podcasts

[pace is the essence] Podcast #15: Sangue Sulamericano

arte sanguesulamericano

Programa de rádio em formato podcast dedicado à América do Sul, divulgando a exposição “Sangue Sulamericano”, de Igor Moura. Canções sobre o tema, curiosidades e latinidades, agora também transmitido pela Rádio Gralha, 106,1 mhz, aos sábados, 20h. Aproveite e boa viagem!

Escutar Agora!  |   Download Gratuito

Anúncios
arte, pseudojornalismo

Exposição “Sangue Sulamericano” por Igor Moura, no Museu Guido Viaro

cartaz 31x44cm_igormoura_web“Na exposição “Sangue Sulamericano” o artista multimídia Igor Moura, especializado em arte digital, troca a tela do computador por tinta e luminosidade do sol. Autodidata, sua pintura não se enquadra nos moldes acadêmicos, nem nas tendências da arte contemporânea, mas dialoga com a arte de rua, de traços fortes, pinceladas espontâneas e cores vivas. A série de pinturas inéditas demonstra que a experiência na América do Sul foi mais do que um passeio turístico. O encontro comnossos irmãos latinos foi um encontro de almas. A sensibilidade do artista funciona como uma espécie de teia que apanha cada partícula trazida no ar dos lugares que visitou. Sua mente imaginativa consegue captar as mais leves sugestões: um objeto simples, um jeito de sentar, a expressão do rosto, um sentimento, um silêncio. As cenas de rua filtradas pelo seu olhar humanista revelam-se generosamente em cores. A vida se mistura em sangue e tinta: “O inferno não são os outros. Os outros são o paraíso. A humanidade começa no outro”. Deus salve a América do Sul na arte de Igor Moura.”

Antonio Cava – Curador

contos

É Hora Do Almoço

São as primeiras horas do dia para o casal de mochileiros. A noite fria e a falta de cobertas o enfermaram e agora ele toma um chá medicinal em um restaurante turístico na Copacabana boliviana. No rádio, somente folk-rocks americanos. Do lado de fora, um bebê chora compulsivamente à procura de seu avô que no momento, começa a trabalhar em seu restaurante turístico.

São onze e meia da manhã e o casal de mochileiros brasileiros já querem almoçar. O dono do restaurante é um senhor boliviano de cabelos largos ralos e acinzentados. Sua barba branca tem duas semanas de idade e ele também parece ter acordado há pouco tempo atrás.

O chá faz efeito e agora o casal faz seu pedido. O senhor toma nota e diz que nasceu no Rio de Janeiro, mas que não fala português. Depois de repassar o pedido para um jovem conterrâneo, ele vai para o lado de fora na tentativa de chamar mais clientes para seu restaurante. Nesse instante, o bebê pára de chorar.

Faltam quinze minutos para a metade do dia e aos poucos novos clientes estrangeiros ocupam as mesas de bambu feitas para atraírem esses mesmos turistas. E logo, o senhor de barba branca e cabelos largos ralos percebe que seu restaurante está cheio e é hora de trabalhar sem parar. Ao fundo, o folk rock melancólico é trocado por alguma música latina dançante. O bebê parou mesmo de chorar e supõe-se que ele agora está com seus pais. Seu avô precisa trabalhar, é hora do almoço e os gringos precisam comer.

contos

Simplicidade Na Ilha do Sol

Acabo de urinar e de dar uma espécie de descarga natural utilizando um balde de água vinda da chuva, e agora estou em uma cozinha por entre panelas pretas de carvão, folhas de eucalipto, pedaços de madeira e pequenos bancos feitos com troncos. O teto é feito de palha e uma senhora de aparência indígena e origem boliviana, utiliza um tubo preto para, em poucos segundos, fazer o fogo crescer com apenas dois sopros instintivamente calculados. Do nada, iniciamos um breve e curioso diálogo:
— E vocês também fazem doces nessas panelas? — Pergunto a ela, um pouco intrigado.
— Não, não. — Ela responde, com ar de estranheza.
— Por que não?
— Porque o doce estraga os dentes das crianças e por aqui elas não escovam os dentes como vocês fazem na cidade.
— Hmm… Entendi.
— E me diga uma coisa, esses filmes que passam na TV, são verdadeiros?
— Não, tudo mentira. Às vezes eles tentam imitar a realidade, mas continuam sendo mentira.
— Hmm… Entendi.

Ilha do Sol, fevereiro de 2011

contos

A Copacabana Que Faz Frio

Nessa Copacabana faz frio. E haja chicha pra esquentar esse povo!

O barco pra Ilha do Sol sai pela manhã. E esse frio,  quando sai? Dizem que aqui faz muito sol e calor, mas só lá por setembro. No Brasil em setembro chove e em Copacabana também. Nessa Copacabana a princesa vem do lago. E que lago! Dizem que é o maior do mundo nessas alturas e talvez isso explique o frio que faz.

As barcas aqui seguem atrancadas. Sem turistas elas seguem paradas. Amanhã entro em uma delas. “Me levem para a Ilha do Sol!”, eu lhes direi e assim, deixarei o frio para trás e seguirei em busca de um lugar que faça sol e se possível, sem tantos turistas.

Que nada! Encontrei um atalho, basta ir no alto daquele calvário que o sol aparece! De qualquer jeito amanhã quero conhecer essa ilha…

Copacabana, do alto do Calvário, fevereiro de 2011

pseudojornalismo

Em Tarata Se Bebe Chicha

Na Bolívia e especialmente em Tarata se bebe Chicha e quem nasce em Tarata, Taratenho é. As taratenhas dançam na cadência do acordeon que vem lá das caixas do som distorcido e alegre do barzinho onde as bolivianas comem e bebem, Chicha. Pois é, em Tarata se bebe uma bebida fermentada de milho e trigo chamada, Chicha. A Chicha é feita nas casas das bolivianas que moram em Tarata. As taratenhas bebem Chicha em grandes potes de cerâmica. Bebendo dois desses, “a gente fica contente”, diz uma delas. E parece que a gente de lá bebe Chicha o tempo todo. Um oferece pro outro e assim, ninguém fica sem a tal Chicha. Em Tarata é a Chicha que domina e parece que lá, ninguém quer saber de trabalhar não.

Acho que um dia ainda moro lá.

pseudojornalismo

Bolivianas Na Rua Próxima a Praça Central

O que fazem essas mais de quinhentas bolivianas caminhando lentamente pela rua próxima a praça central? Com seus trajes típicos, suas compridas saias e suas lindas tranças, muitas ainda carregam seus bebês nas costas, enrolados em um pano de cores fortes e simpáticas. Com seus chapéus arrendondados, traços indígenas, dentes de ouro e seus próprios dialetos, quando não caminham pela rua próxima a praça central, trabalham em toda a sorte de ocupações. De baixa estatura e com roupas artesanais, elas estão em toda a parte: vendendo doces caseiros ou industriais, fritando batatas e bananas para serem servidas com bolinhos de carne, ovos de codorna e muito ketchup, vendendo copos de gelatina com merengue na praça ou ainda, sacos de milho para as crianças jogarem às pombas. Porém nesse dia, nessa segunda-feira fria, lá estavam elas, caminhando lentamente pela rua próxima a praça central. Atrás delas, vinham seus maridos e outros trabalhadores e todos estavam lá para protestar contra o aumento da gasolina, imposto pelo presidente Evo Morales.

Sem sobreavisos, todo o combustível no país sofreu um reajuste salgado de oitenta por cento. Como numa cascata, o transporte público e privado fora obrigado a aumentar seus valores. E logo, as mesmas bolivianas que usam os microônibus para se locomoverem, precisam aumentar o preço de seus produtos. Enquanto isso, na TV só se fala de uma crise lá no Egito e no rádio, a discussão entre Chile e Bolívia sobre a construção de um porto com soberania boliviana em território chileno segue inconclusiva. Dentro de uma lotação, senhoras reclamam do preço alto dos alimentos e em especial do açúcar, em uma curiosa relação com os preços baixos dos celulares. “Não se pode comer celulares”, diz uma delas.

Em paralelo, as bolivianas com trajes típicos continuam protestando na rua próxima a praça central, enquanto dois mochileiros brasileiros procuram uma passagem para Cochabamba e descobrem que ela também está mais cara.

Oruro, 8 de fevereiro de 2011