contos

Argentos, Chicos e Letícias

argentos

Encanamento quebrado e um frigobar transformado em objeto científico, sem gás e recoberto de potentes fungos, capazes de provocarem um dos piores odores de que se tem notícia.

É nesse antro explosivo, repleto de manchas nos azulejos, marcas estranhas nos espelhos e de pinturas bipolares nas paredes, que eu tomo meu primeiro banho de porta aberta e me dou conta de que estou sozinho. Sozinho no velho espaço do último ciclo vital, ou naquele ambiente insólito que já chamei de casa.

Nem sei o que sentir, tem o vazio deixado pelos chicos e pelas marias, tem aquela cara de chegada de alguma viagem longa, dessas que a gente inventa por aí, de sair pedalando como o xará e o maestro, de levantar o dedo sob algum vento novo, de escalar morros ou simplesmente permanecer na própria cidade, zanzando e colocando as pestanas para propósitos verdadeiros, projetos intracontinentais, novas funções, criações momentâneas envolvendo uma meia dúzia de argentos, alguns instrumentos, uma bocada de empreendedores duvidosos, eventos multiculturais, muita paciência e ainda uma exposição reciclada sem capitães e em pleno setembro-chove.

Falando assim fica mais fácil, atropelo sentimentos tolos e caretas e deixo a palavra saudade acaçapada naquele dicionário da família Buarque de Holanda, distante dos outros idiomas que a desconhecem. Aproveito para agafanhar palavras desse livrinho roxo, e engranzar nessa história, cada detalhe e cada partícula de emoção, as boas e as ruins, que vivi nesses cinco locos meses ao lado dela e desses vagabundos callejeros – um bando de aproveitadores e inconsequentes, desses que insistem na utopia da liberdade galeana e para isso contam com a ajuda de algum bom coração, alguém que como eles, também se sente vivo e maldito por tentar ser artista na pior hora possível.

Atravessamos esse duro inverno curitibano, absortos em cortinas de fumaças variadas, transmutando as malas ondas e remando contra as correntes, mas espere, antes que eu siga nessa conjugação maioral e pluralizada, parte de algum discurso motivacional para uma plateia de adolescentes famintos por direções, antes que eu siga adiante na caminhada citada pelos seletores de freqüência; preciso respirar, acrescentar vírgulas, e esquecer um pouco esse papo de coletivo, de união e de não sei mais o quê.

Palavras ruidosas ou poéticas não irão me salvar e o consolo é saber que talvez tudo isso seja parte de alguma história maior, que será arquitetada nas próximas décadas em passos curtos, por gente cansada das ladainhas do passado e das promessas generosas, e que sabe ou sente que a pontuação é relativa, e que para chegarmos próximos de qualquer grande sonho é necessário começarmos por algum beco.

Com ela comecei, repetindo padrões impulsivos e provocando infindáveis discussões entre espelhos distorcidos e manipulados por premieres e photoshops, maquinetas capazes de transformar roteiros novelescos e fotos repetidas em algo supostamente fresco e palatável para a rotina caótica em que eu havia me metido.

No apê circular convivi com Letícia, seu gato Rodrigo, seu amigo colorido, suas janelas sem cortinas e seu banheiro sintonizado na rádio em tempo quase integral. No quarto, imagens de divindades orientais e cobertores sedutores me lembravam das contradições ambulantes e agora, enquanto escrevo e redesenho essas imagens, percebo pelas rimas naturais dos dígitos que ainda levarei algum tempo para compreender aquela nossa relação, as reiteradas faíscas, os desejos conjugais partidos ou os defeitos gritantes de ambos os lados.

Enquanto isso, do outro lado do centro, na rua que homenageia solenemente o clássico “Besame Mucho”, os argentos mais piolas seguiam suas metas diárias, de conseguir moedas e notas pequenas para encherem suas panças no restaurante sem quilo, saciarem os tédios noturnos no bar dos facitos e manterem o quilombo no apê emprestado.

O bolo crescia ligeiramente e logo o local, que já fora palco de peças melancólicas estreladas por artistas quarentões, famílias em tratamento hospitalar e mochileiros estrangeiros, agora recebia membros de uma orquestra de músicos de rua, mesclados com uma trupe londrina e com o garoto de ouro da rádio clandestina.

Agora, definitivamente sozinho, sem Letícia, sem Caldabranca (este se foi para Roma, ser bonvivant) e sem os hermanos, tomo um banho de porta aberta, enquanto tento entender o que foram esses cinco loucos meses. Certamente aquele apê carregará histórias para as próximas décadas e como diria o velho Waits sobre despedidas: “Well today is grey skies/Tomorrow is tears/You’ll have to wait til yesterday is here”.

E se o ontem não está por aqui, resta a esperança no amanhã e a calma no hoje.

Primavera, seja bem vinda.

contos, Dicas Musicais

Sobre os chicos e outros caras legais

guacamate“As pessoas estão carentes e deprimidas, em busca de algo sincero e autêntico ou simplesmente amor”, disse o gaúcho, corretor de seguros contra desastres dentários. Isso antes da chuva que acabou com o sonho latino de um inverno curitibano que por algumas horas cedera espaço para cinco argentinos alegrarem o domingo dos passantes da feira que já foi hippie, mas que agora é só mais um cartão postal da “cidade dos normais”. E  na canção do Escambau, o rompante pop-radiofônico sobre a falta de emoção na vida daquelas pessoas havia sido quebrado pela eminência da chuva, naquele momento em que o céu ficou preto e eu atendi aquela ligação no meio de uma gravação através da máquina do tempo menor do mundo. Justo naquele momento tão alegre e pueril, com um maluco vestido de mulher e interpretando um ser invertebrado, um baterista virtuoso e humilde, um baixista buena onda, uma clarinetista aprendendo as canções enquanto toca e ainda uma trompetista tímida por não querer molestar o saxofonista antigo que tocava do outro lado. E como se não bastasse, na plateia ainda tinha uma miniatura de um James Dean, acompanhado de sua namoradinha de no máximo sete anos de idade, porra, naquele momento tão pleno e ingênuo e quando o sol ainda se esforçava para seguir brilhando e iluminando esse povo todo, o telefone toca e preciso fugir.

“Você abandonou sua barraca, as senhoras estão putas contigo, tem uma fila de gente para comprar suas coisas”. Desligo o celular da Janis mais preocupado com a gravação ou o coito interrompido pelo toque e talvez aquela viagem no tempo tenha ficado apenas na memória, e desde quando o homem ou Deus decidiu que a felicidade ou a alegria teria um prazo de validade? Corro como um louco e quase que instantaneamente, na medida em que mais gotas caem do céu, meus passos aceleram e sinto naqueles corpos estranhos, cheios de sacolas e sombreros, a tensão provocada pelos pingos e pelos ventos fortes que segundo alguma moça bonita na TV, também deve vir da Argentina.

Mas algo mudou em mim naqueles segundos. Talvez eu estivesse cansado demais, cansado e mais sensível que uma garota de trinta anos em TPM ou como qualquer canção lenta do Roberto Carlos, pré 73. Já havia me emocionado pra caralho na noite anterior, quando vi de novo a banda callejera arrebentar naquele pub europeu cheio de gente rica bebendo whisky e champagne e fumando charutos grandes, bem no estilo daquele blues da prisão de Folsom. E se lá fora meus amigos se comportavam como jovens se comportam em bares de velhos, lá dentro eu me esforçava para não me sentir um jacu ou mais um rosto jovem estranho, vestindo roupas velhas e desbotadas e com botons duvidosos achando que entende alguma coisa de jazz e blues apenas por conseguir ficar calado por alguns minutos. Um bicho do mato e do Paraná, um forasteiro dentro da sua própria cidade, um Caldabranca ocupando um quarto de hotel em São Paulo enquanto luta para se manter invisível, um outsider visionário ou apenas um cachorro louco tentando “romper a barreira do tempo” num boteco típico dos beatniks de outrora; mas que no Brasil do século 21 é cenário pra gente bem sucedida gastar seus tostões e sentirem que estão em Londres, em Barcelona, Berlim ou em qualquer uma dessas partes escolhidas por brasileiros convencionais de uma classe média que há quinze anos se fodia para conseguir passar o fim de ano com a família que morava longe.

E talvez o que tenha me deixado ainda mais feliz nessa noite, além daquele jazz argentino cheio de malemolência e outras palavras da moda, e além daquela jam incrível dos chicos com aquele blues man e seu sapato de mil reais de couro de crocodilo comprado pela namorada, talvez o que tenha me deixado bem alegre e contente tenha acontecido depois dessas paradas todas.

João, o fotográfo de meia idade e cheio de ódio contra hipermercados e seus estacionamentos infinitos, João, o colecionador de vinis dos anos 80, quando seu cabelo ainda era preto e deveria pesar uns dez quilos a menos, João, esse nome que, porra, é o mesmo do meu pai que não vejo há décadas e que agora descubro que seu celular está desligado. João, o outro, o novo brother dos tragos e dos largos, João, me chama e me pergunta: “Hey, você já viu o que tem aqui fora, naquela caçamba de entulhos e lixos?” Me aproximo e João começa a me mostrar mapas de Paris antes de 1900, muito antes de aquela torre famosinha existir, e com certeza muito antes de qualquer brasileiro sonhar  ir para Europa, isso, é claro, se a pessoa não fosse um Villa-Lobos ou algum outro gênio apadrinhado pela nobreza. Logo os chicos buena onda se acercam do garimpo e ainda encontram um escorredor de pratos em perfeito estado, algo ainda inexistente naquele quilombo que eles se acostumaram a chamar de casa.

No dia seguinte, chego à casa de Letícia, a casa que aos poucos se transforma na minha também e lhe mostro um dos mapas que, pela idade e pela decadência natural do tempo agregadora de valor e estética, poderia muito bem ser a peça ideal para decorarmos nossa adega de vinhos promocionais que, por enquanto, segue existindo apenas nas nossas cabeças. Sim, porque existe a cabeça da mulher e a cabeça do homem e existe uma outra, ainda mais misteriosa e poderosa, que é a cabeça do casal, da entidade, que aos trancos começa a se constituir. Poderia seguir falando sobre cabeças, grandes ou pequenas, de um bando ou apenas de alguém bem especial que me ajudou a ser quem eu sou hoje e que agora descansa em uma cama ao lado de senhoras do bem. Poderia seguir falando de todas essas cabeças, mas vou preferir seguir lembrando esses dois instantes mágicos provocados por uma banda de jazz ou uma verdadeira locomotiva do amor, e por João “das Couves”, um cara conectado com a natureza e com cada coisa ao seu redor.

E como diria um tal “urbenauta”, viajar na sua própria cidade é mesmo muito legal.

contos, Dicas Musicais

Incêndio na Festa Proibida

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Burburinhos e pseudoameaças suicidas instauraram um clima de caos e tensão nas horas que antecederam a primeira grande festa do DCE – o centro acadêmico da UFPR, responsável por abandonar o prédio e deixá-lo infestado de junkies e nóias. Portanto a festa não seria propriamente do DCE, mas dos coletivos que ali coabitam: a rádio gralha com o incessante debate sobre mídia livre, o El Quinto com suas oficinas gratuitas de arte, fotografia e malabares, e o ANTIFA, um grupo antifascismo com sua resistência ao sistema vigente, que oprime e segrega e que não faz nada para mudar esse panorama.

Após todas as correrias que envolvem uma festa como essa, as peças começaram a se encaixar quando cinco argentinos chegaram ao terceiro andar e montaram seus instrumentos. Munidos da buena onda e de sentimentos de estarem viajando o continente, tocando para o povo na rua e onde mais eles sejam requisitados, esses quatro caras e essa linda garota chamada Fiamma, incendiaram o palco improvisado, e desta vez o “incêndio criminoso” saía de suas incríveis melodias, improvisos jazzísticos e de uma cozinha coesa cheia de swing.

Quem estava ali mal podia crer no que acontecia diante de seus olhos, vermelhos e de brilho intenso, ou ainda debaixo de seus narizes, esbranquiçados e furados.  O prédio já havia abraçado centenas de bandas, normalmente de rock, rap e punk, mas talvez nunca uma banda de jazz argentina daquele calibre. A cada acorde, a cada soprada oriunda do trompete de Fiamma ou do sax de Pipi, o povo se extasiava, balançando os quadris para todos os lados.

Mélange de Culture, o nome do quinteto, poderia também ser considerado o melhor antidepressivo que há no mercado. A cada apresentação, eles seguem injetando doses cavalares de alegria e serotonina para jovens de até 90 anos de idade.

E nesse último sábado, não foi diferente. Em minutos, a sala ficou pequena, transformando-se em um poderoso caldeirão cultural, uma mistura de ritmos calcados no jazz e no improviso, um mélange que faria os beatniks se sentirem orgulhosos.

Curioso foi o desfecho do show, quando os músicos saíram do prédio e Fiamma foi abordada por um ogro sexual com uma mão cheia de más intenções. Com uma resposta instantânea, Fiamma  deu um tapa forte em sua cara de pau, o que fez com que esse ser desprovido de coração a empurrasse. Revoltado, Pipi revidou com um soco estilo Rocky Balboa.

Triste é ver essas coisas acontecerem justamente no prédio onde o debate acerca das minorias e dos tantos ismos se faz mais presente.

Ainda a caminho de casa, Fiamma, Mariano, Pipi e Gastón (o contrabaixista genial) se deparam com outra cena grotesca: um cara com um cordão no pescoço amarrado a um poste, enquanto uma garota, talvez sua ex-namorada, o xingava e pedia ajuda. Pipi decidiu cortar o cordão, provocando a ira do suicida que partiu pra cima dele, em mais uma confusão bisonha. Mariano, o baterista sex symbol da banda, disse que nunca havia visto Pipi brigar. Nesse dia, Pipi precisou acessar seus instintos selvagens em dois momentos distintos, separados por alguns minutos.

Seguramente ser uma banda nômade não é para qualquer um. Não basta ter talento ou um bom repertório, “é preciso força, é preciso ter raça… É preciso ter gana sempre”. Mélange de Culture parece pertencer a esse grupo de artistas da estrada que não deixam a peteca cair, ainda que o mundo e essa realidade distorcida, cheia de caos e miséria a puxem para baixo.

arte, pseudojornalismo

Exposição “Sangue Sulamericano” por Igor Moura, no Museu Guido Viaro

cartaz 31x44cm_igormoura_web“Na exposição “Sangue Sulamericano” o artista multimídia Igor Moura, especializado em arte digital, troca a tela do computador por tinta e luminosidade do sol. Autodidata, sua pintura não se enquadra nos moldes acadêmicos, nem nas tendências da arte contemporânea, mas dialoga com a arte de rua, de traços fortes, pinceladas espontâneas e cores vivas. A série de pinturas inéditas demonstra que a experiência na América do Sul foi mais do que um passeio turístico. O encontro comnossos irmãos latinos foi um encontro de almas. A sensibilidade do artista funciona como uma espécie de teia que apanha cada partícula trazida no ar dos lugares que visitou. Sua mente imaginativa consegue captar as mais leves sugestões: um objeto simples, um jeito de sentar, a expressão do rosto, um sentimento, um silêncio. As cenas de rua filtradas pelo seu olhar humanista revelam-se generosamente em cores. A vida se mistura em sangue e tinta: “O inferno não são os outros. Os outros são o paraíso. A humanidade começa no outro”. Deus salve a América do Sul na arte de Igor Moura.”

Antonio Cava – Curador

contos

Cinco Estrelas (Fuckin´A)

5estrelasCondições climáticas e forças ocultas me fizeram permanecer ou retornar a Buenos Aires pela segunda vez em três dias. Desta vez eu, meu amigo e um grupo de afortunados seríamos hospedados no hotel Plaza, no coração da capital argentina, por uma noite. Mas hey, estamos falando de uma suíte em um hotel cinco estrelas, com todas as despesas pagas pela empresa aérea uruguaia que parece estar mais acostumada com navios de luxo e rios de prata. Estamos falando do mais perto que poderei chegar de Jim Morrison em seus últimos dias em Paris. Estamos falando de uma banheira, do “dude” fumando uma ponta com uma pinça, enquanto escuta os sons da baleia numa fita cassete.

Justo quando eu e meu amigo Johnny estávamos dizendo adeus para uma das melhores viagens de nossas vidas, o avião não decolou para o destino programado e acabamos sendo premiados com mais um capítulo dessa pequena saga de 21 dias percorrendo terras frias em países vizinhos.

Do aeroporto fomos conduzidos por um translado até esse imponente hotel, de mais de 100 anos de história e lá ficamos das oito da noite até às nove da manhã do dia seguinte. Não sei dizer se todo o grupo, de umas 15 pessoas, permaneceu no hotel em tempo integral, porém eu até estava pensando em sair com Johnny e Lúcia – ex-namorada de Johnny e que, por casualidade havia se reencontrado com meu amigo no aeroporto de Montevidéu. Uma saída que preferi evitar, já que eu estava mesmo a fim de aproveitar os encantos da suíte 5 estrelas.

Lúcia havia passado uns dias em Buenos Aires, após uma breve temporada esquiando em Bariloche e agora, novamente em terras porteñas, havia nos dito que estava louca para conhecer os “boliches” da cidade. Johnny, o gatilho mais rápido do oeste (e aparentemente do sul do continente também), Johnny, oportuno e insistente como sempre, acompanharia Lúcia até os prazeres porteños regados a fernet, cola e não sei mais o quê.

E apesar da insistência de mantermos nosso plano de “chegar/tomar banho/comer/dormir até às duas da manhã/acordar e ir pra balada”, apesar dos argumentos do matemático Johnny, achei por bem seguir os conselhos angelicais que fazem qualquer pessoa optar por ficar em casa ao invés de sair e correr os perigos da cidade grande, relembrados semanalmente por minha querida mãe, e quando ainda nem tinha idade para beber.

Nesse caso, minha “casa” seria uma suíte em um hotel 5 estrelas ao lado da Plaza San Martin, bem no centro de Buenos Aires.

No jantar, pude escolher uma entrada, um prato principal, uma bebida, uma sobremesa e ainda um café para ajudar na digestão. Na nossa mesa, além de Johnny e Lúcia, estavam duas primas curitibanas e entre saladas multicoloridas, salmões rechonchudos, vinhos e pães frescos, ainda tive a oportunidade de conhecer um senhor bacana que havia morado alguns anos no Equador (“O Plaza está para Buenos Aires como o Saint Regis está para Nova Iorque”, ele repetia), além de um equatoriano, funcionário da Eletrolux e que há 10 meses estava morando em Curitiba – os dois também estavam tentando regressar para a capital ecológica, tecnológica, do sorriso e mais alguns outros nomes idiotas que os marqueteiros costumam dar.

Após o farto jantar, comi uma espécie de cupcake de chocolate com uma generosa cobertura do melhor doce de leite do mundo e tomei um café com Aderbal e Juan, o senhor e o rapaz que acabara de mencionar, enquanto lembrávamos histórias vividas no norte sul-americano.

Meia-noite e me despeço dos meus novos amigos e de Johnny e Lúcia, um casal ainda com um futuro indefinido, pelo menos para essa noite.

Entro no quarto, fumo um cigarro tomando cuidado para não disparar o alarme de incêndio, tiro a roupa, boto um som no mp3 de longa data e acabo encontrando no bolso do casaco restos de um outro fumo, permitido em terras uruguaias.

Decido encarnar meu personagem favorito, o já citado “dude”, e me dirijo para a banheira e, com o som do lado, acendo meu micro-cigarro, gozando o que de melhor essa vida pode me oferecer, no caso, uma banheira com água quente em um quarto 5 estrelas na charmosa Buenos Aires, a Paris latino-americana (sim eu sei, essas comparações também são sempre idiotas).

Brinco com meu corpo olhando os movimentos e os ecos da água, respiro fundo, olho pro lado e, de repente, me dou conta de onde estou, quem talvez eu seja e pra onde devo ir naquele instante. Abro o ralo, crio um ciclone no oceano e espero meu corpo esfriar. Ligo o chuveiro no “quente-pra-caralho” e chego perto de estar em uma sauna. Saio, me enxugo com a maior toalha de todos os tempos e deito em uma cama com dezenas de travesseiros e cobertores, uma cama que me abraça e me conforta e me diz “não se preocupe, hoje você é um rei”.

Ainda sim, mesmo depois de todos esses mimos, desfrutes e deleites sem fim, confesso que não tive o sono que desejava, já que vésperas de viagens são sempre carregadas de ansiedade e incertezas, detalhes constantes, conflitantes e confusos, que me fazem ter pesadelos e um sono leve, em estado de alerta.

De qualquer maneira, o hotel 5 estrelas, o primeiro da América Latina, com mais de 100 anos de história, com hóspedes do porte de Pavarotti, esse hotel que nos tratou tão bem, com certeza não pode ter nada a ver com isso.

E como diria Johnny, as quatro melhores coisas para se fazer na vida são comer e viajar. Venho tentando fazer as quatro.

pseudojornalismo

Salvem os Maconheiros!

Me chamem de maconheiro ou o que quiserem, mas senti a necessidade de falar abertamente sobre esse tema aqui, nesse humilde blog. Cansei de ouvir argumentos toscos ou gente que nunca estudou a respeito dando opiniões assim, como quem dá esmola pra algum mendigo, sem pensar, num piloto automático que prefere a montanha ao invés da pista de pouso.

Não pretendo fazer qualquer tipo de manifesto barato: pró-maconha, pró-chapadões, pró-loucura. Apenas esclarecer alguns pontos àqueles ignorantes no assunto ou ainda jovens demais para terem parado pra pensar em todos os desdobramentos que uma lei a favor da legalização da maconha, possa acarretar.

Estive na Argentina em duas ocasiões neste ano, e pude perceber a enorme diferença de tratamento sobre o tema, com relação ao nosso país – o mesmo país que se orgulha das suas políticas sociais, mas parece não querer avançar muito em assuntos polêmicos, como as drogas ou o homossexualismo. Nossos hermanos já conseguiram legalizar a droga (ou a maconha, como ela também é chamada) para consumo próprio, assim como para plantio próprio. Continua proibido a venda ou a compra da erva, salvo em casos médicos. Lá também há uma lei de descriminalização da maconha, o que facilita seu consumo em ambientes públicos, certos bares ou mesmo nas ruas.  Lá há até uma revista para usuários, com dicas de cultivo, além de anúncios de lojas para a compra das melhores sementes.

Ok, isso tudo pode assustar um pouco algum conservador de plantão, alguém preocupado com o que os outros fazem ou deixam de fazer. Se quiser eu poderia dar alguns argumentos, idéias de pessoas sérias (sim, quem fuma maconha também pode ser sério) responsáveis por marchas e passeatas mundo afora. Mas para poupar linhas de texto que para alguns possam ser desnecessárias (caso contrário, sugiro esse breve texto nesse site aqui, ou ainda esse vídeo sobre os mitos da maconha), prefiro admitir que sim, muita gente que é a favor da legalização da maconha, o é simplesmente pelo fato de caso isso acontecesse, seria muito mais fácil consumir a “droga”, além de diminuir as chances de um produto de procedência suspeita, algo como comprar gato por lebre.

Agora me digam, qual é o problema nisso? Você fuma o seu cigarro e tem a total liberdade de comprar quantos maços quiser em qualquer mercado que exista por aí. Você gosta daquela cerveja gelada na hora do jogo e por isso gasta parte do seu salário nisso. Agora o cara que quer “fumar um” precisa se esconder, subir morro, correr risco de ser preso, ser ridicularizado pela sociedade, tudo pra ter o mesmo momento de prazer que você tem toda a vez que você fuma ou bebe?

Ah, é verdade, a maconha é totalmente diferente, você diria. É só ver as propagandas por aí, não é? Se você fumar, você pode se tornar um viciado em crack. Se você fumar, você ficará louco e saltará pela janela da sua sala. Se você fumar, você vai morrer. É assim que o assunto é tratado, há mais de 50 anos. Continue acreditando nessas histórias e em tudo que a TV fala pra você, afinal, ela está aí pra te educar.

É uma pena que muitos políticos que poderiam provocar uma mudança na lei são os mesmos envolvidos com o tráfico e por isso, interessados na sua lucratividade. Bandidos preferem ajudar bandidos e assim, quem sofre são justamente eles, os inofensivos “maconheiros”.