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Crônicas de Nácar #01: A Mordida de Janis

pace_dogJanis é uma cachorra que vive com a gente há mais ou menos um ano e meio. Janis foi abandonada pelos seus pais, após ter sido encontrada na rua e adotada por esses mesmos pais. E ontem ela estava passeando com Tijuan, um dos quase dez moradores desta casa. Tijuan é argentino, músico, cozinheiro, quase pai e adorador de cachorros. Na esquina de casa havia dois caras trabalhando na parte elétrica de um poste. Tijuan estava distraído não sei exatamente porquê, só sei que nesse exato momento, dois corpos se colidiram: Janis morde ou pelo menos tenta morder a perna de um desses caras que estava trabalhando provavelmente para a prefeitura. Esse cara também tinha um sotaque diferenciado, especificamente do Haiti, porém sua reação naquele instante não era nem desse ou daquele país, apenas de um ser humano revoltado por ter sido supostamente mordido por Janis, uma cachorra sem raça definida, mas com um faro invejável e uma inteligência fora de série.

Preocupado, Tijuan chama Jordi, outro morador dessa casa maluca, baixista coringa e mangueador nato. Jordi, que ainda não havia tomado seu café, se mostrou levemente indignado pela reação desproporcional do rapaz em questão, que logo pediu documentos comprovando que Janis havia sido vacinada. Jordi lhe disse que Janis era apenas um cachorrinho e não uma criança com documentos oficiais, e no máximo o que ele conseguiria descolar era uma nota fiscal da referente vacina, porém se ele estivesse mesmo preocupado, poderia ir no posto de saúde mais próximo para tomar o antídoto e sanar suas neuras. O haitiano ainda pediu para tirar uma foto da identidade de Tijuan e atual padrasto de Janis, uma solicitação prontamente aceita, mas que também foi rebatida por Jordi, que disse “Se você está pedindo isso, também queremos uma foto do seu documento”. O rapaz não entendeu muito bem, alegando que aquilo parecia ser algum ato de xenofobia, ou quem sabe, ele apenas precisasse de algum papel para mostrar no trabalho, podendo descansar em casa, após uma manhã estressante em um país estrangeiro.

Moral da história: a importância de papéis e cafés na vida das pessoas.

Dicas Musicais, podcasts

[pace is the essence] Podcast #04: Animais (parte 2 – os da água)

E no quarto programa e segundo da série sobre animais, canções e comentários sobre animais aquáticos, de todos os tipos. Críticas ou sugestões são bem-vindas demais.

Segue a tracklist:

Spongebob – The Best Day Ever
Frank Black – Song of the Shrimp
Devendra Banhart – Seahorse
Donovan – Starfish-On-The-Toast
Syd Barrett – Octopus
Jeffrey Lewis – Octopus´s Garden
Clube da Esquina – A Sede do Peixe
Inezita Barroso – Peixe Vivo
Tom Zé – Peixe Viva
Raul Seixas – Peixuxa (O Amiguinho dos Peixes)
John Lurie – Shark Drive
It´s A Beautiful Day – The Dolphins
Sá, Rodrix & Guarabyra – Mestre Jonas
Riachão – Os bichos: Baleia da Sé / Tartaruga 70
Supercordas – Frog Rock
Screamin´ Jay Hawkins – Alligator Wine
The Cramps – Alligator Stomp
Badly Drawn Boy – Have You Fed The Fish?

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Há um caranguejo no banheiro!

“Há um caranguejo no banheiro!!” Diz o homem assustado. Do lado de fora, chuva e relâmpagos constantes. Limões voadores atingem o teto. O homem está sozinho e se pergunta: “De onde saiu esse caranguejo gigante?”. Sem se dar conta ele estava diante do famoso caranguejo colombiano, de cor acinzentada, manchas brancas espalhadas pelo corpo e hábitos domésticos. Ainda afobado, fechou a porta do banheiro, esperando que a criatura retornasse pelo mesmo lugar que entrou. “Provavelmente a privada”, indagou o homem, ainda meio ressabiado.

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Pedro José e Os Ratos Equatorianos

Cuenca era até grande e com todos os ruídos característicos do chamado “progresso”, mas em sua primeira semana Pedro José dormia ao lado do rio que atravessava e separava a cidade antiga da nova. Ao invés das buzinas e arrancadas e freadas e das trocas de marcha e dos alarmes disparados sem motivo aparente, muito comuns nessa parte moderna da cidade, Pedro José dormia apenas com o som da correnteza e dos pequenos choques provocados pela água nas milhares de pedras de diferentes tamanhos e formatos que compunham o famoso rio cuencano. Porém o trajeto até sua cama se mostrava ligeiramente complicado, e não foram poucas às vezes em que se assustava com os imensos e lendários ratos equatorianos que cruzavam seu caminho.

Algumas criaturas beiravam meio metro de altura e eram capazes de emitir perturbadores ruídos – os quais chegavam aos ouvidos de Pedro José com profunda intensidade, uma vez que naquele lado do rio, carros e seres humanos raramente eram vistos.

Certa noite, ao retornar de mais uma longa caminhada pela parte antiga da cidade em busca de algum alimento que pudesse considerar seu jantar, Pedro José se deparou com quatro unidades da mesma espécie de roedores, que dessa vez devoravam ferozmente a carne do que parecia ser um cachorro de rua, sem raça definida e com três diferentes colorações de pêlo. Os quatro ratos teriam não mais que quarenta centímetros de altura e seus rabos aparentavam medir em comprimento o triplo de suas alturas.

Em um mixto  de medo e curiosidade, Pedro José permaneceu imóvel e em absoluto silêncio numa distância que julgou ser segura. Em seguida, uma quinta criatura velozmente se aproximou do suposto banquete, provocando um espanto em Pedro José e até mesmo nos outros quatro imensos ratos equatorianos que roíam a carne daquele pobre cachorro.

Emitindo o mesmo ruído perturbador em um volume claramente maior que os demais, esse rato também possuía outros diferenciais.  Seu tamanho era evidentemente maior que seus semelhantes e apesar de ser da mesma espécie de roedores, seu pêlo era branco como açúcar, mostrando pertencer a alguma variedade albina. E por breves segundos, Pedro José pôde ver fogo nos olhos vermelhos daquela imensa criatura. Um fogo raivoso que sem deixar dúvidas, transparecia uma fome de proporções irreais.

Petrificado e sem ação, Pedro José permaneceu em seu lugar, que nessas alturas, já estava longe de ser considerado seguro, e por minutos ele testemunhou aquele animal sem igual triturar as diferentes partes que ainda restavam do pobre cachorro.

Surpreendentemente e definitivamente antes da época esperada, a primeira chuva de guarda-chuvas do ano começava a cair, fazendo todos os ratos, dos pequenos aos grandes, retornarem para seus buracos, naturais ou urbanos, e Pedro José para sua cama, onde dormiria ao som do rio que atravessava Cuenca e que normalmente lhe tranqüilizava.

Porém nessa noite ele seguiria atormentado pelo imenso rato branco que não sairia de seus pensamentos.

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Turismo Desenfreado (E Suas Desastrosas Consequências)

Não sei como era essa cidade peruana há cinco ou quinze anos atrás. Um livro me diz que ela já foi bem diferente e um nativo confirma essa história. Só posso dizer que hoje Cusco, e especialmente a praça das armas, viraram um pequeno festival de bizarrices turísticas sem limites ou o menor bom senso que se poderia esperar de uma cidade com tamanho peso histórico.

Luminosos indicam promoções dos restaurantes e bares, sempre em inglês — a língua oficial dos turistas preguiçosos. Na charmosa praça das armas, vendedores ambulantes de todos os tipos e idades oferecem tudo que esse mesmo turista possa necessitar: capas de chuva para a chuva que não pára; alguma pintura de aquarela com temas regionais para decorar a sala e lembrar suas visitas da aventura pela América do Sul; ou ainda uma engraxada nas botas ou um típico gorro andino ou quem sabe umas bonecas, andinas também, ou algum colar com símbolos locais ou uns postais com lindas fotos dos lugares ainda desconhecidos,…

E o bombardeio incessante de ofertas consegue ficar ainda pior com as dezenas de agentes de viagens e seus impertinentes súditos, dispostos a vender seus previsíveis pacotes turísticos pré-fabricados.

Como atração principal, Machu Pichu é oferecida com opções para bolsos de todos os tamanhos, ou pior, quase todos os tamanhos, já que nem todos terão os mais de cem dólares necessários para o pacote mínimo — o tal “by car” como eles chamam por aqui.

Sem o saudável hábito da pechincha, gringos de fora do continente acabam pagando mais caro e são facilmente ludibriados por vendedores sedentos por seus, aparentemente, abundantes dólares.

Na esquina de uma rua movimentada, ainda vejo uma senhora de idade com sua lhama de estimação (!) visivelmente perdida no meio daquele pequeno caos urbano. “Uma foto?” — em tom afobado, ela me oferece. “Não, obrigado” — gesticulo do outro lado da rua.

E é com esse gosto amargo que me despeço dessa cidade que mesmo com toda sua história e seus interessantes sítios arqueológicos, é assim que ela se apresenta para o século 21: explorando inocentes animais, turistas e crianças. Essas últimas forçadas a trabalhar nos arredores da praça principal em busca de alguns trocados.

Machu Pichu? Talvez numa outra (e espero, melhor) oportunidade.

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Os 10 Festivais Mais Bizarros do Mundo

La tomatina

Na última quarta-feira de agosto de todos os anos, na região da Valencia, mais precisamente na província de Buñol, 9.000 moradores e de 20 a 40 mil estrangeiros aparecem na cidade para jogar tomates um no outro em uma suposta homenagem a Virgem Maria e ao Santo Luis Bertrand. Essa tradição existe desde a década de 40, apesar de ter sido suspensa durante o reinado de Franco. O festival começa com uma pessoa tentando escalar um pau de sebo para capturar um presunto cozido (?). Após o presunto descer do tal pau, canhões de água são disparados contra os participantes e mais de 100 toneladas de tomate são despejadas nas ruas para o povo utilizar como “munição”. Os turistas tendem a ser o principal alvo dos moradores.

Festival do Queijo Rolante

O “Cheese Rolling Festival” é realizado todo mês de maio em Cooper´s Hill, no Reino Unido. Basicamente, o festival envolve um funcionário lançando um queijo em algum morro extremamente íngreme. Em seguida, centenas de malucos começam a correr ladeira abaixo (arriscando suas vidas/integridades físicas), com o objetivo de pegar o tal queijo. Mulheres e homens correm separadamente e as crianças não estão autorizadas a competir, embora muitas vezes os meninos locais da cidade participem de qualquer jeito.

As Fogueiras de São João

As tais fogueiras de São João (bem maiores que as produzidas por aqui) fazem parte de um festival popular na Espanha, realizado entre os dias 19 e 24 de junho. O festival envolve a estranha produção das fogueiras (frequentemente alimentadas por móveis antigos). Os moradores bebem chocolate quente, enquanto assistem as fogueiras. E é aí que a coisa fica esquisita. Crianças das aldeias se revezam em corridas através do (sempre perigoso) fogo. A semana é marcada por festividades, fogos de artifício, e um concurso para eleger as 86 mulheres e 86 meninas mais “lindas” das fogueiras. Elas são então, nomeadas rainhas do festival.

Festival do Arremesso de Cabras

Certamente o espanhol curte uma festa bizarra. Todos os anos, no quarto domingo de janeiro, os moradores de uma pequena cidade chamada Manganeses de La Polvorosa se reúnem para o “Festival do Arremesso de Cabras”, em homenagem ao São Vicente de Paulo, o santo padroeiro da cidade. O festival já existe há tanto tempo que ninguém sabe quando começou. Trata-se de um jovem que encontra uma cabra na aldeia, amarrando-a e levando-a ao topo do campanário da igreja local. Ele então joga a cabra para fora da janela, fazendo ela cair por uma altura de 50 pés, onde (felizmente?) ela é capturada por moradores segurando uma folha de lona. Os oficiais da cidade já proibiram o evento, mas ele continua sendo realizado de forma independente (e sem nenhuma noção). Várias agências dos direitos dos animais já protestaram e infelizmente essas queixas continuam sendo ignoradas.

Hadaka Matsuri

Hadaka Matsuri é um festival japonês em que todos os participantes estão com a bunda de fora. O festival é celebrado várias vezes ao longo do ano, em diversas partes do Japão e as pessoas envolvidas geralmente usam um tipo de tanga “tradicional”. Alguns aparecem completamente nus – algo que não é reprimido e sim considerado um ato “saudável”. As festas envolvem frequentemente o uso de lama (para entretenimento dos presentes) e muitas vezes há festivais específicos para os homens e para as mulheres. O festival tem suas origens na religião local, porém nos dias de hoje esse aspecto religioso foi praticamente esquecido.

El Colacho

Desde 1620, o “El Colacho” (ou “salto do bebê”) é um festival espanhol realizado todos os anos durante as comemorações de Corpus Christi. O festival envolve a colocação de colchões contendo bebês nascidos nos últimos 12 meses. Em seguida, os homens adultos da aldeia de Castrillo de Murcia, devidamente vestidos como demônios, se revezam nos saltos sobre os bebês, resultando muitas vezes, em lesões (geralmente/felizmente nos adultos). Acredita-se que o salto livra os bebês do pecado original, funcionando como uma bizarra forma de batismo. Recentemente, o Papa Bento XVI pediu aos sacerdotes locais que se afastem desse festival, uma vez que é perigoso e contrário à religião católica.

Fiesta de Santa Marta de Ribarteme

Todos os anos em Las Nieves (novamente, na Espanha), pessoas que sofreram uma experiência de quase-morte durante o ano que se passou, se reúnem para assistir à missa em celebração da Santa Marta de Ribarteme, a santa padroeira da ressureição. E agora vem a bizarrice: eles aparecem na missa carregando um caixão, ou ainda, sendo transportados por um. Após a missa, todos os caixões vão até o topo de uma colina próxima, onde há uma estátua do santo. Apesar da seriedade do evento, pessoas soltam fogos de artíficio e os lojistas enchem as ruas para vender objetos religiosos.

Festival do Ganso Amarrado

Até recentemente, um festival anual era realizado na Alemanha, onde um ganso era amarrado pelos pés a um poste até sua cabeça cair. Depois de denúncias dos ativistas dos direitos dos animais, os organizadores agora utilizam um ganso que já tenha sido morto previamente. Um evento semelhante acontece na Espanha (surpresa!), onde um homem pendura um ganso até sua cabeça cair (!). Novamente o ganso é morto antes do evento (ah sim, agora melhorou “muito”), que já conta uma tradição (doentia) de 350 anos.

Kanamara Matsuri

Todos os anos, na primavera, o festival Kanamara Matsuri (ou “O Falo de Aço”) é realizado em Kawasaki, no Japão. É um festival da fertilidade pertencente ao Xintoísmo e, como seria de esperar, envolve uma grande estátua de um pênis. Durante o festival, as pessoas podem comprar doces, verduras e presentes em forma de… um pênis. O festival é muito popular entre as prostitutas que pensavam que suas participações contribuiam para evitar que as mesmas contraíssem doenças sexualmente transmissíveis (camisinha que é bom nada né?).

Thaipusam

Thaipusam é um festival hindu (celebrado em sua maioria pelos tamis), realizado em janeiro/fevereiro de cada ano para comemorar o nascimento de “Murugan” (filho dos deuses Shiva e Parvati). Os participantes raspam a cabeça e fazem uma peregrinação e no final, enfiam espetos extremamente afiados em seus lábios ou bochechas. Alguns dos praticamente (preferem?) colocar ganchos em suas costas, puxando objetos pesados. O objetivo é causar a maior dor possível, afinal, quanto mais você resistir, mais “bençãos” receberá dos deuses. O festival é popular na Índia, mas a maior celebração ocorre na Singapura e na Malásia, onde até um feriado é proclamado.

fonte (tradução Pace is the Essence)