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Antonina, Menina dos Olhos Rojos

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Cinco carros populares, trinta e um humanos com tendências artísticas duvidosas, um sítio lunático no meio do caminho, uma kombi girante chamada “O Espirro de Gil”, instrumentos, equipos e tintas nas botas do irmão maluquinho com um sério problema em suas bolas. Físicas. Metafísicas? Caldabranca, por quê você não foi mesmo? Tá ficando loki bicho? Tá com medinho do banheiro unisex com falta de água, feito pra suprir as necessidades trágicas de trinta e um planetas conflitantes, mas que por algum motivo desconhecido possuem o elo da existência, essa coisinha brega que os bobos e loucos continuam berrando por aí: em cada solinho de guitarra com direito a dança africana, em cada sorriso no verso maroto, em cada cara de dor aparente, mas que sabemos ser feeling, em cada groove do sopro invisível da teoria dos baixistas machistas, em cada fuçada na mesa de sonidos raros, em cada roubada de olhada da grande parceira da life e com sobrenome de salgado, em cada bamboleada, em cada brincadeira com fogo e com sons transcendentais produzidos por instrumentos aborígenes, em cada backing vocal forçadamente espontâneo, em cada sumida repentina, em cada clicada com o botão direito do mago tecnológico invisível e criador de palcos universais, em cada tragada do vapor barato que dá barato, em cada trocada de letra do amigo indie rebelde xamânico com fobias alimentares, em cada gole da cerveja roots de gengibre preparada pelo gamer, ou ainda em cada surtada da trupe rio platense sobre a vagabundagem aparente dos hermanos estelares. Essa sensação pueril e febril me faz lembrar do chocolate nosso de cada dia, e de todas as outras cosas que pedimos para os outros queridos vampiros com xis. Lembrar de cada massa esticada pelo Heinsenberg da cozinha matriarcal anti-ianque e que de repente, vira o Mister Magoo das sinuosas estradas graciosas que ligam o mangue à montanha das fantasias. Verdadeiras elipses atemporais, escuros espirais de uma serra lynchiana, parte fundamental de um mapa safado e perfumado pelos recuerdos de alguma infância com chapéu. O mesmo chapéu marinheiro do comandante flutuante que passa a bola pro próximo balão inflável da vez, seja uma miss coca-cola do Grandpa Staples ou seja para o conde pseudo xeique com sotaque da porra e a malícia de Alícia e outras rimas fáceis, típicas de seu personagem big brother.

Festival de blues? Prometo chegar nessa dimensão paralela há poucos quilômetros de casa, entretanto são tantos personagens memoráveis, digníssimos e maravilhosos filhos da puta de alguma natureza esquecida pelos livros lidos por avós e bisavós, e que por algum trem doido da mente abismal chegaram até esses peculiares seres de extrema periculosidade vital. Reluzentes personagens desbotados capazes de transitar entre o céu e as profundezas alienígenas de qualquer oceano que termine com a sílaba CO. Sim! Temos o CO2 biológico dos casais incestuosos, e temos a palavra que começa com CO, a palavra da nova ordem sociedade grâ-kavernista do clube agrofloresta nerd illuminati em curso preparatório pré apocalipse zumbi, a palavra era outra, mas nesse momento de poucas vírgulas não poderia deixar de citar o irmão zumbador com lindos e subversivos cacoetes, e seu filho-pai topa-tudo-por-amor, o grande Erasmo com cara de Paulo Miklos. Erasmo, cuidado com a Masmorra! Entretanto a palavra com CO jamais poderá ser esquecida ou deixada de lado ou pelo acaso como a bola de feno símbolo do destino e do melhor filme do mundo, afinal se tem uma palavra da nova moda social com potencial linguístico para nos salvar desse caos político existencial interplanetário, ela deve começar com duas letras, o Cê e o Ó, para instaurarmos eternamente esse chip do espelho preto além da imaginação, antes que seja tarde demais e sejamos possuídos pelo mal da outra era terrestre, em que outra palavra que também começava com CO, foi usada e abusada em nome de um sistema em COlapso. Essa história sobre mais um grupinho mimado e inspirado por sonhos megalomaníacos retrôs, é pra me fazer lembrar dessa palavra utilizada até pelos cientistas vanguardistas dos elevadores de 13 pisos. Ah número 13, me dê uma trégua pra falar da palavra amiga, da palavra doce da bruxa norueguesa, da palavra COcô da COmpanheira COmediante, da palavra que você aí já deve estar implorando para ser pronunciada, ou talvez já tenha até olvidado.  

São tantas dicas tropicalientes e não quero que a essência se transforme em mais uma piada de boteco, daquelas das tias e tios e que na cidade fantasma ninguém mais sabe, e tampouco quero que esse texto se transforme em outro lamento com fundamento repetido. Tudo que eu quero é citar Caetano de novo, esse mesmo ser que já ignorou os malditos benditos de agora e depois pediu desculpas e ficou tudo bem. Tudo o que quero é uma palavra perfeita maior, com todo mundo podendo brilhar num cââââântico quântico de proporções universais: os pequenos e os grandes, os baixos e os altos, os burrinhos e os espertinhos, os gordos gigantescos e os magros magérrimos, os lindos e os grotescos, as fadas e os bruxos, os pais e filhos da revistinha oitentista, os puros e os safados, os bons, os maldosos e os feios, e todos os filmes de bang-bang com profundos ensinamentos espirituais, ainda que alguns de seus fãs sejam mais céticos que a música celta comercial que permeia certos bares caretas carentes de moedas sinceras. CO, CO, COco Rosie do clipe fantástico, COco Channel da lista machista dos cem maiores nomes de uma história mal contada por gente do mal, CO,… OPA! Na real são três letras exatamente como na palavra OPA, a marca de cerveja carinha da terra fascista das casas fofas, COOOOOO, espere, sinto um eco de humberto, um ECO que ecoa, um eco que parece apontar a altura e a direção dessa palavra perfeita, que nos salvará dos bichos papões, dos dealers com verrugas exponenciais, dos juros bancários e das mamães aflitas, dos xerifes enxeridos, dos pornográficos XXX das pesquisas do GOOOOOgle, hey, até esse povo artificialmente escolhido já brincou com esse eco que tento explicar. O eco escudo do ego inimigo chamado… Cooperação!

Abandonemos os ismos de mais de vinte séculos de guerras conhecidas, e rumemos para adelante, sem nomes e sin nombres, sem barreiras e naquela pira feliz do mussUM. Talvez nossas costas sejam feitas para coçar, massageá-las de levinho ou lambê-las ocasionalmente, porém evitemos arranhá-las ou rasgá-las, a não ser que essa seja a pira do casal sado influenciado pelo marquês residente no universo interno de cada um.

COO, veja como nem mesmo essa palavra existiria sozinha, aunque tenha a letra solitária Cê, agora em caixa alta para agradar o amigo enxaqueca e que também COabita esse mesmo universo interno que tento explicar, ainda que eu insista nesse joguinho do C e dos idiomas, a palavra cooperação precisa desse diálogo rain man entre o Ó e o outro Ó.

Cooperar, colaborar, coexistir, enxergar para além do umbigo feio com ou sem aquele bizarro pedaço do cordão da mãe de todos, esse UMbigo, esse UM que sozinho nos mostra apenas um caminho e mais nada. Esse UM que perde o amigo, mas não perde a piada, esse UM pomposo que vive em busca do próximo gozo, esse Um que inicia bilhões de histórias e canções sobre o dia de qualquer pessoa, esse um que vai ficando pequenininho e sem aspas, quando comparado à imensidão de todas as galáxias possíveis, esse “um” que poderia transmutar em “OM” como no novo poema do reptiliano Rodô, e assim nos aproximarmos dessa natureza maior, desse desencanto branco do canto maia, desses deuses astronautas, dessas cordas multidimensionais, desses salvadores profetas orientais ou de olhos azuis para os olhos ocidentais, e de outras ficções bem escritas, mas que nós, humanos limitados, utilizamos para controlar, manipular e camuflar o verdadeiro sentido de uma palavra perfeita como essa do começo do parágrafo. O umbiguinho faz biquinho e parece ter a resposta pra esses caras sedentos por poder. Poder, poder, poder, para poder crescer. Cale-se please.

Apertem os cintos, o piloto sumiu! A criança que brincava disso com o irmão sueco no chevette do papai “largou os bets” e decidiu assumir pela primeira vez seu bairrismo, mesmo tendo acabado de pisar nos ismos achatados e que só mostram uma camada da cebola odiada por Fernando e a Vespa. Letícia também disse que ela não quer só um boy ou um toy, mas um man, um Hombre como o nome da jovem banda de Campinas e do gato monge leitor de camadas invisíveis dessa mesma cebola do jogo criado pra crianças na faculdade de design e dos personagens fakes de Caldabranca.

Precisamos respirar, respirar pra pirarmos de novo, afinal “a pira continua” não é mesmo? Essa criancinha aqui quer terminar mais uma história cheia de parênteses e sobre parentes e patentes, ou a falta dessas patentes do sítio de Marte, refúgio de loucos inconstantes que “roubaram o sol” e fugiram para suas próprias viagens com a ajuda de substâncias naturais ou tão artificiais como as cores daqueles papéis de mentirinha.

“Disseram pra gente que estávamos em crise e que os clientes iriam diminuir pra caralho e foi nessa bad trip que decidimos assistir ao triste fim da quaresma tomando uma bera gelada entre amigos ao som do bom e velho blues.” Viemos em missão de paz e para ajudá-los. Trouxemos gravuras, brechós, instrumentos e equipamentos suficientes para armarmos o circo em qualquer canto que seja conveniente: autênticos botecos com gente de verdade, prostíbulos invisíveis, carrinhos de perros calientes e essencialmente na rua, pois é lá que o povo está! O blues não pode parar e os corações despedaçados precisam de remendos imediatos. We Are The World. You Are One Of Us. Freaks, prazer, somos vocês! SELL yourSELF for some better days. Let the GOOD times ROLL. Bluesman, qual é o tom? Waits, Zé, ou Jobim? John Lenin está te chamando!

Somos todos UM, somos todos o grande e eterno OM e JUNTOS, cooperando, seguiremos coexistindo. Internamente você é tão bonitin. Deixa de frescura e vem pra festa, mais que merecida!

Pra curar, basta existir.

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A Empatia de Mettagozo

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A roda girante segue girando e dando voltas e mais voltas, em movimentos poliformes e repetições infinitas, histórias e personagens que se repetem, uns mais legais, outros mais chatos, tais como essas palavras medíocres que saem da cabeça enfervecida pelos ecos que emanam caos e decepção, influenciada por alguma fumaça típica da madrugada. Pequenos desvios de septo, de alguma memória guardada naquela gaveta antiga sem chave. Agora entendo que “fantasmas” você estava falando, Leonard ou essas “memórias que te torturam”, Willie. É preciso ressignificar eu disse no insta, errando no português. É preciso deixar as ondas, boas ou ruins, ressonarem nesse tronco profundo chamado alma. A explosão de ter conhecido o velho Mettagozo foi grande demais e só poderia agradecer a qualquer pachamama que você queira acreditar, por mais um dia maravilhoso, desses para recordar pelos próximos cinquenta anos, na companhia de sorridentes extraterrestres em alguma mesa de poker holográfica.

E se esse papo soa estranho demais, o anti-comandante pede gentilmente para você permanecer na terra segura e livre das maldades e dos milagres de um mar desconhecido, um oceano de possibilidades, desafios e aprendizados. “A história que revelarei agora” aconteceu aqui mesmo, em Curitiba. A mesma “curitiba doida” em caixa baixa como aprendi com você, meu velho amigo Paquito.

2016 “foi um ano ruim”. Estive na fossa composta por jacas de todos os tamanhos, me sucumbi ao diabo e suas boletas que controlam nosso humor e deixam as curvas da vida menos sinuosas; porém um sábio birmanês me trouxe de volta para a realidade maior, a natureza que independe da sua ou da minha opinião, apenas existe, profunda e mais esperta que todos os computadores desse universo, ainda que essas máquinas fossem controladas por bilhões de Hawkings. E foi nesse ano que o amigo enxaqueca encontrou no lixão uma gravura do gênio Mettagozo, em alguma caçamba por aí. Colocamos a obra de arte na sala de casa, e por lá permaneceu por vários meses, decorando um espaço subversivo e pseudo anti-sistema, onde loucos de todas as origens e idades se encontravam, comiam, bebiam, conversavam, riam, transavam e dormiam. Teve gente querendo colorir a obra e sinto que o autor não se importaria tanto caso isso de fato acontecesse, afinal o que está aí é para ser transformado e o artista que não gosta de ver seu trabalho modificado não percebe que toda a vez que repete essa postura ele está se colocando como maior ou mais importante que o pixador ou talvez o próximo Banksy. Ele ou sua obra, não importa. Obrigado meu novo amigo Rodô por não me fazer sentir tão sozinho nessa também. Essa natureza maior que tento explicar jamais entenderia essa mente mentirosa que diz que uma coisa é boa ou não, exatamente como estou fazendo agora.

Explicar o inexplicável cansa, ainda que outro sábio popular siga afirmando que “navegar é preciso”. Sentir é preciso. Viver é preciso e a palavra improviso não deveria existir no dicionário. Jamais algo terá mais precisão ou necessidade que o sentir. Papos intelectualóides necessitam de interrupções, seja de um Mettagozo inventando canções em um ukelele desafinado e com a voz toda fodida, ou de um jovem artista de rua mostrando alguma nova dimensão para uma plateia deslumbrada com a ilusão do poder chamado microfone anos-luz de gente que acha que a relatividade é a grande responsável pela merda do mundo, ou que quando alguém diz que é escritor, você deve questioná-lo: “Que faixa você é, preta, azul ou branca?

Palavras e imagens deveriam ajudar, mas se “a liberdade está logo na esquina”, o que vai adiantar isso se “a verdade está tão distante de si”, diria o coringa de Bob. Repetirei quantas vezes precisar, a verdade está no sentir. O irmão está logo na sua frente, como disse certa vez o motorista carioca, acalmando os impacientes passageiros de um busão rumo ao carnaval dos milhões e das milhares de almas que conseguem sentir o verdadeiro espírito de qualquer festa popular. O mal ou o guru também pode estar em qualquer esquina. Converse com mais mendigos sem os medos do passado e você começará a entender o que tento dizer. E é sempre mais fácil ignorar a sabedoria alheia quando nos apegamos a opiniões cruzadas, lapsos de ira que só fazem o mestre retornar a posição de aprendiz, pela milésima vez. Quando as interpretações errôneas deixarem de existir e as lições acabarem, “mate-me por favor”.

O parceiro de caminhada Mettagozo parece tirar isso de letra, ou como costumo fazer por aqui, tirando ensinamentos espirituais ou “lições de moral” em letras de canções esquecidas. “Quando me espancaram na ditadura e arrancaram meus dentes, sabe o que eu fiz? Sorri, pois sabia que nada daquilo era real.” Homens e muitas mulheres adoram jogar pedras e colocar na fogueira os vagabundos iluminados que lhes mostram outro ponto de vista que não seja baseado em “tíorias”, apenas em percepções sensitivas dessa natureza infinita. Darwin deu apenas o primeiro e sempre gigantesco passo, a competitividade utilizada para justificar as atrocidades do capitalismo já não faz mais sentido e é preciso compreender que somos seres cooperativos. Isso se ainda quisermos nos salvar desse suposto fim anunciado exaustivamente por todos os poros.

Ah Mettagozo…que história eu estava tentando contar mesmo? Sobre o “menino infeliz que não se ilumina”? Quem sabe quando tivermos cajuína em curitiba as pessoas se iluminem mais. Fernando vem dessas bandas, onde o líquido sagrado se faz presente e onde ele tinha uma banda sequestradora de céus, que agora está sendo resgatada em ritmo homeopático. Nesse processo, seu coração vem sofrendo operações pontuais e com a ajuda de seres invisíveis, frequentadores dos rituais tribais de outrora. Porém antes de seguir mais esse causo tenho que retornar ao personagem principal: a gravura encontrada no lixo urbano desse artista bendito de sobrenome e idade sexual.

Havia uma casa charmosinha, sede de eventos culturais e produtos artesanais com valores duvidosos, ainda que essa equação “arte x preço” seja tão abstrata quanto “a vida em seus métodos”. Nessa casa, com flores em todos os cantos, rolava uma reunião de artistas, uns mais conhecidos, outros menos. Mettagozo estava lá, com seus desenhos, seus “poeminhas” e principalmente seu espírito livre. Carla Brasa também estava lá, com sua beleza e suas opiniões. A conversa por vezes travada seguiu até um ponto, um ponto bem próximo do final, em que o interlocutor decidiu abrir o microfone para o público. My friend Fernando levantou a mão e nesse instante percebi que deveria fazer um esforço mínimo para conseguir o tal microfone dourado. Passei o cabo por volta de uma planta bacana e quando cheguei perto de Fer, senti o balanço do barco, mas felizmente ele aceitou a ideia de sair do anonimato.

“Heyyyy…você! Como é o seu nome mesmo?” Enquanto risos amarelos ressonavam no ambiente esterilizado, eu lhe disse baixinho “Mettagozo, mas a galera chama ele de Metta”. “O quê???”, ele titubeou. Fortaleza, eu te amo cada vez mais. Fernando, o cidadão instigado da vez fez a pergunta que não poderia deixar de ser feita. “Estive na ocupação do Iphan no Rio e percebi que havia uma separação nítida entre a classe artística, entre aqueles detentores do poder obtido pelos velhos editais e aqueles marginalizados, os artistas de rua que passam o chapéu e sofrem diariamente a repressão de uma polícia alinhada com os interesses elitistas de sempre. O que acham disso?” O poeta genioso divagou e não respondeu. Brasa sacou a inquietude do cabeludo com pinta de artista e tentou: “tem aquele artista que consegue um edital menor e paga 150 reais para um cara montar seu palco e depois fica grande e pomposo e continua pagando os mesmos 150 golpes.” E pior, seu discurso de classe segue intocável. Go figure.

Fernando, segurando o gibi do super-homem que fiz ele segurar para tirar uma foto dessa grama de instante real concluiu: “O que vocês acham de fazer um próximo encontro somente com artistas de rua?”. O barbudo interlocutor disse que seria um prazer, mas será que ele estava querendo impor condições? “Ao colocarmos condições, o amor evapora”, cantaria Kevin. É essa esperança Fer que eu e Kevin continuamos tendo, ainda que estejamos num “ciclo putrificado cheio de um sebo pastoso e repugnante, onde lambemos uns aos outros num gesto desprezível que chamamos falsamente de ‘empatia’.”

Mas o universo e essa empatia aí parecia estar do lado dos marginais e foi no final dos finais que Letícia sorteou uma gravura do Metta, ironicamente a MESMA que decorou a sala de casa, numa reciclagem pós-tropicalista de araque..e quem ganhou a versão que seria posteriormente autografada? Super-Fernando!!!

 

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Arte de Rua Não é Crime

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Sábado de sol, mas dessa vez não aluguei um caminhão e muito menos comprei feijão. E se tinha maconha, quase não vi. Vi outras coisas bem legais e essas palavras tentarão explicar um pouco o que foi o dia de anteontem. Pela segunda vez, vi diversos artistas de rua unidos para uma causa nem nobre, nem pobre, apenas necessária em tempos estranhos. Tempos em que o ódio e a ganância são exalados por todos os poros, tempos de guerra como sempre e tempos em que a polícia militar precisa de nove carros e trinta homens fortemente armados preparados para prender o pior bandido da história dessa cidade cada vez mais cinza. No caso esse bandido se chama Música de Rua, e quem sabe mais uma meia dúzia de inofensivos maconheiros.

Sim, os músicos de rua tem sofrido uma repressão desmedida apenas por estarem tocando na rua, como sempre fizeram. E não estou falando de mega shows pirotécnicos e clandestinos, em algum bairro residencial e em plena madrugada. Esses músicos têm sido abordados somente por estarem tocando um jazz-fusion-groove, ou seja lá como queira chamar, em pleno centro de Curitiba, às oito horas da noite de uma sexta-feira. Uma pequena multidão parou para vê-los e também contribuir para que continuem fazendo isso, colaborando com algum trocado.

E sábado foi novamente um dia de protesto, um protesto artístico sem cartazes de ódio, sem a presença de maçons engravatados pedindo impeachment, nem panelas, nem camisas de futebol, nem megafones ou carros de som insuportavelmente chatos. Apenas música! Bem, talvez o principal fosse a música devido às últimas histórias bizarras envolvendo esses caras, mas também teve outras formas de arte, teve um palhaço de rua venezuelano andando em um monociclo de proporções girafais, teve dança de carimbó,  teve poesia e teatro misturada com música, e teve uma porção de fotógrafos e videomakers registrando tudin.

Pararam famílias, trabalhadores em dia de descanso, desempregados, lojistas, estudantes, turistas, outros artistas e mais um ou dois bêbados típicos de qualquer rua de cidade grande. Houveram outros transeuntes que não chegaram a parar, mas mexeram seus corpinhos em sinal de aprovação, ou como se estivessem alimentando brevemente suas almas carentes. Afinal, as ondas sonoras também cumprem esse papel.  

No fim do dia a sensação era de paz e de dever cumprido, ao menos pelos organizadores. E que venham novos atos de conscientização como esses últimos, cheios de amor e arte: dois lances que costumam andar lado a lado, se fundindo na maior parte do tempo e fazendo a gente perceber que a verdadeira transformação será sempre de dentro pra fora, ou seja, discursos inflamados e piquetes jamais serão suficientes, especialmente quando o espírito está fraco ou contaminado pelo ego que obstrui, aleija e faz a gente esquecer que o verdadeiro irmão não está no sangue ou na amizade, mas na sua frente.

contos

Argentos, Chicos e Letícias

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Encanamento quebrado e um frigobar transformado em objeto científico, sem gás e recoberto de potentes fungos, capazes de provocarem um dos piores odores de que se tem notícia.

É nesse antro explosivo, repleto de manchas nos azulejos, marcas estranhas nos espelhos e de pinturas bipolares nas paredes, que eu tomo meu primeiro banho de porta aberta e me dou conta de que estou sozinho. Sozinho no velho espaço do último ciclo vital, ou naquele ambiente insólito que já chamei de casa.

Nem sei o que sentir, tem o vazio deixado pelos chicos e pelas marias, tem aquela cara de chegada de alguma viagem longa, dessas que a gente inventa por aí, de sair pedalando como o xará e o maestro, de levantar o dedo sob algum vento novo, de escalar morros ou simplesmente permanecer na própria cidade, zanzando e colocando as pestanas para propósitos verdadeiros, projetos intracontinentais, novas funções, criações momentâneas envolvendo uma meia dúzia de argentos, alguns instrumentos, uma bocada de empreendedores duvidosos, eventos multiculturais, muita paciência e ainda uma exposição reciclada sem capitães e em pleno setembro-chove.

Falando assim fica mais fácil, atropelo sentimentos tolos e caretas e deixo a palavra saudade acaçapada naquele dicionário da família Buarque de Holanda, distante dos outros idiomas que a desconhecem. Aproveito para agafanhar palavras desse livrinho roxo, e engranzar nessa história, cada detalhe e cada partícula de emoção, as boas e as ruins, que vivi nesses cinco locos meses ao lado dela e desses vagabundos callejeros – um bando de aproveitadores e inconsequentes, desses que insistem na utopia da liberdade galeana e para isso contam com a ajuda de algum bom coração, alguém que como eles, também se sente vivo e maldito por tentar ser artista na pior hora possível.

Atravessamos esse duro inverno curitibano, absortos em cortinas de fumaças variadas, transmutando as malas ondas e remando contra as correntes, mas espere, antes que eu siga nessa conjugação maioral e pluralizada, parte de algum discurso motivacional para uma plateia de adolescentes famintos por direções, antes que eu siga adiante na caminhada citada pelos seletores de freqüência; preciso respirar, acrescentar vírgulas, e esquecer um pouco esse papo de coletivo, de união e de não sei mais o quê.

Palavras ruidosas ou poéticas não irão me salvar e o consolo é saber que talvez tudo isso seja parte de alguma história maior, que será arquitetada nas próximas décadas em passos curtos, por gente cansada das ladainhas do passado e das promessas generosas, e que sabe ou sente que a pontuação é relativa, e que para chegarmos próximos de qualquer grande sonho é necessário começarmos por algum beco.

Com ela comecei, repetindo padrões impulsivos e provocando infindáveis discussões entre espelhos distorcidos e manipulados por premieres e photoshops, maquinetas capazes de transformar roteiros novelescos e fotos repetidas em algo supostamente fresco e palatável para a rotina caótica em que eu havia me metido.

No apê circular convivi com Letícia, seu gato Rodrigo, seu amigo colorido, suas janelas sem cortinas e seu banheiro sintonizado na rádio em tempo quase integral. No quarto, imagens de divindades orientais e cobertores sedutores me lembravam das contradições ambulantes e agora, enquanto escrevo e redesenho essas imagens, percebo pelas rimas naturais dos dígitos que ainda levarei algum tempo para compreender aquela nossa relação, as reiteradas faíscas, os desejos conjugais partidos ou os defeitos gritantes de ambos os lados.

Enquanto isso, do outro lado do centro, na rua que homenageia solenemente o clássico “Besame Mucho”, os argentos mais piolas seguiam suas metas diárias, de conseguir moedas e notas pequenas para encherem suas panças no restaurante sem quilo, saciarem os tédios noturnos no bar dos facitos e manterem o quilombo no apê emprestado.

O bolo crescia ligeiramente e logo o local, que já fora palco de peças melancólicas estreladas por artistas quarentões, famílias em tratamento hospitalar e mochileiros estrangeiros, agora recebia membros de uma orquestra de músicos de rua, mesclados com uma trupe londrina e com o garoto de ouro da rádio clandestina.

Agora, definitivamente sozinho, sem Letícia, sem Caldabranca (este se foi para Roma, ser bonvivant) e sem os hermanos, tomo um banho de porta aberta, enquanto tento entender o que foram esses cinco loucos meses. Certamente aquele apê carregará histórias para as próximas décadas e como diria o velho Waits sobre despedidas: “Well today is grey skies/Tomorrow is tears/You’ll have to wait til yesterday is here”.

E se o ontem não está por aqui, resta a esperança no amanhã e a calma no hoje.

Primavera, seja bem vinda.

contos, Dicas Musicais

Sobre os chicos e outros caras legais

guacamate“As pessoas estão carentes e deprimidas, em busca de algo sincero e autêntico ou simplesmente amor”, disse o gaúcho, corretor de seguros contra desastres dentários. Isso antes da chuva que acabou com o sonho latino de um inverno curitibano que por algumas horas cedera espaço para cinco argentinos alegrarem o domingo dos passantes da feira que já foi hippie, mas que agora é só mais um cartão postal da “cidade dos normais”. E  na canção do Escambau, o rompante pop-radiofônico sobre a falta de emoção na vida daquelas pessoas havia sido quebrado pela eminência da chuva, naquele momento em que o céu ficou preto e eu atendi aquela ligação no meio de uma gravação através da máquina do tempo menor do mundo. Justo naquele momento tão alegre e pueril, com um maluco vestido de mulher e interpretando um ser invertebrado, um baterista virtuoso e humilde, um baixista buena onda, uma clarinetista aprendendo as canções enquanto toca e ainda uma trompetista tímida por não querer molestar o saxofonista antigo que tocava do outro lado. E como se não bastasse, na plateia ainda tinha uma miniatura de um James Dean, acompanhado de sua namoradinha de no máximo sete anos de idade, porra, naquele momento tão pleno e ingênuo e quando o sol ainda se esforçava para seguir brilhando e iluminando esse povo todo, o telefone toca e preciso fugir.

“Você abandonou sua barraca, as senhoras estão putas contigo, tem uma fila de gente para comprar suas coisas”. Desligo o celular da Janis mais preocupado com a gravação ou o coito interrompido pelo toque e talvez aquela viagem no tempo tenha ficado apenas na memória, e desde quando o homem ou Deus decidiu que a felicidade ou a alegria teria um prazo de validade? Corro como um louco e quase que instantaneamente, na medida em que mais gotas caem do céu, meus passos aceleram e sinto naqueles corpos estranhos, cheios de sacolas e sombreros, a tensão provocada pelos pingos e pelos ventos fortes que segundo alguma moça bonita na TV, também deve vir da Argentina.

Mas algo mudou em mim naqueles segundos. Talvez eu estivesse cansado demais, cansado e mais sensível que uma garota de trinta anos em TPM ou como qualquer canção lenta do Roberto Carlos, pré 73. Já havia me emocionado pra caralho na noite anterior, quando vi de novo a banda callejera arrebentar naquele pub europeu cheio de gente rica bebendo whisky e champagne e fumando charutos grandes, bem no estilo daquele blues da prisão de Folsom. E se lá fora meus amigos se comportavam como jovens se comportam em bares de velhos, lá dentro eu me esforçava para não me sentir um jacu ou mais um rosto jovem estranho, vestindo roupas velhas e desbotadas e com botons duvidosos achando que entende alguma coisa de jazz e blues apenas por conseguir ficar calado por alguns minutos. Um bicho do mato e do Paraná, um forasteiro dentro da sua própria cidade, um Caldabranca ocupando um quarto de hotel em São Paulo enquanto luta para se manter invisível, um outsider visionário ou apenas um cachorro louco tentando “romper a barreira do tempo” num boteco típico dos beatniks de outrora; mas que no Brasil do século 21 é cenário pra gente bem sucedida gastar seus tostões e sentirem que estão em Londres, em Barcelona, Berlim ou em qualquer uma dessas partes escolhidas por brasileiros convencionais de uma classe média que há quinze anos se fodia para conseguir passar o fim de ano com a família que morava longe.

E talvez o que tenha me deixado ainda mais feliz nessa noite, além daquele jazz argentino cheio de malemolência e outras palavras da moda, e além daquela jam incrível dos chicos com aquele blues man e seu sapato de mil reais de couro de crocodilo comprado pela namorada, talvez o que tenha me deixado bem alegre e contente tenha acontecido depois dessas paradas todas.

João, o fotográfo de meia idade e cheio de ódio contra hipermercados e seus estacionamentos infinitos, João, o colecionador de vinis dos anos 80, quando seu cabelo ainda era preto e deveria pesar uns dez quilos a menos, João, esse nome que, porra, é o mesmo do meu pai que não vejo há décadas e que agora descubro que seu celular está desligado. João, o outro, o novo brother dos tragos e dos largos, João, me chama e me pergunta: “Hey, você já viu o que tem aqui fora, naquela caçamba de entulhos e lixos?” Me aproximo e João começa a me mostrar mapas de Paris antes de 1900, muito antes de aquela torre famosinha existir, e com certeza muito antes de qualquer brasileiro sonhar  ir para Europa, isso, é claro, se a pessoa não fosse um Villa-Lobos ou algum outro gênio apadrinhado pela nobreza. Logo os chicos buena onda se acercam do garimpo e ainda encontram um escorredor de pratos em perfeito estado, algo ainda inexistente naquele quilombo que eles se acostumaram a chamar de casa.

No dia seguinte, chego à casa de Letícia, a casa que aos poucos se transforma na minha também e lhe mostro um dos mapas que, pela idade e pela decadência natural do tempo agregadora de valor e estética, poderia muito bem ser a peça ideal para decorarmos nossa adega de vinhos promocionais que, por enquanto, segue existindo apenas nas nossas cabeças. Sim, porque existe a cabeça da mulher e a cabeça do homem e existe uma outra, ainda mais misteriosa e poderosa, que é a cabeça do casal, da entidade, que aos trancos começa a se constituir. Poderia seguir falando sobre cabeças, grandes ou pequenas, de um bando ou apenas de alguém bem especial que me ajudou a ser quem eu sou hoje e que agora descansa em uma cama ao lado de senhoras do bem. Poderia seguir falando de todas essas cabeças, mas vou preferir seguir lembrando esses dois instantes mágicos provocados por uma banda de jazz ou uma verdadeira locomotiva do amor, e por João “das Couves”, um cara conectado com a natureza e com cada coisa ao seu redor.

E como diria um tal “urbenauta”, viajar na sua própria cidade é mesmo muito legal.

contos

Artistas na Ilha dos Hipsters

superaguiTudo rolou rápido demais. Rápido como a estrela cadente que vi no céu da ilha ou como os pensamentos destrutivos do meu amigo Ernest Cash. Com ele parti para a rodoviária, com duas passagens para Pontal – a praia curitibana dos pobres e miseráveis. De lá tentamos pegar uma barca para a ilha de Superagui, algo que se mostrou impossível, não pelas questões geográficas, mas por uma mera organização das embarcações. De Pontal, poderíamos ter ido para a Ilha do Mel, mas já estávamos cansados de lá e nosso objetivo era desembarcar em Superagui – a ilha dos pescadores e dos frequentadores da Trajano, sedentos por um réveillon menos badalado e mais natureba, no sentido mais hipster do termo.

Não tínhamos reservas ou grandes planos, chegamos e encontramos meu outro amigo radiofônico com nome de alguma estrela da MPB. Gil nos indicou o camping em que estava alojado, juntamente com seus brothers do Boqueirão. Gil e seus brothers haviam logrado a tarefa hercúlea de viajar sem motor, apenas com suas bikes e suas canelas inchadas. Parabéns pra eles.

Comemos um peixe com feijão e arroz e caminhamos até o Poseidon, o último camping beira-mar e administrado por um sujeito chamado Posidônio.

Na grama e entre nossos vizinhos de barraca havia um cara chamado Spare – uma espécie de sobrevivente da geração gonzo e que carregava consigo um verdadeiro arsenal de psicotrópicos, relaxantes, estimulantes, papéis coloridos e outros cristais importados da Europa.

A ideia era expor minhas gravuras ao lado dos retratos grafitados por Ernest e com isso, conseguir clientes para meu amigo para que ele produzisse caricaturas e assim pudesse pagar suas despesas na ilha. Tentamos nos primeiros dois dias, armamos nossas tralhas, colocamos algumas músicas legais na jukebox e sentamos em alguma mesa com vista pro mar. Ficávamos lá, bebendo litros de cerveja e esperando que alguém se interessasse pela nossa arte.

Mas o tempo não colaborou e, quase sempre, poucas horas depois de armarmos nosso pequeno espetáculo visual, as nuvens escuras e apocalípticas se aproximavam, trazendo os ventos ferozes que, além de acabarem com nossos planos de tirar alguma grana daquela ilha, também destruíam os tetos improvisados do nosso camping.

E mesmo quando fazia sol, pouca gente se deu o trabalho de ver o que estávamos tentando fazer. Gente descoladinha que tenho certeza que se interessaria muito caso estivesse em Curitiba em algum café cult do centro da cidade, mas por estarem na ilha, parece que adentram algum tipo de realidade paralela, onde a maconha e os ácidos fazem com que essas pessoas se conectem com a natureza e com as amizades e se esqueçam de qualquer cultura urbana produzida por dois artistas em eterna decadência.

Mas Superagui está cheia de encantos e parece ser o cenário perfeito para encontros mágicos. Assim, conhecemos, por acaso, duas holandesas e um cachorro colombiano pra lá de simpático. Talvez as únicas gringas da ilha, uma delas estava viajando há mais de um ano pela América do Sul e, quando ainda estava na Colômbia, conheceu e se apaixonou por um cachorro de rua, batizado de Freddie, e que havia se transformado em seu leal parceiro de viagem.

Bebemos mais alguns litros de cerveja com elas e, no dia seguinte, fomos comemorar o aniversário da dona do cachorro – a bela Ika. Desde o primeiro encontro, conversei mais com Ika, enquanto meu amigo Ernest flertava com sua amiga, Pieta. O inglês de Ernest parecia haver saído de alguma película B sobre a máfia italiana, e talvez por sua barba e seus traços nórdicos, às vezes ele próprio parecia ter surgido de algum livro do Dostoievski, especialmente quando estava segurando uma garrafa de Cataia – o “whisky” caiçara consumido abundantemente em toda a ilha à qual Ernest se referia como sua “girlfriend”.

Não criei grandes expectativas com Ika, pois achava que as europeias não seriam tão abertas em relação ao amor livre e todas essas loucuras que rolam por aqui. Mas talvez por ser seu aniversário, ou talvez por ela estar meio puta com seu último namorado, um carioca que havia lhe dado um pé na bunda por whatsapp há poucos dias atrás, Ika concordou em ficar comigo naquela noite e quando fui perceber, estava caminhando ao seu lado em direção a alguma praia deserta e bem escura. Terminamos nos enrolando pela areia, seminus, meio como aqueles camarões empanados e fritos que comíamos todos os dias nos bares da ilha. Fomos interrompidos por algumas garotas nativas que passavam por ali e que gargalharam quando nos viram daquela maneira tão “natural” e pouco espontânea.

No dia seguinte, nos despedimos de Pieta e no final da tarde pegamos a última barca para Paranaguá. Chegamos a casa depois da meia-noite e quando me dei conta, havia voltado da ilha com uma família inteira pra cuidar: Ernest Cash ainda estava lá, e agora também teríamos a companhia de Ika e de seu cachorro Freddie.

Pelo menos no meu aniversário, dois dias depois, me senti menos sozinho. Superagui, mais uma vez, obrigado.

contos

Borbulhas e Memórias de Uma Noite Sem Lembranças

girlin bedAcordei ao lado dela. Seu corpo cheio de roupa dormia como uma pedra. Senti o frio nas suas costas e pensei que talvez ela estivesse morta – suicídio acidental à moda das estrelas de rock. Mas seu rosto estava quente e quando o toquei, a bela despertou. Despertou em ritmo frenético e com uma amnésia recente, esquecendo-se das traquinagens da noite anterior. Culpa dos baldes de um frisante barato, Salton Mello, queridinho das vernissages independentes, sem o patrocínio e sem o glamour asséptico dos eventos cheios de grana.

Eu a acompanhei no porre, mas minha consciência capricorniana não me deixou esquecer nada. Lembrei-a de cada detalhe: das risadas homoafetivas, dos tapas na bunda, das conversas libertinas sobre sexo anal, do celular e dos brincos novos jogados no meio da rua, do seu corpo estirado na calçada, das suas corridas repentinas pelas faixas brancas, e da sua capotada no meio da minha cama. Sem dança.

Você riu de cada lembrança, justamente por não se lembrar de nada. Disse que já bebeu muito mais e não tinha ficado assim. Lembrei da garrafa de vinho, bebida em estilo solo, numa outra madrugada pós-artística. Você disse que o cansaço a deixou assim, inconsciente, voltando a ser criança. Eu acredito, acredito em quase tudo que saia de seus lindos lábios. E que bom que eu estava ao seu lado, tipo um anjo bêbado, cuidando para que você chegasse a casa sã e salva.

Hoje o dia será difícil, as dezenas de taças daquele frisante barato ainda borbulharão em nossos estômagos, trabalharemos em modo silencioso-quase-parando e, quem sabe, você também experenciará flashbacks das loucuras da noite anterior. Tudo bem, meu bem, afinal a vida sem ser vivida não tem a menor graça. Os bêbados que o digam.