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Antonina, Menina dos Olhos Rojos

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Cinco carros populares, trinta e um humanos com tendências artísticas duvidosas, um sítio lunático no meio do caminho, uma kombi girante chamada “O Espirro de Gil”, instrumentos, equipos e tintas nas botas do irmão maluquinho com um sério problema em suas bolas. Físicas. Metafísicas? Caldabranca, por quê você não foi mesmo? Tá ficando loki bicho? Tá com medinho do banheiro unisex com falta de água, feito pra suprir as necessidades trágicas de trinta e um planetas conflitantes, mas que por algum motivo desconhecido possuem o elo da existência, essa coisinha brega que os bobos e loucos continuam berrando por aí: em cada solinho de guitarra com direito a dança africana, em cada sorriso no verso maroto, em cada cara de dor aparente, mas que sabemos ser feeling, em cada groove do sopro invisível da teoria dos baixistas machistas, em cada fuçada na mesa de sonidos raros, em cada roubada de olhada da grande parceira da life e com sobrenome de salgado, em cada bamboleada, em cada brincadeira com fogo e com sons transcendentais produzidos por instrumentos aborígenes, em cada backing vocal forçadamente espontâneo, em cada sumida repentina, em cada clicada com o botão direito do mago tecnológico invisível e criador de palcos universais, em cada tragada do vapor barato que dá barato, em cada trocada de letra do amigo indie rebelde xamânico com fobias alimentares, em cada gole da cerveja roots de gengibre preparada pelo gamer, ou ainda em cada surtada da trupe rio platense sobre a vagabundagem aparente dos hermanos estelares. Essa sensação pueril e febril me faz lembrar do chocolate nosso de cada dia, e de todas as outras cosas que pedimos para os outros queridos vampiros com xis. Lembrar de cada massa esticada pelo Heinsenberg da cozinha matriarcal anti-ianque e que de repente, vira o Mister Magoo das sinuosas estradas graciosas que ligam o mangue à montanha das fantasias. Verdadeiras elipses atemporais, escuros espirais de uma serra lynchiana, parte fundamental de um mapa safado e perfumado pelos recuerdos de alguma infância com chapéu. O mesmo chapéu marinheiro do comandante flutuante que passa a bola pro próximo balão inflável da vez, seja uma miss coca-cola do Grandpa Staples ou seja para o conde pseudo xeique com sotaque da porra e a malícia de Alícia e outras rimas fáceis, típicas de seu personagem big brother.

Festival de blues? Prometo chegar nessa dimensão paralela há poucos quilômetros de casa, entretanto são tantos personagens memoráveis, digníssimos e maravilhosos filhos da puta de alguma natureza esquecida pelos livros lidos por avós e bisavós, e que por algum trem doido da mente abismal chegaram até esses peculiares seres de extrema periculosidade vital. Reluzentes personagens desbotados capazes de transitar entre o céu e as profundezas alienígenas de qualquer oceano que termine com a sílaba CO. Sim! Temos o CO2 biológico dos casais incestuosos, e temos a palavra que começa com CO, a palavra da nova ordem sociedade grâ-kavernista do clube agrofloresta nerd illuminati em curso preparatório pré apocalipse zumbi, a palavra era outra, mas nesse momento de poucas vírgulas não poderia deixar de citar o irmão zumbador com lindos e subversivos cacoetes, e seu filho-pai topa-tudo-por-amor, o grande Erasmo com cara de Paulo Miklos. Erasmo, cuidado com a Masmorra! Entretanto a palavra com CO jamais poderá ser esquecida ou deixada de lado ou pelo acaso como a bola de feno símbolo do destino e do melhor filme do mundo, afinal se tem uma palavra da nova moda social com potencial linguístico para nos salvar desse caos político existencial interplanetário, ela deve começar com duas letras, o Cê e o Ó, para instaurarmos eternamente esse chip do espelho preto além da imaginação, antes que seja tarde demais e sejamos possuídos pelo mal da outra era terrestre, em que outra palavra que também começava com CO, foi usada e abusada em nome de um sistema em COlapso. Essa história sobre mais um grupinho mimado e inspirado por sonhos megalomaníacos retrôs, é pra me fazer lembrar dessa palavra utilizada até pelos cientistas vanguardistas dos elevadores de 13 pisos. Ah número 13, me dê uma trégua pra falar da palavra amiga, da palavra doce da bruxa norueguesa, da palavra COcô da COmpanheira COmediante, da palavra que você aí já deve estar implorando para ser pronunciada, ou talvez já tenha até olvidado.  

São tantas dicas tropicalientes e não quero que a essência se transforme em mais uma piada de boteco, daquelas das tias e tios e que na cidade fantasma ninguém mais sabe, e tampouco quero que esse texto se transforme em outro lamento com fundamento repetido. Tudo que eu quero é citar Caetano de novo, esse mesmo ser que já ignorou os malditos benditos de agora e depois pediu desculpas e ficou tudo bem. Tudo o que quero é uma palavra perfeita maior, com todo mundo podendo brilhar num cââââântico quântico de proporções universais: os pequenos e os grandes, os baixos e os altos, os burrinhos e os espertinhos, os gordos gigantescos e os magros magérrimos, os lindos e os grotescos, as fadas e os bruxos, os pais e filhos da revistinha oitentista, os puros e os safados, os bons, os maldosos e os feios, e todos os filmes de bang-bang com profundos ensinamentos espirituais, ainda que alguns de seus fãs sejam mais céticos que a música celta comercial que permeia certos bares caretas carentes de moedas sinceras. CO, CO, COco Rosie do clipe fantástico, COco Channel da lista machista dos cem maiores nomes de uma história mal contada por gente do mal, CO,… OPA! Na real são três letras exatamente como na palavra OPA, a marca de cerveja carinha da terra fascista das casas fofas, COOOOOO, espere, sinto um eco de humberto, um ECO que ecoa, um eco que parece apontar a altura e a direção dessa palavra perfeita, que nos salvará dos bichos papões, dos dealers com verrugas exponenciais, dos juros bancários e das mamães aflitas, dos xerifes enxeridos, dos pornográficos XXX das pesquisas do GOOOOOgle, hey, até esse povo artificialmente escolhido já brincou com esse eco que tento explicar. O eco escudo do ego inimigo chamado… Cooperação!

Abandonemos os ismos de mais de vinte séculos de guerras conhecidas, e rumemos para adelante, sem nomes e sin nombres, sem barreiras e naquela pira feliz do mussUM. Talvez nossas costas sejam feitas para coçar, massageá-las de levinho ou lambê-las ocasionalmente, porém evitemos arranhá-las ou rasgá-las, a não ser que essa seja a pira do casal sado influenciado pelo marquês residente no universo interno de cada um.

COO, veja como nem mesmo essa palavra existiria sozinha, aunque tenha a letra solitária Cê, agora em caixa alta para agradar o amigo enxaqueca e que também COabita esse mesmo universo interno que tento explicar, ainda que eu insista nesse joguinho do C e dos idiomas, a palavra cooperação precisa desse diálogo rain man entre o Ó e o outro Ó.

Cooperar, colaborar, coexistir, enxergar para além do umbigo feio com ou sem aquele bizarro pedaço do cordão da mãe de todos, esse UMbigo, esse UM que sozinho nos mostra apenas um caminho e mais nada. Esse UM que perde o amigo, mas não perde a piada, esse UM pomposo que vive em busca do próximo gozo, esse Um que inicia bilhões de histórias e canções sobre o dia de qualquer pessoa, esse um que vai ficando pequenininho e sem aspas, quando comparado à imensidão de todas as galáxias possíveis, esse “um” que poderia transmutar em “OM” como no novo poema do reptiliano Rodô, e assim nos aproximarmos dessa natureza maior, desse desencanto branco do canto maia, desses deuses astronautas, dessas cordas multidimensionais, desses salvadores profetas orientais ou de olhos azuis para os olhos ocidentais, e de outras ficções bem escritas, mas que nós, humanos limitados, utilizamos para controlar, manipular e camuflar o verdadeiro sentido de uma palavra perfeita como essa do começo do parágrafo. O umbiguinho faz biquinho e parece ter a resposta pra esses caras sedentos por poder. Poder, poder, poder, para poder crescer. Cale-se please.

Apertem os cintos, o piloto sumiu! A criança que brincava disso com o irmão sueco no chevette do papai “largou os bets” e decidiu assumir pela primeira vez seu bairrismo, mesmo tendo acabado de pisar nos ismos achatados e que só mostram uma camada da cebola odiada por Fernando e a Vespa. Letícia também disse que ela não quer só um boy ou um toy, mas um man, um Hombre como o nome da jovem banda de Campinas e do gato monge leitor de camadas invisíveis dessa mesma cebola do jogo criado pra crianças na faculdade de design e dos personagens fakes de Caldabranca.

Precisamos respirar, respirar pra pirarmos de novo, afinal “a pira continua” não é mesmo? Essa criancinha aqui quer terminar mais uma história cheia de parênteses e sobre parentes e patentes, ou a falta dessas patentes do sítio de Marte, refúgio de loucos inconstantes que “roubaram o sol” e fugiram para suas próprias viagens com a ajuda de substâncias naturais ou tão artificiais como as cores daqueles papéis de mentirinha.

“Disseram pra gente que estávamos em crise e que os clientes iriam diminuir pra caralho e foi nessa bad trip que decidimos assistir ao triste fim da quaresma tomando uma bera gelada entre amigos ao som do bom e velho blues.” Viemos em missão de paz e para ajudá-los. Trouxemos gravuras, brechós, instrumentos e equipamentos suficientes para armarmos o circo em qualquer canto que seja conveniente: autênticos botecos com gente de verdade, prostíbulos invisíveis, carrinhos de perros calientes e essencialmente na rua, pois é lá que o povo está! O blues não pode parar e os corações despedaçados precisam de remendos imediatos. We Are The World. You Are One Of Us. Freaks, prazer, somos vocês! SELL yourSELF for some better days. Let the GOOD times ROLL. Bluesman, qual é o tom? Waits, Zé, ou Jobim? John Lenin está te chamando!

Somos todos UM, somos todos o grande e eterno OM e JUNTOS, cooperando, seguiremos coexistindo. Internamente você é tão bonitin. Deixa de frescura e vem pra festa, mais que merecida!

Pra curar, basta existir.

contos

Domingo de Chuva

chuvaDomingo de chuva, de uma chuva aclamada e pré-anunciada nos rodapés dos jornais, uma chuva esperada pelos fazendeiros e não desejada pelos feirantes e demais vendedores ambulantes, uma chuva típica da montanha e que não adianta ter medo dela, pois “a chuva voltando pra terra traz coisas do ar”. Ainda bem, pois era justamente disso que eu estava precisando.

Curitiba testemunhou o recorde histórico: mais de 90 dias de sol, céu azul e um clima árido típico da capital de um país em declínio e que o baterista argentino tem dificuldade de entender. “Vi domingo passado aquele protesto contra o governo, mas só vi gente de relógio caro, tênis de marca e camisa oficial da seleção brasileira… do que eles estão reclamando mesmo?”.  Meu amigo Mariano, dessa vez vou calar a boca e não serei aquele que te dirá que “a vida é séria e a guerra é dura”, pois quando penso assim, tudo fica tão chato e cinza como os papos dos granfinos ou os discursos pseudo politizados de gente que ainda não entende que as opiniões são como aqueles dados cheios de lados dos tabuleiros imaginários de RPG e que nunca fizeram minha cabeça chata de nordestino, assim como escutava na adolescência.

Na vitrola da sala, João canta sobre o nada e sobre Deus ser um “conceito pelo qual nós medimos nossa dor”, enquanto escuto aquele som neoclássico do aplicativo do momento, algo a ver com aquelas propagandas ridículas das operadoras de celular sobre mensagens ilimitadas, mensagens em que não consigo ver nenhuma vantagem, não nesse domingo de chuva, não nesse momento em que estou cansado, com dores nas costas e com um catarro verde escuro no pulmão e me sentindo grosseiro e estúpido com aqueles que ainda sentem alguma coisa boa por mim.

Será que um dia a gente vai entender que toda essa tecnologia é inútil na tarefa de suprir sentimentos básicos de solidão, carência e insegurança e que cabe a gente lidar com essas merdas sozinho, e não querer jogar isso pro outro ou, ainda pior, tentando se comunicar por um aparelho que foi feito com uma boa intenção, mas que como tudo que o homem ocidental tocou desde sempre, foi transformado em lixo, em guerra, em destruição e em uma má perdição. Sim, por que se perder é bom demais, mas só quando a gente tem essa consciência e sente que não está sendo guiado por um ego maior e ainda mais pervertido.

Estou blue como o disco da Joni Mitchell que agora toca na sala, blue como o piano natalino daquela canção sobre a possibilidade de existir um rio congelado em  que a gente pudesse patinar pra bem longe. E falando em pianos e em tristezas, lembro daquele que está bem atrás de mim, e que já foi responsável por momentos lindos, de alegria, com a minha mãe tocando Fascinação e fazendo a amiga vizinha e que agora corrige meus textos, sentir a felicidade no ar, e logo me lembro de também me sentir bem ao escutar seu filho Pedro ouvindo Ramones no talo quando eu ainda era um moleque mimado e confinado a um condomínio fechado, desses que meu pai tem medo de retornar a morar e, é claro que eu entendo suas razões. Só não entendo por que esse piano que está atrás de mim precisa custar tão caro para voltar a soar afinado,… Malditas cravelhas!

Também não entendo por que a gente segue se apaixonando e acreditando nas pessoas e até na gente mesmo, pra depois vir essa onda blue e eu precisar de um amigo advogado para me lembrar que as pessoas são, no fundo, totalmente egoístas e que essa história de corrente do bem ou das pessoas “do bem” não passa de um marketing pra vender suco natural; ou ainda algum discurso aliciano da classe média alta que nunca viajou tanto pro exterior, mas que agora precisa economizar para pagar direitos trabalhistas e impostos para um governo comunista que insiste em patrocinar a ditadura cubana e roubar os cofres públicos sem sobreavisos ou julgamentos posteriores.

Dr. Gonzo, meu amigo advogado que agora passou a me seguir por aí e me lembrar do lado demoníaco que existe em cada ser, Dr. Gonzo, você sim, será cada vez mais necessário. Já precisei de remédios controlados, de drogas ilegais, rituais orientais e até de iridologia para saber quem eu sou, mas agora, nesse domingo de chuva e nos outros tantos que estão por vir, nesse momento blue e down, sinto que precisarei sim de uma avalanche de papéis, assinaturas, cláusulas, processos, contratos e carimbos de todas as cores, frios ou preferivelmente quentes; ainda que eu continue anarquista ao ponto de odiar todas as formas de burocracia e legislação criadas por esses humanoides, que seguem existindo dentro de mim, para tentar organizar uma massa que não consegue usar o bom senso e o coração nem para sair de casa ou tomar um café, e que segue querendo cada vez mais, sem perceber que o barato da vida não está na “inútil luta contra os galhos”, mas sim no tronco, é lá e somente lá que “está o coringa do baralho”.

Dr. Gonzo, por favor, me ajude a cuidar desses galhos, e obrigado mais uma vez ao baiano que me ensinou a perder o medo da chuva e à outra baiana, a maior de todas, que me fez ter a cabeça chata, chata o suficiente para seguir sonhando e compreendendo que há muito mais para sentir e aprender, ainda que as decepções só cessem por completo quando eu, você e todas as pessoas desse planeta… Sumirem.

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[pace is the essence] Podcast #07: Animais (Parte 3 – Os do Ar)

CAPA-animais-do-arRetomando as atividades radiofônicas, segue o terceiro programa da série “Animais”, dedicado aos animais que voam, ou pelo menos chegam perto disso. Escute canções sobre o tema, além de curiosidades sobre pássaros, corujas, borboletas, mosquitos,…

Abaixo a tracklist:

ANDREW BIRD – Cock O´The Walk
O LENDÁRIO CHUCROBILLYMAN – Chicken Flow
HOWLIN´WOLF – The Red Rooster
THE DOORS – The Mosquito
NICK DRAKE – Fly
THE CRAMPS – Human Fly
NADA SURF – Fruit Fly
HOAGY CARMICHAEL – Casanova Cricket
MARCOS VALLE – Crickets Sing For Anamaria
DEAD KENNEDYS – I Am The Owl
COCOON – Owls
DEVENDRA BANHART – Lazy Butterfly
SÁ, RODRIX & GUARABIRA – Juriti Butterfly
CAETANO VELOSO – Asa, Asa
BRIAN WILSON AND VAN DYKE PARKS – Wings Of A Dove
JIM HENDRIX – Night Bird Flying
DOCES CARIOCAS – Blackbird e Asa Branca
HIS NAME IS ALIVE – Save The Birds
FATS DOMINO – Birds and Bees
CURUMIN – Passarinho
CHICO BUARQUE – Passaredo
BLOSSOM DEARIE – Little Jazz Bird
WOLFMOTHER – Where Eagles Have Been
CIDADÃO INSTIGADO – Os Urubus Só Pensam Em Te Comer
SIMON & GARFUNKEL – El Condor Pasa (If I Could)
FITO PAEZ – Mariposa Tecknicolor

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Dicas Musicais, podcasts

[podcast pace is the essence] #02: Hospitais, Doenças e Afins

Segue abaixo a tracklist do segundo programa e também os links para escuta-lo agora mesmo, ou baixa-lo pra ouvir depois.  Abraços.

Paul Simon – Run That Body Down
Jon Brion – Hospital
Pinback – Your Sickness
Eels – Hospital Food
Leon Redbone – Lovesick Blues
Snooks Eaglin – Saint James Infirmary
The Rolling Stones – Dear Doctor
The Beatles – Doctor Robert
Scott Matthew – Surgery
The Smiths – Girlfriend in a Coma
Sons and Daughters – Medicine
The Czars – Side Effects
David Julyan – Time For My Shot
Bob Dylan – Shot of Love
Aretha Franklin – Save Me
Beach Boys – Anna Lee The Healer
Leonard Cohen – Ain´t No Cure For Love
Phillip Glass – Choosing Life
Wilco – Radio Cure
Fugazi – Give Me The Cure
The Five Blind Boys of Mississippi – You Done What The Doctor Couldn´t Do

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contos

Flores, Chuva, e Música Por Todos os Lados

Foto: Walkir Fernandes

Alguém me explique que som é esse que toma conta desse cartão postal vivo de Curitiba? Já não bastavam as milhares de flores coloridas contrastando com aquele típico céu cinza em pleno início de primavera? Que palco é aquele em pleno jardim botânico, ao lado de cartazes sobre o meio ambiente de uma tal bienal de design?

Vejo pessoas se aglomerando aos poucos – neo-hippies, famílias inteiras, velhos, meninas exoticamente atraentes, cabos eleitorais e toda sorte de curiosos. No palco, uma verdadeira big band toca Ray Charles, Joe Cocker, James Brown e uma série de outras preciosidades do cancioneiro norte-americano, todas executadas com naturalidade e energia contagiante.

E como se não bastasse o vocal rasgado e visceral daquele moço de costeletas avantajadas e gravata, quem é aquela mulher materializando uma espécie de segundo espírito da rainha Aretha Franklin? Que presença, que voz, que menina mais abusada hein?  Precisava cantar tanto assim, logo num show gratuito aparentemente tão despretensioso? Tenho certeza que aquelas flores todas não reclamaram.

Enquanto pais descolados brincavam com seus filhos ao som dos Commitments, meninas bebiam vinho, comendo queijo minas sentadas na grama. Aos poucos, pessoas traziam seus copos cheios de cerveja e que compravam de um velhinho gente fina, mas despreparado para tamanha demanda.

Aos poucos a noite caía e junto com ela, pingos de uma garoa previsível e que seria justificamente ignorada por todos com o mínimo de bom senso, ou apenas bom gosto musical.

E quando muitos achavam que seria difícil aquele show ficar ainda melhor, sobe ao palco uma nova dúzia de músicos, capitaneadas por J. J. Jackson, um norte-americano com pés e joelhos no Brasil. Naquele momento era difícil acreditar que tudo acontecia em um típico domingo chuvoso.

O brilho charmoso da garoa fina refletida em holofotes amarelos parecia querer congelar aquele momento. A trilha sonora produzida em tempo real por aqueles grandes músicos arrancava sorrisos de uma platéia comprimida em guarda-chuvas e atenta a cada melodia apresentada.

Durante um extenso medley de variados hits comandados desta vez, por um guitarrista muito mau criado, cheguei a comentar com um amigo que aquele seria o repertório e a banda perfeita, caso essas empresas que organizam formaturas e casamentos estivessem realmente interessadas em contratar alguém com talento e criatividade.

No bis, aqueles mesmos músicos excepcionais e engraçadões decidem transitar pela multidão tocando seus metais numa espécie de parada improvisada só-pra-malucos. Logo a velha melodia de “When The Saints Go Marching In” vira a base para uma canção sobre alguém ter supostamente tomado o martini de alguém. De volta ao palco, os músicos sugerem que tenha sido o Derico (sim! Aquele mesmo do sexteto do Jô e que de quebra ainda deu suas canjas, além de apresentar as bandas).

E assim, depois desse acalorado bis, Derico se despede balbuciando algo a respeito de uma possível segunda edição do evento no ano que vem, um dos músicos explica que infelizmente o parque precisa ser fechado e minutos depois, todas as luzes são apagadas e é hora de todos retornarem a realidade. As flores precisam dormir.

Dicas Musicais

Artista/Banda da Semana – Dr. John

Dr. John tirou esse nome de um praticante de voodoo de Louisiana. Durante parte da sua longa carreira, ele representou esse personagem místico, o “Night Tripper” e é dessa época seu melhor disco (Gris-Gris, de 68), de acordo com a Rolling Stone – a revista sabe-tudo. Mas Dr. John foi ficar conhecido anos depois, fazendo seus rocks, blues, boogie woogies e funks e que devem ter servido de trilha sonora pra muitas festas nos anos 70. É impossível ignorar a alegria e o frescor de canções como “Iko, Iko” ou “Blow Wind Blow”. São canções feitas para embalar viagens malucas em carros conversíveis sob sóis de dias de inverno ou apenas noites quentes alegres com seus melhores amigos.

A carreira de Dr. John começou lá atrás, na New Orleans da década de 50 quando trabalhava como produtor e guitarrista solo. Após levar um tiro no dedo defendendo seu amigo em uma briga, ele precisou abandonar a guitarra solo, passando para a guitarra rítmica e posteriormente para o piano, seu fiel companheiro até os dias de hoje.  E é nesse piano que Dr. John consegue tirar seu melhor, seja no psicodelismo místico de Gris-Gris, ou no velho rock´n´roll swingado de Gumbo – seus melhores discos.  Sua voz é outro trunfo, soando como um Van Morrison mais louco e mais negro. Separei algumas canções desse maluco talentoso roqueiro, para que vocês possam conhecê-lo melhor (isto é, caso ainda não tiveram essa oportunidade). Have a nice trip.

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