mais alternativos sejam aqueles que vão pra Europa fazer mochilões de um mês, com o dinheiro economizado no ano ou ainda, com a grana dos pais.

De qualquer maneira esse texto não será para achincalhar a cultura local ou talvez a falta dela, mas sim para exaltar os encantos da música popular de Felipe Cordeiro e sua trupe. Seu pai, um dos mestres da guitarrada também estava lá, balançando corações com seus solos hipnotizantes com ecos de Dick Dale. Dick Dale, o avô da surf music, se tivesse nascido no Pará e em outra época, poderia ter sido batizado pela alcunha de… Felipe Cordeiro. E se Dick Dale tivesse um pai guitarrista, ele seria o pai de Felipe.

É claro que essas minhas comparações vêm de alguém do sul, de alguém que começou a se familiarizar com os sons nortistas há poucos anos, e que seguramente não conhece a história do Carimbó ou da lambada além do Magal, que costumava passar na novela. Talvez existam centenas de Felipes Cordeiros, e caso alguém que esteja lendo essas linhas queira me recomendar outros nomes, ficarei imensamente grato.

A festa ontem começou cedo, perto das 10 da noite, com o Felipe discotecando sons de sua terra sensual para uma plateia ainda tímida e esparsa. Em certos momentos me senti como se estivesse em algum prostíbulo, não pelas garotas vestidas de hippie-retrô-brasileiro ou pela decoração do palco, mas por algumas canções que lembrei ouvir em tais recintos. Achei bacana e pensei, esse rapaz abusado está trazendo os puteiros para os clubes da classe média, e mesmo que essa não seja sua intenção, talvez esse conceito “pós-moderno” e meio antropofágico seja justamente onde está alojada a força da música de Felipe Cordeiro.

E quando o show de fato começou, os fantasmas haviam tomado conta do espaço, que agora era composto não mais por fantasmas da noite curitibana, mas por seres encarnados que não conseguiam mais permanecer em suas mesas e em suas posições de conforto. No palco, o duelo de guitarras estridentes ditava o ritmo, enquanto na pista, casais de todos os gêneros bailavam do jeito que podiam a música que talvez ainda não tivessem compreendido. “Don’t you fear, if you hear, a foreign sound to your ear”, já dizia o velho Dylan, e quem mesmo foi que disse que música é pra ser entendida?

Se a alma não tem cor, a música muito menos. E quem disse que não era possível encontrar o paraíso tropical em plena segunda-feira, na “cidade dos normais”? Quem estava lá pôde testemunhar esse fenômeno responsável por chacoalhar partes ociosas de corpos enferrujados, acostumados com movimentos duros trazidos pelos ingleses, por ondas de rádios caretas e preocupadas em ditar tendências atrasadas.

Felipe percorre caminhos paralelos e talvez sua única preocupação seja mostrar a verdadeira música brasileira que sempre esteve por aí, ainda que parte dela tenha sido relegada a inferninhos ou a bailes propositalmente bregas. Ontem, Pará e Paraná encurtaram suas distâncias, provando que na vila “Footloose”, ainda existe dança. O show não pode parar e que venham outros Felipes Cordeiros para cá.

Quem sabe, um dia, não comecemos a produzir os nossos?

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Ubatuba Feelings

ubatuba2015 veio de repente e, após uma série de bebedeiras, traquinagens e histórias inconclusivas, era hora de partir novamente. O ano ainda estava nascendo e eu precisava sair, respirar novos ares, me livrar de antigos carmas, dos antigos amigos de sempre, e dos novos, mais malucos e incompreendidos e talvez mais próximos ou, ao menos, mais abertos a novas experiências. Para alguns, a velhice vem acompanhada de rabugices e da incorporação de novos preconceitos, novas cristalizações mentais que os impedem de conhecer gente nova. Felizmente ainda não faço parte desse clube.

Ernest Cash havia se mandado para Paraty em busca de alguma luz divina que o acalmasse ou talvez de um novo amor, alguma paixão intempestiva que o fizesse esquecer o peso de sua existência. Ernest foi sem se despedir, deixou boa parte das suas tralhas e de seus remédios na minha casa e partiu, sem avisos.

E depois de quinze horas de viagem, lanches caros, chacoalhadas e sonecas superficiais, eu estava lá, suado e sedento, à procura de um táxi que pudesse me levar ao local desejado. Esperei 20 minutos ao lado de uma família peruana e de mais quatro garotas paulistas. No fim, rachei um táxi com duas delas e assim cheguei ao hostel onde minha lady friend Ika trabalhava como voluntária. Fui recepcionado com olás, em inglês, em português e com sotaques variados. Freddie, o cachorro colombiano, latiu ferozmente e talvez essa tenha sido sua forma de dizer “hey, eu me lembro de você”.

De início, Ubatuba se mostrou mais estruturada e badalada do que eu havia imaginado, mas isso pouco abalou o encanto por esse povoado, um encanto natural e crescente por um lugar pacífico na beira do Atlântico, ao norte do estado mais famoso do país, um lugar de ritmo cadenciado, cercado por praias magníficas e amigas dos surfistas.

No hostel, éramos seis. Daniel, o dono boa onda fazia as honras da casa, cozinhando e acertando os ponteiros administrativos de seu estabelecimento. Razvan era um dos voluntários, juntamente com Ika e as alemãs Letta e Klaudia. Razvan é romeno e de origem vampiresca, nascido na Transilvânia. Considera-se uma espécie de nômade, um cigano dos tempos modernos, um ser em movimento em uma sociedade que clama por raízes. Razvan vinha do teatro, do improviso, do misticismo, da anarquia e da música popular urbana. Nos entendemos imediatamente.

Na bagagem, por entre roupas e bolas verdes, coloquei um mini isopor com queijo dentro, e esse pequeno empenho fez Letta explodir de alegria. Letta é uma alemã ovolactovegetariana, e queijos, especialmente aqueles fortes e tipicamente europeus, estavam entre suas laricas preferidas. As minhas também.

Logo me senti em casa, e à noite, outro membro se juntou à trupe: René, colombiano que, além de estudar Biologia em Medellín, também costuma grafitar animais em muros e esse foi o motivo para ele passar duas noites no hostel. Me empolguei com a ideia de pintar algo também e, no dia seguinte, havia feito dois desenhos coloridos. Após a aprovação de Daniel, e enquanto René pintava um cavalo marinho gigante em um dos muros do jardim, eu estava lá, pintando um dos meus desenhos ao lado do chuveiro externo. No dia seguinte, René ainda pintou um caranguejo azul em outro muro e depois partiu, sem grandes despedidas. Razvan, também se animou, e mesmo sem nunca ter pintado nenhuma parede na vida, foi lá e fez um pássaro vermelho envolto por luzes curativas por todos os lados.

Não poderia discorrer sobre a noite ubatubense, suas festas à beira mar ou suas infinitas barraquinhas de coquetéis, já que praticamente não saímos do hostel, exceto quando alguém ia ao mercado atrás de cervejas ou de algo mais. Fui com Ika a uma pizzaria e em outro momento, fomos de bicicleta até o centro da cidade. Em um terceiro dia, fomos à praia, fritamos ao sol e comemos um coco. De resto, ficávamos matando tempo no hostel, brincando com Freddie, ouvindo canções, tomando goles e inalando diferentes tipos de fumaça. Às vezes, eu e Razvan entrávamos em papos menos retos, divagando sobre divindades e existencialismos desnecessários. Conversas sem rumo e cheias de parênteses, feitas por vagabundos de plantão em trânsito.

Além das marcas de sol e dos mosquitos, acredito que Ubatuba tenha deixado outras marcas. Marcas singelas que ecoam outros tempos, menos complicados, de solitude, quando ainda viajava sozinho pela América, seguindo sem planos e sem direções, um caminho afetivo em busca de paz. Outro tempo, antes do vendaval por que fui atingido logo após meu retorno. Senti essa paz em Ubatuba ou, pelo menos, no hostel que tive o prazer de conhecer. Senti essa paz nas histórias de outros viajantes, nessa falta de objetivos concretos, nessa inocência de parecer ter se esquecido de onde veio ou quem foi, e agora só se importar com questões simples de subsistência. Se eu pudesse planejar algo além da minha próxima refeição, planejaria revisitar periodicamente esse universo que segue dentro das minhas entranhas, desfazendo nós, enxugando lágrimas do passado e reconstruindo caminhos criativos cheios de novas histórias para contar.

Navegar é preciso, em todos os sentidos.