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A Tragicomédia do Debate na TV

fidelixraivoso“Obelix raivoso” esguichou seu veneno contra os homossexuais e seus aparelhos excretores que não fazem filho. “O Jorge” e “Tarsiana” tentaram arrancar um pedido de perdão, mas o homem carrancudo não cedeu, insistindo na tal “Família Brasileira” ou em “Mais Uma Utopia Inventada Pelas Igrejas Ortodoxas” (já que o verdadeiro cristianismo parece passar longe disso).

A primeira temporada do “Debate na TV” chegou ao fim e infelizmente os prognósticos não apontam para uma sequência à altura, pelo contrário, essas malditas pesquisas encomendadas só fazem entristecer aquele que sente que o futuro será sombrio e com opções pífias (para usar mais uma palavra proferida no último episódio).

Restaram os personagens mais chatos, caretas, e menos humildes da série. O ditador Obelix adicionou generosos toques à trama que beirou o humor nonsense, proclamando neonazistas de plantão para uma união com a bancada fundamentalista do congresso, a mesma turma que vem atrasando o país há séculos. Enquanto isso, os irmãos siameses protagonistas da série, escolhidos a dedo por banqueiros e interesseiros desinteressados em mudar a política econômica atual, seguem firmes em seus palanques de cristal. Sem planos de governo concretos, mas com infindáveis frases de efeito, eles cativam os telespectadores com seus horários eleitoreiros que mais parecem comerciais de margarina, mesclados com programas de humor, onde os candidatos a deputado só têm tempo para cuspirem bordões enferrujados sem a menor graça.

Nas ruas, a profusão dos cavaletes inúteis e a distribuição em massa dos santinhos e diabinhos colaboraram para o empobrecimento desta série, fadada ao fracasso desde o princípio.

É uma pena que os mocinhos e mocinhas da história sejam ofuscados pelos vilões travestidos de heróis. Sem tempo de TV e praticamente excluídos das pautas dos telejornais, eles acabaram tendo que se contentar com seus quinze minutos de fama na curta temporada do “Debate na TV”. E ainda sim, devido às regras estúpidas desses episódios, a polarização entre os “irmãos siameses do topo da cadeia alimentar” se tornou inevitável, e o telespectador se viu obrigado a tragar o enfadonho blá-blá-blá decorado e roteirizado por assépticos assessores de campanha.

Creio que a digestão desses personagens fakes será lenta e ácida, mesmo que os outros personagens, pejorativamente chamados de “nanicos”, tenham crescido aos olhos daqueles que ainda possuem algum senso crítico e libertário (chame de utópico se preferir, sonhar será sempre melhor que se conformar). No entanto, na segunda temporada estes saíram de cena e agora resumem seus papéis em apoios de araque para o boneco que julgarão ser o menos pior, ou ainda mais trágico, para aquele eleito pelo partido (em troca de empregos melhores) . De qualquer maneira, nossa “democracia” é essa, e enquanto não for feita uma reforma política séria neste país, ficaremos sempre com as três piores opções de protagonistas, e assim, o Brasil segue incapaz de criar uma série decente, roteirizada pelo povo e sem apelos marqueteiros.

De qualquer maneira, ter visto a “Tarsiana” falar que só havia sido chamada para o elenco da série, por uma questão legislativa e não da Rede Globo (capitaneada por uma das poucas famílias detentoras do poder no país), somente essa fala, direcionada aos milhões de brasileiros que ainda parecem não se atentar para essa questão, me fez sentir orgulho de ter assistido à primeira temporada dessa decadente série chamada “Debate na TV”.

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Curitiba e Seus Fantasmas

giovanniFoto: Michele Zambon

Por entre ruas desertas, encobertas por uma garoa fina e típica da estação, caminho na companhia de uma russa, em direção ao “bar mais charmoso da cidade”. Svetla me diz que esse tempo faz Curitiba parecer Moscou e que a arquitetura da cidade se assemelha a Sevilha, na Espanha. Mas o que acontece nessa cidade que basta uma garoa e um friozinho e você não vê quase ninguém nas ruas? Meu amigo baiano havia comentado, semanas atrás, que isso o assustava e que no Rio, era justamente o oposto. Porém, lá não tem frio e esse fato justificaria muita coisa caso Porto Alegre fosse morto como aqui, pois lá também faz frio mas o povo continua saindo pras ruas. Isso sem falar nas outras capitais frias mundo afora e que possuem, apesar do mau tempo, vida pedestre.

Curitiba tem essa estranha particularidade, as pessoas preferem lugares fechados, shoppings da moda, sofás aconchegantes e carros com ar quente, ao invés dos encantos das ruas, com seus mendigos, seus bêbados e suas putas.

Chegamos ao bar em questão somente para constatarmos que éramos os únicos clientes. Tirando a gente, havia o dono, dois funcionários, o cantor, sua esposa e duas amigas. Enquanto fumava um cigarro, o cantor veio me perguntar se havia algum problema se ele começasse a tocar às nove, já que o cartaz anunciava que o show começaria às sete.

E talvez o que tenha salvado a noite foi justamente quando ele, o cantor, decidiu finalmente começar a cantar suas canções, acompanhado do violão e de um cenário bucólico, cheio de adereços peculiares, oriundos das mais belas máquinas do tempo. Giovanni cantou as dores das paixões, as brigas de gangues, os vícios nos Beatles, as roupas sujas e até sobre o bloco de rua do saudoso Sergio Sampaio. Tudo despido, em um resgate ao embrião da canção, sem compromisso e sem frescuras, para uma plateia de fantasmas sedenta por algum tipo de calor, além dos vinhos e das cachaças servidas no bar.

Mas suas canções sinceras não prometiam esquentar, pelo contrário, só contribuíram para a petrificação dos raros corações que ali tentavam se encontrar.

E o jeito foi partirmos, enchermos nossos estômagos com frituras e adentrarmos o bar do chapeleiro maluco. No palco, um rock caipira mais animado fez a russa esboçar movimentos craniais verticais, em algum sinal de aprovação. Porém, o cansaço falou mais alto e cedo retornamos para casa, na cidade dos fantasmas.

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Empanadas Salteñas

saltenasMeia- noite e meia e chego ao prédio escuro de nome inglês que costumava chamar de casa. A fechadura da porta de vidro está fechada com o costumeiro cadeado da madrugada. Sebastião, o simpático e jovial porteiro me recebe, pela primeira vez, sem um sorriso e sem as piadas de sempre. Pergunto automaticamente se está tudo bem e ele me diz que não, que ontem havia passado o dia no posto 24h com dores no peito e com a cabeça estourando. Agora ele está com os mesmos sintomas, além de calafrios que o fizeram ligar o aquecedor ao lado de suas pernas, cobertas por uma manta.

– Bem, acho melhor você desligar esse negócio, respire fundo e relaxe… Se achar que não está bem, bata lá em cima que te levo pro hospital.

No calçadão da rua XV, caminho em passo acelerado e vejo pouca vida por lá. As centenas de lojas estão fechadas após mais uma exausta e tumultuada sexta pré-natalina, e o pomposo show no capitalizado Palácio Avenida segue com suas luzes programadas, agora para uma plateia de fantasmas.

E o que resta por ali, além, é claro, dos solitários mendigos dormindo embaixo das marquises e das barraquinhas de cachorro quente esperando a larica dos baladeiros, é um grupo alegrinho de garotos e garotas ao redor do chafariz da C&A, tocando e cantando em coro semialcoolizado, o que parecia ser um maracatu ainda em fase de aquecimento.

Sou abordado brevemente numa esquina torta e ao lado de uma cafeteria envidraçada e completamente deserta. Sem surpresas, pois o moleque só queria o objeto mais cobiçado da madrugada – cigarros.

Não há táxis na cidade ou, pelo menos, nenhum deles parece receber as chamadas que faço do telefone sem fio do apartamento de meu pai. É sexta, é quase natal, é festa e há baladas pra todo lado e Curitiba já até aprovou a liberação de não sei mais quantas placas desses alaranjados – fato que não ocorria desde 1970. Porém, a realidade é que nesse momento, eles continuam diminutos, tão raros quanto os novos posts ou leitores desse blog.

No boteco central, velhos enfurecidos discutem futebol. Achei que esse assunto ou, ao menos o teor aplicado alteraria com a idade, mas meu pai diz que nestes anos “esses velhos costumam regredir à adolescência”.

Na telona, o clássico diretor de quatro olhos continua entretendo à moda antiga, com personagens engraçados e reais na decadência de suas futilidades e no vazio de seus sonhos, aparentemente grandiosos. Dessa vez, o velho alien ainda adiciona um tempero extra no roteiro, indo e vindo no tempo, seguindo o psicológico desvairado da personagem principal.

E lá estamos, no escuro do cinema, eu e meu pai, em agigantadas poltronas de casal, estofadas em couro ecológico, com mesas de madeira que giram em L. Ao redor, vejo poucos casais e minha parte neurótica do cérebro pensa na esquisitice de estar ali, justamente numa sexta à noite, ao lado não de uma amiga abandonada pelo namorado, ou de alguma nova paixão de verão, mas de um peculiar senhor sexagenário que também atende pela alcunha de pai. Afortunadamente esses pensamentos tolos são transitórios e só posso me sentir grato de estar ali com ele, prestes a assistir ao novo filme azul do Woody Allen, nas cadeiras mais confortáveis que o dinheiro bancário pode proporcionar.

A fachada do shopping havia sido restaurada, fato que não saberia datar, pois há anos não frequentava aquele local. Ainda do lado de fora, ao lado de funcionários fumantes, eu e meu pai tomávamos cervejas verdes de pescoços compridos, enquanto intercalávamos assuntos sérios com banalidades do cotidiano e assim, matávamos o tempo antes de o filme começar.

Na bilheteria do cinema do shopping cristalizado, o assalto: quarenta e quatro reais por um ingresso. A exibição do filme escolhido será numa tela padrão, sem imax, 3D ou qualquer idiotice dessas, mas a sala é “vip” e não há outra opção. “Isso é preço de teatro”, diz meu pai.

Zumbis invadiram Curitiba e não falo daqueles já presentes em qualquer cidade digna do suposto progresso: gente que acorda, come, trabalha e depois volta pra casa, em piloto automático, sem espaço para reflexões ou quebras de rotina. Esses zumbis em questão são zumbis clássicos no sentido do termo, sedentos por cérebros e que fazem parte de um livro ilustrado com (re) lançamento na data mais oportunista do ano, hoje, sexta-feira 13.

Sob os holofotes e de microfone na mão, meu amigo zumbi e seu colega gibiteco encerram as explanações sobre o projeto, abrindo espaço para perguntas de uma plateia antenada nesses assuntos, de zumbis e quadrinhos – coisas distantes da minha pessoa, mas que, talvez por algum vínculo afetivo, acabaram fazendo com que eu participasse dessa história, macabra por natureza.

Na feirinha da praça das feiras das estações, estacionamos nossos corpos, o meu e de meu pai, na frente da barraca da Bolívia, após circularmos pelo Chile e pela Índia, atrás de pastéis estrangeiros, com recheio de algo com espinhos. E parece que Portugal chegou à terra de Evo, pois as tais empanadas salteñas estavam mesmo deliciosas.

Dicas Musicais, pseudojornalismo

Rodriguez está vivo, mas você sabe quem ele é?

rodriguezRodriguez, Rodriguez,… Rodriguez? Ah, aquele cantor folk estadunidense mais moderninho?
Não, estúpido! E por que sempre esse estadunidense aí? São e sempre serão americanos, mesmo que a sua cabecinha não aceite. E aquele cantor folk mais novo de que você fala é o Gonzalez! Rodriguez? Credo, eu lá vou saber? Pensando bem, nem esse Gonzalez aí existe, não sei de onde você tirou essa.

Esse seria o meu diálogo interno há dois ou três dias, até que por uma indicação de meses atrás de um amigo distante, mas constante, e que por obra do acaso ou do destino (se você gostar do bonito), me falou desse filme sobre esse tal de Rodriguez.

Sua história é de fato tão incrível que após o término da película (pra ficar nas palavras bonitas) eu achei que havia sido enganado, meio como o Woody Allen fez tão bem naquele “Poucas e Boas” sobre o segundo melhor guitarrista da história. Mas se naquele caso o filme não passava de um falso documentário, bem feito, mas falso, nesse, a história, por mais impressionante que pudesse parecer, era tão real como boa parte desses protestos espalhados por esse país, cansado de ser enganado.

Elogios à parte, Rodriguez foi um cantor folk americano que lançou dois discos no início dos anos 70. Sem sucesso, a gravadora o demitiu e durante quase trinta anos Rodriguez não quis saber mais da cena musical, indo trabalhar em indústrias de demolição, fazendo trabalho braçal e tudo mais que ninguém com uma suposta sensibilidade artística escolheria fazer.

E durante esses quase trinta anos, Rodriguez viveu na velha casa de sempre, ganhando salários mínimos e vivendo na famosa linha da pobreza, como tantos outros americanos que nós, brasileiros e americanos do sul, insistimos em ignorar, em discursos mofados sobre pobres só existirem em países de terceiro mundo.

No filme, ou documentário sobre a lendária história de Rodriguez, temos um personagem humilde e nesse caso, também pobre, de óculos escuros em tempo integral e com uma aparência indígena, distante dos judeus desafinados de classe média que invadiram e surpreenderam seus contemporâneos, numa “Greenwich Village” no início, meio e final dos tumultuados e criativos anos 60.

O que Rodriguez não sabia era que enquanto ele comia suas marmitas e seus braços ficavam mais duros em alguma fria indústria de Detroit, seus dois únicos discos ganhavam espaço nas rádios sul-africanas, transformando o que deveria ser apenas mais um culto a um artista americano underground, em um sucesso maluco, da magnitude de um Elvis, ainda que limitado pelas linhas geográficas de uma África do Sul, pré-copa do mundo.

As canções de Rodriguez fizeram tanto sucesso por aquelas bandas que até boatos sobre ele (que os sul-africanos só haviam visto na capa de seu disco de estreia) foram aparecendo aos montes: uns diziam que ele havia ateado fogo sobre o próprio corpo durante um de seus shows, outros afirmavam que ele tinha sim cometido suicídio, mas que havia sido com uma bala na cabeça.

O fato é que Rodriguez sempre esteve lá, vivo até os ossos, do outro lado do oceano, trabalhando para comer e sustentar suas duas filhas.

Eis que, por uma dessas filhas, chega a notícia sobre seu sucesso estrondoso no país de Mandela, e Rodriguez, pasmo, custa a acreditar. Convencido a ver com seus próprios olhos sempre escondidos com lentes escuras, Rodriguez sai de seu país natal como um completo desconhecido e chega ao território sul-africano como um rei de algum conto de fadas, limusine na pista de pouso, suítes presidenciais e caviar no camarim. E ainda, citando o gigante Mandela, suas canções tinham até sido alçadas a hinos antiapartheid!

Anos depois, um rapaz sueco o visita diversas vezes em Detroit, onde apesar de toda essa badalação na sua primeira turnê, estádios lotados e mais discos vendidos, Rodriguez continua vivendo em sua velha casa e esquentando sua comida num fogão à lenha improvisado. O sueco convence Rodriguez a autorizar a produção de um documentário, emendando o lançamento do mesmo com uma turnê mundial.

O filme, do qual venho tentando falar aos trancos, chama-se “Seaching For Sugar Man”, ganhou diversos prêmios por aí e tem sido a porta de entrada para esse magnífico cantor e homem chamado Rodriguez, um misto de Dylan, Cat Stevens e Donovan, com letras melancólicas, satíricas, proféticas, políticas, espirituais e todas essas características pertencentes aos grandes compositores populares, sejam eles americanos, brasileiros, suecos ou sul-africanos.

E mesmo após a fama tardia, os discos de ouro e platina, as centenas de entrevistas e aparições em programas televisivos, Rodriguez parece seguir seus princípios e valores, sua fala continua mansa e humilde, sua velha casa simples continua seu lar, o dinheiro extra ele preferiu deixar para a família e os amigos, e claro, os óculos escuros continuam cobrindo seus olhos.

E assim, mais uma história mais sensacional que qualquer ficção é desvendada. Acho até que suas letras, além da associação antiapatheid, também dialogam com essa onda de protestos que segue no país da Copa e das pizzas dos 500 sabores.

Para mais detalhes, assista ao filme, compre ou baixe seus discos e se quiser, comece ouvindo essas duas canções:

https://www.youtube.com/watch?v=qyE9vFGKogs

https://www.youtube.com/watch?v=-qFP-dsl2Z0

Textos Relacionados (naquele lance, gostei desse, talvez goste desses também):

Os Demônios de Daniel Johnston

Descobrindo um Bêbado Talentoso

Tiago Valério e sua Cidade da Ilusão

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Artistas da Vida

florenceeanaA semana (*) é dela e não poderia ser de outra maneira. Já no primeiro dia coincide com o dia das mães. Mas ninguém quer saber dessas coisas e não falo das mães, lembradas aos montes em feicebuques e outras coqueluches da moda, mas dessa outra figura que nos acompanha desde o nosso nascimento até o apagar das luzes, como diria o mesmo senhor que fala “coqueluche”.

E é justamente dessas coisas que eu quero falar, desse papo de morte e doença, de sofrimento e de dor de tudo que é jeito – sobre essas coisas que ninguém quer saber demais, exceto ela. Ela, eu e algum ou outro grupo gótico/artístico/espiritual. E por ela, não digo todas, pois gente ruim tem em todo lugar, porém onde há uma, há sempre algum tipo de esperança.

Talvez você que esteja lendo este texto, seja mais uma e aí, definitivamente o mundo ainda tem salvação. Ou, talvez, você já tenha perdido o interesse, já que essa introdução acabou saindo maior que a encomenda. E olha que tem mais.

Houve pelo menos duas, que apesar de mortas, continuam mais vivas do que nunca e costumam aparecer nas primeiras páginas de qualquer livro sobre o assunto. A primeira me lembrou aquela banda moderninha dos clipes coloridos e cheios de fantasia, e sinceramente continuo pensando que o nome desse grupo tem muito a ver com outro exemplo de mulher pioneira no mundo e que agora até virou santa: a inglesa Florence Nightingale, a “dama da lâmpada” que revolucionou a enfermagem, homenageada em poemas de época e em filmes mais recentes.

Sim, ela, como a banda citada, lutou contra uma máquina muito maior do que ela, as tais forças contrárias e destruidoras de sonhos, velhas conhecidas desde sempre.

E a segunda também não é diferente: Ana Néri saiu do interior da Bahia e foi parar na terra dos gaúchos e dos paraguaios, aprendendo com as “irmãs de caridade”, antigas e talvez eternas enfermeiras – ao lado das prostitutas, eternas psicólogas, empresárias,…

Ana Néri também foi pioneira e revolucionou a enfermagem em terras tupiniquins e esse termo também de gente velha me fez lembrar os indígenas que, por aqui, foram os primeiros na profissão. Profissão que Florence e Ana ajudaram a criar, da forma que conhecemos, ou pior, desconhecemos hoje em dia.

Mas essa ignorância coletiva tem suas desculpas. Afinal, como já disse aí em cima, é muito chato falar de gente doente, hospitais, ambulâncias e necrotérios. Bom mesmo é quando o assunto “saúde” fica nas clínicas de estética, academias, encontros de ciclistas e nos restaurantes orgânicos.

Em 1858, na época em que Florence e Ana davam seus saltos, a definição da profissão já era espantosa, no bom sentido: “colocar o paciente na melhor condição para que a natureza atue sobre ele”. Sim, é pra refletir, como os artistas, filósofos e sábios costumam fazer.

E é numa canção de Lila Downs, a mexicana das canções do filme de Frida Kahlo, que também defino essa antiga profissão que clama por novos significados:

“Y ella es flama que se eleva,

Y es un pájaro a volar,

En la noche que se incendia,

Estrella de oscuridad..”

Sim, ela, a Enfermeira (com toda a nobreza que uma letra maiúscula e essa profissão deveriam ter), é a estrela de esperança que aparece nos momentos de escuridão e está muito mais próxima da arte que muitos moleques com uma câmera, pincel, violão, mouse ou um papel na mão jamais poderão chegar.

Ela é a artista da vida, desdobrando-se para deixar seu paciente ou cliente ou qualquer nome que a literatura queira usar, bem, tranquilo e consciente de que ele não está sozinho. Saem os quadros e as canções e entram as seringas, os cremes, as dietas e as medicações. E naturalmente vem a compaixão, sentimento nobre e único e meio fora de hora.

Florence abdicou de seus prêmios e honrarias para fazer apenas o que ela julgava ser sua missão, um chamado divino depois de anos de perdição e de superficialidades que seu berço de ouro havia lhe proporcionado. Não casou em tempos em que esposas eram escravas, mas também por ser apegada ao mesmo mal de que sofrem os ditos artistas – sua liberdade.

Ana, ainda jovem, perdeu seu marido para os mares, criando, sozinha, seus três filhos e depois perdendo um deles na mesma guerra em que lutara nos hospitais militares por que passou, chegando a ser chamada de a “Mãe dos brasileiros”.

Florence e Ana foram, acima de tudo, artistas da vida, alçadas a “santas” pelos exemplos e pelas tantas histórias que contam por aí, mas, principalmente, por construírem o chão dessa nobre profissão, simplificada e estereotipada por gente como eu e você, que, sem saber, precisou, desde cedo, do apoio e do amor de uma… Enfermeira! **

 

* A semana da enfermagem no Brasil se inicia no dia 12 de maio, data em que Florence Nightingale nasceu, e termina no dia 20, data em que Ana Néri morreu.

** O termo no feminino é mais um estereótipo que vem mudando, já que, aos poucos, homens também têm exercido a profissão, com igual louvor. 

contos

Curitiba Nonstop

curitibanonstop

Noite de quarta. Aniversário de improviso do jovem Paul, pizzas do tio, coca-cola, presentes atrasados, desenhos de Bob, pizza doce presente do tio, histórias de família, risadas, improvisos na gaita curta e no violão mexicano desafinado do rapaz dos dedos largos, o preto sai e entra o rosa.

Noite de quinta. Alpargatas na tempestade do equinócio de outono, críticas ao teatro, espanhol falsificado bêbado chato quebrando copos, Johnny e Brian pisando nos cacos, papos desconexos, universitários dos cursos de sempre, loira alta e magra buscando a festa pós-esquenta e o namorado inteligente do curso pseudocabeça que lembre seu pai ausente, cara descobrindo mais uma utilidade pros pelos de sua vasta barba, garoto bêbado rebelde estacionando o carro do pai sem cuidado, porta abrindo e raspando na calçada de pedras, namorada ruiva de pato branco, dono insistindo na piada, Johnny e Brian insistindo na cerveja e nos cigarros na chuva.

Noite de sexta. Reencontro de velhos amigos cada vez mais velhos, cervejas no mercado, voltas na quadra, novas companhias, papos entrecortados, deus e o diabo tentando unir os dois grandes tesouros da humanidade, pouca humildade na apresentação do artista tardio, novos projetos, mais rostos conhecidos, senhor de idade distante das drogas pesadas e parceiro para voltas na quadra, casal de amigos de passagem, o marido fica, casal de marceneiros legais, Curitiba é melhor que Joinville, cachorro quente sem vina e sem espera, mercado pré-balada, meninas de saia, garotos estranhando o cigarro do cara, taxi pra casa.

Sábado à tarde. Festival na praça importada, céu azul, sol, carro torto e aberto na rua escondida, espaço gourmet, micro-fatias de pizzas superfaturadas, sopas e caldos com costela de Adão, família reunida, óculos escuros do cantor cego, banda olímpica tocando rock, cachorros se pegando, criança hell angels apavorando na moto de brinquedo, ala dos shortinhos e das pernas das revistas, meninas com os mesmos narizes, playboys de plantão, promoções irreais, história da arte na casa do professor, chute sem querer no namorado sem nome, culpa do game do Michael.

Noite de Sábado. Volta na quadra com o reconhecido e seus conhecidos, racionalizando Tim Maia e os novos rappers, menina corrigindo a baliza e deixando a menina da rua envergonhada, amigos de volta na praça, Paul, Wilde e Brian atingem o estrelato, xépes citrus, Yoko de chapéu da moda querendo dançar, despedidas, Straits e seu dinheiro pra nada, Floyd e a música da torcida, casal e amigo buscando sanduíches na nova barba, mau humor, pratos americanos com o ketchup do filme, hambúrgueres de batata e de grão de bico, joguinho da verdade, carro pra casa da mãe, medicações necessárias, esposa descansa, parceiros em busca de barbudos, cigarros e as cervejas de sempre, ex-vizinha leitora com o novo namorado, discussões pequenas sobre língua portuguesa e o uso da crase, grandes discussões sobre amizades e o uso do tato, alguma compreensão e muito sentimento, cigarro na lateral do bar, portas fechadas, propostas de banda, mesas e cadeiras amontoadas, mais cervejas, mais um cigarro, dois ingressos pra festa dos gringos faltando um, velha rua com luzes novas, gente amontoada na cerca dos fumantes, desconto negado, disque jóquei interessante, menina e mulher afim do mesmo garoto, drink em copo de plástico, Brian cansado e querendo partir, fila pra pagar imensa, samba pro gaúcho, professora de maracatu, gases fedidos, francesas que falam português, gaúcho falando portunhol, italianos conversando com o garoto dos vinis, sonhos de artista, táxis demorados, garoto e mulher encontram a paixão nas últimas horas da madrugada, gaúcho espera sozinho e sem créditos em seu celular.

Noite de Domingo. Festival de novas bandas no bar da adolescência, sai a vodka barata e entra o rock com água, Cream e os blues caseiros surpreendem, baixista sério, platéia de amigos, a nova banda mais fofa da cidade, adolescentes cantam e se abraçam, banheiro, conhecido da próxima banda, produtor viajando, xixi, cigarro, cachorro quente sem cartão, ando meio desligado no palco, platéia semi-vazia, amigos no camarote, canções e letras de qualidade, saxofone especial, balanço legal, o eterno romance de Paul, rosto limpo e piadas verticais entre os silêncios, dançarinos imaginários, casal de amantes bebendo água, dores de ouvido, a viagem no palco, compromissos importantes, breves desabafos, parabéns ao amigo pelo filho que ainda vai nascer, desculpas públicas pela saída francesa, escada, rua, carro, casa da mãe, medicamentos necessários, textos compridos demais imitando alguém, quem os lê, talvez gravando fique melhor, o sono também deixa bêbado, chocolate na madrugada, banho, cama, carência, insônia, revisão de prioridades, revisão mental do texto, insônia, o peso nas costas, abraços, insônia, mãos dadas, sonhos de um bêbado sem iluminação.

filmes

Os Planos de Wes Anderson e Moonrise Kingdom

moonriseWes Anderson, assim como Woody Allen, é um daqueles diretores que se repetem, mas que ainda sim, não canso de assisti-lo, por justamente gostar de seu estilo e de suas repetições temáticas e estéticas. Anderson gosta mesmo é de planos e não falo sobre seus planos cinematográficos, mas dos planos que seus personagens criam para resolver alguma questão, normalmente amorosa ou familiar.

Não vi seu primeiro filme, o “Pura Adrenalina”, mas já a partir de seu segundo, o excelente “Rushmore”(ou Três é Demais, em mais uma tradução metida a engraçadinha), seu personagem principal, um adolescente prodígio, tem um plano bem claro, o de conquistar o coração de uma professora sob qualquer custo.

Em “Os Excêntricos Tenenbaums”, o pai da família, bola um plano para resgatar seus laços familiares com seus filhos e também de sua esposa, que na ocasião, está prestes a se casar com outro.

Depois temos “A Vida Marinha com Steve Sissou”, em que o marinheiro tem um plano inicial bem traçado, o de encontrar o tubarão ou a criatura misteriosa que matou seu companheiro de tripulação. Também temos ali outro caso de família, já que Sissou descobre um possível filho, o qual o convida para sua expedição.

Em “A Viagem a Darjeeling”, seu quinto filme, um dos irmãos constrói um plano para reencontrar a mãe deles em um retiro espiritual, além de com isso, conseguir ver novamente os três irmãos convivendo sob o mesmo teto, no caso, o de um trem indiano bem louco.

Ainda temos a animação “O Fantástico Senhor Raposo”, onde o personagem do título desenvolve um plano mirabolante para roubar as galinhas das fazendas da vizinhança, as dando de alimento para sua querida família.

E depois de tantos planos, Anderson lança “Moonrise Kingdom” (ainda sem tradução, felizmente), contando a história do garoto órfão (de aparência que me fez lembrar do Sean Lennon criança) que decide largar sua equipe de escoteiros para acampar com uma garota de sua escola, a qual vem se correspondendo secretamente durante anos. Nesse filme há pelo menos dois planos bem claros: o primeiro bolado pelo garoto para fugir do acampamento de escoteiros e se encontrar com sua parceira, que recebe instruções minuciosas envolvendo uma sinfonia; e um segundo, dos escoteiros que decidem se unir para resgatar seu antigo membro, antes que ele seja mandado para um orfanato.

Além de mais uma bela história de amor, do primeiro, por se tratar de crianças, Wes Anderson encanta mostrando mais do mesmo, com algumas pequenas variações. Seus traços estão todos lá: os pomposos travellings, os zooms supostamente bregas, os enquadramentos frontais e simétricos, os bons diálogos, os atores repetidos, mas sempre com a adição de novos (neste, Edward Norton e Bruce Willis), os personagens decadentes (normalmente retratados por Bill Murray), o figurino e a direção de arte retrô (nesse caso, perfeitamente justificável já que a história se passa em 1965), e talvez a única mudança esteja na trilha sonora, um dos pontos fortes de todos seus trabalhos. Neste ele substitui o rock anos 60 cheio de baladas assoviantes por música clássica, também justificável pela história, além de baladas country do mestre solitário Hank Williams.

Confesso que não sei o quanto eu realmente gostei desse filme, ou o quanto ele se compara aos seus outros grandes filmes, mas também isso pouco importa, pra mim este é mais um grande filme de Wes Anderson, com todas suas formulas já pré-estabelecidas, e planejado meticulosamente, assim como os planos rocambolescos de seus personagens, sempre interessantes.