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Sobre as Coisinhas da Noite de Ontem

casbah“Se a felicidade está nas pequenas coisas, eu lhe desejo um monte de coisinhas”, dizia o bilhete poético fosforescente do artista de rua, que pediu licença no instante em que Laura cuspia algum pensamento sobre a arte… De rua. Havia lido outros poemas coloridos, mas por algum motivo cósmico-sideral esse fez mais sentido. As coisinhas, essas viriam depois.

Estávamos na mesa do lado de fora, no bar clashiano de outras historietas,  surpreendendo-nos com algumas coisinhas também: o trio punk tocando Bowie, Ramones, os psicopatas assassinos e mais Clash, para alegria de Laura; a posterior vitrola televisiva mandando um doolittle – o disco envenenado dos pixielados. O jazz no harvest já havia acabado, o show no lado B também, e nos restavam os minutos mágicos antecedentes da sexta feira 13, na companhia de outros seres benevolentes de mais uma noite de semana no baixo São Francisco; onde a alegria anda restrita a caixa de sapato cheia de surpresinhas e garotas legais, e os bares de rua fecham cada vez mais cedo. Sinais da crise boêmia, infinitamente mais aterrorizante que a da TV (é claro, falo por nós, vagabundos).

Antes eu e Mrs. Grieves já havíamos dado nossos rolês e visto várias coisinhas bacanas, desde as gravuras premiadas no museu do escritor e neto do grande pintor, passando pelos canapés, as mini-empadas e os frisantes regalados, e chegando aos dedos escuros do amigo artesão que trocou o anel de arames por um abraço apertado de Mrs. G. Olhando fixamente para seus dedos, quase pretos, provocados pelo vício inerente pelos quase famosos tabacos bolados; olhando para aqueles dedos me senti tranquilo e com menos medo, já que tenho apenas o polegar e o indicador direito que apresentam manchas amareladas do consumo dessa planta, demonizada em ambientes diurnos e endeusada nas madrugadas arrastadas, no cerne do presente pós-apocalíptico zumbi da cidade que cresce e padece.

Na vila dos hippies, onde horas atrás a menina berrou as canções clássicas da história do punk brasileiro, acompanhada de amigas e parceiras que dançavam e trocavam ideias tatuadas na espontaneidade da calçada; a mesma calçada que abrigava a senhora do cabelo oxigenado e seu cachorro que, segundo Laura, estava todo pesteado, com a barriga cheia de vermes e o pelo servindo de palco para um carnaval de pulgas e outras coisinhas que ainda não conseguimos identificar. Porém, não poderia esquecer os gestos de carinho e parceria desses dois seres da noite, que não incomodavam ninguém e ainda surrupiavam sorrisos pueris provocados pela natureza e pelo amor entre os humanos e os animais.  Coisinhas bonitinhas que continuam vivas e se repetindo por aí.

E todas essas presepadinhas e coisinhas que estou relatando enquanto escuto as meninas do Warpaint só aconteceram porque o jardim das Américas das bananas estava fechado para visitas inoportunas de vagabundos vampiros em busca do conforto dos sofás restaurados da casa dos papais.

Laura se despediu após cruzarmos com o irmão gente fina de Mrs. Grieves. Seguimos a jornada estapafúrdia, agora atrás de algum rango sem mortes. Encontramos bem ali no ponto de encontro das matinês dos adolescentes suburbanos vestidos de preto, bem em frente da boate das drags.

No fim, terminamos no hotel decadente das transas fugazes, recheado de coisinhas asquerosas, lençóis mal lavados, cobertores desconfortáveis, chuveiros sem água quente e cortinas melecadas com milhões de mosquitos baladeiros que impossibilitaram qualquer forma de descanso e sossego, com seus zumbidos irritantes e suas picadas intermináveis. Ao fundo, ainda se escutava os estrondos eletrônicos da boate dos gatos, alternados pelos berros dos travestis e de outras damas da noite. Ainda não consigo acreditar que os filhos da puta, donos daquela espelunca, possam ter a coragem de cobrar oitenta mangos para uma diversão perigosa de poucas dezenas de minutos, e um inferno de longas horas com os tais cobertores piniquentos e os malditos mosquitos que não deveriam ser respeitados nem pelos mais bondosos veganos desse planeta.

Mas claro, isso poderia ser bem pior. A parceria existiu e é bom poder compartilhar coisinhas como essas com a pessoa do lado.

Poeta das ruas, gratidão pelo conselho dado. Também desejo um monte de coisinhas pra você.

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Argentos, Chicos e Letícias

argentos

Encanamento quebrado e um frigobar transformado em objeto científico, sem gás e recoberto de potentes fungos, capazes de provocarem um dos piores odores de que se tem notícia.

É nesse antro explosivo, repleto de manchas nos azulejos, marcas estranhas nos espelhos e de pinturas bipolares nas paredes, que eu tomo meu primeiro banho de porta aberta e me dou conta de que estou sozinho. Sozinho no velho espaço do último ciclo vital, ou naquele ambiente insólito que já chamei de casa.

Nem sei o que sentir, tem o vazio deixado pelos chicos e pelas marias, tem aquela cara de chegada de alguma viagem longa, dessas que a gente inventa por aí, de sair pedalando como o xará e o maestro, de levantar o dedo sob algum vento novo, de escalar morros ou simplesmente permanecer na própria cidade, zanzando e colocando as pestanas para propósitos verdadeiros, projetos intracontinentais, novas funções, criações momentâneas envolvendo uma meia dúzia de argentos, alguns instrumentos, uma bocada de empreendedores duvidosos, eventos multiculturais, muita paciência e ainda uma exposição reciclada sem capitães e em pleno setembro-chove.

Falando assim fica mais fácil, atropelo sentimentos tolos e caretas e deixo a palavra saudade acaçapada naquele dicionário da família Buarque de Holanda, distante dos outros idiomas que a desconhecem. Aproveito para agafanhar palavras desse livrinho roxo, e engranzar nessa história, cada detalhe e cada partícula de emoção, as boas e as ruins, que vivi nesses cinco locos meses ao lado dela e desses vagabundos callejeros – um bando de aproveitadores e inconsequentes, desses que insistem na utopia da liberdade galeana e para isso contam com a ajuda de algum bom coração, alguém que como eles, também se sente vivo e maldito por tentar ser artista na pior hora possível.

Atravessamos esse duro inverno curitibano, absortos em cortinas de fumaças variadas, transmutando as malas ondas e remando contra as correntes, mas espere, antes que eu siga nessa conjugação maioral e pluralizada, parte de algum discurso motivacional para uma plateia de adolescentes famintos por direções, antes que eu siga adiante na caminhada citada pelos seletores de freqüência; preciso respirar, acrescentar vírgulas, e esquecer um pouco esse papo de coletivo, de união e de não sei mais o quê.

Palavras ruidosas ou poéticas não irão me salvar e o consolo é saber que talvez tudo isso seja parte de alguma história maior, que será arquitetada nas próximas décadas em passos curtos, por gente cansada das ladainhas do passado e das promessas generosas, e que sabe ou sente que a pontuação é relativa, e que para chegarmos próximos de qualquer grande sonho é necessário começarmos por algum beco.

Com ela comecei, repetindo padrões impulsivos e provocando infindáveis discussões entre espelhos distorcidos e manipulados por premieres e photoshops, maquinetas capazes de transformar roteiros novelescos e fotos repetidas em algo supostamente fresco e palatável para a rotina caótica em que eu havia me metido.

No apê circular convivi com Letícia, seu gato Rodrigo, seu amigo colorido, suas janelas sem cortinas e seu banheiro sintonizado na rádio em tempo quase integral. No quarto, imagens de divindades orientais e cobertores sedutores me lembravam das contradições ambulantes e agora, enquanto escrevo e redesenho essas imagens, percebo pelas rimas naturais dos dígitos que ainda levarei algum tempo para compreender aquela nossa relação, as reiteradas faíscas, os desejos conjugais partidos ou os defeitos gritantes de ambos os lados.

Enquanto isso, do outro lado do centro, na rua que homenageia solenemente o clássico “Besame Mucho”, os argentos mais piolas seguiam suas metas diárias, de conseguir moedas e notas pequenas para encherem suas panças no restaurante sem quilo, saciarem os tédios noturnos no bar dos facitos e manterem o quilombo no apê emprestado.

O bolo crescia ligeiramente e logo o local, que já fora palco de peças melancólicas estreladas por artistas quarentões, famílias em tratamento hospitalar e mochileiros estrangeiros, agora recebia membros de uma orquestra de músicos de rua, mesclados com uma trupe londrina e com o garoto de ouro da rádio clandestina.

Agora, definitivamente sozinho, sem Letícia, sem Caldabranca (este se foi para Roma, ser bonvivant) e sem os hermanos, tomo um banho de porta aberta, enquanto tento entender o que foram esses cinco loucos meses. Certamente aquele apê carregará histórias para as próximas décadas e como diria o velho Waits sobre despedidas: “Well today is grey skies/Tomorrow is tears/You’ll have to wait til yesterday is here”.

E se o ontem não está por aqui, resta a esperança no amanhã e a calma no hoje.

Primavera, seja bem vinda.

contos, pseudojornalismo

Lambalada na Terra dos Gringos

felipe

“Lambalada” em plena segunda-feira de janeiro, no clube dos operários e forrozeiros, na cidade dos fantasmas. Que rapaz atrevido, esse tal de Felipe Cordeiro. Curitibanos dançando lambada e carimbó? Você ficou louco? Segundas são dias de reclusão, dias pra não sair do quarto e se arrepender dos excessos do fim de semana. Dias pra lembrar que precisamos trabalhar, pagar nossas contas e manter a roda do conformismo girando em velocidade constante rumo ao sonho da casa própria, dos filhos mimados, do emprego estável e do casamento conveniente.

Felipe tinha outros planos. Felipe vinha do Pará, de um Brasil ainda possível, cheio de alegria e de um tipo raro de malemolência, contagiante, libertadora e extremamente necessária para seres oriundos do sul, seres estranhos que até num calor que beira os 40 graus, continuam frios e chatos em conversas sobre o tempo ou sobre as notícias da semana.

Felipe veio para cumprir a função social daquele rapaz vindo do norte que vem para o sul para nos lembrar o que é Brasil, o que é Carimbó, Lambada, Tecnobrega e não sei mais o quê. O povo daqui é rock’n’roll e quer continuar mirando para continentes distantes e gelados, e talvez os mais alternativos sejam aqueles que vão pra Europa fazer mochilões de um mês, com o dinheiro economizado no ano ou ainda, com a grana dos pais.

De qualquer maneira esse texto não será para achincalhar a cultura local ou talvez a falta dela, mas sim para exaltar os encantos da música popular de Felipe Cordeiro e sua trupe. Seu pai, um dos mestres da guitarrada também estava lá, balançando corações com seus solos hipnotizantes com ecos de Dick Dale. Dick Dale, o avô da surf music, se tivesse nascido no Pará e em outra época, poderia ter sido batizado pela alcunha de… Felipe Cordeiro. E se Dick Dale tivesse um pai guitarrista, ele seria o pai de Felipe.

É claro que essas minhas comparações vêm de alguém do sul, de alguém que começou a se familiarizar com os sons nortistas há poucos anos, e que seguramente não conhece a história do Carimbó ou da lambada além do Magal, que costumava passar na novela. Talvez existam centenas de Felipes Cordeiros, e caso alguém que esteja lendo essas linhas queira me recomendar outros nomes, ficarei imensamente grato.

A festa ontem começou cedo, perto das 10 da noite, com o Felipe discotecando sons de sua terra sensual para uma plateia ainda tímida e esparsa. Em certos momentos me senti como se estivesse em algum prostíbulo, não pelas garotas vestidas de hippie-retrô-brasileiro ou pela decoração do palco, mas por algumas canções que lembrei ouvir em tais recintos. Achei bacana e pensei, esse rapaz abusado está trazendo os puteiros para os clubes da classe média, e mesmo que essa não seja sua intenção, talvez esse conceito “pós-moderno” e meio antropofágico seja justamente onde está alojada a força da música de Felipe Cordeiro.

E quando o show de fato começou, os fantasmas haviam tomado conta do espaço, que agora era composto não mais por fantasmas da noite curitibana, mas por seres encarnados que não conseguiam mais permanecer em suas mesas e em suas posições de conforto. No palco, o duelo de guitarras estridentes ditava o ritmo, enquanto na pista, casais de todos os gêneros bailavam do jeito que podiam a música que talvez ainda não tivessem compreendido. “Don’t you fear, if you hear, a foreign sound to your ear”, já dizia o velho Dylan, e quem mesmo foi que disse que música é pra ser entendida?

Se a alma não tem cor, a música muito menos. E quem disse que não era possível encontrar o paraíso tropical em plena segunda-feira, na “cidade dos normais”? Quem estava lá pôde testemunhar esse fenômeno responsável por chacoalhar partes ociosas de corpos enferrujados, acostumados com movimentos duros trazidos pelos ingleses, por ondas de rádios caretas e preocupadas em ditar tendências atrasadas.

Felipe percorre caminhos paralelos e talvez sua única preocupação seja mostrar a verdadeira música brasileira que sempre esteve por aí, ainda que parte dela tenha sido relegada a inferninhos ou a bailes propositalmente bregas. Ontem, Pará e Paraná encurtaram suas distâncias, provando que na vila “Footloose”, ainda existe dança. O show não pode parar e que venham outros Felipes Cordeiros para cá.

Quem sabe, um dia, não comecemos a produzir os nossos?

Dicas Musicais, pseudojornalismo

Charme Chulo no Teatro das Pólvoras

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Foto: Arnaldo Belotto

Vinícius e Toquinho abriram as portas daquele lugar. A pólvora histórica virou poesia e dali em frente a arte reinou na praça do famoso pintor. Décadas se passaram, poderes e governos ainda mais corruptos foram destituídos, e hoje o Teatro Paiol foi palco de um show de rock estranho: meio caipira, meio jacu, meio curitiboca, meio Smiths, meio ska, meio batidão, meio axé e até meio zumbi.

Depois do hiato presente em noventa por cento das bandas do século 21, os caras renasceram mais feios do que nunca, com sangue de pinhão escorrendo pelos cantos das bocas secas e cheios de rachaduras e cicatrizes oriundas do ofício de se fazer rock no país do samba e da bossa. Voltaram mais fortes, reinventando pela quarta vez a moda caipira de Irati ou sei lá de onde.

Crucificados pelo sistema bruto (nome do último pão), os charmosos fazem parte daquele grupo de bandas talentosas e inventivas (sem perderem o apelo comercial) mas, que por algum motivo desconhecido, permanecem na cena alternativinha da galera da Trajano. O sistema bruto, que parece escolher os queridinhos da vez, continua fazendo suas vítimas e não há muito o que fazer para mudar esse quadro, que a cada ano enferruja ainda mais.

Quem sabe algumas listas de melhores do ano possam reparar esse estrago.

No palco do Paiol, o que vejo é um som de primeira, letras pegajosas recheadas de poesia pós-moderna (seja lá o que isso possa significar), direcionadas para uma plateia heterogênea, louquinha pra sair pulando e seguindo o trenzinho da alegria, turbinada por litros de cachaça da serra e vinhos de mesa.

Impossível não se sensibilizar com a viola sateriana do Leandro ou com a performance do xará: suas nuances vocais, suas palmas ferozes, suas danças zumbis e seu olhar em contato direto com seu peito, cheio de amor pra dar. Piegas é ter medo de falar desses lances.

A cidade grande assusta, com seus “playboys com seus carros na Batel”, seus motéis, seus políticos, seus pastores e suas mentiras. Aos poucos, ela “aniquila sua cabeça”, te “engolindo” e pedindo um “êxodo urbano”, afinal, “às vezes, melhor é morar na fazenda”.

No mato, na praia ou no campo, a vida é mais simples, não existem produtoras, agentes pentelhos ou fãs mal-intencionados. Poderia seguir falando dessas coisas bacanas, mas o pessoal do The Band já fez isso no documentário do Scorcese.

“Hoje o rock anda frouxo demais”, e a consequência maior da gente “escolher viver de sonho” é aquela que você cantou hoje “Sou imortal e não tenho onde cair morto”. Se depender da vaquinha virtual, continuará existindo alguma luz no fim desse túnel construído de sangue e palha, chamado rock nacional.

Só posso pedir a Deus, em tom de jagunço, que abençoe esses meninos brilhantes, pois nem Jesus foi capaz de uma segunda ressurreição.

** clique aqui para baixar o disco duplo dos caras **

contos, pseudojornalismo

Cinema de Novidades

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Um cinema cheio. Seres são franciscanos, travestidos com jaquetas desbotadas e camisas multicoloridas de brechó, invadiram o espaço destinado para a sétima arte. Na tela, uma imagem estática, uma capa branca minimalista com cara de bíblia, “O Novo Tentamento” e logo acima um olho maçônico, que vez ou outra pisca, causando um estranhamento ainda maior. Abaixo do título, um nome, oito letras. ESCAMBAU.

As luzes se apagam e o filme está prestes a começar. Filme? Que filme? Que nada, trata-se da primeira audição pública do novo disco da banda Escambau, de Giovanni Caruso, sua mulher e seus comparsas. Mas espere aí, o que é isso? Não vai ter show, não vai ter filminho, trailer e essas porras todas? Não, na tela permanecerá imóvel a capa do disco, com esse olho místico piscando e com os nomes das canções aparecendo no espaço branco.

No som, o que se ouve é uma verdadeira odisseia rock neo-apocalíptica, com toques de boleros e recheada com pura psicodelia. Uma viagem musical para ser sentida e apreciada em uma sala escura, silenciosa, com características que remetem a um espaço que costumamos chamar de cinema. Poderia ser em uma igreja, pegando carona nesse conceito bíblico criado pela banda, mas talvez isso afastasse os malucos de plantão.

Agora me diga, quando, você ou eu, ficaríamos 40 minutos parados apenas para ouvir um disco. Sei que isso devia rolar antigamente, na época de ouro dos vinis, você comprava o disco, ia pra casa dos amigos e mudos, escutavam atentos cada faixa da obra, sem intervalos ou distrações. Hoje, na época dos smartphones e das redes sociais assépticas, isso parece virtualmente impossível. Mas não é que os caras conseguiram?

Digo por mim, e talvez por outras pessoas que como eu, não sacaram seus iphones para checar as atualizações insignificantes do feicebuque. Ao contrário, ficamos lá, congelados e apenas movimentando as mãos para bater palmas no intervalo das canções. E que canções! Já conhecia os trabalhos anteriores dos caras, mas senti uma maturidade incrível nos arranjos, melodias, acabamentos e nas letras, transcendentes na maior parte das vezes, irônicas e satíricas em outros momentos, mais divertidas.

“O Novo Tentamento” é o equivalente ao “Construção” de Chico, ou ao “Pet Sounds”, dos Beach Boys. Marca uma mudança clara e um novo direcionamento no rock produzido no sul, que agora atinge o universo, as galáxias, para se perder em algum buraco negro por aí. Torço pra experiência se repetir, apesar de saber que poucos discos merecem tamanha atenção e espero seguir acompanhando essa curiosa evolução sonora do Escambau.

No cinema cheio, jovens viajantes do tempo derretiam seus cerebelos em uma espécie de cinema mudo às avessas: na tela, uma imagem parada, nos alto-falantes, pirações fonográficas amplificadas por símbolos sonoros e versos místicos ou bobos criados por roqueiros cansados dos velhos rótulos e das balelas radiofônicas dos últimos 20 anos.

Tentamento é ficar de fora dessa.

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Curitiba e Seus Fantasmas

giovanniFoto: Michele Zambon

Por entre ruas desertas, encobertas por uma garoa fina e típica da estação, caminho na companhia de uma russa, em direção ao “bar mais charmoso da cidade”. Svetla me diz que esse tempo faz Curitiba parecer Moscou e que a arquitetura da cidade se assemelha a Sevilha, na Espanha. Mas o que acontece nessa cidade que basta uma garoa e um friozinho e você não vê quase ninguém nas ruas? Meu amigo baiano havia comentado, semanas atrás, que isso o assustava e que no Rio, era justamente o oposto. Porém, lá não tem frio e esse fato justificaria muita coisa caso Porto Alegre fosse morto como aqui, pois lá também faz frio mas o povo continua saindo pras ruas. Isso sem falar nas outras capitais frias mundo afora e que possuem, apesar do mau tempo, vida pedestre.

Curitiba tem essa estranha particularidade, as pessoas preferem lugares fechados, shoppings da moda, sofás aconchegantes e carros com ar quente, ao invés dos encantos das ruas, com seus mendigos, seus bêbados e suas putas.

Chegamos ao bar em questão somente para constatarmos que éramos os únicos clientes. Tirando a gente, havia o dono, dois funcionários, o cantor, sua esposa e duas amigas. Enquanto fumava um cigarro, o cantor veio me perguntar se havia algum problema se ele começasse a tocar às nove, já que o cartaz anunciava que o show começaria às sete.

E talvez o que tenha salvado a noite foi justamente quando ele, o cantor, decidiu finalmente começar a cantar suas canções, acompanhado do violão e de um cenário bucólico, cheio de adereços peculiares, oriundos das mais belas máquinas do tempo. Giovanni cantou as dores das paixões, as brigas de gangues, os vícios nos Beatles, as roupas sujas e até sobre o bloco de rua do saudoso Sergio Sampaio. Tudo despido, em um resgate ao embrião da canção, sem compromisso e sem frescuras, para uma plateia de fantasmas sedenta por algum tipo de calor, além dos vinhos e das cachaças servidas no bar.

Mas suas canções sinceras não prometiam esquentar, pelo contrário, só contribuíram para a petrificação dos raros corações que ali tentavam se encontrar.

E o jeito foi partirmos, enchermos nossos estômagos com frituras e adentrarmos o bar do chapeleiro maluco. No palco, um rock caipira mais animado fez a russa esboçar movimentos craniais verticais, em algum sinal de aprovação. Porém, o cansaço falou mais alto e cedo retornamos para casa, na cidade dos fantasmas.

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Desafios, Pesos, Goles e o Escambau!

escambauO dia começou cedo, o frio e as tarefas pela manhã davam um pouco de medo, mas Gerson, que me fizera companhia no ponto de ônibus, não tinha esses receios. Estava indo descansar após seu turno como porteiro no condomínio grã-fino ao lado e, pasmem! Só estava de camiseta no meio daquele gelo tórrido de qualquer outono curitibano. Disse que desse mal ele raramente sofria, pois vinha de Guarapuava e lá a coisa era muito pior. Gerson também é bombeiro e saiu de sua cidade natal após a morte do pai, baleado em um assalto.

No hospital, o médico está atrasado. É feriado e, além de um porteiro de cara virada, roletas de entrada estáticas e pães de queijo cenográficos na lanchonete da frente, há também uma garota, que minutos depois, auxiliada pelo pai, recebe sua mãe, que está mancando.

Não tenho consulta marcada, porém preciso de uns papéis que o doutor me entrega cordialmente após breves conversas repetidas sobre Montes Claros, universidades, medidores de gordura e falta de estrutura no país dos pães e dos circos.

Do lado de fora, o frio diminui, o sol abraça e a farmácia a que decido ir está fechada. A outra, imponente e supostamente com o melhor preço da cidade, segue ativa como quase sempre, e lá, no paraíso dos hipocondríacos, gasto duzentos reais em medicamentos.

Saem os deveres e os medos, deixo as pequenas caixas coloridas com a mãe que precisa delas, enquanto mudam os temas das conversas ao telefone. Os prazeres do dia se aproximam, mas antes ainda preciso levar um forno elétrico, uma mochila e uma garrafa de vinho à casa dos amigos pelotenses.

No mercado cartelista do centro, encontro os outros, curitibanos, ou melhor, colombenses, mafrenses e valinhenses, e isso pouco importa, pois como dizem por aqui, quem fica na cidade, mais cedo ou mais tarde vira curitibano ou foge antes que isso se concretize. Compro a cerveja pro Johnny, mas volto para o restante do troco.

No sobrado novo, os amigos de sempre e uma ilustre companhia de idade avançada e de cabeça livre, agora em versão leve e solta, com a alegria e o olhar crítico de sempre e as histórias tropicalistas de um Rio efervescente. Na mesa, espetos de soja, pães de alho, maionese sem ovos e lasanhas com brócolis, outras verduras e massas também sem ovos. Nas mãos, copos de cerveja, uísque, vinho e de água sagrada. Fotos da família que a gente escolhe, fotos espontâneas para os feicebuques, discussões sobre os velhos temas, canções de um Dylan mexicano e silêncios profundos interrompidos por caras chatos. Nos intervalos, fumaça.

Mais jovens e embriagados de amizade e de tudo, seguimos para o shopping e para o bocket-show (não tem, depois do Caetano, quem sou eu pra chamar esse tipo de evento de maneira diferente) dos meninos do escambau na livraria das perdições e das contradições. O brother Davi comanda as câmeras enquanto um apresentador entusiasta da cena local nos lembra do Baixo São Francisco como sendo o lugar onde o novo e o diferente ainda predominam. E nesse universo, a banda que se prepara pra tocar é um dos destaques principais. Discurso bonito e verdadeiro, pelo menos na primeira parte. A segunda, veremos a seguir.

No palco improvisado em meio aos livros, jovens rapazes coloridos e antiquados, tocando instrumentos variados e enferrujados. E no meio dessa sujeira positiva, uma garota paraguaia, num visual que mistura duendes irlandeses, extintas aeromoças e não sei mais o quê, cujos olhos arregalados e hiperfocados fazem Valdir se lembrar da Laranja de Kubrick. De fato, a configuração estética do grupo lembra os inocentes mutantes e sua Rita, como o senhor bem comparou na sua pergunta sobre as influências da banda, se elas vinham somente desse período ou se também possuíam referências “mais modernas” como “Barão Vermelho, Skank e Cia.”. Mas sinto que a doçura vocal e a postura naïve daquela Rita de outrora foi substituída por um ar de contestação pela paraguaia em questão que, em seu canto e, principalmente em seu olhar, deixa transparecer uma brutalidade peculiar na idade, mas ausente em grande parte das cantoras de hoje em dia.

E se as influências da banda passeavam também entre o tango e o grande Chico, como o líder Caruso afirmou, não pude deixar de notar o tom político e liberal de algumas letras (“As fraudes no congresso / A rotina nas favelas / A visita do papa”, para citar apenas um trecho), contrastadas com a propaganda da livraria sobre um suposto lançamento de mais um livro do padre pop, Marcelo Rossi.

O show de bolso acaba com aplausos estridentes de uma plateia aparentemente careta, criada em shopping e alheia aos bares do tal Baixo São Francisco, mas ainda cativada pela postura da banda eclética e da performance autêntica da segunda vocalista do país ao lado.

Ajudo Davi com os equipamentos de câmera e novamente me vejo carregando peso, agora por entre vitrines e tantos outros estímulos desnecessários. No elevador cheio, o encontro com a banda de minutos atrás é ligeiro e me lembro do bebê morto que carrego na caixa preta. Caruso fica com saudade da sua terra ao conversar com a mãe de Flavinha, a mesma do almoço vegano e parceira da fumaça e dos papos tropicalistas. Afinal, Pelotas e Rio Grande possuem afinidades que nós curitibanos estamos longe de entender.

Ao chegarmos ao carro de Davi e Flavinha, outro desafio do dia – tirá-lo do estacionamento sem arranhões e mantendo os retrovisores, e sem nenhum ato de vandalismo contra o carro do dono ou da dona que, por algum motivo ignorante, trancou a saída rápida do famoso “Bilbo”. Pois é, também acho estranha essa coisa de dar nome a objetos inanimados, mas o carro é deles, eles são gaúchos e fazem o que querem com seus mimos.

E depois dessa saga com final feliz, sem arranhões e passando a milímetros das vigas triangulares, e como não poderia faltar à nossa ilustre visita da melhor idade, chegamos ao bar dos barbudos de sempre, mas que nessa noite, em especial, estava de algum modo, diferente. Recebo mensagens de texto do amigo espiritual que mora em São Paulo, mas que, por causa do feriado, está na cidade. Suspeito que o mesmo aparecerá no local e sua atitude dudeísta não me deixa precisar quando isso de fato acontecerá.

Os pacaias enchem as bocas dos amigos e das amigas, depois dos feijões baianos com bananas de pacotinho saciarem a fome de Sakura, mostrando-nos que sim, há uma outra opção além dos pacaias e das rústicas batatas para aqueles que, por algum motivo, deixaram o sangue de lado.

A noite é encurtada para a pessoa que lhes escreve após uma mensagem de texto, não do amigo antigo que ainda não havia aparecido, mas da mulher de coração, que me pede um medicamento em caráter de urgência. Saio com Johnny até a farmácia, compro a parada e fico no quarto táxi, finalmente livre, que me leva até a casa encantada, mas que nessa noite, em especial, estava sofrendo alguns ataques. Nada que alguns químicos e uma dose favorecida de fé não possam reverter.

Ainda me readaptando à nova cena me dou conta dos setenta reais no porta moedas peruano de que já havia sentido falta ao entrar naquele quarto táxi. Mas que louco sai de casa com setenta reais no bolso? Bem, e se eu disser que cinquenta nem eram meus?

Termino esse conto de doido sem a pretensão de alguma conclusão lógica e citando o rei das titias e dos jovens descolados, misteriosamente esculpido na assadeira do amigo pelotense: “Não há dinheiro no mundo que me pague a saudade” que, nesse caso, eu sentirei de você, Mamãe. Desta vez, os químicos e as preces funcionaram, os ataques cessaram e é hora de dormir, sem os pesos do dia.

 

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