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Arte de Rua Não é Crime

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Sábado de sol, mas dessa vez não aluguei um caminhão e muito menos comprei feijão. E se tinha maconha, quase não vi. Vi outras coisas bem legais e essas palavras tentarão explicar um pouco o que foi o dia de anteontem. Pela segunda vez, vi diversos artistas de rua unidos para uma causa nem nobre, nem pobre, apenas necessária em tempos estranhos. Tempos em que o ódio e a ganância são exalados por todos os poros, tempos de guerra como sempre e tempos em que a polícia militar precisa de nove carros e trinta homens fortemente armados preparados para prender o pior bandido da história dessa cidade cada vez mais cinza. No caso esse bandido se chama Música de Rua, e quem sabe mais uma meia dúzia de inofensivos maconheiros.

Sim, os músicos de rua tem sofrido uma repressão desmedida apenas por estarem tocando na rua, como sempre fizeram. E não estou falando de mega shows pirotécnicos e clandestinos, em algum bairro residencial e em plena madrugada. Esses músicos têm sido abordados somente por estarem tocando um jazz-fusion-groove, ou seja lá como queira chamar, em pleno centro de Curitiba, às oito horas da noite de uma sexta-feira. Uma pequena multidão parou para vê-los e também contribuir para que continuem fazendo isso, colaborando com algum trocado.

E sábado foi novamente um dia de protesto, um protesto artístico sem cartazes de ódio, sem a presença de maçons engravatados pedindo impeachment, nem panelas, nem camisas de futebol, nem megafones ou carros de som insuportavelmente chatos. Apenas música! Bem, talvez o principal fosse a música devido às últimas histórias bizarras envolvendo esses caras, mas também teve outras formas de arte, teve um palhaço de rua venezuelano andando em um monociclo de proporções girafais, teve dança de carimbó,  teve poesia e teatro misturada com música, e teve uma porção de fotógrafos e videomakers registrando tudin.

Pararam famílias, trabalhadores em dia de descanso, desempregados, lojistas, estudantes, turistas, outros artistas e mais um ou dois bêbados típicos de qualquer rua de cidade grande. Houveram outros transeuntes que não chegaram a parar, mas mexeram seus corpinhos em sinal de aprovação, ou como se estivessem alimentando brevemente suas almas carentes. Afinal, as ondas sonoras também cumprem esse papel.  

No fim do dia a sensação era de paz e de dever cumprido, ao menos pelos organizadores. E que venham novos atos de conscientização como esses últimos, cheios de amor e arte: dois lances que costumam andar lado a lado, se fundindo na maior parte do tempo e fazendo a gente perceber que a verdadeira transformação será sempre de dentro pra fora, ou seja, discursos inflamados e piquetes jamais serão suficientes, especialmente quando o espírito está fraco ou contaminado pelo ego que obstrui, aleija e faz a gente esquecer que o verdadeiro irmão não está no sangue ou na amizade, mas na sua frente.

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Argentos, Chicos e Letícias

argentos

Encanamento quebrado e um frigobar transformado em objeto científico, sem gás e recoberto de potentes fungos, capazes de provocarem um dos piores odores de que se tem notícia.

É nesse antro explosivo, repleto de manchas nos azulejos, marcas estranhas nos espelhos e de pinturas bipolares nas paredes, que eu tomo meu primeiro banho de porta aberta e me dou conta de que estou sozinho. Sozinho no velho espaço do último ciclo vital, ou naquele ambiente insólito que já chamei de casa.

Nem sei o que sentir, tem o vazio deixado pelos chicos e pelas marias, tem aquela cara de chegada de alguma viagem longa, dessas que a gente inventa por aí, de sair pedalando como o xará e o maestro, de levantar o dedo sob algum vento novo, de escalar morros ou simplesmente permanecer na própria cidade, zanzando e colocando as pestanas para propósitos verdadeiros, projetos intracontinentais, novas funções, criações momentâneas envolvendo uma meia dúzia de argentos, alguns instrumentos, uma bocada de empreendedores duvidosos, eventos multiculturais, muita paciência e ainda uma exposição reciclada sem capitães e em pleno setembro-chove.

Falando assim fica mais fácil, atropelo sentimentos tolos e caretas e deixo a palavra saudade acaçapada naquele dicionário da família Buarque de Holanda, distante dos outros idiomas que a desconhecem. Aproveito para agafanhar palavras desse livrinho roxo, e engranzar nessa história, cada detalhe e cada partícula de emoção, as boas e as ruins, que vivi nesses cinco locos meses ao lado dela e desses vagabundos callejeros – um bando de aproveitadores e inconsequentes, desses que insistem na utopia da liberdade galeana e para isso contam com a ajuda de algum bom coração, alguém que como eles, também se sente vivo e maldito por tentar ser artista na pior hora possível.

Atravessamos esse duro inverno curitibano, absortos em cortinas de fumaças variadas, transmutando as malas ondas e remando contra as correntes, mas espere, antes que eu siga nessa conjugação maioral e pluralizada, parte de algum discurso motivacional para uma plateia de adolescentes famintos por direções, antes que eu siga adiante na caminhada citada pelos seletores de freqüência; preciso respirar, acrescentar vírgulas, e esquecer um pouco esse papo de coletivo, de união e de não sei mais o quê.

Palavras ruidosas ou poéticas não irão me salvar e o consolo é saber que talvez tudo isso seja parte de alguma história maior, que será arquitetada nas próximas décadas em passos curtos, por gente cansada das ladainhas do passado e das promessas generosas, e que sabe ou sente que a pontuação é relativa, e que para chegarmos próximos de qualquer grande sonho é necessário começarmos por algum beco.

Com ela comecei, repetindo padrões impulsivos e provocando infindáveis discussões entre espelhos distorcidos e manipulados por premieres e photoshops, maquinetas capazes de transformar roteiros novelescos e fotos repetidas em algo supostamente fresco e palatável para a rotina caótica em que eu havia me metido.

No apê circular convivi com Letícia, seu gato Rodrigo, seu amigo colorido, suas janelas sem cortinas e seu banheiro sintonizado na rádio em tempo quase integral. No quarto, imagens de divindades orientais e cobertores sedutores me lembravam das contradições ambulantes e agora, enquanto escrevo e redesenho essas imagens, percebo pelas rimas naturais dos dígitos que ainda levarei algum tempo para compreender aquela nossa relação, as reiteradas faíscas, os desejos conjugais partidos ou os defeitos gritantes de ambos os lados.

Enquanto isso, do outro lado do centro, na rua que homenageia solenemente o clássico “Besame Mucho”, os argentos mais piolas seguiam suas metas diárias, de conseguir moedas e notas pequenas para encherem suas panças no restaurante sem quilo, saciarem os tédios noturnos no bar dos facitos e manterem o quilombo no apê emprestado.

O bolo crescia ligeiramente e logo o local, que já fora palco de peças melancólicas estreladas por artistas quarentões, famílias em tratamento hospitalar e mochileiros estrangeiros, agora recebia membros de uma orquestra de músicos de rua, mesclados com uma trupe londrina e com o garoto de ouro da rádio clandestina.

Agora, definitivamente sozinho, sem Letícia, sem Caldabranca (este se foi para Roma, ser bonvivant) e sem os hermanos, tomo um banho de porta aberta, enquanto tento entender o que foram esses cinco loucos meses. Certamente aquele apê carregará histórias para as próximas décadas e como diria o velho Waits sobre despedidas: “Well today is grey skies/Tomorrow is tears/You’ll have to wait til yesterday is here”.

E se o ontem não está por aqui, resta a esperança no amanhã e a calma no hoje.

Primavera, seja bem vinda.

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Sobre os chicos e outros caras legais

guacamate“As pessoas estão carentes e deprimidas, em busca de algo sincero e autêntico ou simplesmente amor”, disse o gaúcho, corretor de seguros contra desastres dentários. Isso antes da chuva que acabou com o sonho latino de um inverno curitibano que por algumas horas cedera espaço para cinco argentinos alegrarem o domingo dos passantes da feira que já foi hippie, mas que agora é só mais um cartão postal da “cidade dos normais”. E  na canção do Escambau, o rompante pop-radiofônico sobre a falta de emoção na vida daquelas pessoas havia sido quebrado pela eminência da chuva, naquele momento em que o céu ficou preto e eu atendi aquela ligação no meio de uma gravação através da máquina do tempo menor do mundo. Justo naquele momento tão alegre e pueril, com um maluco vestido de mulher e interpretando um ser invertebrado, um baterista virtuoso e humilde, um baixista buena onda, uma clarinetista aprendendo as canções enquanto toca e ainda uma trompetista tímida por não querer molestar o saxofonista antigo que tocava do outro lado. E como se não bastasse, na plateia ainda tinha uma miniatura de um James Dean, acompanhado de sua namoradinha de no máximo sete anos de idade, porra, naquele momento tão pleno e ingênuo e quando o sol ainda se esforçava para seguir brilhando e iluminando esse povo todo, o telefone toca e preciso fugir.

“Você abandonou sua barraca, as senhoras estão putas contigo, tem uma fila de gente para comprar suas coisas”. Desligo o celular da Janis mais preocupado com a gravação ou o coito interrompido pelo toque e talvez aquela viagem no tempo tenha ficado apenas na memória, e desde quando o homem ou Deus decidiu que a felicidade ou a alegria teria um prazo de validade? Corro como um louco e quase que instantaneamente, na medida em que mais gotas caem do céu, meus passos aceleram e sinto naqueles corpos estranhos, cheios de sacolas e sombreros, a tensão provocada pelos pingos e pelos ventos fortes que segundo alguma moça bonita na TV, também deve vir da Argentina.

Mas algo mudou em mim naqueles segundos. Talvez eu estivesse cansado demais, cansado e mais sensível que uma garota de trinta anos em TPM ou como qualquer canção lenta do Roberto Carlos, pré 73. Já havia me emocionado pra caralho na noite anterior, quando vi de novo a banda callejera arrebentar naquele pub europeu cheio de gente rica bebendo whisky e champagne e fumando charutos grandes, bem no estilo daquele blues da prisão de Folsom. E se lá fora meus amigos se comportavam como jovens se comportam em bares de velhos, lá dentro eu me esforçava para não me sentir um jacu ou mais um rosto jovem estranho, vestindo roupas velhas e desbotadas e com botons duvidosos achando que entende alguma coisa de jazz e blues apenas por conseguir ficar calado por alguns minutos. Um bicho do mato e do Paraná, um forasteiro dentro da sua própria cidade, um Caldabranca ocupando um quarto de hotel em São Paulo enquanto luta para se manter invisível, um outsider visionário ou apenas um cachorro louco tentando “romper a barreira do tempo” num boteco típico dos beatniks de outrora; mas que no Brasil do século 21 é cenário pra gente bem sucedida gastar seus tostões e sentirem que estão em Londres, em Barcelona, Berlim ou em qualquer uma dessas partes escolhidas por brasileiros convencionais de uma classe média que há quinze anos se fodia para conseguir passar o fim de ano com a família que morava longe.

E talvez o que tenha me deixado ainda mais feliz nessa noite, além daquele jazz argentino cheio de malemolência e outras palavras da moda, e além daquela jam incrível dos chicos com aquele blues man e seu sapato de mil reais de couro de crocodilo comprado pela namorada, talvez o que tenha me deixado bem alegre e contente tenha acontecido depois dessas paradas todas.

João, o fotográfo de meia idade e cheio de ódio contra hipermercados e seus estacionamentos infinitos, João, o colecionador de vinis dos anos 80, quando seu cabelo ainda era preto e deveria pesar uns dez quilos a menos, João, esse nome que, porra, é o mesmo do meu pai que não vejo há décadas e que agora descubro que seu celular está desligado. João, o outro, o novo brother dos tragos e dos largos, João, me chama e me pergunta: “Hey, você já viu o que tem aqui fora, naquela caçamba de entulhos e lixos?” Me aproximo e João começa a me mostrar mapas de Paris antes de 1900, muito antes de aquela torre famosinha existir, e com certeza muito antes de qualquer brasileiro sonhar  ir para Europa, isso, é claro, se a pessoa não fosse um Villa-Lobos ou algum outro gênio apadrinhado pela nobreza. Logo os chicos buena onda se acercam do garimpo e ainda encontram um escorredor de pratos em perfeito estado, algo ainda inexistente naquele quilombo que eles se acostumaram a chamar de casa.

No dia seguinte, chego à casa de Letícia, a casa que aos poucos se transforma na minha também e lhe mostro um dos mapas que, pela idade e pela decadência natural do tempo agregadora de valor e estética, poderia muito bem ser a peça ideal para decorarmos nossa adega de vinhos promocionais que, por enquanto, segue existindo apenas nas nossas cabeças. Sim, porque existe a cabeça da mulher e a cabeça do homem e existe uma outra, ainda mais misteriosa e poderosa, que é a cabeça do casal, da entidade, que aos trancos começa a se constituir. Poderia seguir falando sobre cabeças, grandes ou pequenas, de um bando ou apenas de alguém bem especial que me ajudou a ser quem eu sou hoje e que agora descansa em uma cama ao lado de senhoras do bem. Poderia seguir falando de todas essas cabeças, mas vou preferir seguir lembrando esses dois instantes mágicos provocados por uma banda de jazz ou uma verdadeira locomotiva do amor, e por João “das Couves”, um cara conectado com a natureza e com cada coisa ao seu redor.

E como diria um tal “urbenauta”, viajar na sua própria cidade é mesmo muito legal.

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Artistas na Ilha dos Hipsters

superaguiTudo rolou rápido demais. Rápido como a estrela cadente que vi no céu da ilha ou como os pensamentos destrutivos do meu amigo Ernest Cash. Com ele parti para a rodoviária, com duas passagens para Pontal – a praia curitibana dos pobres e miseráveis. De lá tentamos pegar uma barca para a ilha de Superagui, algo que se mostrou impossível, não pelas questões geográficas, mas por uma mera organização das embarcações. De Pontal, poderíamos ter ido para a Ilha do Mel, mas já estávamos cansados de lá e nosso objetivo era desembarcar em Superagui – a ilha dos pescadores e dos frequentadores da Trajano, sedentos por um réveillon menos badalado e mais natureba, no sentido mais hipster do termo.

Não tínhamos reservas ou grandes planos, chegamos e encontramos meu outro amigo radiofônico com nome de alguma estrela da MPB. Gil nos indicou o camping em que estava alojado, juntamente com seus brothers do Boqueirão. Gil e seus brothers haviam logrado a tarefa hercúlea de viajar sem motor, apenas com suas bikes e suas canelas inchadas. Parabéns pra eles.

Comemos um peixe com feijão e arroz e caminhamos até o Poseidon, o último camping beira-mar e administrado por um sujeito chamado Posidônio.

Na grama e entre nossos vizinhos de barraca havia um cara chamado Spare – uma espécie de sobrevivente da geração gonzo e que carregava consigo um verdadeiro arsenal de psicotrópicos, relaxantes, estimulantes, papéis coloridos e outros cristais importados da Europa.

A ideia era expor minhas gravuras ao lado dos retratos grafitados por Ernest e com isso, conseguir clientes para meu amigo para que ele produzisse caricaturas e assim pudesse pagar suas despesas na ilha. Tentamos nos primeiros dois dias, armamos nossas tralhas, colocamos algumas músicas legais na jukebox e sentamos em alguma mesa com vista pro mar. Ficávamos lá, bebendo litros de cerveja e esperando que alguém se interessasse pela nossa arte.

Mas o tempo não colaborou e, quase sempre, poucas horas depois de armarmos nosso pequeno espetáculo visual, as nuvens escuras e apocalípticas se aproximavam, trazendo os ventos ferozes que, além de acabarem com nossos planos de tirar alguma grana daquela ilha, também destruíam os tetos improvisados do nosso camping.

E mesmo quando fazia sol, pouca gente se deu o trabalho de ver o que estávamos tentando fazer. Gente descoladinha que tenho certeza que se interessaria muito caso estivesse em Curitiba em algum café cult do centro da cidade, mas por estarem na ilha, parece que adentram algum tipo de realidade paralela, onde a maconha e os ácidos fazem com que essas pessoas se conectem com a natureza e com as amizades e se esqueçam de qualquer cultura urbana produzida por dois artistas em eterna decadência.

Mas Superagui está cheia de encantos e parece ser o cenário perfeito para encontros mágicos. Assim, conhecemos, por acaso, duas holandesas e um cachorro colombiano pra lá de simpático. Talvez as únicas gringas da ilha, uma delas estava viajando há mais de um ano pela América do Sul e, quando ainda estava na Colômbia, conheceu e se apaixonou por um cachorro de rua, batizado de Freddie, e que havia se transformado em seu leal parceiro de viagem.

Bebemos mais alguns litros de cerveja com elas e, no dia seguinte, fomos comemorar o aniversário da dona do cachorro – a bela Ika. Desde o primeiro encontro, conversei mais com Ika, enquanto meu amigo Ernest flertava com sua amiga, Pieta. O inglês de Ernest parecia haver saído de alguma película B sobre a máfia italiana, e talvez por sua barba e seus traços nórdicos, às vezes ele próprio parecia ter surgido de algum livro do Dostoievski, especialmente quando estava segurando uma garrafa de Cataia – o “whisky” caiçara consumido abundantemente em toda a ilha à qual Ernest se referia como sua “girlfriend”.

Não criei grandes expectativas com Ika, pois achava que as europeias não seriam tão abertas em relação ao amor livre e todas essas loucuras que rolam por aqui. Mas talvez por ser seu aniversário, ou talvez por ela estar meio puta com seu último namorado, um carioca que havia lhe dado um pé na bunda por whatsapp há poucos dias atrás, Ika concordou em ficar comigo naquela noite e quando fui perceber, estava caminhando ao seu lado em direção a alguma praia deserta e bem escura. Terminamos nos enrolando pela areia, seminus, meio como aqueles camarões empanados e fritos que comíamos todos os dias nos bares da ilha. Fomos interrompidos por algumas garotas nativas que passavam por ali e que gargalharam quando nos viram daquela maneira tão “natural” e pouco espontânea.

No dia seguinte, nos despedimos de Pieta e no final da tarde pegamos a última barca para Paranaguá. Chegamos a casa depois da meia-noite e quando me dei conta, havia voltado da ilha com uma família inteira pra cuidar: Ernest Cash ainda estava lá, e agora também teríamos a companhia de Ika e de seu cachorro Freddie.

Pelo menos no meu aniversário, dois dias depois, me senti menos sozinho. Superagui, mais uma vez, obrigado.

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Borbulhas e Memórias de Uma Noite Sem Lembranças

girlin bedAcordei ao lado dela. Seu corpo cheio de roupa dormia como uma pedra. Senti o frio nas suas costas e pensei que talvez ela estivesse morta – suicídio acidental à moda das estrelas de rock. Mas seu rosto estava quente e quando o toquei, a bela despertou. Despertou em ritmo frenético e com uma amnésia recente, esquecendo-se das traquinagens da noite anterior. Culpa dos baldes de um frisante barato, Salton Mello, queridinho das vernissages independentes, sem o patrocínio e sem o glamour asséptico dos eventos cheios de grana.

Eu a acompanhei no porre, mas minha consciência capricorniana não me deixou esquecer nada. Lembrei-a de cada detalhe: das risadas homoafetivas, dos tapas na bunda, das conversas libertinas sobre sexo anal, do celular e dos brincos novos jogados no meio da rua, do seu corpo estirado na calçada, das suas corridas repentinas pelas faixas brancas, e da sua capotada no meio da minha cama. Sem dança.

Você riu de cada lembrança, justamente por não se lembrar de nada. Disse que já bebeu muito mais e não tinha ficado assim. Lembrei da garrafa de vinho, bebida em estilo solo, numa outra madrugada pós-artística. Você disse que o cansaço a deixou assim, inconsciente, voltando a ser criança. Eu acredito, acredito em quase tudo que saia de seus lindos lábios. E que bom que eu estava ao seu lado, tipo um anjo bêbado, cuidando para que você chegasse a casa sã e salva.

Hoje o dia será difícil, as dezenas de taças daquele frisante barato ainda borbulharão em nossos estômagos, trabalharemos em modo silencioso-quase-parando e, quem sabe, você também experenciará flashbacks das loucuras da noite anterior. Tudo bem, meu bem, afinal a vida sem ser vivida não tem a menor graça. Os bêbados que o digam.

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Exposição “Sangue Sulamericano” por Igor Moura, no Museu Guido Viaro

cartaz 31x44cm_igormoura_web“Na exposição “Sangue Sulamericano” o artista multimídia Igor Moura, especializado em arte digital, troca a tela do computador por tinta e luminosidade do sol. Autodidata, sua pintura não se enquadra nos moldes acadêmicos, nem nas tendências da arte contemporânea, mas dialoga com a arte de rua, de traços fortes, pinceladas espontâneas e cores vivas. A série de pinturas inéditas demonstra que a experiência na América do Sul foi mais do que um passeio turístico. O encontro comnossos irmãos latinos foi um encontro de almas. A sensibilidade do artista funciona como uma espécie de teia que apanha cada partícula trazida no ar dos lugares que visitou. Sua mente imaginativa consegue captar as mais leves sugestões: um objeto simples, um jeito de sentar, a expressão do rosto, um sentimento, um silêncio. As cenas de rua filtradas pelo seu olhar humanista revelam-se generosamente em cores. A vida se mistura em sangue e tinta: “O inferno não são os outros. Os outros são o paraíso. A humanidade começa no outro”. Deus salve a América do Sul na arte de Igor Moura.”

Antonio Cava – Curador

contos, pseudojornalismo

Cinema de Novidades

cinema

Um cinema cheio. Seres são franciscanos, travestidos com jaquetas desbotadas e camisas multicoloridas de brechó, invadiram o espaço destinado para a sétima arte. Na tela, uma imagem estática, uma capa branca minimalista com cara de bíblia, “O Novo Tentamento” e logo acima um olho maçônico, que vez ou outra pisca, causando um estranhamento ainda maior. Abaixo do título, um nome, oito letras. ESCAMBAU.

As luzes se apagam e o filme está prestes a começar. Filme? Que filme? Que nada, trata-se da primeira audição pública do novo disco da banda Escambau, de Giovanni Caruso, sua mulher e seus comparsas. Mas espere aí, o que é isso? Não vai ter show, não vai ter filminho, trailer e essas porras todas? Não, na tela permanecerá imóvel a capa do disco, com esse olho místico piscando e com os nomes das canções aparecendo no espaço branco.

No som, o que se ouve é uma verdadeira odisseia rock neo-apocalíptica, com toques de boleros e recheada com pura psicodelia. Uma viagem musical para ser sentida e apreciada em uma sala escura, silenciosa, com características que remetem a um espaço que costumamos chamar de cinema. Poderia ser em uma igreja, pegando carona nesse conceito bíblico criado pela banda, mas talvez isso afastasse os malucos de plantão.

Agora me diga, quando, você ou eu, ficaríamos 40 minutos parados apenas para ouvir um disco. Sei que isso devia rolar antigamente, na época de ouro dos vinis, você comprava o disco, ia pra casa dos amigos e mudos, escutavam atentos cada faixa da obra, sem intervalos ou distrações. Hoje, na época dos smartphones e das redes sociais assépticas, isso parece virtualmente impossível. Mas não é que os caras conseguiram?

Digo por mim, e talvez por outras pessoas que como eu, não sacaram seus iphones para checar as atualizações insignificantes do feicebuque. Ao contrário, ficamos lá, congelados e apenas movimentando as mãos para bater palmas no intervalo das canções. E que canções! Já conhecia os trabalhos anteriores dos caras, mas senti uma maturidade incrível nos arranjos, melodias, acabamentos e nas letras, transcendentes na maior parte das vezes, irônicas e satíricas em outros momentos, mais divertidas.

“O Novo Tentamento” é o equivalente ao “Construção” de Chico, ou ao “Pet Sounds”, dos Beach Boys. Marca uma mudança clara e um novo direcionamento no rock produzido no sul, que agora atinge o universo, as galáxias, para se perder em algum buraco negro por aí. Torço pra experiência se repetir, apesar de saber que poucos discos merecem tamanha atenção e espero seguir acompanhando essa curiosa evolução sonora do Escambau.

No cinema cheio, jovens viajantes do tempo derretiam seus cerebelos em uma espécie de cinema mudo às avessas: na tela, uma imagem parada, nos alto-falantes, pirações fonográficas amplificadas por símbolos sonoros e versos místicos ou bobos criados por roqueiros cansados dos velhos rótulos e das balelas radiofônicas dos últimos 20 anos.

Tentamento é ficar de fora dessa.