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Jardim das Esperanças

florTomada pelas caipiras maringaenses do amigo felino, lá estava ela: intensa, acrobática, e como a famosa hashtag costumava dizer, sem filtros. Tudo havia rolado rápido demais, o suposto luto ainda cicatrizava e antes do bode premeditado ela apareceu para iluminar as esperanças de mais uma noite perdida entre biritas e outros brilhos. Minutos depois éramos dois vultos descabelados rolando na grama, roubando o fogo da fogueira alheia, enquanto lembrávamos nossos nomes sob a lua oculta.  

Os dias seguintes serviram para confirmar as suspeitas: éramos duas almas vagabundas destinadas a estarem unidas por um elo mágico e estranho, invisível a olho nu e radiante aos olhos de terceiros. O mundo voltava a fazer algum sentido, a primavera havia chegado e finalmente ela estava me presenteando com uma bela flor, daquelas espécies em extinção que precisam de água e música clássica para crescerem fortes e soberanas.

E ainda que esse jardineiro infiel tenha em suas costas uma mochila cheia de flores mortas, de diversas cores e tamanhos, ele continua acreditando na possibilidade de um dia poder ver florir em seu jardim os mais lindos girassóis.

Sei que parece bizarro querer falar de amor dias antes de outra eleição, mas talvez seja disso que esses políticos de merda estejam precisando. No congresso, na presidência e no governo estadual estamos sendo representados por corações de pedra, verdadeiros mortos-vivos, cavaleiros do apocalipse zumbi anunciado nas piores teorias conspiratórias. Para driblá-los só mesmo um caminhão de boas intenções e um trem bala movido a generosas porções de amor e compreensão.

Tenho feito minha parte e no presente momento, a roleta da vida me brindou novamente com um sorriso especial, de um tipo raro, pronto para emoldurar e colocar na parede, me lembrando que a escuridão será sempre passageira e que apesar dos pesares, a vida pode valer a pena e quem sabe no final venha a constatação: “o amor que a gente dá é igual ao amor que recebemos”.

E como cantaria Roberto, “Depois que a chuva cair, outro jardim um dia há de reflorir”.

 

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Fervendo nas Letras

saothomeNo ônibus, o ar condensado constrói um elo energético entre os passageiros. Um bafo quente que serve de escudo para a madrugada fria ou qualquer fenômeno climático típico das estradas da vida. Era o retorno de mais uma viagem para o santo das letras: reduto de hippies, hipongas, hipsters, geólogos, historiadores, e uma porção de curiosos. Desta vez, o capitão responsável pela missão “fervística” recebia a alcunha de “guerreiro”. Em sua bagagem, milhares de quilômetros e de histórias interestaduais transportando malucos “com tudo” para picos estranhos onde a fervura não pára. E não poderia deixar de citar nessa breve introdução, os “truquezinhos” do nosso nobre comandante, verdadeiros coringas para a monotonia e o baixo astral. Mas também não perderei tempo tentando explicá-los, uma vez que só estando ao seu lado para compreender a grandeza poética presente nessa sábia palavra, ou gíria inventada.

Não sei exatamente se foi o calor provocado pelas janelas fechadas, as inspirações esfumaçadas vindas do novo parceiro de poltrona, ou talvez algum resquício lisérgico dos últimos dias, mas algo naquele ônibus travestido me fez olhar pra trás, numa ingênua tentativa de entender o que foram aqueles últimos dias, e porquê tudo parecia ter acontecido tão depressa, como um cigarro que se apaga ao vento.

Deve haver algo profundamente místico nesse vilarejo mineiro, talvez o mesmo magnetismo obscuro que faz os carros subirem ladeiras, e que atrai uma infinita variedade de doidões para um pedaço de terra feito com pedras brancas só vistas ali. E se a ilusão de ótica é a resposta pronta dos pseudo cientistas para as tais ladeiras, o que dizer das músicas que saem dos rádios de todos os cantos, sempre de qualidade e surpreendendo os ouvidos mais atentos. A pirâmide foi criada por seres extraterrestres e isso a gente não discute mais.

As chacoalhadas do busão seguem conectando neurônios adormecidos e trazendo lembranças de mais um feriado prolongado de um sete de setembro atípico, sem chuvas e com um sol vermelho de arrepiar. Na praça central, ao lado da gruta engraçada, havia um café. Ali conheci Joseph, um músico inglês que estava morando há 9 meses naquele lugar. Stones, Beatles, Cat Stevens, Neil Young e Tom Waits eram algumas das pérolas tocadas por Joseph, além das suas canções próprias. Mas foi no intervalo, entre cigarros, que descobri sua real vocação. Joseph era capaz de conversar com seu eu do passado ou seu eu do futuro, e era assim que ele compunha suas músicas. “O tempo não é linear como nos contam”, dizia ele. E ainda no mesmo recinto, Aninha ainda me apresentou para sua mais nova paixão – um senhor de 71 anos chamado Estélio e que havia feito parte do saudoso “partidão”. Hoje o senhor com aparência amigável semelhante ao Jorge Amado, seguia sua militância esquerdista, em seu carro adesivado cheio de santinhos vermelhos. “Temos muito o que Temer”, provavelmente teria dito ele, sob a sombra de uma ditadura que o perseguira tempos atrás e que agora parece ter virado novamente o assunto das mesas de bar.

São Thomé é das letras, das pedras, dos cogumelos, dos et’s, dos cachorros de rua e dos hippies de espírito livre. Durante quase uma semana, São Thomé também foi o cenário paradisíaco para uma trupe curitibana que incluía um argentino louco, um bebê e uma garota com uma suposta caxumba. Jovens de todas as idades em busca de fervo intenso, com direito a truquezinhos e muitas risadas no caminho.

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Meia Noite na Cidade das Separações

pace_isaA abelha esbarra no copo de vidro adquirido na promoção do mercado. Os cacos se esparramam pelo chão. No sinal vermelho a moto de corrida desafia a velocidade do som. A roda toca o paralelepípedo arremessando o condutor para longe. É meia noite na cidade grande e coisas estranhas começam a acontecer. O seriado do momento não me deixa esquecer.

Ecos da preanunciada separação reverberam timidamente em meu coração. Foram sete ou oito meses de tentativas, cumplicidades, afetos e um calhamaço de paciência. Nos tempos modernos há pouco espaço para adaptações. Os minutos são preciosos, ainda que passemos boa parte deles caçando personagens da nossa infância ou rolando a inútil linha do tempo em busca daquele estímulo fugaz que nos fará rir, chorar ou apenas “curtir”.

Curtia seu jeito frenético de ser. Curtia sua história. Curtia seu sorriso e a cor das suas bochechas nos dias friorentos. Curtia seus cafés fortificados e suas torradas amanteigadas. Curtia uma série de pequenas coisas que não fazem a menor importância agora. O vento da mudança soprou novamente e “o passado é uma roupa que não nos serve mais”, cantaria o bigodudo desaparecido cheio de contas pra pagar.

Mas antes que esse trem obscuro siga viagem rumo a estações desconhecidas, não poderia deixar de agradecer imensamente o apoio que me foi dado. Nesses longos meses que passei do seu lado, estive caminhando por vales de solidão, loucura, medo e angústias mil. E apesar desses encontros constantes com meus demônios, você sempre esteve por perto. Enquanto eu me perdia em alucinações, você me mostrava o caminho, me abraçava e me dizia que “tudo vai ficar tudo bem”.

Quero que saiba disso e de mais um tanto. Minha admiração pela pessoa que é seguirá firme como seus sapatos descolados ilustrados pela artista da festa. Ficarão as lembranças das esticadas na cama e dos almoços ensolarados no restaurante indiano. Das viagens repentinas e das pequenas aventuras. Dos sambas no piano, da parede amarela e das conversas fiadas em inglês. Das reuniões com os amigos estranhos e das festas particulares para dois. Ficarão os “recuerdos” de uma história curta e intensa, com picos flamejantes e desesperos domados. Uma história criada aos trancos por dois seres distintos com algo em comum: a busca pela tão sonhada felicidade.

E que ela venha para ambos, ainda que em tempos e espaços diferentes, assim como o “pai da noite” quiser. E que o brilho das estrelas ilumine nossas estradas esburacadas e nos ajude a encontrarmos a estação da paz. Foi bom enquanto durou. Obrigado por tudo.

*sem revisão

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Série “Aventuras Com Caldabranca” – Episódio #2: Do Outro Lado da Nácar

kapeleO plano era simples, tipo o nome daquela banda chata. A parceria já estava definida. Jorge Caldabranca, o novo amigo velho dos cabelos largos e das eloquências verbais, seria o companheiro da noite – algo raro de acontecer, uma vez que Jorge prefere a invisibilidade do seu lar e a separação dos “invejosos e dos hipócritas rondando ao redor”. Tirar esse cara à noite de casa? “Você conseguiu uma façanha de Hércules”, ele diria horas depois.

Lembro-me da tarde, antes da tempestade, quando recebi uma mensagem de áudio desse amigo e, no fim, ele terminava dizendo “o que for melhor pra você, estou dentro”.  E isso, somado à possibilidade de ver o casal-escambau tocando suas canções favoritas no bar-símbolo da boêmia curitibana, na rua parada no tempo e set de filmagem de uma história sobre prisões e comidas. Isso e o fato de o palco beatnik estar próximo à casa de Caldabranca, fizeram eu me coçar e bater um fio ao amigo dos pânicos e das metafísicas.

Estacionei a caranga e lá estava ele, já na frente do portão, aguardando. Subimos, tomamos uma cerveja, carburamos os miolos e saímos feito cachorro louco. Caldabranca estava eufórico e berrante como quase sempre; eu estava tímido como um bebê perto de estranhos.  Recebemos as coordenadas de um distinto cavalheiro, necessárias devido à demência que não me deixava lembrar onde o bar ficava.

No caminho, fui explicando que o referido bar tinha um lance intimista, atemporal e lindamente tosco, um charme especial, possivelmente representado pela letra K de batismo. Por algum motivo ridículo, fiquei pensando que a eloquência verbal de Jorge Caldabranca pudesse ser um problema para os músicos ou clientes. Pura frescura, mas não sei bem se foi esse papo que ajudou a assustar meu amigo.

Primeiro ele veio gralhando “cara, essa parte da cidade eu chamo de B, eu pertenço à A e é lá que me sinto seguro”; e essa classificação ordinária, de lado A e lado B, era definida por uma rua, meio famosinha na cidade pelos vermelhões e chorões, chamada Visconde de Nácar.

Insisti para entrarmos e que o bar era assim, sempre parecia vazio e fechado, mas que por trás daquela porta, haveria calor etílico, gente interessante, música boa, uma decoração de décadas e décadas, desde o tempo em que Leminkis e Trevisans pediam doses duplas, e a poesia e a prosa ainda caminhavam juntas. Mas, de alguma maneira, toda aquela paranoia “e claraboia” do Jorge haviam me contaminado, e agora eu já não estava mais seguro se que eu queria entrar também.

Estáticos e com as caras lavadas de medo, ficamos do outro lado da rua, observando a fachada decadente do lugar e esperando que alguém entrasse ou saísse dali para, quem sabe, nos encorajar a entrar. Não aconteceu. Quando vi, Caldabranca já estava caminhando a passos grandes em direção ao “lado A”, rumo ao pub estiloso do néon roqueiro e das figuras conhecidas.

Havia deixado lá uns quadros meus e, pra minha surpresa, logo na entrada, um grupo veio me perguntar como eu fazia aquelas artes e me dar uns tapinhas nas costas; algo que pra minha estima rasgada fez bem e até me fez esquecer a frustração de não ter visto as canções gaúchas e paraguaias no bar clássico do outro lado da Nácar.  Isso num dia em que tinha ido pra feira e pela trigésima vez não tinha vendido nada, mas estava contente por ter saído de lá no meio da tempestade e com um exemplar de um pau-brasil sangrento que serviria perfeitamente de banquinho pra casa dos sonhos. Maldita prefeitura que mandou os caras tirarem as árvores centenárias e saudáveis da praça ucraniana, e espero que o vizinho consiga a TV ou sei lá quem para ir lá denunciar mais um crime ambiental, como ele saiu dizendo que iria fazer. Mas o tronco estava lá, todo melado e antes que ele tivesse um fim ainda mais triste, coloquei-o no carro a duras penas, sob rajadas de vento e água e o peso da natureza que, mais uma vez, não tinha nada a ver com o progresso do homem branco idiota. O tronco era pesado pra caralho, mas agora ele está num lugar seguro e receberá um fim minimamente digno, servindo de assento para artistas e outros loucos de plantão.

Ficamos semi-invisíveis na mesa de fora, ao lado de uma mesa gigante com umas vinte pessoas, rostos desconhecidos, mais jovens e aparentemente normais. Bebemos em copos especiais e partimos vomitando experiências em terras italianas para o dono do bar e futuro papai. E a noite de quarta ainda seguiu, agora com um terceiro elemento, a musa do poeta e “youtuber on the road”, a querida Simonetta.  Tentamos os bares da região, mas a música verdadeira e a alma desses becos já haviam se esvaído e restava o consolo dos banquinhos azuis e bem cuidados do SESC da esquina. Caldabranca e Simonetta compartilhavam um charuto cubano enquanto trocavam algumas farpas intercontinentais. “Você acha que o meu trabalho é só curtição?”, indagava Simonetta. “Trabalho pra satisfazer o narcisismo de uma pessoa e não ganho tão bem assim pra isso”. “Baby, trabalhe comigo, viajando on the road que será só curtição e você ainda ganhará os mesmos trocados”.

Viver o sonho do outro parece fácil. Difícil talvez seja ir atrás do seu e esperar que alguém te acompanhe na loucura. Caldabranca que o diga.

Simonetta saiu dizendo “na próxima vez, vamos para o lado B!”. Fim da história.

textos relacionados:
Série “Aventuras Com Caldabranca” – Episódio #1: Explosão Metafísica
Crônica de Um Amigo Louco

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Argentos, Chicos e Letícias

argentos

Encanamento quebrado e um frigobar transformado em objeto científico, sem gás e recoberto de potentes fungos, capazes de provocarem um dos piores odores de que se tem notícia.

É nesse antro explosivo, repleto de manchas nos azulejos, marcas estranhas nos espelhos e de pinturas bipolares nas paredes, que eu tomo meu primeiro banho de porta aberta e me dou conta de que estou sozinho. Sozinho no velho espaço do último ciclo vital, ou naquele ambiente insólito que já chamei de casa.

Nem sei o que sentir, tem o vazio deixado pelos chicos e pelas marias, tem aquela cara de chegada de alguma viagem longa, dessas que a gente inventa por aí, de sair pedalando como o xará e o maestro, de levantar o dedo sob algum vento novo, de escalar morros ou simplesmente permanecer na própria cidade, zanzando e colocando as pestanas para propósitos verdadeiros, projetos intracontinentais, novas funções, criações momentâneas envolvendo uma meia dúzia de argentos, alguns instrumentos, uma bocada de empreendedores duvidosos, eventos multiculturais, muita paciência e ainda uma exposição reciclada sem capitães e em pleno setembro-chove.

Falando assim fica mais fácil, atropelo sentimentos tolos e caretas e deixo a palavra saudade acaçapada naquele dicionário da família Buarque de Holanda, distante dos outros idiomas que a desconhecem. Aproveito para agafanhar palavras desse livrinho roxo, e engranzar nessa história, cada detalhe e cada partícula de emoção, as boas e as ruins, que vivi nesses cinco locos meses ao lado dela e desses vagabundos callejeros – um bando de aproveitadores e inconsequentes, desses que insistem na utopia da liberdade galeana e para isso contam com a ajuda de algum bom coração, alguém que como eles, também se sente vivo e maldito por tentar ser artista na pior hora possível.

Atravessamos esse duro inverno curitibano, absortos em cortinas de fumaças variadas, transmutando as malas ondas e remando contra as correntes, mas espere, antes que eu siga nessa conjugação maioral e pluralizada, parte de algum discurso motivacional para uma plateia de adolescentes famintos por direções, antes que eu siga adiante na caminhada citada pelos seletores de freqüência; preciso respirar, acrescentar vírgulas, e esquecer um pouco esse papo de coletivo, de união e de não sei mais o quê.

Palavras ruidosas ou poéticas não irão me salvar e o consolo é saber que talvez tudo isso seja parte de alguma história maior, que será arquitetada nas próximas décadas em passos curtos, por gente cansada das ladainhas do passado e das promessas generosas, e que sabe ou sente que a pontuação é relativa, e que para chegarmos próximos de qualquer grande sonho é necessário começarmos por algum beco.

Com ela comecei, repetindo padrões impulsivos e provocando infindáveis discussões entre espelhos distorcidos e manipulados por premieres e photoshops, maquinetas capazes de transformar roteiros novelescos e fotos repetidas em algo supostamente fresco e palatável para a rotina caótica em que eu havia me metido.

No apê circular convivi com Letícia, seu gato Rodrigo, seu amigo colorido, suas janelas sem cortinas e seu banheiro sintonizado na rádio em tempo quase integral. No quarto, imagens de divindades orientais e cobertores sedutores me lembravam das contradições ambulantes e agora, enquanto escrevo e redesenho essas imagens, percebo pelas rimas naturais dos dígitos que ainda levarei algum tempo para compreender aquela nossa relação, as reiteradas faíscas, os desejos conjugais partidos ou os defeitos gritantes de ambos os lados.

Enquanto isso, do outro lado do centro, na rua que homenageia solenemente o clássico “Besame Mucho”, os argentos mais piolas seguiam suas metas diárias, de conseguir moedas e notas pequenas para encherem suas panças no restaurante sem quilo, saciarem os tédios noturnos no bar dos facitos e manterem o quilombo no apê emprestado.

O bolo crescia ligeiramente e logo o local, que já fora palco de peças melancólicas estreladas por artistas quarentões, famílias em tratamento hospitalar e mochileiros estrangeiros, agora recebia membros de uma orquestra de músicos de rua, mesclados com uma trupe londrina e com o garoto de ouro da rádio clandestina.

Agora, definitivamente sozinho, sem Letícia, sem Caldabranca (este se foi para Roma, ser bonvivant) e sem os hermanos, tomo um banho de porta aberta, enquanto tento entender o que foram esses cinco loucos meses. Certamente aquele apê carregará histórias para as próximas décadas e como diria o velho Waits sobre despedidas: “Well today is grey skies/Tomorrow is tears/You’ll have to wait til yesterday is here”.

E se o ontem não está por aqui, resta a esperança no amanhã e a calma no hoje.

Primavera, seja bem vinda.

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Domingo de Chuva

chuvaDomingo de chuva, de uma chuva aclamada e pré-anunciada nos rodapés dos jornais, uma chuva esperada pelos fazendeiros e não desejada pelos feirantes e demais vendedores ambulantes, uma chuva típica da montanha e que não adianta ter medo dela, pois “a chuva voltando pra terra traz coisas do ar”. Ainda bem, pois era justamente disso que eu estava precisando.

Curitiba testemunhou o recorde histórico: mais de 90 dias de sol, céu azul e um clima árido típico da capital de um país em declínio e que o baterista argentino tem dificuldade de entender. “Vi domingo passado aquele protesto contra o governo, mas só vi gente de relógio caro, tênis de marca e camisa oficial da seleção brasileira… do que eles estão reclamando mesmo?”.  Meu amigo Mariano, dessa vez vou calar a boca e não serei aquele que te dirá que “a vida é séria e a guerra é dura”, pois quando penso assim, tudo fica tão chato e cinza como os papos dos granfinos ou os discursos pseudo politizados de gente que ainda não entende que as opiniões são como aqueles dados cheios de lados dos tabuleiros imaginários de RPG e que nunca fizeram minha cabeça chata de nordestino, assim como escutava na adolescência.

Na vitrola da sala, João canta sobre o nada e sobre Deus ser um “conceito pelo qual nós medimos nossa dor”, enquanto escuto aquele som neoclássico do aplicativo do momento, algo a ver com aquelas propagandas ridículas das operadoras de celular sobre mensagens ilimitadas, mensagens em que não consigo ver nenhuma vantagem, não nesse domingo de chuva, não nesse momento em que estou cansado, com dores nas costas e com um catarro verde escuro no pulmão e me sentindo grosseiro e estúpido com aqueles que ainda sentem alguma coisa boa por mim.

Será que um dia a gente vai entender que toda essa tecnologia é inútil na tarefa de suprir sentimentos básicos de solidão, carência e insegurança e que cabe a gente lidar com essas merdas sozinho, e não querer jogar isso pro outro ou, ainda pior, tentando se comunicar por um aparelho que foi feito com uma boa intenção, mas que como tudo que o homem ocidental tocou desde sempre, foi transformado em lixo, em guerra, em destruição e em uma má perdição. Sim, por que se perder é bom demais, mas só quando a gente tem essa consciência e sente que não está sendo guiado por um ego maior e ainda mais pervertido.

Estou blue como o disco da Joni Mitchell que agora toca na sala, blue como o piano natalino daquela canção sobre a possibilidade de existir um rio congelado em  que a gente pudesse patinar pra bem longe. E falando em pianos e em tristezas, lembro daquele que está bem atrás de mim, e que já foi responsável por momentos lindos, de alegria, com a minha mãe tocando Fascinação e fazendo a amiga vizinha e que agora corrige meus textos, sentir a felicidade no ar, e logo me lembro de também me sentir bem ao escutar seu filho Pedro ouvindo Ramones no talo quando eu ainda era um moleque mimado e confinado a um condomínio fechado, desses que meu pai tem medo de retornar a morar e, é claro que eu entendo suas razões. Só não entendo por que esse piano que está atrás de mim precisa custar tão caro para voltar a soar afinado,… Malditas cravelhas!

Também não entendo por que a gente segue se apaixonando e acreditando nas pessoas e até na gente mesmo, pra depois vir essa onda blue e eu precisar de um amigo advogado para me lembrar que as pessoas são, no fundo, totalmente egoístas e que essa história de corrente do bem ou das pessoas “do bem” não passa de um marketing pra vender suco natural; ou ainda algum discurso aliciano da classe média alta que nunca viajou tanto pro exterior, mas que agora precisa economizar para pagar direitos trabalhistas e impostos para um governo comunista que insiste em patrocinar a ditadura cubana e roubar os cofres públicos sem sobreavisos ou julgamentos posteriores.

Dr. Gonzo, meu amigo advogado que agora passou a me seguir por aí e me lembrar do lado demoníaco que existe em cada ser, Dr. Gonzo, você sim, será cada vez mais necessário. Já precisei de remédios controlados, de drogas ilegais, rituais orientais e até de iridologia para saber quem eu sou, mas agora, nesse domingo de chuva e nos outros tantos que estão por vir, nesse momento blue e down, sinto que precisarei sim de uma avalanche de papéis, assinaturas, cláusulas, processos, contratos e carimbos de todas as cores, frios ou preferivelmente quentes; ainda que eu continue anarquista ao ponto de odiar todas as formas de burocracia e legislação criadas por esses humanoides, que seguem existindo dentro de mim, para tentar organizar uma massa que não consegue usar o bom senso e o coração nem para sair de casa ou tomar um café, e que segue querendo cada vez mais, sem perceber que o barato da vida não está na “inútil luta contra os galhos”, mas sim no tronco, é lá e somente lá que “está o coringa do baralho”.

Dr. Gonzo, por favor, me ajude a cuidar desses galhos, e obrigado mais uma vez ao baiano que me ensinou a perder o medo da chuva e à outra baiana, a maior de todas, que me fez ter a cabeça chata, chata o suficiente para seguir sonhando e compreendendo que há muito mais para sentir e aprender, ainda que as decepções só cessem por completo quando eu, você e todas as pessoas desse planeta… Sumirem.

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Crônica de Um Amigo Louco

caldabrancaJorge Caldabranca é um daqueles caras que a gente só conhece uma vez na vida. Quando penso em sua história, as luzes se apagam e imensos e coloridos pontos de interrogação feitos de papel cartão preenchem minha mente, gerando lacunas indecifráveis, capazes de enlouquecer o mais competente psicanalista que há no mercado. Ainda sim, farei esse esforço.

Como o Dylan da canção, ele também saiu de casa com 12 anos de idade, e assim como o personagem de Long Time Gone, sua mente ficou confusa desde então. Seus pais búlgaros o deixaram em um pedaço de terra chamado Caldabranca nos confins de São Paulo. O objetivo era chegar a Buenos Aires, e talvez o bebê estivesse atrapalhando seus planos. Foram sem ele e nunca mais voltaram.

Jorge Caldabranca viveu na rua, como andarilho, por alguns anos. Não foi mendigo e para evitar tal condição encontrava trabalhos temporários em troca de alguns trocados. Sempre foi esperto e, na primeira oportunidade, matriculou-se num curso do SENAC para aprender a ser garçom. Assalariado, pôde sair das ruas e se dedicar aos estudos. Formou-se em Letras e, de quebra, fez mestrado em Literatura só para poder realizar o sonho de garoto: ser escritor.

Foi professor universitário, escreveu cinco livros depois de ler mais de 1000. Boa parte das histórias que contou veio justamente das experiências vividas como andarilho ou mesmo depois, em subempregos que além de ajudarem nas contas no fim do mês, foram verdadeiros laboratórios sociais, capazes de produzir contos, poemas e romances sinceros e originais; sem as apelações dos escritores de classe média, enfurnados em apartamentos centrais. Suas referências literárias o auxiliam nessa função e, para isso, ele conta com a ajuda de Bukowskis, Kerouacs, Calvinos e uma porção de poetas malditos.

Não poderia ser diferente, conheci-o na rua, por entre retratos de artistas famosos e senhoras com suas sacolas cheias de verduras orgânicas. No segundo encontro, Caldabranca já estava munido de sua câmera de bolso, pronto para me entrevistar. Passamos longas tardes juntos, por entre nuvens esverdeadas e charros, contando causos e em devaneios febris, distantes de qualquer contato com a realidade – que a cada novo ano, se enche de tédio e caretice por todo lado.

Normalmente eu, que sempre fui taxado de prolixo e que sempre insisti em histórias longas, cheias de detalhes aparentemente insignificantes, ficava na maior parte do tempo em silêncio, ouvindo o que o velho Caldabranca tinha pra contar. Nem citarei a idade real do meu novo amigo Jorge, pois prefiro ficar com os “45” que ele mesmo disse que estava fazendo em seu último aniversário. Engraçado, logo 45, prum cara que sempre odiou e vomitou em cima da direita desse país. Sim, Caldabranca é petista de carteirinha, daqueles fanáticos mesmo, que continuam achando que o José Dirceu é mais um herói-vítima-do-sistema-que-ele-não-criou.

Politicagens à parte, Caldabranca se transformou em um personagem de si mesmo, construído a duras penas por um mundo que o cuspiu, o jogou na sarjeta e depois recebeu de volta, na mesma moeda. Seu nome de batismo pouco importa, Jorge Caldabranca ganhou o título honorário de Marquês, concedido por ele mesmo. Quer maior reconhecimento que esse? O de si próprio?

Inimigos de plantão e demais seres pré-históricos que preferem julgar antes de aceitar dirão que Caldabranca não passa do cara mais egocêntrico do planeta. E olha que esse título ele também não dispensa. Em um mundo infestado por falsos modestos e pseudo humildes, como meu outro amigo apontou, Caldabranca é a carta coringa do baralho e ainda que ele possua inúmeros defeitos, para mim ele tem algo inexorável, carente a 99% dos artistas que vemos por aí: autenticidade.

Sim, Caldabranca é, além de escritor, um artista “on the road”, como ele mesmo costuma enfatizar. Já foi ator e recitou sua poesia intitulada “Junkie” mais de 100 vezes em diversos palcos, porém principalmente no Madame Satã em SP. Já pintou um quadro com bolas de sinuca e pretende leiloá-lo em Paris por um milhão de dólares. Caldabranca também é cantor de blues e pretende viajar pelo Brasil com sua Big Band. Como se não bastasse, como roteirista ele pretende trabalhar em São Paulo, diretamente de sua suíte cinco estrelas para uma grande produtora nacional. Quando envelhecer verdadeiramente, morará em Montevidéu, ao lado de sua assistente, sua secretária e sua enfermeira particular. Mas antes, Caldabranca ainda viajará pela América do Sul com a grana do carro vendido e de tantos outros negócios oriundos de uma treta chamada OLX. Antes, Caldabranca também realizará o seu próprio festival de cinema “on the road”, diretamente do campus da USP, na Pauliceia Desvairada. Segundo ele, meus filmes de viagem estarão lá também, e tudo, tudo, não passa de… Metafísica!

E é justamente essa explosão de ideias, projetos e sonhos que fazem desse ser, ímpar, só pra ficar no clichê das palavras redundantes. Muita gente o colocaria no primeiro hospício, mas não poderia deixar de frisar seu senso de responsabilidade e zelo pela própria saúde, algo que faz a distância entre ele e seus possíveis colegas de instituição crescer consideravelmente. Para o senso comum, Caldabranca pode ser inoportuno e irremediavelmente expansivo, pode possuir o ego maior que o do John Lennon. Porém, para mim, ele não passa de um cara alegre, sincero, singular e que consegue aquilo que eu mais invejo em sua pessoa – a capacidade de ignorar a opinião dos outros – seguindo em sua felicidade plena, transbordando otimismo por cada célula de seu corpo ainda jovem, no melhor estilo “dança da realidade” que um tal de Jodorowsky explicou lá atrás, e em um mundo cheio de fakes, como ele próprio insiste em esbravejar por aí.

Caldabranca pode ser avistado na Boca Maldita ou por outras esquinas de Curitiba – a cidade que ele escolheu viver ao lado de Simonetta, sua amante italiana. Cabeludo, óculos escuros e sempre escutando Creedance e outros roques manjados no alto-falante de seu celular, Jorge Caldabranca, um zen-dudeísta de carterinha, exclamará: “pra toda essa gente sou e sempre serei um ghost”.

E só poderia terminar essa “crônica de um amigo louco”, citando outro ídolo maluco conhecido pela alcunha mutante de Arnaldo Baptista… Te amo, podes crer!