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Crônicas de Nácar #03: Amolecendo a Ditadura

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Ton é talvez o garoto mais puro que conheci nesses últimos anos. Dono de uma risada inconfundível, estridente e potente, comparável com a Fafá de Belém, o Bira ou qualquer outro conhecido que costumamos encontrar em esquinas e casas malucas por aí. Novamente não presenciei o acontecido, mas ontem no telefone fixo Ed me contou o que rolou e só pude agradecer novamente ao universo e a tal natureza descrita pelo alien viajante no tempo que revi pela quarta vez na máquina vermelha maior do mundo.

Ton é músico de rua e costuma tocar sopros invisíveis com sua guitarra enferrujada, ao lado de seus parceiros de mangue: Jordi e Fred. Juntos eles formam um power trio instrumental bem doido, consumidores de néctar e daqueles fazem você tirar o chapéu, e depois encher o chapéu deles, contribuindo pela arte de rua em uma cidade dominada por seres grotescos que ainda não enxergaram o verdadeiro valor deste tipo de apresentação. E foi justamente durante uma apresentação deste grupo, em plena Praça Ozório – berço da malandragem curitibana e também de lindas feiras cheias de artesanato e apetitosos rangos; foi nesse local aparentemente ordinário que policiais interromperam o show da banda de Ton, com a velha premissa de “quero ver a autorização de vocês, pois pra tocar e alegrar os transeuntes necessitamos de papéis!”. Jordi que havia descolado o tal documento junto a Fundação, outro órgão que já teve dias melhores, mas que como toda célula burocrática de um sistema antiquado e capenga, sofrerá baixas naturais.

Dedicarei um punhado de palavras para descrever algumas das atrocidades dessas supostas autoridades de uma “Coolritiba” que parece legal nos cartazes, mas que esconde sujeira e muco para todos os lados, deixando seus moradores doentes, com a garganta fodida e uma voz rouca e falha, cansada de já não possuir valor especialmente quando lidamos com humanóides que têm o poder na forma de uma arma na cintura. Alguns destes absurdos já foram retratados nesse mesmo blog pseudo hipster de valor duvidoso.

Primeiramente, fora… Piadas desbotadas à parte, esses mesmos policiais que pediram o alvará para o trio em questão, sabiam que eles estavam “legais”, pois já haviam pedido o famigerado documento em outros momentos. Jordi que havia esquecido o papel na Casa de Nácar, algo típico de artistas e demais portadores de DDA, correu para poder depois esfregar na cara da sociedade que eles estavam dentro da lei, e assim, poderiam seguir seu show, esquentando corações em processo de congelamento favorecido pelas últimas mudanças climáticas. Porém esse papel não foi encontrado, e restou para Jordi pedir desculpas aos seus comparsas, afinal, estamos falando de bandidos que escolheram a música como forma de sustento.

No outro dia os tiras tiveram a cara de pau de pedir para uma mulher de aparência humilde e que sempre prestigia as bandas de Nácar, lançando sorrisos e moedas que consegue com a venda de balas infantis. Essa mesma mulher, que na ocasião estava com um bebê no colo, foi pedida para ser revistada, em plena praça pública. Tiraram seu filho, enquanto uma policial feminina com o instinto materno adormecido revistava cada parte do corpo da mulher, incluindo peitos e língua, em um claro sinal de humilhação. E não, esses tiras mal intencionados não encontraram nenhuma droga ou arma em seu corpo. Ed que tocava com seus amigos decidiu se manifestar do jeitinho que esses tiras de araque gostam de ouvir: “Hey, vocês não fizeram nada com aquele bêbado que não deixou a gente fazer nosso show e aí vocês revistam uma mãe com criança de colo? Em que mundo vocês vivem?”. E é óbvio que quando a autoridade e o trabalho deles é questionado publicamente, essa mesma classe se junta para justificar qualquer tipo de tosquice que eles estejam fazendo. “O que? Você tá querendo nos dizer como devemos fazer o NOSSO trabalho? Você vai querer nos humilhar em público?”. “Não meu senhor, desculpe pela maneira que falei,… Como vou discutir com alguém armado? Viver em um estado fascista é foda, mas ainda sinto amor e quero seguir vivo.”

“O Mal acha que faz mal” é a célebre frase repetida todos os dias pelo mestre argentino Tijuan. E foi assim, depois dessa sequência de bizarrices envolvendo fardas e papéis, que diversos músicos de Nácar, se reuniram em frente ao famoso bar hippie-good-vibes para insistir naquilo que eles acreditavam ser o correto: arte de rua jamais será um crime. E tocaram. Tocaram um pouco mais. Tocaram transbordando emoção e groove, e logo uma multidão se aglomerou em volta deles. Mas o xerife Mr. Garrett continuava insatisfeito, mandando uma viatura parar o show, exatamente as 8 e meia da noite de um domingo.

Ton, o menino dos olhos brilhantes, somatizou toda a dor e a tristeza daqueles companheiros de trabalho, músicos honestos “sem frescura”, e simplesmente desabou, derramando baldes de lágrimas. Ed que já havia enfrentado problemas com a lei recentemente e estava trabalhando essa energia dentro de si, olhou nos olhos do policial e disse, em tom sereno: “O meu amigo ali está chorando porque vocês não estão deixando a gente fazer nosso trabalho, só queremos tocar.”

E eis que a esperança em um mundo melhor surge do céu sob purpurinas e o policial demonstra compreender a situação explanada, movimentando positivamente sua cabeça e enchendo seus olhos de lágrima: “Podem tocar, a gente sai, tá tudo bem.”

Muito se fala hoje em dia: tememos um presidente ilegítimo, tememos mais ainda um presidente fascista que promete acabar com as esperanças de um povo sofrido e corrompido, mas que ainda sabe o valor da criatividade e da união em momentos de crise.

E se algum dia a tal revolução não televisionada acontecer de fato, ela será pelo coração e jamais pela mente, como nos acostumamos a pensar. E viva esse idioma que nos permite ter lições espirituais: “A mente mente” e o “O presente é um presente”. Pois sabemos que o amor é muito maior que qualquer arma inventada em impressoras 3D.

 

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Crônicas de Nácar #02: Baseado em Contos Surreais

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A história que contarei não aconteceu exatamente na rua em questão, mas nas redondezas, bem no centro histórico da chamada República de Curitiba, nomezinho feio que inventaram recentemente, para descrever essa província pseudo européia localizada no sul do Brasil – um país bem diferente do que vemos por aqui.

Era mais ou menos umas onze e meia da noite, quando meus amigos decidiram lanchar no copo sujo, uma lanchonete 24h com coxinha de 1 real e uma série de personagens notívagos um tanto curiosos. Cumprida essa missão, Ed, Renata, Fernando e Nina, decidiram celebrar a saciedade de seus estômagos, e fumar unzinho bem na frente de um famoso restaurante, que em inglês, algo típico dessa republiqueta, diz pra gente que eles tem “o melhor hambúrguer do mundo”. Egocentrismos a parte, meus amigos estavam lá, cantando All You Need Is Love, no melhor astral que uma capital fria pode oferecer. Nina coloca o baseadinho na boca e de repente o cenário muda de figura: um camburão da polícia militar encosta e logo saem cinco homens com escopetas e expressões faciais de puro ódio. Chegam brincando e dizendo coisas do tipo “rodaram, rodaram, seus filhos da puta, maconheiros de merda, podem encostar na parede”.

Apesar das duas meninas e de serem cinco homens na abordagem, eles foram revistando os meus quatro amigos, ao som de xingamentos e esculachos, infelizmente típicos dessa polícia brasileira. Durante esse processo tosco, Fernando levou uma cacetada nos testículos, e quando esboçou uma reação perante uma das maiores crueldades que um homem pode passar, o policial pergunta “que que você tá se contorcendo aí viado?”. Fernando apenas explicou com seu sotaque nordestino inconfundível “você bateu nos meus ovos!”.

Nina, uma garota que esbanja alegria no viver, e não deve passar dos 50 quilos, também sofreu preconceito, talvez por ser negra, ou pelo fato de ter nascido no Rio de Janeiro. “Ah, você é uma carioca folgada. Volta lá pra sua terrinha de merda”. Renata, que veio de Londrina, mas que naquele momento bizarro resolveu dizer que era daqui e que morava no Pilarzinho, foi prontamente humilhada em um sentido reverso. “Ah, você veio de um bairro bom, o que a senhorita está fazendo com esses vagabundos: negros, nordestinos e bandidos por natureza?”. Só aí esses tais homens da lei cometeram pelo menos três tipos de crimes, crimes que a sociedade costuma ignorar, afinal, eles só estão cumprindo a lei“, algo a ver com os costumeiros “homens de bem” típicos desses cantos.

Ed, um dos maiores talentos musicais que conheci nos últimos anos, foi o único que decidiu rebater algumas das atrocidades ditas por esses cinco homens, sem rostos e sem um pingo de bom senso ou respeito, cinco homens que pensam que a farda possui alguma mágica especial que faz deles superiores a qualquer outro cidadão. Ed também é negro, tem um cabelo black power invejável e veio do interior de São Paulo. De cara ele afirmou pacificamente “sou maconheiro sim, mas sou trabalhador, trabalhei o dia todo e agora vocês querem me prender porque estou fumando um baseado com meus amigos?”.

Por motivos incompreensíveis esses cinco homens com escopetas algemaram Ed e o colocaram no camburão, enquanto meu amigo tentava explicar que o país estava uma merda justamente por essa hipocrisia. Com claustrofobia, Ed tentou meditar dentro daquele pequeno espaço escuro destinado a verdadeiros bandidos: assassinos, estupradores e quem sabe alguns políticos também. Mas sua meditação era sempre interrompida pelo policial baixinho com algum problema sério de auto estima, que seguia xingando e esculachando meu pobre amigo.

Resumo de mais uma das milhares de histórias que se repetem na cidade onde “a lei funciona e é pra todos, menos se você for do PSDB”: levaram Ed até o décimo segundo batalhão da polícia militar, há pelo menos dez quilômetros do centro, fizeram ele assinar um termo estúpido e ainda ouvir aquela mesma ladainha de sempre “pô, você tá me fazendo trabalhar nessas horas só por um baseado?”. Fale isso pros policiais que levaram meu amigo, os mesmos policiais que passaram por ele e gritavam “Bolsonaro 2018!!! Pra acabarmos com esses vagabundos todos, vocês têm que morrer!!”.

All You Need Is Love, pois esse ódio todo não te pertence. E por favor, na próxima vez, deixe meus amigos fumarem. Talvez vocês também precisem disso para acalmarem essa mente doentia e lavada a seco nesse quartel de onde vocês vieram.

Ed foi encontrado somente duas horas depois, em um bucólico posto de gasolina, tentando conseguir algum celular emprestado para chamar um uber, enquanto era mangueado por outro músico de rua.

 

 

 

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Arte de Rua Não é Crime

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Sábado de sol, mas dessa vez não aluguei um caminhão e muito menos comprei feijão. E se tinha maconha, quase não vi. Vi outras coisas bem legais e essas palavras tentarão explicar um pouco o que foi o dia de anteontem. Pela segunda vez, vi diversos artistas de rua unidos para uma causa nem nobre, nem pobre, apenas necessária em tempos estranhos. Tempos em que o ódio e a ganância são exalados por todos os poros, tempos de guerra como sempre e tempos em que a polícia militar precisa de nove carros e trinta homens fortemente armados preparados para prender o pior bandido da história dessa cidade cada vez mais cinza. No caso esse bandido se chama Música de Rua, e quem sabe mais uma meia dúzia de inofensivos maconheiros.

Sim, os músicos de rua tem sofrido uma repressão desmedida apenas por estarem tocando na rua, como sempre fizeram. E não estou falando de mega shows pirotécnicos e clandestinos, em algum bairro residencial e em plena madrugada. Esses músicos têm sido abordados somente por estarem tocando um jazz-fusion-groove, ou seja lá como queira chamar, em pleno centro de Curitiba, às oito horas da noite de uma sexta-feira. Uma pequena multidão parou para vê-los e também contribuir para que continuem fazendo isso, colaborando com algum trocado.

E sábado foi novamente um dia de protesto, um protesto artístico sem cartazes de ódio, sem a presença de maçons engravatados pedindo impeachment, nem panelas, nem camisas de futebol, nem megafones ou carros de som insuportavelmente chatos. Apenas música! Bem, talvez o principal fosse a música devido às últimas histórias bizarras envolvendo esses caras, mas também teve outras formas de arte, teve um palhaço de rua venezuelano andando em um monociclo de proporções girafais, teve dança de carimbó,  teve poesia e teatro misturada com música, e teve uma porção de fotógrafos e videomakers registrando tudin.

Pararam famílias, trabalhadores em dia de descanso, desempregados, lojistas, estudantes, turistas, outros artistas e mais um ou dois bêbados típicos de qualquer rua de cidade grande. Houveram outros transeuntes que não chegaram a parar, mas mexeram seus corpinhos em sinal de aprovação, ou como se estivessem alimentando brevemente suas almas carentes. Afinal, as ondas sonoras também cumprem esse papel.  

No fim do dia a sensação era de paz e de dever cumprido, ao menos pelos organizadores. E que venham novos atos de conscientização como esses últimos, cheios de amor e arte: dois lances que costumam andar lado a lado, se fundindo na maior parte do tempo e fazendo a gente perceber que a verdadeira transformação será sempre de dentro pra fora, ou seja, discursos inflamados e piquetes jamais serão suficientes, especialmente quando o espírito está fraco ou contaminado pelo ego que obstrui, aleija e faz a gente esquecer que o verdadeiro irmão não está no sangue ou na amizade, mas na sua frente.

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Fragmentos de uma noite doce

pace_luaA noite aterrissou em minha cabeça em estilo pouso forçado, sem avisos luminosos ou máscaras de oxigênio. Era sexta, a lua estava cheia e apesar do anúncio dos astrólogos, ninguém estava preparado para aquela avalanche de sentimentos e piruetas potencializadas por agentes químicos interestelares. “O calendário resumiu-se a quase um mês”, culpa do garoto maroto com sono.

Pra mim, a noite era de despedidas, as argentinas retornariam finalmente para seu país de origem, após um mês de viagens não programadas, iniciadas na rodoviária mais caótica da América do Sul. Um caminho torto envolvendo cataratas avassaladoras, ilhas desertas sem proteção solar, romances estranhos e uma porção de dias na casa dos malucos, na cidade do poeta maldito mais pop do Brasil.  

Na casa o clima era de festa, daquelas improvisadas, sem convidados especiais ou atrações confirmadas, apenas cervejas, violões e os loucos de sempre: verdadeiras espécies em extinção, abelhas e sabiás de terras desconhecidas. Volumosas risadas nos guiaram em direção à natureza mais próxima, uma espécie de universidade às avessas, sem professores ou alunos, apenas mato, bichos, um lago e uma pedreira nos protegendo dos ventos gélidos e das energias pesadas oriundas da capital.

No palco principal a atriz, mais bela e ancestral que se tem notícia, protagonizava o show espacial, com a ajuda de um coro de figurantes esfumaçados que insistiam em transitar na sua frente. Na Terra o pré-carnaval da trupe beltrâmica rolava na beira da lagoa escura distante do abaeté, e próxima dos adolescentes embebedados por catuaba e pelo velho som eletrônico das antigas raves. Enquanto isso, na roda fervística, homenageávamos o mestre Caetano e suas transas revisitadas: pérolas históricas das canções populares eternizadas em nossos corações, vagabundos desde sempre.

Tamanha beleza só poderia ser contraposta pelos rostos derretidos dos meus amigos. Sem eles a viagem seria em vão e não passaria de uma mera egotrip por mares já navegados.

Na volta lá pelas cinco da matina, o choque abrupto com uma imensa muralha de realidade: nosso amigo e novo residente da casa havia tentado se matar de uma maneira pouco criativa. Com a cabeça cheia de boletas e biritas e com uma depressão aguda nas costas, Nardo se viu no fundo de um corredor de desesperanças, pronto para desistir. Felizmente seus amigos – quatro especificamente que ficaram na casa e mais um que também ficou na casa, mas que por motivos explicáveis não poderia ajudar muito – esses quatro anjos disfarçados de malucos promoveram o resgate de Nardo, com o auxílio de mais três números de telefone e um casal de enfermeiros buena onda.

Nos segundos anteriores às primeiras horas merecidas de sono, quando a cuca tenta compreender o incompreensível, realizando suas bilhões de conexões e cálculos matemáticos sem lógica aparente, talvez nesses breves segundos de lucidez em que a mente por fim para de mentir, refaço os traços da noite e acordo com um desenho de Dali sendo levado pelo vento do esquecimento. E antes que ele fuja pela janela, me esforço para prendê-lo nessa jaula de memórias proibidas, chamada crônica.

 

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Raios de Esperança

raiosTímidas luzes natalinas começam a aparecer na vizinhança de uma casa que agora está estranha e oca, faltando peças fundamentais e ecoando saudades por todos os lados. Randy Newman segue na sala na sua “terra de sonhos” provocando inspirações e divagações positivas, apesar dos pesares.

A semana havia começado bem, o sol de verão irradiava esperança nos ares, já mal acostumados com a chuva e o frio da nula primavera de Curitiba. Após a enxurrada provocada em meu coração operado, e todas aquelas histórias macabras envolvendo facas, celulares e ambulâncias, sentia que havia algo fresco no ambiente, algo que acalmaria meus pensamentos em chamas, algo que me fizesse seguir acreditando nesse mundo perdido cheio de nuvens e distrações.

A vida se mostrou frágil novamente como o piano melancólico de Monk, a música mais uma vez segue intensa e apontando a direção. O mundo lá fora ainda parece hostil e carente de sentido, mas os ventos praianos de dezembro anunciam o ano novo e abrem espaço para novas ideias e novos desafios. A TV prenuncia o apocalipse político brasileiro, enquanto na Argentina os hermanos se deprimem com o resultado das últimas eleições.

Balões vermelhos alegraram as crianças do shopping classe A, hippies roubaram a coroa do Cristo Rei e depois foram barrados no baile na mansão em contagem regressiva para sua implosão. Paranoias deixaram Caldabranca e Dr. Gonzo pilhadões, enquanto piadas veganas entretinham a plateia de londrinenses e malucos.

No hospital enxuto, a mãe segue sua batalha exalando vitalidade, por entre olhares curiosos, enfermeiras carinhosas e uma porção de médicos otimistas. Do lado de cá, a bondade alheia é valorizada, as imperfeições são apontadas, e a corrente de pensamentos felizes são somados às orações dos familiares e dos amigos. É preciso manter a cabeça sana e descansada, pois cada dia pode ser uma nova aventura.

Natal? No presente momento não quero pensar nessa brincadeira, ainda que as luzes dos vizinhos reafirmem esse rito antigo e capenga de significados populares. Por agora, vou continuar aproveitando o final dessa cerveja e as últimas notas de Monk, introspectivas e assertivas para a ocasião.

E que o choro de outrora seja transmutado amanhã, na roda do bar dos barbudos, ensanguentado de arte sulamericana, enquanto me preparo para encontrar a minha terra dos sonhos nos próximos dias. É hora de esvaziar os baldes e preparar o solo para a nova estação. “O pulso ainda pulsa”, e com isso, novos raios de esperança insistirão em nascer, para todos, em todos os cantos onde a “dança da realidade” esteja presente.

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Série “Aventuras Com Caldabranca” – Episódio #2: Do Outro Lado da Nácar

kapeleO plano era simples, tipo o nome daquela banda chata. A parceria já estava definida. Jorge Caldabranca, o novo amigo velho dos cabelos largos e das eloquências verbais, seria o companheiro da noite – algo raro de acontecer, uma vez que Jorge prefere a invisibilidade do seu lar e a separação dos “invejosos e dos hipócritas rondando ao redor”. Tirar esse cara à noite de casa? “Você conseguiu uma façanha de Hércules”, ele diria horas depois.

Lembro-me da tarde, antes da tempestade, quando recebi uma mensagem de áudio desse amigo e, no fim, ele terminava dizendo “o que for melhor pra você, estou dentro”.  E isso, somado à possibilidade de ver o casal-escambau tocando suas canções favoritas no bar-símbolo da boêmia curitibana, na rua parada no tempo e set de filmagem de uma história sobre prisões e comidas. Isso e o fato de o palco beatnik estar próximo à casa de Caldabranca, fizeram eu me coçar e bater um fio ao amigo dos pânicos e das metafísicas.

Estacionei a caranga e lá estava ele, já na frente do portão, aguardando. Subimos, tomamos uma cerveja, carburamos os miolos e saímos feito cachorro louco. Caldabranca estava eufórico e berrante como quase sempre; eu estava tímido como um bebê perto de estranhos.  Recebemos as coordenadas de um distinto cavalheiro, necessárias devido à demência que não me deixava lembrar onde o bar ficava.

No caminho, fui explicando que o referido bar tinha um lance intimista, atemporal e lindamente tosco, um charme especial, possivelmente representado pela letra K de batismo. Por algum motivo ridículo, fiquei pensando que a eloquência verbal de Jorge Caldabranca pudesse ser um problema para os músicos ou clientes. Pura frescura, mas não sei bem se foi esse papo que ajudou a assustar meu amigo.

Primeiro ele veio gralhando “cara, essa parte da cidade eu chamo de B, eu pertenço à A e é lá que me sinto seguro”; e essa classificação ordinária, de lado A e lado B, era definida por uma rua, meio famosinha na cidade pelos vermelhões e chorões, chamada Visconde de Nácar.

Insisti para entrarmos e que o bar era assim, sempre parecia vazio e fechado, mas que por trás daquela porta, haveria calor etílico, gente interessante, música boa, uma decoração de décadas e décadas, desde o tempo em que Leminkis e Trevisans pediam doses duplas, e a poesia e a prosa ainda caminhavam juntas. Mas, de alguma maneira, toda aquela paranoia “e claraboia” do Jorge haviam me contaminado, e agora eu já não estava mais seguro se que eu queria entrar também.

Estáticos e com as caras lavadas de medo, ficamos do outro lado da rua, observando a fachada decadente do lugar e esperando que alguém entrasse ou saísse dali para, quem sabe, nos encorajar a entrar. Não aconteceu. Quando vi, Caldabranca já estava caminhando a passos grandes em direção ao “lado A”, rumo ao pub estiloso do néon roqueiro e das figuras conhecidas.

Havia deixado lá uns quadros meus e, pra minha surpresa, logo na entrada, um grupo veio me perguntar como eu fazia aquelas artes e me dar uns tapinhas nas costas; algo que pra minha estima rasgada fez bem e até me fez esquecer a frustração de não ter visto as canções gaúchas e paraguaias no bar clássico do outro lado da Nácar.  Isso num dia em que tinha ido pra feira e pela trigésima vez não tinha vendido nada, mas estava contente por ter saído de lá no meio da tempestade e com um exemplar de um pau-brasil sangrento que serviria perfeitamente de banquinho pra casa dos sonhos. Maldita prefeitura que mandou os caras tirarem as árvores centenárias e saudáveis da praça ucraniana, e espero que o vizinho consiga a TV ou sei lá quem para ir lá denunciar mais um crime ambiental, como ele saiu dizendo que iria fazer. Mas o tronco estava lá, todo melado e antes que ele tivesse um fim ainda mais triste, coloquei-o no carro a duras penas, sob rajadas de vento e água e o peso da natureza que, mais uma vez, não tinha nada a ver com o progresso do homem branco idiota. O tronco era pesado pra caralho, mas agora ele está num lugar seguro e receberá um fim minimamente digno, servindo de assento para artistas e outros loucos de plantão.

Ficamos semi-invisíveis na mesa de fora, ao lado de uma mesa gigante com umas vinte pessoas, rostos desconhecidos, mais jovens e aparentemente normais. Bebemos em copos especiais e partimos vomitando experiências em terras italianas para o dono do bar e futuro papai. E a noite de quarta ainda seguiu, agora com um terceiro elemento, a musa do poeta e “youtuber on the road”, a querida Simonetta.  Tentamos os bares da região, mas a música verdadeira e a alma desses becos já haviam se esvaído e restava o consolo dos banquinhos azuis e bem cuidados do SESC da esquina. Caldabranca e Simonetta compartilhavam um charuto cubano enquanto trocavam algumas farpas intercontinentais. “Você acha que o meu trabalho é só curtição?”, indagava Simonetta. “Trabalho pra satisfazer o narcisismo de uma pessoa e não ganho tão bem assim pra isso”. “Baby, trabalhe comigo, viajando on the road que será só curtição e você ainda ganhará os mesmos trocados”.

Viver o sonho do outro parece fácil. Difícil talvez seja ir atrás do seu e esperar que alguém te acompanhe na loucura. Caldabranca que o diga.

Simonetta saiu dizendo “na próxima vez, vamos para o lado B!”. Fim da história.

textos relacionados:
Série “Aventuras Com Caldabranca” – Episódio #1: Explosão Metafísica
Crônica de Um Amigo Louco

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Série “Taxistas Curitibanos” – Episódio #6: Oito Pila

taxistas_curitibanosE lá estávamos eu e Tonico, na calada madrugada de mais uma quinta-feira insossa, no ponto dos ônibus e dos craques, de frente para o grande mural potyano. Tonico “de Porto”, das Towners, dos sambas e das bicho-grilices, tentava articular alguma forma corriqueira de barganhar moedas e notas azuis com os taxistas do outro lado da rua. Eu estava cansado, com alguma porcentagem a menos de fome, depois da empada da padaria zumbizeira, mas seguia desgastado e pedindo o conforto do lar central; ele queria seguir nas filosofias de boteco, de rua, e dos poucos lugares dessa cidade onde ainda fosse possível respirar algum tipo de distorção da realidade.

Enquanto eu seguia desprovido de notas ou moedas, Tonico seguia com seu plástico de bolso com algum documento com foto, uma nota de dez e outras três de dois. Já havíamos caminhado pelas ruas desertas e cheias de sabiás gritantes, mas eu seguia paranoico, lembrando dos conselhos da mamãe sobre evitar riscos. E, para piorar, no meu bolso eu seguia com aquele maldito celular estadunidense, entupido de fotos e vídeos e coisas que passei a chamar de trabalho. Tonico estava liso, com uma camiseta propagando algum energético do momento e que ele me contou que havia ganhado, além de trajar uma calça encontrada no lixo, e por fim, seu tênis havia custado algo como cinco reais, no país dos hermanos. Desconfio que seus dreads tenham sido bem mais caros.

Ali, por entre poucos seres notívagos e solitários, sempre na busca incessante por cigarros, raios e atenção, estávamos eu e Tonico decidindo se marcharíamos mais ou se choraríamos a corrida nos tais carros laranja fomentadores de comodidade. Ficar ali, na deriva daqueles marginais assassinos, não parecia ser certo por mais que estivéssemos encostados nos canos do ponto de ônibus, nos camuflando e fingindo esperar o primeiro do dia.

Num impulso, atravessamos a rua, e logo escutei um senhor taxista conversar com o primeiro carro da fila, algo em espanhol sobre chimarrões e confraternizações típicas dos fins de tarde. Sentimos a energia dos parceiros da madrugada, homens maduros e respeitosos esperando clientes. Aproximei-me da janela aberta, expliquei o destino ridiculamente perto, Tonico mostrou o plástico de bolso com seus trocados e fizemos a oferta: “oito pila”, sem as chatas bandeiras costumeiras das altas horas.

Já havia gralhado que por menos de dez seria quase impossível, porém Tonico insistiu para tentarmos os oito pila, e a surpresa foi ver que sem precisarmos insistir, o taxista havia aceitado a oferta. Fiquei ainda mais impressionado ao ver que o cara nem chegou a ligar a porra do taxímetro, algo que em meus quarenta anos de Curitiba, nunca havia visto acontecer. Bendita crise, eu diria, mas a questão era ainda mais simples e bem menos importante.

Tão insignificante que prefiro deixar esse detalhe na imaginação alheia.

Curiosamente, na madrugada seguinte, outro taxista repetiu a façanha de ignorar o taxímetro, enquanto bebericava goles da vodka regalada, imitava o Clodovil e nos contava histórias sexuais envolvendo clientes com fantasias com taxistas.

Sim, talvez esses últimos causos fossem mais interessantes do que perder tempo explicando uma breve saga chata de dois hipsters em Curitiba.