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Empanadas Salteñas

saltenasMeia- noite e meia e chego ao prédio escuro de nome inglês que costumava chamar de casa. A fechadura da porta de vidro está fechada com o costumeiro cadeado da madrugada. Sebastião, o simpático e jovial porteiro me recebe, pela primeira vez, sem um sorriso e sem as piadas de sempre. Pergunto automaticamente se está tudo bem e ele me diz que não, que ontem havia passado o dia no posto 24h com dores no peito e com a cabeça estourando. Agora ele está com os mesmos sintomas, além de calafrios que o fizeram ligar o aquecedor ao lado de suas pernas, cobertas por uma manta.

– Bem, acho melhor você desligar esse negócio, respire fundo e relaxe… Se achar que não está bem, bata lá em cima que te levo pro hospital.

No calçadão da rua XV, caminho em passo acelerado e vejo pouca vida por lá. As centenas de lojas estão fechadas após mais uma exausta e tumultuada sexta pré-natalina, e o pomposo show no capitalizado Palácio Avenida segue com suas luzes programadas, agora para uma plateia de fantasmas.

E o que resta por ali, além, é claro, dos solitários mendigos dormindo embaixo das marquises e das barraquinhas de cachorro quente esperando a larica dos baladeiros, é um grupo alegrinho de garotos e garotas ao redor do chafariz da C&A, tocando e cantando em coro semialcoolizado, o que parecia ser um maracatu ainda em fase de aquecimento.

Sou abordado brevemente numa esquina torta e ao lado de uma cafeteria envidraçada e completamente deserta. Sem surpresas, pois o moleque só queria o objeto mais cobiçado da madrugada – cigarros.

Não há táxis na cidade ou, pelo menos, nenhum deles parece receber as chamadas que faço do telefone sem fio do apartamento de meu pai. É sexta, é quase natal, é festa e há baladas pra todo lado e Curitiba já até aprovou a liberação de não sei mais quantas placas desses alaranjados – fato que não ocorria desde 1970. Porém, a realidade é que nesse momento, eles continuam diminutos, tão raros quanto os novos posts ou leitores desse blog.

No boteco central, velhos enfurecidos discutem futebol. Achei que esse assunto ou, ao menos o teor aplicado alteraria com a idade, mas meu pai diz que nestes anos “esses velhos costumam regredir à adolescência”.

Na telona, o clássico diretor de quatro olhos continua entretendo à moda antiga, com personagens engraçados e reais na decadência de suas futilidades e no vazio de seus sonhos, aparentemente grandiosos. Dessa vez, o velho alien ainda adiciona um tempero extra no roteiro, indo e vindo no tempo, seguindo o psicológico desvairado da personagem principal.

E lá estamos, no escuro do cinema, eu e meu pai, em agigantadas poltronas de casal, estofadas em couro ecológico, com mesas de madeira que giram em L. Ao redor, vejo poucos casais e minha parte neurótica do cérebro pensa na esquisitice de estar ali, justamente numa sexta à noite, ao lado não de uma amiga abandonada pelo namorado, ou de alguma nova paixão de verão, mas de um peculiar senhor sexagenário que também atende pela alcunha de pai. Afortunadamente esses pensamentos tolos são transitórios e só posso me sentir grato de estar ali com ele, prestes a assistir ao novo filme azul do Woody Allen, nas cadeiras mais confortáveis que o dinheiro bancário pode proporcionar.

A fachada do shopping havia sido restaurada, fato que não saberia datar, pois há anos não frequentava aquele local. Ainda do lado de fora, ao lado de funcionários fumantes, eu e meu pai tomávamos cervejas verdes de pescoços compridos, enquanto intercalávamos assuntos sérios com banalidades do cotidiano e assim, matávamos o tempo antes de o filme começar.

Na bilheteria do cinema do shopping cristalizado, o assalto: quarenta e quatro reais por um ingresso. A exibição do filme escolhido será numa tela padrão, sem imax, 3D ou qualquer idiotice dessas, mas a sala é “vip” e não há outra opção. “Isso é preço de teatro”, diz meu pai.

Zumbis invadiram Curitiba e não falo daqueles já presentes em qualquer cidade digna do suposto progresso: gente que acorda, come, trabalha e depois volta pra casa, em piloto automático, sem espaço para reflexões ou quebras de rotina. Esses zumbis em questão são zumbis clássicos no sentido do termo, sedentos por cérebros e que fazem parte de um livro ilustrado com (re) lançamento na data mais oportunista do ano, hoje, sexta-feira 13.

Sob os holofotes e de microfone na mão, meu amigo zumbi e seu colega gibiteco encerram as explanações sobre o projeto, abrindo espaço para perguntas de uma plateia antenada nesses assuntos, de zumbis e quadrinhos – coisas distantes da minha pessoa, mas que, talvez por algum vínculo afetivo, acabaram fazendo com que eu participasse dessa história, macabra por natureza.

Na feirinha da praça das feiras das estações, estacionamos nossos corpos, o meu e de meu pai, na frente da barraca da Bolívia, após circularmos pelo Chile e pela Índia, atrás de pastéis estrangeiros, com recheio de algo com espinhos. E parece que Portugal chegou à terra de Evo, pois as tais empanadas salteñas estavam mesmo deliciosas.

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Desafios, Pesos, Goles e o Escambau!

escambauO dia começou cedo, o frio e as tarefas pela manhã davam um pouco de medo, mas Gerson, que me fizera companhia no ponto de ônibus, não tinha esses receios. Estava indo descansar após seu turno como porteiro no condomínio grã-fino ao lado e, pasmem! Só estava de camiseta no meio daquele gelo tórrido de qualquer outono curitibano. Disse que desse mal ele raramente sofria, pois vinha de Guarapuava e lá a coisa era muito pior. Gerson também é bombeiro e saiu de sua cidade natal após a morte do pai, baleado em um assalto.

No hospital, o médico está atrasado. É feriado e, além de um porteiro de cara virada, roletas de entrada estáticas e pães de queijo cenográficos na lanchonete da frente, há também uma garota, que minutos depois, auxiliada pelo pai, recebe sua mãe, que está mancando.

Não tenho consulta marcada, porém preciso de uns papéis que o doutor me entrega cordialmente após breves conversas repetidas sobre Montes Claros, universidades, medidores de gordura e falta de estrutura no país dos pães e dos circos.

Do lado de fora, o frio diminui, o sol abraça e a farmácia a que decido ir está fechada. A outra, imponente e supostamente com o melhor preço da cidade, segue ativa como quase sempre, e lá, no paraíso dos hipocondríacos, gasto duzentos reais em medicamentos.

Saem os deveres e os medos, deixo as pequenas caixas coloridas com a mãe que precisa delas, enquanto mudam os temas das conversas ao telefone. Os prazeres do dia se aproximam, mas antes ainda preciso levar um forno elétrico, uma mochila e uma garrafa de vinho à casa dos amigos pelotenses.

No mercado cartelista do centro, encontro os outros, curitibanos, ou melhor, colombenses, mafrenses e valinhenses, e isso pouco importa, pois como dizem por aqui, quem fica na cidade, mais cedo ou mais tarde vira curitibano ou foge antes que isso se concretize. Compro a cerveja pro Johnny, mas volto para o restante do troco.

No sobrado novo, os amigos de sempre e uma ilustre companhia de idade avançada e de cabeça livre, agora em versão leve e solta, com a alegria e o olhar crítico de sempre e as histórias tropicalistas de um Rio efervescente. Na mesa, espetos de soja, pães de alho, maionese sem ovos e lasanhas com brócolis, outras verduras e massas também sem ovos. Nas mãos, copos de cerveja, uísque, vinho e de água sagrada. Fotos da família que a gente escolhe, fotos espontâneas para os feicebuques, discussões sobre os velhos temas, canções de um Dylan mexicano e silêncios profundos interrompidos por caras chatos. Nos intervalos, fumaça.

Mais jovens e embriagados de amizade e de tudo, seguimos para o shopping e para o bocket-show (não tem, depois do Caetano, quem sou eu pra chamar esse tipo de evento de maneira diferente) dos meninos do escambau na livraria das perdições e das contradições. O brother Davi comanda as câmeras enquanto um apresentador entusiasta da cena local nos lembra do Baixo São Francisco como sendo o lugar onde o novo e o diferente ainda predominam. E nesse universo, a banda que se prepara pra tocar é um dos destaques principais. Discurso bonito e verdadeiro, pelo menos na primeira parte. A segunda, veremos a seguir.

No palco improvisado em meio aos livros, jovens rapazes coloridos e antiquados, tocando instrumentos variados e enferrujados. E no meio dessa sujeira positiva, uma garota paraguaia, num visual que mistura duendes irlandeses, extintas aeromoças e não sei mais o quê, cujos olhos arregalados e hiperfocados fazem Valdir se lembrar da Laranja de Kubrick. De fato, a configuração estética do grupo lembra os inocentes mutantes e sua Rita, como o senhor bem comparou na sua pergunta sobre as influências da banda, se elas vinham somente desse período ou se também possuíam referências “mais modernas” como “Barão Vermelho, Skank e Cia.”. Mas sinto que a doçura vocal e a postura naïve daquela Rita de outrora foi substituída por um ar de contestação pela paraguaia em questão que, em seu canto e, principalmente em seu olhar, deixa transparecer uma brutalidade peculiar na idade, mas ausente em grande parte das cantoras de hoje em dia.

E se as influências da banda passeavam também entre o tango e o grande Chico, como o líder Caruso afirmou, não pude deixar de notar o tom político e liberal de algumas letras (“As fraudes no congresso / A rotina nas favelas / A visita do papa”, para citar apenas um trecho), contrastadas com a propaganda da livraria sobre um suposto lançamento de mais um livro do padre pop, Marcelo Rossi.

O show de bolso acaba com aplausos estridentes de uma plateia aparentemente careta, criada em shopping e alheia aos bares do tal Baixo São Francisco, mas ainda cativada pela postura da banda eclética e da performance autêntica da segunda vocalista do país ao lado.

Ajudo Davi com os equipamentos de câmera e novamente me vejo carregando peso, agora por entre vitrines e tantos outros estímulos desnecessários. No elevador cheio, o encontro com a banda de minutos atrás é ligeiro e me lembro do bebê morto que carrego na caixa preta. Caruso fica com saudade da sua terra ao conversar com a mãe de Flavinha, a mesma do almoço vegano e parceira da fumaça e dos papos tropicalistas. Afinal, Pelotas e Rio Grande possuem afinidades que nós curitibanos estamos longe de entender.

Ao chegarmos ao carro de Davi e Flavinha, outro desafio do dia – tirá-lo do estacionamento sem arranhões e mantendo os retrovisores, e sem nenhum ato de vandalismo contra o carro do dono ou da dona que, por algum motivo ignorante, trancou a saída rápida do famoso “Bilbo”. Pois é, também acho estranha essa coisa de dar nome a objetos inanimados, mas o carro é deles, eles são gaúchos e fazem o que querem com seus mimos.

E depois dessa saga com final feliz, sem arranhões e passando a milímetros das vigas triangulares, e como não poderia faltar à nossa ilustre visita da melhor idade, chegamos ao bar dos barbudos de sempre, mas que nessa noite, em especial, estava de algum modo, diferente. Recebo mensagens de texto do amigo espiritual que mora em São Paulo, mas que, por causa do feriado, está na cidade. Suspeito que o mesmo aparecerá no local e sua atitude dudeísta não me deixa precisar quando isso de fato acontecerá.

Os pacaias enchem as bocas dos amigos e das amigas, depois dos feijões baianos com bananas de pacotinho saciarem a fome de Sakura, mostrando-nos que sim, há uma outra opção além dos pacaias e das rústicas batatas para aqueles que, por algum motivo, deixaram o sangue de lado.

A noite é encurtada para a pessoa que lhes escreve após uma mensagem de texto, não do amigo antigo que ainda não havia aparecido, mas da mulher de coração, que me pede um medicamento em caráter de urgência. Saio com Johnny até a farmácia, compro a parada e fico no quarto táxi, finalmente livre, que me leva até a casa encantada, mas que nessa noite, em especial, estava sofrendo alguns ataques. Nada que alguns químicos e uma dose favorecida de fé não possam reverter.

Ainda me readaptando à nova cena me dou conta dos setenta reais no porta moedas peruano de que já havia sentido falta ao entrar naquele quarto táxi. Mas que louco sai de casa com setenta reais no bolso? Bem, e se eu disser que cinquenta nem eram meus?

Termino esse conto de doido sem a pretensão de alguma conclusão lógica e citando o rei das titias e dos jovens descolados, misteriosamente esculpido na assadeira do amigo pelotense: “Não há dinheiro no mundo que me pague a saudade” que, nesse caso, eu sentirei de você, Mamãe. Desta vez, os químicos e as preces funcionaram, os ataques cessaram e é hora de dormir, sem os pesos do dia.

 

Textos Relacionados (naquele lance, gostei desse, talvez goste desses também):

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A Noite de Ontem

Curitiba Nonstop

Vamos

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Série “Taxistas Curitibanos” – Episódio #4: O Justiceiro das Madrugadas

taxistas_curitibanosSão 1:11 da madrugada de terça. Entro no banco da frente de um taxista de barba grisalha e obesidade padrão. Dou boa noite, levemente alcoolizado e alterado, depois de uma festa de aniversário familiar, em algum bar morto da cidade. O senhor, com os olhos naturalmente inchados, responde brevemente, meio sem parecer querer muito papo. Pergunto se ele sempre trabalha nesse horário e coisas do tipo e, quando me dei conta, ele estava nos primeiros detalhes de uma história digna dos melhores (ou piores) filmes policiais que qualquer aficionado ou interessado pelo tema gostaria de ouvir.

E assim o senhor, de barba grisalha e palito no dente, começa sua saga em mais uma escura madrugada de terça-feira, depois de me contar brevemente um causo em que ele teria atropelado intencionalmente um assaltante de rua de revólver na mão:

“Eram umas três da madruga, eu estava no ponto do tráfico, ali perto da catedral, quando vejo um traficante, todo felizinho pela grana que descolou na noite, tentar uma corrida com meus colegas de profissão. Depois de levar um não atrás do outro, eles indicam:

– Se quer um taxista que te leve, vá até o último da fila, o louco do velho te leva!

Eis que chega o trafica e pergunta:

– Quanto cê faz até as Oficinas?

Respondi que, por menos de 90, não era possível.

– Porra, mas não costuma passar de 40!

– Meu chapa, cê já ouviu o ditado: ladrão que rouba de ladrão tem 100 anos de perdão?

Depois que cheguei lá na casa do maluco, ele desceu, pegou seu brinquedinho e retornou para o acento traseiro. Botou nas minhas costas e deu voz de assalto. Falei calmamente que, primeiro, ele tinha que ir pro banco da frente se quisesse continuar conversando. Quando ele sentou do meu lado, lhe disse:

– Agora você vai conversar com o Tata, estilo caranguejo, por que quem assalta por trás é veado. Agora, vai me dizendo onde cê quer me levar e eu sigo guiando.

Esperei meu momento e, quando pude, pisei no freio e joguei o vagabundo pro pára-brisa!  Nessa, peguei sua arma, dei-lhe um choque com meu aparelhinho e falei:

– Agora quem é que tá no comando?

Levei-o para um passeio turístico pela cidade e, depois de chegar num dos meus becos escuros prediletos, pedi pra criança descer do carro, mandei ela se despir, a amarrei numa árvore e liguei pro comandante:

– Tô com mais um aí pra vocês.

Antes que eles chegassem, tirei as balas do revólver (e as vendi no outro dia por 60 pratas) e joguei sua arma sem registro num mato, pra não acharem que eu que matei algum idiota por aí.

E assim o velho Tata termina sua saga, diminuindo a velocidade à medida que nos aproximamos do fim da corrida, garantindo que sua história chegasse ao fim, e ele fosse coroado como o justiceiro das madrugadas. Agradeci pela história e preferi lhe pagar em dinheiro.

 

Para ler os outros episódios (desconexos) desta série, clique nos links abaixo:

Episódio #3: Ecotaxis
Episódio #2: Vídeo-game
Episódio #1: Um Som Caipira Dos Bons

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Curitiba Nonstop

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Noite de quarta. Aniversário de improviso do jovem Paul, pizzas do tio, coca-cola, presentes atrasados, desenhos de Bob, pizza doce presente do tio, histórias de família, risadas, improvisos na gaita curta e no violão mexicano desafinado do rapaz dos dedos largos, o preto sai e entra o rosa.

Noite de quinta. Alpargatas na tempestade do equinócio de outono, críticas ao teatro, espanhol falsificado bêbado chato quebrando copos, Johnny e Brian pisando nos cacos, papos desconexos, universitários dos cursos de sempre, loira alta e magra buscando a festa pós-esquenta e o namorado inteligente do curso pseudocabeça que lembre seu pai ausente, cara descobrindo mais uma utilidade pros pelos de sua vasta barba, garoto bêbado rebelde estacionando o carro do pai sem cuidado, porta abrindo e raspando na calçada de pedras, namorada ruiva de pato branco, dono insistindo na piada, Johnny e Brian insistindo na cerveja e nos cigarros na chuva.

Noite de sexta. Reencontro de velhos amigos cada vez mais velhos, cervejas no mercado, voltas na quadra, novas companhias, papos entrecortados, deus e o diabo tentando unir os dois grandes tesouros da humanidade, pouca humildade na apresentação do artista tardio, novos projetos, mais rostos conhecidos, senhor de idade distante das drogas pesadas e parceiro para voltas na quadra, casal de amigos de passagem, o marido fica, casal de marceneiros legais, Curitiba é melhor que Joinville, cachorro quente sem vina e sem espera, mercado pré-balada, meninas de saia, garotos estranhando o cigarro do cara, taxi pra casa.

Sábado à tarde. Festival na praça importada, céu azul, sol, carro torto e aberto na rua escondida, espaço gourmet, micro-fatias de pizzas superfaturadas, sopas e caldos com costela de Adão, família reunida, óculos escuros do cantor cego, banda olímpica tocando rock, cachorros se pegando, criança hell angels apavorando na moto de brinquedo, ala dos shortinhos e das pernas das revistas, meninas com os mesmos narizes, playboys de plantão, promoções irreais, história da arte na casa do professor, chute sem querer no namorado sem nome, culpa do game do Michael.

Noite de Sábado. Volta na quadra com o reconhecido e seus conhecidos, racionalizando Tim Maia e os novos rappers, menina corrigindo a baliza e deixando a menina da rua envergonhada, amigos de volta na praça, Paul, Wilde e Brian atingem o estrelato, xépes citrus, Yoko de chapéu da moda querendo dançar, despedidas, Straits e seu dinheiro pra nada, Floyd e a música da torcida, casal e amigo buscando sanduíches na nova barba, mau humor, pratos americanos com o ketchup do filme, hambúrgueres de batata e de grão de bico, joguinho da verdade, carro pra casa da mãe, medicações necessárias, esposa descansa, parceiros em busca de barbudos, cigarros e as cervejas de sempre, ex-vizinha leitora com o novo namorado, discussões pequenas sobre língua portuguesa e o uso da crase, grandes discussões sobre amizades e o uso do tato, alguma compreensão e muito sentimento, cigarro na lateral do bar, portas fechadas, propostas de banda, mesas e cadeiras amontoadas, mais cervejas, mais um cigarro, dois ingressos pra festa dos gringos faltando um, velha rua com luzes novas, gente amontoada na cerca dos fumantes, desconto negado, disque jóquei interessante, menina e mulher afim do mesmo garoto, drink em copo de plástico, Brian cansado e querendo partir, fila pra pagar imensa, samba pro gaúcho, professora de maracatu, gases fedidos, francesas que falam português, gaúcho falando portunhol, italianos conversando com o garoto dos vinis, sonhos de artista, táxis demorados, garoto e mulher encontram a paixão nas últimas horas da madrugada, gaúcho espera sozinho e sem créditos em seu celular.

Noite de Domingo. Festival de novas bandas no bar da adolescência, sai a vodka barata e entra o rock com água, Cream e os blues caseiros surpreendem, baixista sério, platéia de amigos, a nova banda mais fofa da cidade, adolescentes cantam e se abraçam, banheiro, conhecido da próxima banda, produtor viajando, xixi, cigarro, cachorro quente sem cartão, ando meio desligado no palco, platéia semi-vazia, amigos no camarote, canções e letras de qualidade, saxofone especial, balanço legal, o eterno romance de Paul, rosto limpo e piadas verticais entre os silêncios, dançarinos imaginários, casal de amantes bebendo água, dores de ouvido, a viagem no palco, compromissos importantes, breves desabafos, parabéns ao amigo pelo filho que ainda vai nascer, desculpas públicas pela saída francesa, escada, rua, carro, casa da mãe, medicamentos necessários, textos compridos demais imitando alguém, quem os lê, talvez gravando fique melhor, o sono também deixa bêbado, chocolate na madrugada, banho, cama, carência, insônia, revisão de prioridades, revisão mental do texto, insônia, o peso nas costas, abraços, insônia, mãos dadas, sonhos de um bêbado sem iluminação.

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O Velho e o Moço

ovelho

O velho diz que sua tia, internada no hospital há semanas é a parenta mais velha da família. Diz que quando ela partir, cronologicamente ele será o próximo. O velho diz que não quer ficar muito velho, e acabar em algum asilo esquecendo seu próprio nome. O moço na sua frente lembra-se do homem centenário que acabara de terminar uma maratona. O indiano? O velho pergunta com um sorriso no rosto e se lembra que também é possível acabarmos assim, triunfando para milhões de expectadores do famoso canal do medo.

O velho diz que já fez muita coisa, ajudou zambianos a terem água potável, ajudou a construírem uma fábrica de açúcar para os nigerianos e criou empregos para dezenas de compatriotas. Talvez tenha se esquecido de seu principal feito, doando seu corpo, mente e coração para uma causa, aparentemente perdida. Paixões têm dessas coisas.

Desde o ocorrido, o velho diz que só dorme depois de um copo de cerveja, uma taça de vinho e uma dose de uísque doze anos com água. Talvez mais um renascimento pareça improvável, mas ele parece vislumbrar algum futuro. Sabe que não pode mais contar com seu corpo e nem com sua conta bancária. Mas ele também já parece ter percebido que a vida é feita de coisas simples, de intenções e de outras possibilidades.

O velho diz que gosta de plantar e do processo e do encanto que é materializar uma vida, dando alimento e luz e alguma proteção. O amor pode e deveria ser algo simples, mesmo que seu coração partido diga o contrário.

O velho agora está no avião rumo a terras frias e insensatas e na sua cabeça as lembranças de sua última estadia no país do sorriso se misturam com suas escolhas pessoais de uma vida cheia de interrogações e de algumas decepções. Nunca chorou tanto quanto nas últimas horas antes e depois de entrar na aeronave. O velho só se esquece do quanto foi importante para aquele moço e para algumas pessoas que ainda procuram alguma compreensão maior, algo sincero que os conforte, mas que não os impeçam de sentir a velha montanha russa de emoções que costumam abraçar a chamada “vida”.

Esse mesmo grupo já aprendeu desde cedo que essa mesma vida é o que acontece enquanto estamos ocupados fazendo planos, como diria o velho roqueiro que a cada ano, fica mais novo. E com isso no coração, eles sabem que sozinhos nada de bom acontecerá, mas que é fundamental pensar e sentir cada ação individual, deixando o umbigo ou qualquer velha idéia de lado, e focando no próximo, seja lá em qual condição esse próximo esteja e sempre, sempre, mantendo o sonho vivo e possível.

No fim, chega a ser algo até lógico, uma vez que se o outro existe e precisa de ajuda, logo ele faz parte do grupo, independente do grau de conexão afetiva, espiritual ou familiar e mesmo que essa conexão tenha sido estabelecida momentaneamente, talvez explicada por alguma teoria metafísica, ainda ignorada pela maioria e compreendida por algumas filosofias orientais ou não.

E assim, dentro de suas limitações e sem grandes pretensões, ainda que externamente talvez não pareça, o moço segue seu caminho, simples, intuitivo e com alguma compreensão material do todo, enquanto o velho continua revendo suas escolhas e buscando algum outro caminho, diferente de seus planos anteriores.

Sua casa está fechada há muito tempo, mas sempre há a esperança de um dia, alguma janela se abrir, mesmo que pra isso, outro vendaval precise acontecer.

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Tom, Chico, Índia e Muito Medo

Na noite passada eu aprendi a tocar piano com o TOM WAITS. Estava ao lado de um dos meus melhores amigos e estávamos numa festa privada em que Tom tocava no piano da sala. Sentei do lado dele e pude observar seus truques. Depois peguei um voo rápido pra ÍNDIA e chegando lá comecei a fotografar a paisagem, mas logo percebi que aquela foto era igual aquela outra tirada por uma amiga há algumas semanas atrás, então mudei o enquadramento para que não ficasse igual. Curti o país, mas logo regressei a casa de minha MÃE, quando fui chamado pela enfermeira e quando a vi, ela havia morrido. Chorei junto com a enfermeira e fui pra sala pensando que isso não era possível e então, quando voltei ao quarto, minha mãe havia ressuscitado e agora o choro era de alegria. Logo esse cenário foi substituído por uma espécie de desafio, onde eu fazia parte de uma equipe que tentava sobreviver em um OCEANO, onde o grupo era conduzido por balões infláveis do tipo que vemos em festas de aniversário. Cada participante estava conectado a um oxímetro, com o intuito de controlar nossos batimentos cardíacos e nosso oxigênio. Morri de medo de morrer afogado e então fui parar em SÃO PAULO, no alto de um prédio gigantesco. Também tive medo de morrer e a altura me deixava ainda mais tenso e com medo de cair. Nunca vi tantos prédios altos em minha vida. No bar, conversei com o CHICO BUARQUE, tomamos umas cervejas e trocamos ideias sobre assuntos diversos.

O bacana foi ter feito e vivido tudo isso numa mesma noite, sem precisar sair da minha cama.

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Vamos

Vamos, o show vai começar logo, temos que encontrar o Gustavo, que veio de longe, a Joana e a Bruna, que vieram de perto, e o Homer, que também veio de longe, as ruas estão cheias, é a virada cultural de Curitiba e talvez essa tarefa, de encontrar pessoas, seja difícil, mas vamos tentar, o Arnaldo Antunes já começou a tocar, o som está baixo e mal podemos ouvir o que ele canta naquele microfone, mensagem no celular, o Gustavo me diz que eles estão no lado esquerdo do palco, perto dele, o Marcos me manda outra mensagem dizendo que ele está no banco da praça e indo pro show, minutos depois cruzamos com ele e sua amiga, para logo nos perdermos no meio da multidão, tentando chegar no lado esquerdo do palco, que saco, não dá pra ver o Gustavo e o som continua horrível, baixo e confuso, preferia escutá-lo no auto-falante do meu celular, ok Carine, vamos sair daqui e tentar encontrá-los no outro lado do paço, onde não há quase ninguém, somente um monte de bicicletas acorrentadas, mando mensagem pro Gustavo, mas ele não responde, esperamos mais um pouco, fumamos um cigarro para em seguida recebermos uma nova mensagem, desta vez ele nos diz que está indo pras ruínas, eu mando uma mensagem pra Joana, perguntando se elas ainda estão no bondinho, ela me diz que estão nas ruínas e então, diante dessa situação, decidimos seguir para lá, mas antes uma passada no banco pro dinheiro da cerveja, chegando nas ruínas compro uma latinha de cerveja por cinco reais, malditos comerciantes de rua,  encontramos as meninas sentadas na arquibancada, de frente pro palco e nele, a banda Gentileza toca sua mistura fina de samba, ska, jazz e rock, para uma multidão que é bem menos multidão que aquela do show do Arnaldo, e assim, eu e Carine podemos finalmente curtir um bom show, sem os empurra-empurras costumeiros das grandes aglomerações, e finalmente na companhia dos amigos, e falando neles, logo na nossa frente, mais perto do palco, vemos o Gustavo e sua nova namorada, dou mais um tempo com as meninas, fumamos, e desço pra cumprimentá-lo, curtimos um pouco do show juntos, o papai noel estridente de posto também parece curtir, depois retorno pra arquibancada, no palco a banda deixa as gentilezas de lado para tocarem um funk carioca e fazerem todo mundo rebolar um pouco pra depois terminarem o show com seus maiores hits radiofônicos, ovacionados por uma platéia cheia de energia e jovialidade, sem música, seguimos em direção ao Fidel, o bar dos barbudos, que nessa noite está bombando, com o Pedro discotecando antigos vinis brasileiros e com uma galera do lado de fora do bar, fazendo lembrar outro bar famoso da cidade, entramos, milagrosamente as meninas conseguiram uma mesa pra oito, sim, agora estamos em um grupo maior, mas a tarefa de conseguirmos uma cerveja gelada se mostrou quase impossível, esperamos uns quarenta minutos, falamos com o Lucas, o garçon e brother da galera, mas ele estava ocupado servindo dezenas de chopes pro povo lá de fora, o Gustavo tentou conseguir as geladas direto com o Fagner no balcão, mas este carecia de um pouco de simpatia, e enfim, depois de um longo e tortuoso tempo com as gargantas vazias, conseguimos as tais cervejas e aproveitamos e pedimos nossos lanches, os clássicos pacaias, sanduíches de abacate para paladares desacostumados com carne de bicho, na mesa olhares entrecortados entre pessoas que se conhecem e pessoas que não se conhecem, Fagner discute com o cara que tentou pegar uma cerveja sozinho, o retirando de seu bar, olho pro lado e encontro um grande amigo dos tempos de colégio que estava lá para um aniversário, conversamos um pouco, fumo mais um cigarro e ele vai embora, volto pra mesa, comemos nossos pacaias, converso com o Homer sobre sua viagem para o Uruguai e depois Argentina, nos despedimos de todos e vamos embora, pra longe dessas loucuras de cidade grande, dessas aventuras que são as tais…viradas culturais.

(agora sim, posso respirar)