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Crônicas de Nácar #08: Excrementos e Falsos Padres

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Sonhos intranquilos, sonhos coletivos e individuais. Sonho de religião, sonho da casa própria, sonho de comunhão, sonho que surge do nada e vai para a nata de outro sonho promocional recheado com o doce de leitevegano para os fundamentalistas e azedo para os fatalistas. Que nada, quero o bem deles, o sol é de todos e para brilhar basta não esquecer do protetor solar de Michael Douglas. Spray para os globais, óleo de coco para os naturalistas. Códigos e bizarros sinais, senhas implantadas, frases de sax, solos em fruit loops e la mala leche para los puretas, especialmente na cidade das frias primaveras e das verdades absolutas absortas em ideologias furadas. Ontem vi um cara defecar e depois manipular seus excrementos na parede esculpida por artistas consagrados de um passado distante. Enquanto encenava um quadro vivo de Sade, uma plateia o observava em plena praça púbica, os colegas riam e aplaudiam, enquanto outros seguiam na pergunta ocidental mais enferrujada e caduca desse meio. “O que é Arte?” Confesso que senti um leve contentamento quando o rapaz chupou seus dedos e assim demonstrou, ao menos para si próprio, esse lance de sermos uma coisa só e porquê tanto nojo de algo que sai de você? “Ah, mas eu estudo e pratico pra chegar onde estou, esse cara só precisou comer algo para poder cagar na frente daquelas cinquenta pessoas, pessoas que não tinham um programa melhor pra fazer.” É bro, mas por trás daquela cena havia um texto, memorizado e interpretado enquanto os olhos e os narizes se concentravam apenas nas fezes. Havia um contexto libertário e transgressor importante para tempos cinzentos e temerosos típicos das repúblicas sem histórias. Novamente me recordo da frase dita no megafone gralhento: “É preciso conhecer as estranhezas que acontecem por aí”. Hoje posso dizer que vi tudo isso pertinho de casa, bebendo um vinho com amigos. Percebendo e respeitando seus limites, como peixes em oceanos ou pássaros em altitudes pré-definidas. Deixe suas regras e suas leis pra depois, somos seres cósmicos e universais, mas deixe esse discurso nova era pós-tropicalista pra depois também, a mesma conexão espacial infinita está no chão que você pisa e nesse pó terrestre que nos criou. Seja humilde e respeitoso, de resto, viaje a vontade, viaje nos baratos filosóficos, canábicos ou cachaceiros de possibilidades mil, anos-luz de qualquer milícia com ou sem malícia, onde a censura mais profunda nasça desse autor de histórias sem fim e que deixou de ser ator de storylines repetidas com finais previsíveis para se tornar a água mutante de Bruce Lee.

A lua rosa do tio Drake aparece novamente, por entre xícaras da silva, folhas e pães caseiros, por entre lágrimas de frustrações, discursos vazios e sentimentos vulgares. O mago precisa ir pro lago para perceber que a realidade estava somente no lago. “It was forty years ago”, a luz estava lá e jamais deixe que a obscuridade familiar dos ciclos aparentemente diferentes atrapalhe sua cura interna. Tivemos paciência, porém uma hora a corda da inocência é rompida e os fiapos que ficam são lembranças de atitudes contaminantes, sujeiras no chão quadriculado de outro palco improvisado e que também fora aberto pra ti um dia.

Preciso dessa brecha e desses brechts inexplorados, preciso desse blues acústico do eterno garoto de 27 anos que morava em um castelo, preciso do tabaco bolado ressuscitador de ritmos esquecidos, preciso desses reluzentes olhos negros da mamma mia dos meus dias, olhos puros sem julgamentos prematuros, olhos jequieticongues e tibetanos, ojos del amor después del amor, olhos da maçã antes da mordida, observadores e hinduístas olhos de shiva que se aproximam do aniversário em inglês. Yes! It’s your birthday and we are gonna have a birthday party, afinal, o que vemos pode ser apenas a superfície de um oceano de conexões e incríveis mistérios compreendidos por seus baby eyes. Você é o que é e nunca ninguém precisa entender o porquê de você ser assim, me explicou Caldabranca, outro eterno jovem e que agora voa por praias celestes de países menos complicados. E que você também seja as free as a bird can be, ou como assobiaria outro Bird amigo, break it yourself. Nadie fará isso por ti.

I’m sorry, mas palavras não te salvarão. Sua história muito menos. Aceita-la pode ser o começo. Boas intenções ajudarão, pois os receptores estão cada vez mais atentos.

Luz, câmera… Ação!

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Novo Leiaute e o Velho Passado

novo_leiauteSemana passada teve o dia do trabalho, mas falar de passado é coisa démodé e falar démodé é ainda mais atrasado. Mas ando meio assim, ultimamente, atrasado e folgado, realizando pequenas ideias do passado, reciclando projetos antigos, revendo velhos amigos e ouvindo discos dos anos sessenta.

Citei o dia do trabalho porque nesse dia decidi nadar contra a corrente e assim, utilizando outra expressão enferrujada e manjada, decidi que, em vez de descansar, era tempo de trabalhar.

Trabalhar para a minha pessoa: sem intermediários, chefes chatos, subchefes incompetentes, estagiárias atrapalhadas ou colegas arrogantes, mas com as pertinentes distrações de se trabalhar em casa e sobre isso, nem perderei meu tempo em detalhar. Afinal, o tempo corre e se eu começar a me alongar demais por aqui, perderei você, nobre leitor – porém não dramatizarei dizendo que perderia a razão pela qual escrevo, pois essa eu confesso que ainda não encontrei.

E como o Roberto suplicava contra os ventos, é por isso que eu corro demais, ou talvez seja por isso que eu não corro mais, mas compreendo por que os outros correm demais, pois também aprendi com o Almir a andar devagar e, com o Bowie, aprendi a citar gente importante.

Tão devagar que esse blog que você está lendo e com um nome inglês metido à besta, citação-de-escritor-pseudocult-underground, já tem alguns anos de existência e somente agora ou, na verdade, na quarta, no dia do trabalho, somente nesse dia ele sofreu a primeira grande mudança em sua curta passagem, biologicamente falando, ou longa vida em se tratando de tecnologia, internet ou tipos de leite.

Pois bem, falo do “leiaute” como diria um Zé aí – da estrutura do blog, que agora em sua página inicial se assemelha um pouco mais com os extintos jornais de papel, comuns nos anos sessenta para embrulhar peixe frito na Inglaterra e, nos mesmos anos em que Roberto cantava suas canções botânicas sobre brotos e os discos dos besouros eram a coqueluche das festas de arromba.

Além dessa aparência antiquada e meio boba, há também uma espécie de “menu superior” onde o leitor poderá “navegar” entre as principais categorias do blog, encontrando de maneira mais ligeira, conteúdos sobre os assuntos que mais lhe interessam no momento.

Na “barra lateral”, tentei deixar o objetivo mais claro, ou escuro, já que o fundo das caixas é preto. Nas gavetas, você encontra todas as categorias, sem distinção de importância. Abaixo, você pode assinar o blog, sem custo algum, porém ele não chegará na sua caixa postal como as revistas da Abril pelas quais você pagava, mas nem sempre as lia.

Na caixa “sobre” há algumas palavras-chave ou “tags” sobre assuntos abordados nos “posts”. Queria evitar tantas palavras da moda e estrangeiras, mas tá difícil.

Em seguida, abaixo das “tags”, há os nove últimos “posts” – o número foi reduzido por uma questão cabalística e por eu curtir muito aquela história, dos anos sessenta também, sobre “number nine, number nine, number nine,…”

 

Ah, quer saber, o restante das caixas pretas ficará para uma próxima, que provavelmente não deverá existir, pois essa história andou me lembrando dos longos anos em que trabalhei “desenvolvendo” manuais de ajuda de “softwares” e esses termos “menu superior, barra lateral e blablablá” fazem parte agora de um lado escuro do meu passado e da minha lua floydiana, felizmente um passado ainda muito próximo e assim, longe dos anos sessenta, quando minha vida era muito mais tranquila e de onde tenho buscado minhas inspirações ultimamente. Esse blog é sobre esse tempo, mas longe de pregar aqui um saudosismo burro, continuarei falando sobre o que aconteceu semana passada ou na noite de ontem ou ainda, na manhã de 2049.

 

E citando o Caetano, que também é dos anos sessenta e eu sei que você já sabe disso, mas eu não poderia perder a oportunidade de repetir esses anos dourados da minha vida inventada e assim, continuar sendo prolixo e chato como sempre; enfim, Caetano mandou um “abraçaço” que agora, eu estendo a você, admirável leitor que conseguiu chegar até aqui.

E como ele dizia na TV do passado, gíria a gente não explica. Poesia, segundo o velho barrigudo e bigodudo de Curitiba, também não.

“Leiaute” de blog talvez sim e olha que eu tentei.

 

Em tempo, e resgatando um pouco de uma velha coluna aqui do blog sobre dicas musicais, termino esse texto ao som da bailarina das semanas astrais do também seiscentista Van Morrison.

The Show Must Go On.

contos

Curitiba Nonstop

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Noite de quarta. Aniversário de improviso do jovem Paul, pizzas do tio, coca-cola, presentes atrasados, desenhos de Bob, pizza doce presente do tio, histórias de família, risadas, improvisos na gaita curta e no violão mexicano desafinado do rapaz dos dedos largos, o preto sai e entra o rosa.

Noite de quinta. Alpargatas na tempestade do equinócio de outono, críticas ao teatro, espanhol falsificado bêbado chato quebrando copos, Johnny e Brian pisando nos cacos, papos desconexos, universitários dos cursos de sempre, loira alta e magra buscando a festa pós-esquenta e o namorado inteligente do curso pseudocabeça que lembre seu pai ausente, cara descobrindo mais uma utilidade pros pelos de sua vasta barba, garoto bêbado rebelde estacionando o carro do pai sem cuidado, porta abrindo e raspando na calçada de pedras, namorada ruiva de pato branco, dono insistindo na piada, Johnny e Brian insistindo na cerveja e nos cigarros na chuva.

Noite de sexta. Reencontro de velhos amigos cada vez mais velhos, cervejas no mercado, voltas na quadra, novas companhias, papos entrecortados, deus e o diabo tentando unir os dois grandes tesouros da humanidade, pouca humildade na apresentação do artista tardio, novos projetos, mais rostos conhecidos, senhor de idade distante das drogas pesadas e parceiro para voltas na quadra, casal de amigos de passagem, o marido fica, casal de marceneiros legais, Curitiba é melhor que Joinville, cachorro quente sem vina e sem espera, mercado pré-balada, meninas de saia, garotos estranhando o cigarro do cara, taxi pra casa.

Sábado à tarde. Festival na praça importada, céu azul, sol, carro torto e aberto na rua escondida, espaço gourmet, micro-fatias de pizzas superfaturadas, sopas e caldos com costela de Adão, família reunida, óculos escuros do cantor cego, banda olímpica tocando rock, cachorros se pegando, criança hell angels apavorando na moto de brinquedo, ala dos shortinhos e das pernas das revistas, meninas com os mesmos narizes, playboys de plantão, promoções irreais, história da arte na casa do professor, chute sem querer no namorado sem nome, culpa do game do Michael.

Noite de Sábado. Volta na quadra com o reconhecido e seus conhecidos, racionalizando Tim Maia e os novos rappers, menina corrigindo a baliza e deixando a menina da rua envergonhada, amigos de volta na praça, Paul, Wilde e Brian atingem o estrelato, xépes citrus, Yoko de chapéu da moda querendo dançar, despedidas, Straits e seu dinheiro pra nada, Floyd e a música da torcida, casal e amigo buscando sanduíches na nova barba, mau humor, pratos americanos com o ketchup do filme, hambúrgueres de batata e de grão de bico, joguinho da verdade, carro pra casa da mãe, medicações necessárias, esposa descansa, parceiros em busca de barbudos, cigarros e as cervejas de sempre, ex-vizinha leitora com o novo namorado, discussões pequenas sobre língua portuguesa e o uso da crase, grandes discussões sobre amizades e o uso do tato, alguma compreensão e muito sentimento, cigarro na lateral do bar, portas fechadas, propostas de banda, mesas e cadeiras amontoadas, mais cervejas, mais um cigarro, dois ingressos pra festa dos gringos faltando um, velha rua com luzes novas, gente amontoada na cerca dos fumantes, desconto negado, disque jóquei interessante, menina e mulher afim do mesmo garoto, drink em copo de plástico, Brian cansado e querendo partir, fila pra pagar imensa, samba pro gaúcho, professora de maracatu, gases fedidos, francesas que falam português, gaúcho falando portunhol, italianos conversando com o garoto dos vinis, sonhos de artista, táxis demorados, garoto e mulher encontram a paixão nas últimas horas da madrugada, gaúcho espera sozinho e sem créditos em seu celular.

Noite de Domingo. Festival de novas bandas no bar da adolescência, sai a vodka barata e entra o rock com água, Cream e os blues caseiros surpreendem, baixista sério, platéia de amigos, a nova banda mais fofa da cidade, adolescentes cantam e se abraçam, banheiro, conhecido da próxima banda, produtor viajando, xixi, cigarro, cachorro quente sem cartão, ando meio desligado no palco, platéia semi-vazia, amigos no camarote, canções e letras de qualidade, saxofone especial, balanço legal, o eterno romance de Paul, rosto limpo e piadas verticais entre os silêncios, dançarinos imaginários, casal de amantes bebendo água, dores de ouvido, a viagem no palco, compromissos importantes, breves desabafos, parabéns ao amigo pelo filho que ainda vai nascer, desculpas públicas pela saída francesa, escada, rua, carro, casa da mãe, medicamentos necessários, textos compridos demais imitando alguém, quem os lê, talvez gravando fique melhor, o sono também deixa bêbado, chocolate na madrugada, banho, cama, carência, insônia, revisão de prioridades, revisão mental do texto, insônia, o peso nas costas, abraços, insônia, mãos dadas, sonhos de um bêbado sem iluminação.

Dicas Musicais, podcasts

[pace is the essence] Podcast #06: O Sono e o Sonho (Parte 2 – O Sonho)

E segue, depois de um longo intervalo, a segunda parte do programa sobre o sono e os sonhos. Nele você escutará canções relacionadas ao tema, além de comentários e curiosidades sobre o mundo dos sonhos. Críticas ou sugestões são sempre bem vindas.

Segue a tracklist:

Sufjan Stevens – Interlude I: Dream Sequence in Subi Circumnavigation
Miles Davis – Moon Dreams
Buddy Holly – Moondreams
Nico – Wrap Your Troubles in Dreams
Jon Brion – A Dream Upon Waking
The Books – Read, Eat, Sleep
Circulatory System – I You We
Circulatory System – Should a Cloud Replace a Compass?
The Beatles – Flying
Flaming Lips – Bad Days
John Lurie – Dream Elaine Driving
Randy Newman – Last Night I Had a Dream
Don Mclean – No Reason For Your Dreams
Tom Jobim – Dreamer
Cérebro Eletrônico – Portal dos Sonhos
Kate Bush – Army Dreamers
Beach Boys – Diamond Head
Misophone – Tired of Silly Dreams
Wilco – Was I In Your Dreams?
Bell Orchestre – Recording a Tunnel
M. Ward – Bad Dreams
Eels – In My Dreams
Scarlett Johansson – I Wish I Was In New Orleans
Leon Redbone – A Dreamer´s Holiday

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contos

A Despedida

Disseram que o bar não costumava abrir naquela noite. Mas a noite era de despedida e era especial e era pra ser cheia de emoções e de outros bons clichês também, comuns e esperados nesse tipo de evento, tipo “festa fechada”, tipo “bota-fora”. Um casal estava deixando o país, a pátria amada, tão aparentemente odiada por alguns por aí. Eles estariam indo em direção ao centro do mundo, ou pelo menos chegando bem perto dele, considerando as palavras de Lennon que dizia que se ele tivesse nascido na época dos romanos, gostaria de ter morado em Roma, hoje, Nova Iorque é o lugar.

Mas deixarei esse papo cosmopolita de lado, já que naquela noite, os espíritos estavam concentrados aqui pertinho, em um bar de esquina meio apimentado e em construção, onde ventiladores me lembravam do frio lá de fora, e canções me levavam praquele lugar comum e seguro, chamado rock´n´roll. Cerveja gelada de garrafa, vestimentas de cores escuras, mesas de madeira, homens por toda a parte, fumantes de plantão, um palco, alguns banquinhos e… alguns violões! Sim, fique calmo, isso ainda é rock´n´roll (assim como aquele acústico do Nirvana) e feito da forma mais genuína possível, entre amigos, sem compromisso e sem ensaio.

O querido rapaz com passagem comprada pros states me disse que se colocassem todas aquelas canções dentro de uma coletânea em formato mp3, ficaria maravilhoso e quem sou eu pra discordar, ô repertório bacana esse, de Cash a Raul, de Young a Led, tudo intercalado por Beatles, incluindo um lado B do Abbey Road, além do moço citado aí em cima, com a linda e sincera Jealous Guy. Até quase pintou um Tim Maia na parada. Ainda fiquei com a imagem de felicidade do viajante bacana cantando “Mamãe, não quero ser prefeito”.  Pois é, e não é mesmo que no palco estava uma das estrelas da noite, o amigo de todos que junto com a noiva partirão para terras mais frias, lanches mais rápidos, shows para todos, estradas mais longas e sonhos mais altos. Sim, ele estava lá, no centro, viola na mão, cordas mais grossas, acompanhando seus parceiros, antigos professores, amigos para sempre.

O telefone móvel toca, atendo prontamente e tento me afastar do som amigo, me dirigindo para o lado de fora, até dar de cara com um vidro escuro. Splash de cerveja gelada na superfície parcialmente transparente e retangular, galo na cabeça, conversa no celular interrompida, risadas da mesa da namorada e dos amigos de carta.

É hora de convencer o amigo das vodkas com energéticos, raras no meio de tantas garrafas grandes e douradas, a permanecer por lá. A idéia inicial era de sair, comer, voltar, curtir, se despedir. Ele até aceitou, mas dado sua condição etílica, ou melhor, sua equação do porre, ele acabou vendo que a coisa ia demorar antes de finalmente acontecer, e acabou voltando pra casa um pouco mais cedo.

E logo percebemos que precisávamos partir também e assim começaram as longas sessões de despedidas, um misto de alegrias e tristezas. Primeiro com a simpática e sorridente noiva que me dissera conhecer um amigo meu, um sujeito de cabelo loiro comprido e de filosofia dudeísta (outro dia explico o termo), em outras palavras, muito boa praça. Depois foi a vez do amigo do peito, das cartas e dos programas de rádio, e depois de interrompermos outra despedida em curso entre nosso camarada e uma jovem garota, foi a vez de outros rapazes nos interromperem, afinal, o show no palco havia acabado e aos poucos era hora de se lembrar da vida e dos compromissos do dia seguinte, e assim, uma despedida foi emendando na outra, feito estrela de rock depois de algum pocket show exclusivo para a família e os amigos.  Mas o abraço final veio, mas menos intenso, já que uma segunda despedida havia sido sugerida.

E como diria Almir Sater, “um dia a gente chega e no outro vai embora”.

contos

Tom Zé, Beatles, As Mulheres e A História Sem Fim

A moça do café cult-intelectualóide me recebe prontamente. “Mesa pra quantos?”, “Sentarei com as meninas da sala ao lado, mas pra adiantar, quero uma taça de vinho, argentino ou coisa parecida, merlot, o mais econômico que tiverem”. Na mesa, uma amiga turca criada em Berlin come uma massa esbranquiçada com cogumelos frescos e escuros, enquanto na sua frente, sua amiga, curitibana e norte-americana por opção, ingere um caldo de feijão, brasileiro, por tradição. As duas dividem uma cerveja, brasileira também.

O vinho não chega e elas me contam que tiveram que esperar um par de horas para os pratos. Decido levantar e avaliar a situação e de fato a moça do café estava mais ocupada em organizar o pomposo buffett de frios, a trinta reais por pessoa, se esquecendo dos clientes interessados em simples taças de vinho, no caso esse chato que vos fala.

Hora de partir e ir para o museu ocular de grandes proporções, de um tal arquiteto famoso aí. “Hoje vai rolar show do Tom Zé, de graça, numa tenda lá”, havia dito uma amiga horas atrás. Levemos a gringa e a curitibana-estadunidense também, afinal, elas precisam conhecer o museu, mesmo que a noite e com o foco estando fora dele, no caso, na tenda mencionada. Também terei a oportunidade de encontrar essa amiga de bom gosto e rosto jovial, e que apontara a direção.

Chegamos e enquanto fumo meu tabaco sob olhares diversos, as explico (para a turca e a curitibana) quem é esse homem, um dos pais da tropicália e que ficara no ostracismo por uma série de motivos, e que graças a David Byrne e como o próprio Tom Zé havia dito, a um erro de um vendedor de discos que achava que seu trabalho se enquadrava no estilo samba e que sim, representava de alguma maneira a música brasileira de outrora – esse homem já com mais de 70 anos de corpo, renasceu no cenário cultural, realizando shows por toda a Europa e depois no Brasil, por que ainda tem essa coisa de fazer sucesso primeiro lá fora e aquele blábláblá todo. Pensei em lhes falar sobre aquele disco dele que é uma opereta da mulher ou daquele outro que a capa é um cu, como na primeira sílaba da palavra que dá nome a essa cidade, mas achei desnecessário, já que o homem estava ali, no palco e poderia lhes mostrar muito mais do que qualquer discurso cult-intelectualóide, normal para o café de momentos atrás.

O show começa e sem êxito, não encontro minha outra amiga e assim, me contento em permanecer distante do palco, ao meio de conversas furadas e atravessadas entre os grupos de pessoas ao redor.  Olho pra turco-alemã e que agora se assemelha a algum personagem do filme Persépolis (cult-intelectualóide também) e anuncio: “Vamos mais pra a frente pra sentirmos melhor essa coisa chamada show”. Timidamente nos aproximamos mais uns dez passos do palco, girafeio pros lados, mas continuo sem encontrar minha amiga, pequenina e no meio de uma multidão de desconhecidos. Tento mensagens de texto, tão em voga no momento, mas logo percebo que o lance é deixar para encontrá-la depois e que diferentemente das outras pessoas próximas e conectadas a redes sociais irreais, eu preferia estar com minha mente e meu coração abertos praquele homem, setentista de idade e de idéias, e sua banda de tirar qualquer chapéu (cult-intelectualóide) e que parecia se proliferar na platéia.

E por trás de todos esses chapéus e de alguns namorados-malas, daqueles que te olham feio quando você pede licença pra passar, estava eu, agora, com todos os olhos voltados a Tom Zé, que alternava suas peripécias no palco, hora tocando uma serra-fita, hora comendo um jornal e sempre intercalando cada canção (na falta de uma palavra mais adequada) com algum dizer, normalmente dirigido pro público ou pra banda: “agora mais baixinho…”.  No bis ele satisfaz os fãs-mutantes de plantão, cantando o hino do rock rural e premonitório, aquele sobre o tal astronauta libertário, uma verdadeira ode aos tempos modernos onde somos “casados e solteiros”, “baianos e estrangeiros”, e é o “computador que resolve” a equação.  Uma pena que naquela platéia, uma parte parece ainda incrustada em alguma época antiga, conservadora e machista, e para esses, é bom ler a mensagem da banda agigantada pelo telão: “Machismo Mata”, em sintonia com a passeata das vadias e com aquela história do policial também incrustado em algum tempo remoto.

E antes que me esqueça, falarei mal da Alemanha, também lembrada por Tom Zé no fim do espetáculo. Afinal, ô país paradisíaco das mil maravilhas, onde todo mundo se respeita (?), ninguém rouba (?) e acho que ninguém passa frio também, já que todos são tão legais que devem emprestar suas jaquetas e luvas a quem as precise (ok, não esqueci dos aquecedores centrais). Todos têm seus defeitos e os curitibanos costumam ser exímios críticos nesse sentido, especialmente ao falarem da Europa (?).

Mas não são sobre essas coisas que gostaria de falar, talvez o mega-cérebro do Tom Zé tenha feito um pirulito na minha ciência, me fazendo viajar em temas distantes da história sem fim que pretendia contar.

Mas vamos lá, no final do show, encontro minha amiga e ao apresentá-la as outras, a curitibana-estadunidense faz a inocente pergunta: “Mas fulana, o que você faz?”, emendando com outra indagação muito pertinente: “Colégio?”. “Não, eu faço faculdade”, responde ela com sua fala mansa e suas bochechas coloradas, e por aí a conversa andou, em marcha-lenta, e em modo ultra-criativo. Mas como o branco pode ser preto e vice-versa, como os norte-americanos já devem ter percebido, a curitibana mostrou seu outro olhar, ao associar a lua a um poste de luz redondo e branco – observação compartilhada com minha amiga, que agora passou a falar “Bah”, como meus amigos gaúchos e algumas placas de automóveis por aí.

E foi esse grupo, agora com a inserção de um novo membro novo (minha querida amiga), que seguimos para a próxima atração da noite, a famosa banda cover dos Beatles, ou Liverpoolgas, como eles são chamados, em um bar estilo anos 80 freqüentado por jovens alternativos com preferência por cores escuras. Pego umas cervejas e as sirvo em uma mesa de madeira e momentos depois reparo na presença de um dos músicos da noite, um rapaz bacana e o qual já havia conversado diversas vezes em tempos e visuais atrás. Hoje ele está de aparelho, sem barba e de cabelo mais curto, estilo Beatles na transição da primeira pra segunda fase, enquanto eu, como ele mesmo brincou, estou no estilo “filósofo” ou Dom Pedro I.

Após um convite até a esquina mais próxima e uma viagem paralela prontamente atendida e experienciada, retornamos ao recinto para momentos depois, perdermos uma integrante antes mesmo de a banda iniciar suas atividades. A curitibana decide ir pra casa, alegando cansaço e dor nas pernas, provocada pela idade avançada (segundo ela). Brinco dizendo que idade é um estado de espírito, mas também lembrei mentalmente que cada um conhece seus limites (ou vaidades) e nesses casos, não adianta discutir.

 

Porém para encurtar a história e continuar seguindo os padrões blogueiros atuais, só tenho a acrescentar que a noite se estendeu por mais algumas horas, não vimos o show beatlemaníaco por inteiro, mas comemos um baita cachorro-quente vegetariano, esse sim, por inteiro e com muito gosto, enquanto discutíamos sobre algumas diferenças entre a Alemanha e o Brasil e aquele papo sobre lá ser tudo corretinho e simpático, enquanto aqui alguns gringos ainda morrem de medo da violência e da imprevisibilidade constante por esses lados.

E viva Tom Zé, os Beatles, Curitiba, Alemanha, Turquia, Brasil, o cachorro-quente vegetariano e principalmente, as diferenças!

Dicas Musicais, podcasts

[podcast pace is the essence] #02: Hospitais, Doenças e Afins

Segue abaixo a tracklist do segundo programa e também os links para escuta-lo agora mesmo, ou baixa-lo pra ouvir depois.  Abraços.

Paul Simon – Run That Body Down
Jon Brion – Hospital
Pinback – Your Sickness
Eels – Hospital Food
Leon Redbone – Lovesick Blues
Snooks Eaglin – Saint James Infirmary
The Rolling Stones – Dear Doctor
The Beatles – Doctor Robert
Scott Matthew – Surgery
The Smiths – Girlfriend in a Coma
Sons and Daughters – Medicine
The Czars – Side Effects
David Julyan – Time For My Shot
Bob Dylan – Shot of Love
Aretha Franklin – Save Me
Beach Boys – Anna Lee The Healer
Leonard Cohen – Ain´t No Cure For Love
Phillip Glass – Choosing Life
Wilco – Radio Cure
Fugazi – Give Me The Cure
The Five Blind Boys of Mississippi – You Done What The Doctor Couldn´t Do

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