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Crônicas de Nácar #04: Portais e Mais Histórias Rodadas

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7 do 7 de dois mil e 17. O primeiro portal fora aberto, a marretadas, do lado de fora na frente de casa. Perto da casa de mamãe, cheiro o incêndio presente no encontro dos parques. “Nêgo mata a mata”, né não Arnauld? “O que eu fiz pra merecer essa paz que o sexo traz”, canta caetano agora na cozinha uruguaia, o mesmo moderninho que tanta gente cisma em falar mal, ou não? Porquê tanta citação brow? Se já falaram antes e melhor e enquanto essa memória ainda acende lâmpadas empoeiradas em alguma galáxia fora da lógica, por que não? Pra quê ficar inventando novas frases e novos nomes pros velhos truques? Networking? Pro trampo vou preferir o amigo ou o conhecido, mas ficar amigo de alguém por interesses materiais é legal? João, me mostre o caminho do amor supremo. João, me conte a história da família Dom e do menino baterista em ascensão espiritual. Pai João, talvez essas linhas tortas o façam lembrar daquele maluco da época do banco que escrevia compulsivamente cartas sem sentido e as deixava todos os meses ali perto onde você costumava trabalhar. Continuo gostando de foto antiga e de gente velha, gente velha do tipo que “continua com 17 anos enquanto os outros ficam velhos e enrugados”. E antes que a polícia nacionalista me atire, também curto gente brasileira com versos do tipo “tô te confundindo pra te esclarecer”.

Cegueiras, iluminações e confusões à parte, quero falar sobre “a arte do escutar”, o filme do amigo argento Rodô. Que nada, quero mesmo ir pra lua no meu “foguete particular”, pra voltar sambando e falando da rua da frente de casa, dos ratos e baratas que coabitam todos os espaços de qualquer cidade grande. Dos ratos e baratas com coração. Daqueles sem papéis ou que perderam todos eles no espiral da vida, em alguma kombi hippie que insiste em existir na borda do campo minado de um sistema que caminha a passos largos, rumo ao colapso noticiado nos livros de economia do amigo Gordo, o montanhista tecnológico aposentado e colecionador de moedas brazukas.

“Hoje eu vou te matar, pois você é meu amor verdadeiro, e juntos, morreremos felizes”. Não se assuste, isso é só mais uma poesia. Outro poeminha bobo sobre as tolices e belezuras de mais um amor brega. Mas me diga Cibelle, qual era o assunto mesmo? As histórias repetidas e que às vezes são bem contadas nos fazem sorrir, refletir sobre algum passado que parece distante, mas que está logo ao lado. As ruas são apenas as veias de um imenso e poderoso Circulatory System, bombando decalitros de sangue e nesse sangue encontramos todas as emoções do universo: raiva, inveja, dor, tristeza, carência, abandono; e claro, as boas também: alegria, esperança, tesão e tudo aquilo que te faz sentir vivo novamente. O amor? Esse conceito abstrato que ninguém explica, mas que não existe ser vivo que nunca tenha sentido, segue coexistindo no canal invisível por onde esse sangue todo é jorrado. Quem controla tudo isso? Excelente pergunta, Joãozinho, vou pedir ajuda para os universalistas. “Uni o quê? Não sei o que você anda lendo por aí garoto, mas Jesus é o único caminho”, disse a esposa raivosa do pastor que também achava que arte abstrata era menor pelo simples motivo dela não entender patavinas daquilo.

“Você quer descobrir tanta coisa meu priminho lindo do sul”, disse certa vez a gêmea baiana do compositor falso. O mistério parece sem fim, mas como é que a gente fica tão feliz quando a primeira pontinha é revelada? Jarmusch e Tijuan, obrigado por me lembrarem que o barato está no caminho. “Every step of the way, I found grace”, Mavis, você também tem meu coração.

Quem sabe eu esteja tentando falar do “amor além do amor”, cantado pela quinquagésima vez por novos caras vanguardistas legais que depois de alguns anos, já ficaram velhos. Clodovil, um dos maiores mestres espirituais desse país, falava sobre essa moda sazonal inventada por gente malandra com sede de dinheiro. Hoje, anos após sua morte física, vivenciamos o apogeu do “recicle callejero“, dos brechós, freeganismos e dessa ideia anti-consumista de aproveitamentos e ressignificações, uma moda eterna de reinventar a roda, que sai do caminhão e vai parar na sala de estar, numa coffee table de causar inveja em qualquer adorador de lixo que se preze.

“Eu ouvi pelas videiras que você está apaixonado priminho”, estou amando o amor, estou apaixonado por cada grão de espaço dessa terra, a Terra de Caetano, porque “gente tem outra alegria”, e sim, também estou amando Letícia e cada curva dessa estrada de Santos, de todos os santos que o acompanharam e que continuam o acompanhando, Roberto. Roberto das 100 pétalas lembradas recentemente pelo tio Jordi em ocasião comercial. “Convoque o seu buda”, ainda que não seja você e ele esteja do outro lado da rua, com uma marmita quentinha para te oferecer por pensar que você “esteja no trecho” e que talvez a sua cara de tristeza não seja por outra “briga” de amor, e sim de fome. O trapo que você continua usando para seguir no personagem hipster curitibano, também ajuda nessa identificação e como é bom ser um dia um mendigo e no outro o dono do bar que você acabou de conhecer. Gente, gente, gente! Um dia todos seremos estrelas e nobres, mas por enquanto sigamos humildes nessa terra, para encontrarmos o néctar regalado desde o nosso nascimento, e assim possamos seguir curtindo o barato de viver, que sempre será mais bacana que o crer ou o ter.

Prefiro ser mais um errante navegante ou aquela contradição ambulante da banda verde da era adolescente, que esquece da história que iria contar, sobre portais interdimensionais com números repetidos e velhos ottos e tantos “e´s” e etês, e sobre gente maluca que se encontra por aí, em encontros agendados por grupos de zap zap, eventos fakes ou convites de papel entregues por estranhos na última vernissage das belas cópias. Jorge Caldabranca, suas profecias nunca fizeram tanto sentido! Você que ainda tem medo do escuro e dos cabelos e das substâncias brancas, meu mentor literário junkie que continua me ensinando a ser invisível como naquele filme oitentista sobre o garotinho que usa óculos escuros pra se proteger das maldades e safadezas de um mundo em contração, onde a esperança esperneia e nos acalma como “os iniciais espirituais sinais” de Gil 70 ou os acordes finais de qualquer canção do Sr. Baker.  

Gil 70? 75? Prefiro ficar com o 71 da bruxa das chaves, o 17 invertido, os mesmos 17:17 do fim dessa crônica ou conto ou como se chama mesmo tio Jordi? Uruguajo, você tem alguma pizza? Faltam 6 minutos!! O que são 6 minutos na vida de louco? Otto! Você de novo não! Já são cinco minutos de Ben, e o sim prevalece, o 13 do bem que agora me alegra de novo também, como os mingus e mindinhos minutos iniciais do começo dessa escrita que agora é invadida por gente que berra lá fora. Gente, Gente, quantas vezes precisarei escrever sobre essa gente, essa gente que agora enche o balde para lavar o chão e preparar o terreno fértil das ideias zen sem nexo. Faltam dois minutos Cash, e agora 1 minuto, alguém me tire daqui antes que eles me enforquem. 17 do 7 do ano 17 às 17:17… Futuro, aí vou eu!

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Onde Você Nasceu Passava Um Trem

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O pote de açúcar ao lado do café me lembrou mais uma vez de você. Você que gostava de tomar água com açúcar e que fazia aquela lasanha maravilhosa de frango caipira. Receita sua, da vó que tive o imenso prazer de conhecer mais que as outras. Receita que foi modificada criativamente para um bacalhau, naquela fase de negações que seu neto insiste em repetir de tempos em tempos. Você, a vó mais linda que vi, magrinha como a marreca que seus filhos adoravam lhe chamar. De olhos claros como os meus, tão azuis e claros como a luz de suas longas histórias, contadas por telefone para meu pai, ou ao redor da mesa do almoço e que eu criança, não queria esperar todos chegarem com medo do prato esfriar. Roubei isso de você vó, esse pequeno dom de contar histórias, do microfone invisível e que às vezes irrita os mais impacientes, afinal todas as histórias já foram contadas, mas nem sempre as pessoas se lembram de todas elas.

Lembrei de ti ontem, antes da notícia oficial e antes do abraço consolador de Letícia, quando ainda estavámos em uma estrada nebulosa e fria subindo a serra de um mar sulista cheio de boas almas como a sua, vó. Senti uma coisa boa, como se você, depois de 95 anos de batalhas e sucessos, depois de ter criado seus filhos de uma maneira mágica e seguir ativando corações com seu jeito inconfundível e suas características que sempre gostei de repetir: a espiritualidade, o gostar de acordar tarde e o banho quente para refrescar as ideias malucas. Tive a alegria de te visitar há poucos anos atrás, te filmei e jamais esquecerei esses últimos momentos também. Você passou de fase dormindo, serena e tranquila, e agora se juntará com o vô, em Piraúba, no vilarejo mineiro onde a sua história recomeçou. Era pra lá que você queria voltar, e só posso lhe desculpar por não poder estar presente nesse evento formal e inevitável. Mas tenho certeza que você e todos estarão acompanhados por um exército branco de anjos, que lhe ajudaram nessa caminhada profunda por uma terra contaminada e aparentemente sem rumo. Você foi e continuará sendo esse rumo necessário, essa viagem de volta ao centro da terra ou de nós mesmos, esse trem doido carregando toneladas de bondade, ou apenas um trilho simples e infinito chamado Amor.

E por hora, é preciso descansar um pouquinho, afinal de contas, 95 anos de círculos e sentimentos merecem um longo e sonoro suspiro.

Obrigado por tudo vó, você viverá para sempre.

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Crônicas de Nácar #01: A Mordida de Janis

pace_dogJanis é uma cachorra que vive com a gente há mais ou menos um ano e meio. Janis foi abandonada pelos seus pais, após ter sido encontrada na rua e adotada por esses mesmos pais. E ontem ela estava passeando com Tijuan, um dos quase dez moradores desta casa. Tijuan é argentino, músico, cozinheiro, quase pai e adorador de cachorros. Na esquina de casa havia dois caras trabalhando na parte elétrica de um poste. Tijuan estava distraído não sei exatamente porquê, só sei que nesse exato momento, dois corpos se colidiram: Janis morde ou pelo menos tenta morder a perna de um desses caras que estava trabalhando provavelmente para a prefeitura. Esse cara também tinha um sotaque diferenciado, especificamente do Haiti, porém sua reação naquele instante não era nem desse ou daquele país, apenas de um ser humano revoltado por ter sido supostamente mordido por Janis, uma cachorra sem raça definida, mas com um faro invejável e uma inteligência fora de série.

Preocupado, Tijuan chama Jordi, outro morador dessa casa maluca, baixista coringa e mangueador nato. Jordi, que ainda não havia tomado seu café, se mostrou levemente indignado pela reação desproporcional do rapaz em questão, que logo pediu documentos comprovando que Janis havia sido vacinada. Jordi lhe disse que Janis era apenas um cachorrinho e não uma criança com documentos oficiais, e no máximo o que ele conseguiria descolar era uma nota fiscal da referente vacina, porém se ele estivesse mesmo preocupado, poderia ir no posto de saúde mais próximo para tomar o antídoto e sanar suas neuras. O haitiano ainda pediu para tirar uma foto da identidade de Tijuan e atual padrasto de Janis, uma solicitação prontamente aceita, mas que também foi rebatida por Jordi, que disse “Se você está pedindo isso, também queremos uma foto do seu documento”. O rapaz não entendeu muito bem, alegando que aquilo parecia ser algum ato de xenofobia, ou quem sabe, ele apenas precisasse de algum papel para mostrar no trabalho, podendo descansar em casa, após uma manhã estressante em um país estrangeiro.

Moral da história: a importância de papéis e cafés na vida das pessoas.

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Arte de Rua Não é Crime

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Sábado de sol, mas dessa vez não aluguei um caminhão e muito menos comprei feijão. E se tinha maconha, quase não vi. Vi outras coisas bem legais e essas palavras tentarão explicar um pouco o que foi o dia de anteontem. Pela segunda vez, vi diversos artistas de rua unidos para uma causa nem nobre, nem pobre, apenas necessária em tempos estranhos. Tempos em que o ódio e a ganância são exalados por todos os poros, tempos de guerra como sempre e tempos em que a polícia militar precisa de nove carros e trinta homens fortemente armados preparados para prender o pior bandido da história dessa cidade cada vez mais cinza. No caso esse bandido se chama Música de Rua, e quem sabe mais uma meia dúzia de inofensivos maconheiros.

Sim, os músicos de rua tem sofrido uma repressão desmedida apenas por estarem tocando na rua, como sempre fizeram. E não estou falando de mega shows pirotécnicos e clandestinos, em algum bairro residencial e em plena madrugada. Esses músicos têm sido abordados somente por estarem tocando um jazz-fusion-groove, ou seja lá como queira chamar, em pleno centro de Curitiba, às oito horas da noite de uma sexta-feira. Uma pequena multidão parou para vê-los e também contribuir para que continuem fazendo isso, colaborando com algum trocado.

E sábado foi novamente um dia de protesto, um protesto artístico sem cartazes de ódio, sem a presença de maçons engravatados pedindo impeachment, nem panelas, nem camisas de futebol, nem megafones ou carros de som insuportavelmente chatos. Apenas música! Bem, talvez o principal fosse a música devido às últimas histórias bizarras envolvendo esses caras, mas também teve outras formas de arte, teve um palhaço de rua venezuelano andando em um monociclo de proporções girafais, teve dança de carimbó,  teve poesia e teatro misturada com música, e teve uma porção de fotógrafos e videomakers registrando tudin.

Pararam famílias, trabalhadores em dia de descanso, desempregados, lojistas, estudantes, turistas, outros artistas e mais um ou dois bêbados típicos de qualquer rua de cidade grande. Houveram outros transeuntes que não chegaram a parar, mas mexeram seus corpinhos em sinal de aprovação, ou como se estivessem alimentando brevemente suas almas carentes. Afinal, as ondas sonoras também cumprem esse papel.  

No fim do dia a sensação era de paz e de dever cumprido, ao menos pelos organizadores. E que venham novos atos de conscientização como esses últimos, cheios de amor e arte: dois lances que costumam andar lado a lado, se fundindo na maior parte do tempo e fazendo a gente perceber que a verdadeira transformação será sempre de dentro pra fora, ou seja, discursos inflamados e piquetes jamais serão suficientes, especialmente quando o espírito está fraco ou contaminado pelo ego que obstrui, aleija e faz a gente esquecer que o verdadeiro irmão não está no sangue ou na amizade, mas na sua frente.

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O Sonho Mais Impressionante de Toda a Minha Vida

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Caí da cama cedo, como raramente faço, após sonhar o sonho mais impressionante de toda a minha vida. Quando abri os olhos pela primeira vez senti vontade de dormir mais, sentia que era demasiado cedo para despertar, mas o sonho tinha sido louco demais para eu esquecê-lo assim, numa provável substituição por algum novo sonho fabricado por esse laboratório infinito e amoral chamado inconsciente.

É claro que não vou lembrar exatamente como esse sonho começou. Me recordo que nos primeiros instantes minha primeira namorada havia reaparecido e esboçava um evidente interesse em mim, após divorciar-se de seu marido, com quem tivera dois filhos. E foi essa imagem simbólica daquele primeiro amor inocente e completo que fez eu ter esperanças naquele universo onde as memórias se misturam e seguem criando novas histórias, muito mais interessantes do que essas que costumamos viver no dia-a-dia.  

O cenário assustava. Por algum motivo que eu também não vou conseguir lembrar agora, fui obrigado a participar de uma bizarra seita, onde eu parecia ser o único ser consciente do tamanho do absurdo que aquilo representava. Vivíamos em um templo majestoso, um palácio de dimensões medievais e com centenas de quartos. Suspeitei que além dos comprimidos oferecidos diariamente como se fossem alguma benção milagrosa, eles também estavam botando algum tipo de droga na nossa comida, manipulando nossas mentes para acreditar que tudo aquilo era pro bem ou qualquer outra merda do gênero.

Lembro de dois momentos em que tentei alertar pessoas de fora da seita, amigos que não vejo faz tempo, mas que em meus sonhos costumam ser personagens recorrentes. Havia um trem e um dos comissários era um dos cabeças desse clã do djanho, avisei Joana e tentei fugir, mas o cara foi mais rápido e em segundos eu estava novamente lá, naquele maldito palácio de ilusões. Nas reuniões matinais, para a introdução de novos membros e outras baboseiras típicas dessa gente, eu olhava para todos os cantos daquele imenso salão à procura da minha primeira namoradinha, sempre achando que quando a encontrasse todo aquele pesadelo acabaria em final feliz.

O engraçado foi encontrar não ela, mas uma outra menina de uma época ainda mais antiga, dos tempos de colégio e de quando eu pirava numa garotinha loira e cheia de malandragem pra idade em que eu ainda era bem tímido e não passava de um completo nerd mimado cheio de espinhas. Reencontrei essa pessoa algumas vezes, sempre pela noite, em alguma festa ou bar da cidade. No sonho ela pegou na minha mão, me levou para um quarto, tiramos a roupa e ela me disse no pé do ouvido: “Pode gozar, mas apenas uma vez.“

E assim o sonho seguiu seu rumo obscuro pelos caminhos da memória afetiva ou qualquer outro nome que os psicólogos querem dar. Em outro lapso de tempo, eu estava na frente da primeira casa que morei, local onde nasci e cresci até os 21 anos, quando finalmente eu decidi começar outra história, sem meus pais por perto. Reparei que havia colchões com texturas estranhas colocados na garagem e num sinal de que alguém estivesse se mudando para lá. Não entendia o que estava acontecendo, mas a curiosidade somada com um sentimento de alegria plena apenas por estar ali novamente, na casa onde eu cresci, e ainda com uma ínfima possibilidade de rever meus pais juntos, todo aquele retrato de uma infância feliz e que ficou pra trás, tudo aquilo me fez chorar de emoção! Adentrei o saudoso lar e ao invés de encontrar meus pais como gostaria, vi primeiro o marido da minha prima da Bahia, ajeitando a mesa e em seguida essa mesma prima vem e me abraça. Senti uma tristeza enorme no peito, como se aquilo fosse alguma representação da morte dos meus pais. De fato eu estava mesmo navegando em mares escuros de algum pesadelo da mente, mas o bacana era que em muitos momentos eu sabia que aquilo não era realidade, no máximo algum episódio estilo Black Mirror no qual a minha vida teria inspirado roteiristas endiabrados, capazes de provocar um tremendo mindfuck para o único espectador presente na plateia, euzinho, ou como descrito por famosos psicanalistas, o sonho foi lúcido.

Logo retornei para aquele cenário pseudo religioso e agora meus amigos atuais, Henrique e Anderson eram os novos membros da seita. Ao contrário de mim, eles pareciam contentes em fazer parte daquela palhaçada, me diziam que haviam encontrado um sentido pra vida e que estavam adorando a rotina e as brincadeiras perpetuadas ali.

No final, quando pensei que tinha conseguido me livrar daqueles malucos, caminhei pela rua XV e vi pelo menos outros quarenta grupos coloridos e que repetiam frases clássicas “Deus é Amor“ ou “Venha com a gente e garanta seu lugar no paraíso“. Cada seita tinha uma cor predominante em seu figurino e sorrisos emoldurados em todos seus fiéis, num lance meio hare krishna que já vemos por aí. Fiquei apavorado com aquela percepção de que o mundo havia sido tomado por gananciosos líderes religiosos e que as pessoas estavam mesmo comprando aquelas ideias estúpidas.

Minha última recordação foi um breve diálogo com algum outro amigo. Falávamos sobre Deus e de como cada ser possui um Deus dentro de si, mas que era justamente ali que morava o perigo. Afinal, se podemos criar o que quisermos, também podemos criar seitas com o intuito de provarmos nosso poder, apenas como forma de divertimento pessoal.

E como leremos no início da nossa série favorita, qualquer relação com personagens da vida real será sempre mais uma coincidência.  

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Nos Meus Sonhos Eu Choro

pace_sonhoNos meus sonhos eu choro baldes de lágrimas. Misturo os fatos recentes, acrescento doses de melancolia e pitadas de lembranças tristes do passado remoto. Bato tudo no liquidificador da mente hiperativa e o resultado é um sabor amargo que tento digerir junto com o café da manhã, igualmente amargo, pois o açúcar acabou.  

Fico tentando lembrar dos ingredientes da receita da noite anterior, e tentando entender o porquê de acordar com os olhos cheios d’água. Sem Jung ou Freud para ajudar, sinto que serei o único capaz de decifrar os segredos dessa cozinha maluca, construída aos trancos e com centenas de armários e gavetas, onde são estocados os símbolos e todos os sentimentos que costumo esconder por aí.

A morte do pai do amigo, os porres inconsequentes dos amigos alcoólatras, os recentes “foras”, a mãe em silêncio, o irmão distante, o filme da semana, o ménage a trois, o vício no tabaco, a família americana de outrora, o chefe da época do emprego estável, o pai psicólogo, John Lennon, Chico Buarque e Tom Waits, está tudo lá – sem catalogações ou qualquer tipo de organização mínima que facilite a compreensão e diminua a dor provocada por tantas experiências intensas, ainda que aparentemente sem nexo.

Se meus sonhos fossem algum bicho, ele teria dezenas de cabeças, uma cauda cheia de espinhos e uma pele enrugada cheia de manchas. E se eu acreditasse em demônios, certamente eles fariam parte desses sonhos. Obstinados em confundir e chacoalhar esse baú de emoções fechado a sete chaves em estado de vigília, talvez esses diabinhos sejam mesmo anjos com a missão de higienizar meu cerebelo, provocando sensações incômodas e necessárias para o bom funcionamento desse organismo em constante transformação, ainda que eu esqueça disso em boa parte do tempo.

Espero nunca ter a pretensão de entendê-los integralmente, afinal, os nuances e reflexões múltiplas serão sempre o maior desafio no sofá do psicanalista, capaz apenas de sugerir hipóteses tão reais quanto essa realidade que acreditamos viver.

Nesse universo onírico, infestado por infinitas possibilidades, só posso almejar a compreensão parcial de certos personagens recorrentes, baseado em seus comportamentos que depois de tantos sonhos, se tornaram previsíveis. E se a felicidade parece ausente em boa parte dessas histórias bizarras, talvez seja pelo simples fato de eu não me sentir tão triste assim. Razões e motivos não faltariam, mas decidi em determinado momento que focar nesses aspectos sombrios não seria assim, muito saudável. Prefiro seguir nessa caminhada capenga, tirando lições de cada pedra cruzada e tentando seguir o conselho do velho Dylan, de não olhar pra trás, jamais. Dúvidas não faltarão e talvez a única certeza seja aquela que me faz acreditar e perceber a vida como um emaranhado de símbolos e sensações. O desafio é como a gente se relaciona com eles, seja na rua ou na cama.

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Empanadas Salteñas

saltenasMeia- noite e meia e chego ao prédio escuro de nome inglês que costumava chamar de casa. A fechadura da porta de vidro está fechada com o costumeiro cadeado da madrugada. Sebastião, o simpático e jovial porteiro me recebe, pela primeira vez, sem um sorriso e sem as piadas de sempre. Pergunto automaticamente se está tudo bem e ele me diz que não, que ontem havia passado o dia no posto 24h com dores no peito e com a cabeça estourando. Agora ele está com os mesmos sintomas, além de calafrios que o fizeram ligar o aquecedor ao lado de suas pernas, cobertas por uma manta.

– Bem, acho melhor você desligar esse negócio, respire fundo e relaxe… Se achar que não está bem, bata lá em cima que te levo pro hospital.

No calçadão da rua XV, caminho em passo acelerado e vejo pouca vida por lá. As centenas de lojas estão fechadas após mais uma exausta e tumultuada sexta pré-natalina, e o pomposo show no capitalizado Palácio Avenida segue com suas luzes programadas, agora para uma plateia de fantasmas.

E o que resta por ali, além, é claro, dos solitários mendigos dormindo embaixo das marquises e das barraquinhas de cachorro quente esperando a larica dos baladeiros, é um grupo alegrinho de garotos e garotas ao redor do chafariz da C&A, tocando e cantando em coro semialcoolizado, o que parecia ser um maracatu ainda em fase de aquecimento.

Sou abordado brevemente numa esquina torta e ao lado de uma cafeteria envidraçada e completamente deserta. Sem surpresas, pois o moleque só queria o objeto mais cobiçado da madrugada – cigarros.

Não há táxis na cidade ou, pelo menos, nenhum deles parece receber as chamadas que faço do telefone sem fio do apartamento de meu pai. É sexta, é quase natal, é festa e há baladas pra todo lado e Curitiba já até aprovou a liberação de não sei mais quantas placas desses alaranjados – fato que não ocorria desde 1970. Porém, a realidade é que nesse momento, eles continuam diminutos, tão raros quanto os novos posts ou leitores desse blog.

No boteco central, velhos enfurecidos discutem futebol. Achei que esse assunto ou, ao menos o teor aplicado alteraria com a idade, mas meu pai diz que nestes anos “esses velhos costumam regredir à adolescência”.

Na telona, o clássico diretor de quatro olhos continua entretendo à moda antiga, com personagens engraçados e reais na decadência de suas futilidades e no vazio de seus sonhos, aparentemente grandiosos. Dessa vez, o velho alien ainda adiciona um tempero extra no roteiro, indo e vindo no tempo, seguindo o psicológico desvairado da personagem principal.

E lá estamos, no escuro do cinema, eu e meu pai, em agigantadas poltronas de casal, estofadas em couro ecológico, com mesas de madeira que giram em L. Ao redor, vejo poucos casais e minha parte neurótica do cérebro pensa na esquisitice de estar ali, justamente numa sexta à noite, ao lado não de uma amiga abandonada pelo namorado, ou de alguma nova paixão de verão, mas de um peculiar senhor sexagenário que também atende pela alcunha de pai. Afortunadamente esses pensamentos tolos são transitórios e só posso me sentir grato de estar ali com ele, prestes a assistir ao novo filme azul do Woody Allen, nas cadeiras mais confortáveis que o dinheiro bancário pode proporcionar.

A fachada do shopping havia sido restaurada, fato que não saberia datar, pois há anos não frequentava aquele local. Ainda do lado de fora, ao lado de funcionários fumantes, eu e meu pai tomávamos cervejas verdes de pescoços compridos, enquanto intercalávamos assuntos sérios com banalidades do cotidiano e assim, matávamos o tempo antes de o filme começar.

Na bilheteria do cinema do shopping cristalizado, o assalto: quarenta e quatro reais por um ingresso. A exibição do filme escolhido será numa tela padrão, sem imax, 3D ou qualquer idiotice dessas, mas a sala é “vip” e não há outra opção. “Isso é preço de teatro”, diz meu pai.

Zumbis invadiram Curitiba e não falo daqueles já presentes em qualquer cidade digna do suposto progresso: gente que acorda, come, trabalha e depois volta pra casa, em piloto automático, sem espaço para reflexões ou quebras de rotina. Esses zumbis em questão são zumbis clássicos no sentido do termo, sedentos por cérebros e que fazem parte de um livro ilustrado com (re) lançamento na data mais oportunista do ano, hoje, sexta-feira 13.

Sob os holofotes e de microfone na mão, meu amigo zumbi e seu colega gibiteco encerram as explanações sobre o projeto, abrindo espaço para perguntas de uma plateia antenada nesses assuntos, de zumbis e quadrinhos – coisas distantes da minha pessoa, mas que, talvez por algum vínculo afetivo, acabaram fazendo com que eu participasse dessa história, macabra por natureza.

Na feirinha da praça das feiras das estações, estacionamos nossos corpos, o meu e de meu pai, na frente da barraca da Bolívia, após circularmos pelo Chile e pela Índia, atrás de pastéis estrangeiros, com recheio de algo com espinhos. E parece que Portugal chegou à terra de Evo, pois as tais empanadas salteñas estavam mesmo deliciosas.