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Série “Aventuras Com Caldabranca” – Episódio #2: Do Outro Lado da Nácar

kapeleO plano era simples, tipo o nome daquela banda chata. A parceria já estava definida. Jorge Caldabranca, o novo amigo velho dos cabelos largos e das eloquências verbais, seria o companheiro da noite – algo raro de acontecer, uma vez que Jorge prefere a invisibilidade do seu lar e a separação dos “invejosos e dos hipócritas rondando ao redor”. Tirar esse cara à noite de casa? “Você conseguiu uma façanha de Hércules”, ele diria horas depois.

Lembro-me da tarde, antes da tempestade, quando recebi uma mensagem de áudio desse amigo e, no fim, ele terminava dizendo “o que for melhor pra você, estou dentro”.  E isso, somado à possibilidade de ver o casal-escambau tocando suas canções favoritas no bar-símbolo da boêmia curitibana, na rua parada no tempo e set de filmagem de uma história sobre prisões e comidas. Isso e o fato de o palco beatnik estar próximo à casa de Caldabranca, fizeram eu me coçar e bater um fio ao amigo dos pânicos e das metafísicas.

Estacionei a caranga e lá estava ele, já na frente do portão, aguardando. Subimos, tomamos uma cerveja, carburamos os miolos e saímos feito cachorro louco. Caldabranca estava eufórico e berrante como quase sempre; eu estava tímido como um bebê perto de estranhos.  Recebemos as coordenadas de um distinto cavalheiro, necessárias devido à demência que não me deixava lembrar onde o bar ficava.

No caminho, fui explicando que o referido bar tinha um lance intimista, atemporal e lindamente tosco, um charme especial, possivelmente representado pela letra K de batismo. Por algum motivo ridículo, fiquei pensando que a eloquência verbal de Jorge Caldabranca pudesse ser um problema para os músicos ou clientes. Pura frescura, mas não sei bem se foi esse papo que ajudou a assustar meu amigo.

Primeiro ele veio gralhando “cara, essa parte da cidade eu chamo de B, eu pertenço à A e é lá que me sinto seguro”; e essa classificação ordinária, de lado A e lado B, era definida por uma rua, meio famosinha na cidade pelos vermelhões e chorões, chamada Visconde de Nácar.

Insisti para entrarmos e que o bar era assim, sempre parecia vazio e fechado, mas que por trás daquela porta, haveria calor etílico, gente interessante, música boa, uma decoração de décadas e décadas, desde o tempo em que Leminkis e Trevisans pediam doses duplas, e a poesia e a prosa ainda caminhavam juntas. Mas, de alguma maneira, toda aquela paranoia “e claraboia” do Jorge haviam me contaminado, e agora eu já não estava mais seguro se que eu queria entrar também.

Estáticos e com as caras lavadas de medo, ficamos do outro lado da rua, observando a fachada decadente do lugar e esperando que alguém entrasse ou saísse dali para, quem sabe, nos encorajar a entrar. Não aconteceu. Quando vi, Caldabranca já estava caminhando a passos grandes em direção ao “lado A”, rumo ao pub estiloso do néon roqueiro e das figuras conhecidas.

Havia deixado lá uns quadros meus e, pra minha surpresa, logo na entrada, um grupo veio me perguntar como eu fazia aquelas artes e me dar uns tapinhas nas costas; algo que pra minha estima rasgada fez bem e até me fez esquecer a frustração de não ter visto as canções gaúchas e paraguaias no bar clássico do outro lado da Nácar.  Isso num dia em que tinha ido pra feira e pela trigésima vez não tinha vendido nada, mas estava contente por ter saído de lá no meio da tempestade e com um exemplar de um pau-brasil sangrento que serviria perfeitamente de banquinho pra casa dos sonhos. Maldita prefeitura que mandou os caras tirarem as árvores centenárias e saudáveis da praça ucraniana, e espero que o vizinho consiga a TV ou sei lá quem para ir lá denunciar mais um crime ambiental, como ele saiu dizendo que iria fazer. Mas o tronco estava lá, todo melado e antes que ele tivesse um fim ainda mais triste, coloquei-o no carro a duras penas, sob rajadas de vento e água e o peso da natureza que, mais uma vez, não tinha nada a ver com o progresso do homem branco idiota. O tronco era pesado pra caralho, mas agora ele está num lugar seguro e receberá um fim minimamente digno, servindo de assento para artistas e outros loucos de plantão.

Ficamos semi-invisíveis na mesa de fora, ao lado de uma mesa gigante com umas vinte pessoas, rostos desconhecidos, mais jovens e aparentemente normais. Bebemos em copos especiais e partimos vomitando experiências em terras italianas para o dono do bar e futuro papai. E a noite de quarta ainda seguiu, agora com um terceiro elemento, a musa do poeta e “youtuber on the road”, a querida Simonetta.  Tentamos os bares da região, mas a música verdadeira e a alma desses becos já haviam se esvaído e restava o consolo dos banquinhos azuis e bem cuidados do SESC da esquina. Caldabranca e Simonetta compartilhavam um charuto cubano enquanto trocavam algumas farpas intercontinentais. “Você acha que o meu trabalho é só curtição?”, indagava Simonetta. “Trabalho pra satisfazer o narcisismo de uma pessoa e não ganho tão bem assim pra isso”. “Baby, trabalhe comigo, viajando on the road que será só curtição e você ainda ganhará os mesmos trocados”.

Viver o sonho do outro parece fácil. Difícil talvez seja ir atrás do seu e esperar que alguém te acompanhe na loucura. Caldabranca que o diga.

Simonetta saiu dizendo “na próxima vez, vamos para o lado B!”. Fim da história.

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Crônica de Um Amigo Louco

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Domingo de Chuva

chuvaDomingo de chuva, de uma chuva aclamada e pré-anunciada nos rodapés dos jornais, uma chuva esperada pelos fazendeiros e não desejada pelos feirantes e demais vendedores ambulantes, uma chuva típica da montanha e que não adianta ter medo dela, pois “a chuva voltando pra terra traz coisas do ar”. Ainda bem, pois era justamente disso que eu estava precisando.

Curitiba testemunhou o recorde histórico: mais de 90 dias de sol, céu azul e um clima árido típico da capital de um país em declínio e que o baterista argentino tem dificuldade de entender. “Vi domingo passado aquele protesto contra o governo, mas só vi gente de relógio caro, tênis de marca e camisa oficial da seleção brasileira… do que eles estão reclamando mesmo?”.  Meu amigo Mariano, dessa vez vou calar a boca e não serei aquele que te dirá que “a vida é séria e a guerra é dura”, pois quando penso assim, tudo fica tão chato e cinza como os papos dos granfinos ou os discursos pseudo politizados de gente que ainda não entende que as opiniões são como aqueles dados cheios de lados dos tabuleiros imaginários de RPG e que nunca fizeram minha cabeça chata de nordestino, assim como escutava na adolescência.

Na vitrola da sala, João canta sobre o nada e sobre Deus ser um “conceito pelo qual nós medimos nossa dor”, enquanto escuto aquele som neoclássico do aplicativo do momento, algo a ver com aquelas propagandas ridículas das operadoras de celular sobre mensagens ilimitadas, mensagens em que não consigo ver nenhuma vantagem, não nesse domingo de chuva, não nesse momento em que estou cansado, com dores nas costas e com um catarro verde escuro no pulmão e me sentindo grosseiro e estúpido com aqueles que ainda sentem alguma coisa boa por mim.

Será que um dia a gente vai entender que toda essa tecnologia é inútil na tarefa de suprir sentimentos básicos de solidão, carência e insegurança e que cabe a gente lidar com essas merdas sozinho, e não querer jogar isso pro outro ou, ainda pior, tentando se comunicar por um aparelho que foi feito com uma boa intenção, mas que como tudo que o homem ocidental tocou desde sempre, foi transformado em lixo, em guerra, em destruição e em uma má perdição. Sim, por que se perder é bom demais, mas só quando a gente tem essa consciência e sente que não está sendo guiado por um ego maior e ainda mais pervertido.

Estou blue como o disco da Joni Mitchell que agora toca na sala, blue como o piano natalino daquela canção sobre a possibilidade de existir um rio congelado em  que a gente pudesse patinar pra bem longe. E falando em pianos e em tristezas, lembro daquele que está bem atrás de mim, e que já foi responsável por momentos lindos, de alegria, com a minha mãe tocando Fascinação e fazendo a amiga vizinha e que agora corrige meus textos, sentir a felicidade no ar, e logo me lembro de também me sentir bem ao escutar seu filho Pedro ouvindo Ramones no talo quando eu ainda era um moleque mimado e confinado a um condomínio fechado, desses que meu pai tem medo de retornar a morar e, é claro que eu entendo suas razões. Só não entendo por que esse piano que está atrás de mim precisa custar tão caro para voltar a soar afinado,… Malditas cravelhas!

Também não entendo por que a gente segue se apaixonando e acreditando nas pessoas e até na gente mesmo, pra depois vir essa onda blue e eu precisar de um amigo advogado para me lembrar que as pessoas são, no fundo, totalmente egoístas e que essa história de corrente do bem ou das pessoas “do bem” não passa de um marketing pra vender suco natural; ou ainda algum discurso aliciano da classe média alta que nunca viajou tanto pro exterior, mas que agora precisa economizar para pagar direitos trabalhistas e impostos para um governo comunista que insiste em patrocinar a ditadura cubana e roubar os cofres públicos sem sobreavisos ou julgamentos posteriores.

Dr. Gonzo, meu amigo advogado que agora passou a me seguir por aí e me lembrar do lado demoníaco que existe em cada ser, Dr. Gonzo, você sim, será cada vez mais necessário. Já precisei de remédios controlados, de drogas ilegais, rituais orientais e até de iridologia para saber quem eu sou, mas agora, nesse domingo de chuva e nos outros tantos que estão por vir, nesse momento blue e down, sinto que precisarei sim de uma avalanche de papéis, assinaturas, cláusulas, processos, contratos e carimbos de todas as cores, frios ou preferivelmente quentes; ainda que eu continue anarquista ao ponto de odiar todas as formas de burocracia e legislação criadas por esses humanoides, que seguem existindo dentro de mim, para tentar organizar uma massa que não consegue usar o bom senso e o coração nem para sair de casa ou tomar um café, e que segue querendo cada vez mais, sem perceber que o barato da vida não está na “inútil luta contra os galhos”, mas sim no tronco, é lá e somente lá que “está o coringa do baralho”.

Dr. Gonzo, por favor, me ajude a cuidar desses galhos, e obrigado mais uma vez ao baiano que me ensinou a perder o medo da chuva e à outra baiana, a maior de todas, que me fez ter a cabeça chata, chata o suficiente para seguir sonhando e compreendendo que há muito mais para sentir e aprender, ainda que as decepções só cessem por completo quando eu, você e todas as pessoas desse planeta… Sumirem.

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Sobre os chicos e outros caras legais

guacamate“As pessoas estão carentes e deprimidas, em busca de algo sincero e autêntico ou simplesmente amor”, disse o gaúcho, corretor de seguros contra desastres dentários. Isso antes da chuva que acabou com o sonho latino de um inverno curitibano que por algumas horas cedera espaço para cinco argentinos alegrarem o domingo dos passantes da feira que já foi hippie, mas que agora é só mais um cartão postal da “cidade dos normais”. E  na canção do Escambau, o rompante pop-radiofônico sobre a falta de emoção na vida daquelas pessoas havia sido quebrado pela eminência da chuva, naquele momento em que o céu ficou preto e eu atendi aquela ligação no meio de uma gravação através da máquina do tempo menor do mundo. Justo naquele momento tão alegre e pueril, com um maluco vestido de mulher e interpretando um ser invertebrado, um baterista virtuoso e humilde, um baixista buena onda, uma clarinetista aprendendo as canções enquanto toca e ainda uma trompetista tímida por não querer molestar o saxofonista antigo que tocava do outro lado. E como se não bastasse, na plateia ainda tinha uma miniatura de um James Dean, acompanhado de sua namoradinha de no máximo sete anos de idade, porra, naquele momento tão pleno e ingênuo e quando o sol ainda se esforçava para seguir brilhando e iluminando esse povo todo, o telefone toca e preciso fugir.

“Você abandonou sua barraca, as senhoras estão putas contigo, tem uma fila de gente para comprar suas coisas”. Desligo o celular da Janis mais preocupado com a gravação ou o coito interrompido pelo toque e talvez aquela viagem no tempo tenha ficado apenas na memória, e desde quando o homem ou Deus decidiu que a felicidade ou a alegria teria um prazo de validade? Corro como um louco e quase que instantaneamente, na medida em que mais gotas caem do céu, meus passos aceleram e sinto naqueles corpos estranhos, cheios de sacolas e sombreros, a tensão provocada pelos pingos e pelos ventos fortes que segundo alguma moça bonita na TV, também deve vir da Argentina.

Mas algo mudou em mim naqueles segundos. Talvez eu estivesse cansado demais, cansado e mais sensível que uma garota de trinta anos em TPM ou como qualquer canção lenta do Roberto Carlos, pré 73. Já havia me emocionado pra caralho na noite anterior, quando vi de novo a banda callejera arrebentar naquele pub europeu cheio de gente rica bebendo whisky e champagne e fumando charutos grandes, bem no estilo daquele blues da prisão de Folsom. E se lá fora meus amigos se comportavam como jovens se comportam em bares de velhos, lá dentro eu me esforçava para não me sentir um jacu ou mais um rosto jovem estranho, vestindo roupas velhas e desbotadas e com botons duvidosos achando que entende alguma coisa de jazz e blues apenas por conseguir ficar calado por alguns minutos. Um bicho do mato e do Paraná, um forasteiro dentro da sua própria cidade, um Caldabranca ocupando um quarto de hotel em São Paulo enquanto luta para se manter invisível, um outsider visionário ou apenas um cachorro louco tentando “romper a barreira do tempo” num boteco típico dos beatniks de outrora; mas que no Brasil do século 21 é cenário pra gente bem sucedida gastar seus tostões e sentirem que estão em Londres, em Barcelona, Berlim ou em qualquer uma dessas partes escolhidas por brasileiros convencionais de uma classe média que há quinze anos se fodia para conseguir passar o fim de ano com a família que morava longe.

E talvez o que tenha me deixado ainda mais feliz nessa noite, além daquele jazz argentino cheio de malemolência e outras palavras da moda, e além daquela jam incrível dos chicos com aquele blues man e seu sapato de mil reais de couro de crocodilo comprado pela namorada, talvez o que tenha me deixado bem alegre e contente tenha acontecido depois dessas paradas todas.

João, o fotográfo de meia idade e cheio de ódio contra hipermercados e seus estacionamentos infinitos, João, o colecionador de vinis dos anos 80, quando seu cabelo ainda era preto e deveria pesar uns dez quilos a menos, João, esse nome que, porra, é o mesmo do meu pai que não vejo há décadas e que agora descubro que seu celular está desligado. João, o outro, o novo brother dos tragos e dos largos, João, me chama e me pergunta: “Hey, você já viu o que tem aqui fora, naquela caçamba de entulhos e lixos?” Me aproximo e João começa a me mostrar mapas de Paris antes de 1900, muito antes de aquela torre famosinha existir, e com certeza muito antes de qualquer brasileiro sonhar  ir para Europa, isso, é claro, se a pessoa não fosse um Villa-Lobos ou algum outro gênio apadrinhado pela nobreza. Logo os chicos buena onda se acercam do garimpo e ainda encontram um escorredor de pratos em perfeito estado, algo ainda inexistente naquele quilombo que eles se acostumaram a chamar de casa.

No dia seguinte, chego à casa de Letícia, a casa que aos poucos se transforma na minha também e lhe mostro um dos mapas que, pela idade e pela decadência natural do tempo agregadora de valor e estética, poderia muito bem ser a peça ideal para decorarmos nossa adega de vinhos promocionais que, por enquanto, segue existindo apenas nas nossas cabeças. Sim, porque existe a cabeça da mulher e a cabeça do homem e existe uma outra, ainda mais misteriosa e poderosa, que é a cabeça do casal, da entidade, que aos trancos começa a se constituir. Poderia seguir falando sobre cabeças, grandes ou pequenas, de um bando ou apenas de alguém bem especial que me ajudou a ser quem eu sou hoje e que agora descansa em uma cama ao lado de senhoras do bem. Poderia seguir falando de todas essas cabeças, mas vou preferir seguir lembrando esses dois instantes mágicos provocados por uma banda de jazz ou uma verdadeira locomotiva do amor, e por João “das Couves”, um cara conectado com a natureza e com cada coisa ao seu redor.

E como diria um tal “urbenauta”, viajar na sua própria cidade é mesmo muito legal.

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O Último Suspiro dos Malucos Norte-americanos

Olhando atentamente não é difícil perceber o eco dos poetas, músicos e artistas diversos que um dia transitaram por aquelas calçadas. Ponto de encontro dos beatniks e de jovens músicos responsáveis pela súbita escalada do psicodelismo nos distantes anos 60, “Venice Beach” é parada obrigatória aos interessados em arte, contracultura e principalmente, muita loucura.

É lá que andarilhos tipicamente americanos (imagine o que quiser), street performers, hippies sessentões, vendedores ambulantes, videntes, skatistas, gângsters vendedores de discos de rap, músicos de rua e toda uma rica espécie de malucões, bêbados e desocupados se encontram. A atmosfera “paz e amor” predomina e há momentos que parecermos ser figurantes de um filme sobre algum jovem poeta tentando ganhar a vida com sua banda de rock, em pleno anos 60.

Logo a sua frente, uma menina repete palavras arrastadas sobre uma tal maconha medicinal e um suposto médico disposto a “te ajudar”. Na frente do restaurante recheado de turistas, um senhor oferece massagens e tubos de oxigênio como cura para as mais variadas dores e ressacas que se têm notícia.  O mendigo pede trocados e sua placa sincera anuncia que todo o financiamento espontâneo será para alimentar sua embriaguez.

Ainda na calçada, velhos músicos tocam Hallelujah do guru Cohen. A versão tocada em um violão sujo e velho, um piano recém tirado de um ferro-velho e um projeto de bateria emociona os poucos que decidiram parar e sentir um pouco daquela poderosa melodia.  No final, a senhora compra o disco da desconhecida banda e ainda pede um autógrafo ao vocalista com poucos dentes na boca, mas de sorriso simpático.

Na praia, ciclistas trafegam pacificamente e surfistas surfam. Sem grandes novidades ali. “Venice Beach” é o exemplo de um sonho psicodélico americano de verão, distante do consumismo desenfreado e autodestrutivo das megalópoles. Quase um último suspiro, mostrando que é possível ser feliz sendo você mesmo, sem a necessidade de se enquadrar em algum estereótipo pré-estabelecido e ultrapassado. Felizmente essa receita parece continuar sendo passada para as novas gerações que agora habitam esse lugar.

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On the Road no Cinema?

Em 1967, o escritor americano Russell Banks teve a oportunidade de conhecer nada mais, nada menos que Jack Kerouac – o pai da geração beatnik e autor de uma das obras mais marcantes do século 20: On the Road (ou Pé na Estrada na tradução brasileira). Um amigo de Banks havia dado carona a Kerouac e dois índios que o acompanhavam. Os três apareceram em uma festa promovida por outro amigo de Banks, e foi nessa festa que o então jovem escritor e ativista teve contato com seu herói. Nas palavras dele “Kerouac estava mentalmente doente e com sérios problemas relacionados ao álcool e era triste ver um herói se comportando como um homem mortal”. Mal sabia Russell Banks, que anos depois ele seria o quarto roteirista responsável em transpor a obra prima de Kerouac para o cinema. Francis Ford Coppola havia comprado os direitos de On the Road, ainda em 1968, quando era apenas um jovem promissor cineasta. Mas o que parecia ser um sonho a ser concretizado acabou se transformando em uma lenda de 40 anos de idade, já que a película nunca saiu do papel. Em 1997, Coppola disse a um jornalista que a intenção dele era filmar em 16mm em preto e branco, mas que ele não havia conseguido dinheiro suficiente para rodar o projeto. O roteiro passou na mão de outros três roteiristas antes de chegar às mãos de Russell Banks, que chegou a entregar o mesmo para Coppola, que por sua vez havia gostado do que leu. Mas o filme ainda estava longe de acontecer.

Ultimamente a carreira cinematográfica de Coppola tem sido escassa e longe da relevância das décadas anteriores. Hoje o diretor parece muito mais preocupado com a produção dos vinhos na sua vinícola na Califórnia do que com a superprodução de longas-metragens hollywoodianos. Mas isso tudo pode mudar, já que nesse ano Coppola convocou o diretor brazuca Walter Salles para encabeçar a produção de On the Road, ao lado do seu antigo parceiro de Diários de Motocicleta, o roteirista Jose Rivera. Walter Salles já chegou até a percorrer todo o caminho retratado nas palavras de Kerouac, como forma de se aprofundar na famosa história beatnik. Claro que os tempos são outros, e toda aquela inocência americana dos anos 50 agregada a um sentimento de liberdade já não existem mais.

A questão é que depois do anúncio do nome brasileiro para a direção do filme, muita gente torceu o nariz se perguntando se Salles seria o homem ideal para capturar nas lentes aquelas sensações tão bem descritas no livro de Kerouac.  Pessoalmente tenho minhas dúvidas. Diários de Motocicleta é sim um grande filme, porém não acredito que as aventuras do jovem Che Guevara se aproximem das loucuras de Dean e Sal, tão pouco o tom da película, claramente mais dramático e socialmente “engajado” – coisas que não caem muito bem na obra de Kerouac.  Antes do brasileiro, Coppola havia entregue o projeto a Joel Schumacher (autor das piores versões de Batman e aficionado por cenas de ação). Graças ao bom deus, isso não se concretizou. Agora é a vez de Walter Salles. Por favor, espero que você me surpreenda. E Coppola, dessa vez esse projeto tem que sair. Os fãs agradecem.

livros

Henry Miller Continua Vivo!

E isto então? Isto não é um livro. Isto é injúria, calúnia, difamação de caráter. Isto não é um livro, no sentido comum da palavra. Não, isto é um prolongado insulto, uma cusparada na cara da Arte, um pontapé no traseiro de Deus, do Homem, do Destino, do Tempo, do Amor, da Beleza…. e do que mais quiserem. Vou cantar para você, um pouco desafinado talvez, mas vou cantar. Cantarei enquanto você coaxa, dançarei sobre seu cadáver sujo…

Nesse trecho do livro “Trópico de Câncer”, o escritor Henry Miller, então com 50 anos de idade, morando em condições precárias numa Paris dos anos 30, declara por que escreve aquele texto. Desiludido com um casamento fracassado e sua pátria decadente, ele decide embarcar na cidade das luzes, local freqüentado por artistas bem sucedidos do mundo inteiro – um sucesso que estava longe de acontecer na vida do escritor. Miller quer falar das coisas mundanas: das prostitutas que conhece, dos prazeres da vida, das camas sujas, dos bares e cafés toscos, mas com pessoas reais, cheias de sofrimento, dores, e muita decadência. Pra ele isso tudo é combustível para sua alma e conseqüentemente, para sua escrita afiada e sem concessões.  Henry Miller conseguiu antecipar um pouco da literatura visceral e fluída dos beatniks dos anos 50. Henry Miller conseguiu descrever em detalhes essas coisas mundanas motivadoras das mais desesperadoras ações humanas. Henry Miller conseguiu poetizar a sexualidade, sem elevá-la a um status incoerente e distorcido do que ela realmente poderia representar.  Henry Miller é sincero e é um exemplo da possibilidade de vivermos uma vida de exageros, sem preocupações morais ou materiais.

Ó Tânia, onde estão agora aquela sua boceta quente, aquelas ligas gordas e pesadas, aquelas coxas macias e arredondadas? Em meu membro há um osso de quinze centímetros de comprimento. Tânia, alisarei todas as pregas de sua vulva, cheia de semente. Mandá-la-ei de volta para seu Sylvester com a barriga doendo e o útero virado. Seu Sylvester! Sim, ele sabe acender um fogo, mas eu sei inflamar uma vagina. Enfiarei pregos quentes em você, Tânia. Deixarei seus ovários incandescentes. Seu Sylvester agora está um pouco ciumento? Ele sente alguma coisa, não sente? Sente os remanescentes de meu grande membro. Deixei as margens um pouco mais largas. Alisei as pregas. Depois de mim, você pode receber garanhões, touros, carneiros, cisnes e São Bernardos. Pode enfiar pelo reto sapos, morcegos, lagartos. Você pode defecar arpejos ou amarrar uma cítara sobre o umbigo. Eu estou fodendo, Tânia, para que você fique fornicada. E se tem medo de ser fornicada em público, eu fornicarei privativamente. Arrancarei alguns pêlos de sua vulva e os grudarei no queixo de Bóris. Morderei seu clitóris e cuspirei moedas de dois francos…

No alto dos seus 89 anos, no leito de morte, ele, em plena consciência, fala pra câmera: “Eu acuso o criador, se é que existe um, de fazer o mundo do jeito que é. Eu já vou saber se existe um criador ou não. Ainda sou da opinião que não existe o criador, mas existe algo que corresponda à palavra criação. Até agora ninguém conseguiu me dar uma explicação da palavra criação – é alguém, alguma coisa? De qualquer forma, eu preciso agradecer por todos os acontecimentos maravilhosos e por todo o tempo que passei aqui. Mas sinto que eu fui responsável por muitos desses acontecimentos maravilhosos. Aqui estou no meu leito de morte e é difícil pronunciar essa palavra, pois não sei realmente o que ela significa. Estou perto da morte, mas pra mim ainda sinto vivo, vivo até o final.”